Mas o euro era claramente uma criação inconclusa. Não existia uma política económica unificada nem tão pouco uma estrutura reguladora unificada para a banca. Tão pouco havia muita urgência para avançar para uma maior integração. (...) O primeiro [dos problemas] era [saber] se os desequilíbrios pré-existentes no comércio intra-europeu se acabariam reduzindo ou ampliando, com o tempo. Temia-se que a falta de ajuste monetário pudesse gerar uma divergência acumulativa quando as regiões menos competitivas fossem ficando cada vez mais atrasadas. Em segundo lugar, existia o risco de que se produzissem perturbações externas assimétricas. Uma contracção do turismo prejudicaria muito mais a Grécia do que a Alemanha. Uma queda da procura chinesa por importações prejudicaria a Alemanha de um modo que o não faria à Irlanda. Os críticos norte-americanos, em particular, alertaram para o facto de os mercados de trabalho europeus não possuírem a flexibilidade e a mobilidade dos seus homólogos norte-americanos. E, se as pessoas não se moviam, face a uma crise a Europa necessitaria de um sistema comum de prestações, impostos e despesa que permitisse que os fundos fluíssem das regiões mais prósperas para as mais afectadas. Juntamente com a mobilidade laboral, esta rede de prestações sociais, por incapacidade ou desemprego, era o que mantinha unida a gigantesca diversidade da economia norte-americana, desde o Alabama à Califórnia. Era preocupante que, em princípios dos anos 2000, em Bruxelas houvesse muita auto-complacência, mas pouca urgência em estabelecer o mecanismo geral de redistribuição fiscal e a partilha da carga que seria necessário na zona euro para fazer frente a uma recessão, para não falar de uma grave crise financeira.
Adam Tooze, Crash, Crítica, 2018, pp.109-110. [tradução minha a partir da edição em castelhano]
P.S.: o autor faz aqui notar como os primeiros anos no Euro não foram nada bons para a Alemanha. No entanto, já em 2003 a Alemanha alcançou o primeiro lugar como exportador mundial. Com Schroeder são controversas as leis lançadas por Peter Hartz, o chefe de recursos humanos da Volkswagen, que presidiu a um comité que reviu o mercado de trabalho alemão (moderação salarial e corte nas prestações sociais foi o proposto). Em realidade, o plano Hartz IV "fez com que milhões de pessoas deixassem de receber, melhor ou pior pagas, prestações de desemprego a longo prazo e se incorporassem a empregos inseguros [precários]. Isto contribuiu para travar os salários dos trabalhadores não qualificados, como o caixa ou os trabalhadores da limpeza. Nos primeiros dez anos do euro, apesar do rápido aumento da produtividade, em metade dos lares alemães não se registou um aumento de salários. Isto emagreceu as listas de desemprego. Também incrementou a desigualdade antes de impostos e reduziu os salários da Alemanha em relação aos seus vizinhos europeus. No que respeita à competitividade dos exportadores alemães, a importância do Hartz IV é muito menos evidente. As empresas alemãs não conseguiram os seus pedidos de exportações rebaixando os salários dos trabalhadores não qualificados. Uma fonte de vantagem competitiva muito mais importante foi a deslocalização da produção para a Europa do Leste e o sul da Europa, ao que se somou o estímulo derivado da recuperação mundial de princípio dos anos 2000"(p.111-112).