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domingo, 23 de junho de 2019

Compromisso


Quando Jesus diz Isto é o meu corpo, evoca o sentido que deu a toda a sua vida e que deve ser o sentido da vida dos discípulos, de cada cristão: gastar suas energias para que todos tenham vida e vida em abundância. Nós, ao comungarmos, recebemos essa missão. Cada um tem de se examinar sobre o que pode fazer pelo bem dos mais marginalizados e marginalizadas.
Quando acrescenta: este cálice é a nova aliança no meu sangue, todas as vezes que o beberdes fazei-o em memória de mim, Jesus não estava a erguer um monumento à sua memória, como se tivesse receio de ser esquecido. A nova Aliança é o compromisso de Deus com as populações mais pobres, que não pode ser adulterado. Ao insistir, em memória de mim, é para não esquecermos a vida perigosa em que Jesus se envolveu: o caminho da fidelidade cristã, ao longo dos séculos, nas situações mais imprevisíveis.
Quem vai às celebrações eucarísticas sem este compromisso está a iludir-se: come e bebe a sua própria condenação. Uma Eucaristia é uma convocatória para alterar o rumo do mundo desumanizado e responsabilizar as Igrejas: como é possível missa após missa, rito após rito, continuar tudo na mesma? (...) A pergunta é outra: desta Eucaristia vai sair gente empenhada em que a ninguém falte o pão, a casa e o trabalho? Quando Jesus diz isto é o meu corpo é também a esse corpo social que se refere. (...)
Há duas boas notícias sobre a Eucaristia. No documento de trabalho para o Sínodo da Amazónia, está aberta a discussão sobre a ordenação de homens casados e a revisão dos ministérios das mulheres na Igreja. Este tabu acabou. 

Frei Bento Domingues, Há boas notícias, Público, 23-06-2019, p.7.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Shopia


Não eclipsar o mundo para encontrar o divino

A Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos pedia muitas vezes a Sophia de Mello Breyner Andresen, a Fernando Lopes Graça e a mim próprio para intervir junto de alguns deputados da Assembleia Nacional. (...)
A partir de determinada altura - nunca soube porquê - mandava telefonar, quase todas as semanas, a dizer que precisava de falar comigo com urgência. Algumas pessoas julgavam que seria por algo que tinha a ver com uma confissão que deu forma a um dos seus poemas: "Senhor sempre te adiei/Embora sempre soubesse que me vias/Quis ver o mundo em si e não em ti/E embora nunca te negasse te apartei"(1987). (...)
Yves Congar, num diagnóstico da situação religiosa em França, nos anos 30 do século passado, caracterizou-a de uma forma que foi, depois, muito utilizada não só em França: a uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião. A erosão religião na Europa é, sobre alguns aspectos, evidente. Não significa, necessariamente, o desaparecimento da religião, mas a sua reconfiguração. Sophia reconfigurou o catolicismo português. Não lhe deu, apenas, uma nova linguagem, mas uma inteligência esquecida da fidelidade à terra, à construção do mundo
J.P.Audet mostrou que, na Bíblia, não se encontra o equivalente ao mito de Prometeu, no qual os deuses escondem, aos humanos, o segredo da vida feliz. Aí, deuses e homens são rivais. Nada disto, na Bíblia. Aí, a terra é dada ao ser humano - homem e mulher - para que façam dela a sua morada, o seu jardim. A pastorícia, a agricultura, a música, as técnicas e a sabedoria não são roubos a Deus, são acontecimentos humanos normalíssimos. Não se deve dar cobertura teológica à ideologia da "consagração do mundo". A relação religiosa coabita, sem medo nem remorso, com o profano, espaço do religioso. O perigo não é a dessacralização, mas a excessiva sacralização da religião. O perigo é a invasão do sagrado que não deixa Deus ser Deus de pura gratuitidade nem deixa a criatura ser simplesmente criatura na invenção livre do seu futuro.
A grande tarefa de Sophia foi a de não desqualificar a realidade em nome de Deus. Não eclipsar o mundo para encontrar o divino: quis ver o mundo em si e não em ti. O catolicismo beato não dá consistência ao mundo. Este é, apenas, um pretexto para afirmar o divino. A poesia de Sophia não é nem panteísta nem ateia: "Não darei o Teu nome à minha sede/De possuir os céus azuis sem fim/Nem à vertigem súbita em que morro/Quando o vento da noite me atravessa". Por outro lado, "A presença dos Céus não é Tua/Embora o vento venha não sei donde/Os oceanos não dizem que os criaste/Nem deixas o Teu rasto nos caminhos". (...)
O Deus de Sophia é o do Rei Baltasar: Senhor, eu vi. Vi a carne do sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir? A casa de Deus, "Os homens a constroem na terra/Situada no tempo/Para habitação da eternidade/ (...) Aqui para além da morte da lacuna e da perca e do desastre/Celebramos a Páscoa/Aqui celebramos a claridade/Porque Deus nos criou para a alegria".


Frei Bento Domingues, Não eclipsar o mundo para encontrar o divino, JL, nº1268, de 8 a 21 de Maio de 2019, p.11

domingo, 27 de janeiro de 2019

Universalismo


A fraternidade de horizonte universalista é de origem cristã. Basta abrir o Novo Testamento. O Evangelho de S.Marcos atribui a loucura de fazer família com quem não é da família ao próprio Jesus de Nazaré. S.Lucas vê no Espírito de Pentecostes o começo da autêntica união na diferença. Para S.Paulo, os que foram banhados no Espírito de Cristo devem testemunhar que o mundo de separações e privilégios acabou: não há nem judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher. Mais ainda, a humanidade inteira é um só corpo de muitos membros, uma comunidade de muitos carismas. (...) As pessoas todas precisam umas das outras para afirmarem a própria identidade, pois esta é uma identidade de relação e não de isolamento. (...)
O papa Francisco, ao insistir, com ênfase, na reabilitação da política, toca numa urgência. Quando alguém diz não quero nada com a política, está a tornar-se sua vítima. O melhor talvez seja trabalhar na sua modificação. (...)
[O Papa] não só não se cala, como ousa dizer coisas atrevidas. Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos Não a uma economia da exclusão e da desigualdade, em que o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata! Esta economia exclui. Esta economia destrói a mãe Terra
A economia, continuou o Papa, não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Implica cuidar zelosamente da casa e distribuir, de forma adequada, os bens de todos. A sua finalidade não é apenas garantir alimento ou um decoroso sustento. Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos T3 pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária - poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã - deve garantir aos povos dignidade, prosperidade e civilização nos seus múltiplos aspectos. Implica acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recriação. (...) É uma posição que se prende com a crença no destino universal dos bens. (...) Acontece que na Bíblia há passagens nas quais é Deus que interroga. No Génesis é Ele que pergunta a Caim: o que fizeste do teu irmão? Na simbólica do juízo final, o senhor da história julga os seres humanos não pelo que fizeram a Deus, mas pelo que fizeram, ou não fizeram, aos outros em situações de precariedade. Deus identifica-se com estes. Tomás de Aquino dirá: ninguém ofende Deus directamente, mas os seus filhos, os nossos irmãos. (...) 
Em nome da identidade nacional, está a desenvolver-se um espírito de exclusão do outro, como uma ameaça à nossa segurança e bem-estar. Perdeu-se a fraternidade que se começou a ganhar no início do cristianismo, o esforço para não contrapor unidade e diversidade (...) Não há alternativa feliz à união na diferença. Fora desta só podem existir dominadores e dominados. (...) A febre de construção de muros é um atentado contra a civilização

Frei Bento Domingues, Contra os muros, Público, 27-01-2019, p.7.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Fanatismos




[Os fanatismos, mesmo quando não vão aos extremos] confundem a linguagem que aponta para um sentido com a própria realidade. "Deus existe". Esquecem que a palavra "existe" não tem ali o mesmo significado que tem quando dizemos que uma pedra existe. São registos múltiplos de linguagem. Se não se entra nessa dança, na dança simbólica, não se entende nada no plano religioso (...) Se não há o salto para o ilimitado da linguagem, de todas as linguagens...Os únicos que fazem alguma coisa muito boa são os músicos, os da grande música. Porquê? Porque não a posso apanhar (...) Quando fazemos da palavra Deus um referente, é como se metêssemos Deus numa gaiola, é como se metêssemos Deus dentro dos nossos conceitos, das nossas imagens. Os nossos conceitos, as nossas imagens são para nos fazer viajar. É para que a imaginação não pare (...) Há uma expressão em francês a que acho piada: "Un Die défini est un Dieu fini" [Um Deus definido é um Deus acabado] (...) Somos amados. Aquilo de que todas as pessoas gostam é de contar para os olhos de alguém. Fora do amor não existimos. (...) A gente nota, mesmo nas leituras do Evangelho, que Jesus levou muito tempo a encontrar o seu caminho. Coisa espantosa (...) A Igreja deve ser um foco de alegria - porque há esperança! A crença na ressurreição é uma crença muito razoável. Se não há uma memória de alegria para biliões de seres, baptizados e não baptizados, para aqueles que nem tiveram tempo para viver, para os que foram para a vala comum...pelo amor de Deus, isto não tem jeito (...) Não se aguenta a desvida se não se faz um hino à vida (...) Quando [cada um de nós] chegámos [à Terra] isto já estava como estava e quando partimos, isto ainda fica muito atrasado. Agora, segundo o sopro que cada um receber, segundo o vento que chegar a cada um, que [este] responda (...) Digo às pessoas todas: se [a História, a vida] não tem sentido, a única filosofia verdadeira é o suicídio. A questão toda é que confessamos que temos sentido. Saímos, vamos a um sítio bonito e vemos que tem sentido (...) Quando dizemos Deus, dizemos que o mundo tem sentido. É uma forma de falar. Wittgenstein viu muito claro quando disse que dizer que o mundo tem sentido é [uma forma de] rezar (...) Aquilo que dá sentido à vida é o que eu posso fazer pela alegria daqueles que não podem nada. Ou então nego-me, e nego-me ao sentido da vida [...] Claro que [a parábola dos talentos] é literatura! Queria era ver o povo que possa viver sem literatura (...) A frase mais horrorosa que ouvi em Portugal foi, não sei se há três anos: "não sejam lamechas". Quem não está bem, que emigre (...) Esta frase é a negação de um país. Seja que governo for, pode fazer bem, pode fazer mal. Não pode, à partida, dizer que está para uns tantos, e que, os que não estão bem, que se amanhem (...) Uma Igreja de entrada: as pessoas que venham cá ter connosco e a gente diz como é. Não. [Uma Igreja de saída] É sair ao encontro. É uma frase de Jesus que este Papa reencontrou: "Vinde a mim vós todos que andais aflitos e oprimidos, e Eu vos aliviarei" (Na minha terra havia a Nossa Senhora do Alívio) (...) Deus não pode ser confundido com os nossos limites. Quando digo Deus, não falo de uma entidade que possa definir, mas de um amor imenso. O ser humano, com a sua razão, organiza o mundo como pode (Digo muitas vezes: "foi o que se pôde arranjar!"). O importante é perceber que são pessoas da nossa família que sofrem. Não são estranhos (...) O homem veio, não para ser servido, mas para servir (...) O essencial, não entendemos. Mas podemos caminhar para ele. O essencial é o que puxa por nós, o que nos faz andar. A arte, a poesia, que nos faz saltar para lá do muro. A teologia e a filosofia: são um interrogar contínuo. Cada adquirido é só um patamar para nova interrogação.

Frei Bento Domingues, em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, Jornal de NegóciosWeekend, 22/05/2015, pp.4-9.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

"A RELIGIÃO É UMA LIBERDADE?"



Uma boa conversa, no âmbito dos mais recentes encontros da FFMS, com Adriana Veríssimo Serrão, Guilherme d'Oliveira Martins e Frei Bento Domingues. Sobre o "gérmen da inquietação", como diria a moderadora Anabela Mota Ribeiro.