«Ecce homo» - a cena, na qual mergulha e se afunda a piedade popular, no início da devoção da via-sacra e também no mistério doloroso do Rosário, e que é o tema de muitas estátuas e imagens, conduziu, decerto, a imaginação piedosa ainda mais longe e mais fundo, para lá do sentido evidente desta declaração de Pilatos. É a apresentação do homem, do ser humano, da existência humana na sua figura-limite - na sua fraqueza e derrelicção, na sua dor e impotência. Sem figura nem beleza, foi desprezado por nós, um homem de dores, diante do qual se tapa o rosto [Is 53., 2-3]; um miserável do qual se pode falar com as palavras do salmo: «Eu, porém, sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe. Todos os que me veem escarnecem de mim; estendem os lábios e abanam a cabeça» [Sl 22, 7-8].
Toda a fama, o poder, a dignidade e a grandeza do homem desapareceram, o ser humano aparece aqui todo como uma grande ferida ensanguentada. Mas também isso é o homem.
«Ó vós, todos, que passais pelo caminho, olhai e vede se existe dor igual à dor que me atormenta!» [Lm 1,12.]. Eis, decerto, uma das razões por que esta imagem - bem como o motivo da Pietà (da Mãe com o Filho morto no regaço), o pólo oposto da Madonna com o Menino nos braços ou ao colo - teve uma força terapêutica: relativizava o sofrimento próprio. Pelo contrário, Jesus na cruz está talvez já demasiado «alto», a cruz apreende-se já, muitas vezes, como o cimo do caminho, como vitória («Tudo está consumado!»), ao passo que o drama da dor só começa com a cena diante de Pilatos, no início da via-sacra. Aquele que é flagelado perante o tribunal do poder e o fanatismo das massas está realmente «em baixo». Um homem frente ao abismo da morte, que já não pode dispor de si mesmo, totalmente manipulado pela maldade dos outros, inteiramente entregue às mãos dos inimigos, como um objecto atado, como «um embrulho sem destinatários». que o Sinédrio, Pilatos, Herodes, os soldados e os algozes enviam uns aos outros - esta imagem penetra e ilumina a autêntica profundidade da existência humana, isenta de todos os disfarces e embelezamentos e sem qualquer arrimo.
Eis aqui o homem! Tal como esta proclamação, soou com similar acento pítico a frase de Pilatos expressa um pouco antes, a pergunta: «Que é a verdade?» [Jo 18,38]. Talvez tenha sido uma observação cínica, sarcástica, de um pragmático do poder («Verdade»: que é isso? E que significa ela?), proferida sem qualquer rasto de curiosidade filosófica. Jesus respondeu a tal pergunta com o silêncio. Mas não será a cena com «Ecce homo» a verdadeira resposta?
O homem coberto de feridas expressa uma verdade profunda sobre o ser humano e o seu destino. O homem é nada: eis a verdade de Sexta-Feira Santa, sem a qual não há nenhuma manhã de Páscoa. E só onde há sepulturas há ressurreição - também aqui Nietzsche [Assim falava Zaratustra II] estava certo. Que sabemos sobre os homens, enquanto recuarmos perante a possibilidade de olharmos, sem qualquer ilusão, para a borda extrema do destino humano, se não tocarmos o fundo, se tapamos a cara diante do abismo? (...)
Se Jesus é, para nós, o Verbo de Deus, que assumiu a humanidade integral, então, o seu ser humano cinge e inclui não só a grandeza e a perfeição do homem como imagem ainda intacta de Deus (ele é o novo Adão, Adão que não carrega com as cicatrizes consequentes à queda), mas também o segundo pólo do homem, inclusive o lado mais obscuro, dolorosamente cicatrizado do destino humano, a miséria e a indigência, perante a qual de bom grado fechamos os nossos olhos, os nossos ouvidos e o nosso coração.
Karl Rahner descreve, de forma sugestiva a semelhança desta «sombra» com o Cristo da Paixão: «Como haveria de ser a imagem do homem, que mostra justamente o que ele é, e que ele nem quer admitir nem está disposto a ser? Deveria ser a imagem de um moribundo. (...) Ele teria de ser pregado. Pois a nossa liberdade sobre a terra desagua na necessidade de indigência. (...)
Não se nos apresenta justamente a nós - nascidos no século em que nos lugares de contagem dos prisioneiros, feita nos campos de concentração nazis e comunistas, os seres humanos foram despojados de muitas das suas modernas ilusões humanistas, a nós que vivemos no milénio em cujo limiar foram cruelmente trucidadas, pelo ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001, muitas das ainda mal nascidas esperanças e expectações de um «amanhã radioso» -, não nos foi ofertada, mediante esta experiência histórica, a possibilidade de compreendermos, de forma nova e mais profunda, a cena do «Ecce homo»? Não será o homem ferido, o acusado perante o tribunal de um poder cínico, mais fami-liar e chegado a nós do que a imagem de um sorridente «Bom Pastor», em idílicas imagens devotas?
Pascal já sabia muito bem que uma religião que receia mostrar ao homem a sua miséria é apenas a autoilusão de uma projecção narcisista: «...os que conheceram Deus, sem conhecerem a sua própria miséria, não o louvaram, mas enalteceram-se a si mesmo». (...)
Páscoa é a saída; a transição de um modo de ver as feridas de Jesus para outro, a transição do «Ecce homo!» para o «Ecce Deus».
Tomás Halík, O meu Deus é um Deus ferido, pp.38-43.