Nem de propósito, saiu hoje uma entrevista com o Pontifício Conselho da Cultura sobre o actual momento pelo qual passa a Igreja Católica. Para os que são menos conhecedores, nestes âmbitos, Gianfranco Ravasi é aquilo a que se poderia chamar, por analogia com estruturas temporais, o Ministro da Cultura do Vaticano. Considerado um dos maiores biblistas da Igreja - bastante citado, por exemplo, na tese de Doutoramento de José Tolentino de Mendonça -, um intelectual de primeira linha, de uma erudição invulgar, tem vasta obra publicada (incluindo diversos livros traduzidos para português). Foi nomeado por Bento XVI para o cargo que ainda continua a exercer. Veio a Portugal, em Novembro de 2012, no âmbito do "Átrio dos Gentios", uma iniciativa do pontificado anterior que prossegue neste momento, com vista ao diálogo com não-crentes. Falou em Guimarães, numa sessão que contou com Marcelo Rebelo de Sousa, João Lobo Antunes e moderação de Maria João Avillez.
E o que diz ele, na entrevista dada hoje? Que as críticas ao Papa Francisco não têm "fundamento teológico nenhum" (e são próprias de quem defende uma Igreja "esclerótica e rígida"). E que, consoante o tipo de personalidade de quem se encontra em posição de decisão em âmbito da Igreja, tem acentuações (eclesiais) diferentes.
Onde o actual Pontificado é mais "pastoral" (porque "a doutrina está muito consolidada"), o anterior colocava a tónica nesta mesma dimensão (doutrinal).
Por acaso, há exactamente 8 dias, tinha, neste blog, escrito este post (procurando explicitar estes, a minha perspectiva/interpretação destes "doutrinal" e "pastoral"):
A entrevista com Gianfranco Ravasi:
P.S.: é curiosa, para não dizer insólita, vinda de católicos, a forma como se utiliza a figura de um Papa para desmerecer outro (sendo que a figura evocada, depende, quando se procede desta maneira, é sempre diversa, consoante o particularismo/o movimento/a tendência de onde se vem). A dicotomia entre Papas, uma vez mais ressalta, mesmo na entrevista. E no caso de muitos que agora vêem tantas virtudes em Bento XVI, é pena que quando era necessária a sua defesa pública, face a tão má imprensa e tão pouco qualificada durante anos (uma série de preconceitos e ideias feitas, incapazes de acompanhar o que estava a ser a realidade desse mesmo Pontificado; e deixei aqui expressa a minha admiração pelo Pontificado de Bento XVI.) tenham estado tão silenciosos.


