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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Uma interpretação dos "coletes amarelos"


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Durante vários anos, esperou-se que a crise que entre 2010 e 2015 assolou Portugal, Espanha e sobretudo a Grécia ficasse acantonada ao Sul da Europa. Esta esperança desvaneceu-se agora - e por completo. As revoltas dos "coletes amarelos" provam-no. Trata-se de uma mescla de homens e mulheres empregados do sector privado, desempregados, funcionários públicos, agricultores, reformados. Todos indicam que a classe média em França, até há poucos anos usufruindo de uma situação económica privilegiada quando comparada com a sua congénere da Europa do Sul subiu para latitudes antes inesperadas. Com desfasamento temporal, ela atinge agora em cheio a sociedade francesa.
Na última década, a globalização levou à deslocalização massiva de milhares de empregos fabris para outros países - o Norte de França é disto o melhor exemplo. O filme-documentário Merci Patron! (2016) do jovem jornalista e hoje deputado François Ruffin, retrata com ironia esta desventura. (...) Os impostos tornaram-se progressivamente mais favoráveis ao capital e desfavoráveis ao trabalho. As rendas de casa volveram-se proibitivas para muitos, expulsos para subúrbios mal equipados em infra-estruturas. A vida nas regiões rurais é difícil: com a falta de transportes colectivos, o carro é imprescindível, fazendo do preço dos combustíveis um assunto melindroso.
Mas não foi só a crise que se estendeu para Norte. As manifestações de descontentamento acompanharam-na. Desde Novembro, grupos mais ou menos espontâneos ocuparam primeiro rotundas, portagens e estradas, depois centros de cidades importantes, enfim Paris e dois lugares simbólicos, rigorosamente interditos, enfim Paris e dois lugares simbólicos, rigorosamente interditos a toda a manifestação social - o Arco do Triunfo e os Campos Elísios (...) Um novo cabo foi dobrado quinta-feira, 6 de Dezembro, quando a polícia transformou a impotência sentida face aos "coletes amarelos" em raiva transbordante contra os alunos do Ensino Secundário que se manifestavam nesse dia. Mais de 130 antigos estudantes envolvidos em contestações de 1968 para cá, em anos de fortes mobilizações de rua, assinaram uma declaração dizerem nunca terem visto tal furor. (...) Desta feita, não foram os arrabaldes que se sublevaram. Pelo contrário, ficaram silenciosos como se não fosse nada com eles. Ou como se se tivessem acostumado a suportar uma tal vida penosa. Associações de bairro explicam este distanciamento contido: as periferias suscitam tanta desconfiança que, se se tivessem juntado aos "coletes amarelos", todos os distúrbios e delitos lhe teriam sido imputados, a elas e aos seus jovens, outrora estigmatizados por Nicolas Sarkozy como "a escumalha". (...)
Impossível dizer, por ora, aonde isto levará. A palavra de ordem dos "coletes amarelos", à qual adere uma parte significativa da população, é sem ambiguidade: "Macron démission!". Aquele em quem muitos franceses depositaram esperança há apenas um ano e meio é hoje olhado, no mínimo, com desconfiança e, cada vez mais, com repulsa. Ele, que se apresentou como a solução para os problemas franceses e inclusive europeus (a caminhada ao som do Hino da Alegria, de Beethoven, antes do discurso de vitória fica na lembrança), conseguiu atear a mecha social que estava extinta. Como pôde uma mudança tão radical ocorrer num lapso tão breve?
Emmanuel Macron tem traído, sem cessar, valores do quotidiano francês. Um exemplo recente foi o aumento das propinas pagas pelos estudantes exteriores à União Europeia. De 170 euros por ano, uma inscrição na licenciatura passa a custar, no caso deles, 2770 euros, 16 vezes mais. Em mestrado e doutoramento, 3770 euros contra os actuais 243 e 380 euros, respectivamente. (...) Atacando aqueles que menos podem defender-se, o Governo esperava fazer passar a medida sem contestação, aguardando depois o momento de aplicar o aumento das propinas aos alunos da UE e aos franceses, sob o pretexto de restabelecer a equidade. (...) Mas, inesperadamente talvez, os estudantes franceses mobilizam-se doravante por eles e entoam, sem ilusões, "Pas de tunes, pas d'etudes", ou seja, "sem graveto, não se estuda".  (...)
Massa pouco organizada [os 'Coletes Amarelos'], ela exprime uma mal-estar difuso que não se condensa em reivindicações precisas nem restritas. (...) Porém, a "luta pelo poder de compra" implica todo um programa governamental (...) O movimento não tem propriamente cabeças nem sequer porta-vozes. A ausência de estrutura convencional torna-o difícil de captar (...) Tão-pouco existe aqui uma direcção. (...)
Desde que ascendeu ao poder, [Macron] cercou-se de homens de mão vindos da direita economicamente mais liberal. Assim, o primeiro-ministro, Édouard Phillipe, é um afilhado político de Alain Juppé, presidente da Câmara de Bordéus, que se pensou que representaria a direita clássica nas presidenciais de 2017, até que o seu concorrente François Fillion o bateu nas primárias.
Personalidades independentes e de esquerda que seguiram Macron reconheceram ao cabo de algum tempo a impotência para aplicar medidas de impacto nas suas áreas. Foi o caso do ecologista Nicolas Hulot, que se demitiu em Setembro de ministro da Transição Ecológica e Solidária. Além disso, Macron entrou no conflito social desdenhando os sindicatos, como se viu este ano no sector do transporte ferroviário. (...)
Para onde irão, no futuro, os indivíduos que formam hoje os "coletes amarelos" e todos aqueles que, sem sair de casa, simpatizam com eles? Dois cenários principais são reconhecíveis. Primeiro, em situações de turbulência associadas a crises económicas, acontece por vezes que uma maioria de pessoas se volte para figuras autoritárias, crendo serem estas as únicas que resolverão os problemas de fundo. É um erro com consequências históricas conhecidas, mas que se repete regularmente. Ademais, os tempos são propícios a esta saída: Trump, Órban, Bolsonaro testemunham disso. (...) Retrospectivamente, compreender-se-ia então o efeito da política devastadora de Macron - atirar os eleitores para os braços de Marine Le Pen. (...)
Resta o segundo cenário. Uma parte importante dos insatisfeitos dispersar-se-ia pelas esquerdas, umas mais moderadas, outras menos, que promoveriam uma aliança precária e flexível. (...) Cada um faria concessões com vista a um governo de não austeridade, que favorecesse o aumento do poder de compra e reforçasse os mecanismos de segurança social. Não estando excluída, esta solução seria a mais inesperada, vistas as tendências mundiais presentes. (...)
As escolhas económicas de Macron são evidentes. Concorrência acrescida entre todos e cada um, emagrecimento da Segurança Social, transformação dos beneficiários de serviços públicos em clientes de entidades funcionando em competição. (...) Uma etapa próxima será o desmantelamento dos "intermitentes do espectáculo". Trata-se de um regime da providência específico para artistas e técnicos do universo cultural. Como a maioria destes não tem emprego de acordo com as necessidades das empresas e companhias, a Segurança Social indemniza-os sob certas condições durante as fases de inactividade. É um sistema que beneficia o cinema, o teatro, a rádio, o circo, a ópera...Em vez de o considerar a base duma vida cultural intensa, o Governo apresenta-o como um privilégio injustificado. (...)
Em suma, a lógica é a mesma em toda a parte: precarizar, entregar à sorte, proteger quem já tem. Macron, que se pôs em cena como a encarnação de uma geração filha da Europa, quer prosseguir com o que a UE tem de pior: compressão dos mais pobres pelos mais ricos, a austeridade imposta, a transformação de uns em serventes de outros. É também isto que indigna os "coletes amarelos", a postura daquele que ordena aos súbditos em lugar de respeitar cidadãos.

Diogo Sardinha, estudou Filosofia nas universidades de Lisboa e Nanterre. Foi Presidente do Colégio Internacional de Filosofia, em Paris, e o único estrangeiro a ocupar o cargo nos 35 anos de existência desta instituição. Aí dirigiu o programa de investigação "Violência e política: o motim como forma de movimento selvagem", Os coletes da ira, Visão nº1345, de 13-12 a 19-12 de 2018, pp.50-56.