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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Teste de Turing


A primeira menção a máquinas de pensamento não humanas pode ser atribuída à Ilíada, de Homero, e podem encontrar-se outras em numerosas obras literárias, como Frankenstein, de Mary Shelley. (p.79). A investigação sobre a moderna inteligência artificial teve início em meados da década de 1950 (p.79).

Turing propôs um teste inspirado pelo jogo da imitação, um jogo de salão em que um homem e uma mulher entram em salas separadas e os restantes convidados tentam depois determinar em que sala está o homem e em que sala está a mulher lendo respostas, dactilografadas, às perguntas feitas pelos jogadores. No jogo original, um dos jogadores tenta enganar os interrogadores de maneira a que estes tomem a decisão errada enquanto o outro jogador ajuda os interrogadores a tomarem a decisão certa. Turing propõe que se substitua a mulher por uma máquina e que, tanto o homem como a máquina, tentem convencer os convidados de que são humanos. Numa proposta posterior, Turing sugere que o júri faça perguntas a um humano e a um computador. O computador passaria o teste se uma proporção significativa do júri acreditasse que o computador era o humano (p.82).

Apesar disso, o Teste de Turing ainda possui um forte preconceito antropocêntrico, porque força o computador a imitar o comportamento humano. Por essa razão, e também por outras, continua a ser um teste muito difícil para os programas de IA, mesmo para os mais avançados. Para passar o teste, um computador deveria possuir raciocínio, memória, sentimentos e emoções semelhantes aos humanos, uma vez que não são impostas nenhumas limitações ao que pode ser perguntado. Em última análise, pode ser usado qualquer comportamento não humano (como ausência de emoção) para distinguir o computador do ser humano. Por exemplo, o júri poderá perguntar ao programa qual é a sua memória mais antiga, ou qual foi o seu momento mais doloroso, ou se gosta de sushi (p.82).

Ao longo dos anos, muitos outros programas pareceram ter passado o Teste de Turing. No entanto, todos eles passaram apenas versões muito restritas do teste, e pensa-se que decorrerão décadas até que algum computador passe uma versão não restrita do Teste de Turing. Porém, isso não significa que nunca venha a acontecer (p.85).

Na edição de 2008, o programa Elbot convenceu três dos doze juízes, levando-os a pensar que o computador era o humano após uma conversa de cinco minutos. Isso chegou muitíssimo perto do objectivo original de enganar uma «fracção significativa» dos juízes, que Turing propôs como sendo de 30 por cento. Mas uma conversa de cinco minutos não significa muito. No momento em que escrevo, o vencedor do Prémio Loebner em 2013, o chatbot Mitsuku, está disponível para interacção na Web. Se interagirmos com o programa, não tardaremos a perceber que ele é realmente um programa e que possui um modelo bastante superficial do mundo, não estando perto de superar o que Turing pretendeu que fosse um teste de inteligência não enviesado (p.85).

Principais objecções ao Teste de Turing: ele encontra-se na dependência das características, do grau de sofisticação do - dos membros do - júri. E é capaz de classificar como não inteligentes comportamentos inteligentes por não se aproximar suficientemente do comportamento humano (p.85).

in Arlindo Oliveira, Mentes Digitais, IST Press, 2017

terça-feira, 18 de abril de 2017

Os alicerces da civilização


O Princípio da Incerteza de 15 Abr 2017 - RTP Play - RTP

Nesta emissão de O princípio da incerteza, Viriato-Soromenho Marques nota como o facto de a Ilíada ter como herói um não grego é bem elucidativo da centralidade do valor verdade (objectiva) como demanda a prosseguir como central na civilização ocidental (e estabelece entre a cultura grega e a egípcia - que a precede - uma clara distinção, neste contexto). Por sua vez, nos escritos bíblicos o pilar da tolerância como fundamental legado aos ocidentais. Para Frederico Lourenço, a epístola aos Romanos, de Paulo conta-se como "uma das maiores obras-primas da humanidade", ainda que a sua Carta (de Paulo) preferida seja aos Gálatas.  O fascínio do classicista por Paulo aumentou exponencialmente com o adentrar no texto, com maior profundidade, para efeitos de tradução, e nele vislumbrou uma beleza que o coloca entre o melhor que se escreveu em grego (mesmo contando com Homero ou Platão). O mergulhar nos textos fundadores da cultura ocidental releva, ainda, para o Professor da Universidade de Coimbra para efeito do mais importante do ponto de vista pessoal (mas também colectivo): o sentido da existência, o que fazer com a vida (?), o que é, simultaneamente, melhor para nós e os outros (?), sendo que se o que os Evangelhos proclamam ainda hoje fosse aplicado "sem dúvida que o mundo estaria muito melhor". A modernidade de um texto nada tem a ver com a data em que foi escrito, adverte Helena Matos que ilustra a importância de saber latim e grego com o facto de apenas uma jornalista ter percebido que o Papa Bento XVI estava a resignar - quando este o estava a comunicar aos cardeais (em latim) -, um dos momentos marcantes, até ao momento, do século que atravessamos. Um excelente programa.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Aboborar


Escrevi-o a propósito da minha adolescência. Em geral, o adolescente está espontaneamente preparado para saltar fora do que lhe ensinaram, para criticar, para recusar. Mais tarde compreendi que realmente gostava do que não percebia. O estranho atraía-me. Pessoas que não compreendia, obras quase ilegíveis, em cuja leitura persistia. Acho que [a incompreensão do que se está a ler] é um sinal de que vale a pena. Se me distraio a ler, abandono logo o livro. Há pessoas que dizem que não entendem um livro, um quadro, que saem de um filme a dizer que é um absurdo. Mas isso, como dizia Homero, pode ser uma palavra alada que mais ninguém encontra ou então fica a aboborar, a levedar, expressões de que gosto muito. (...) Mas então gostava de coisas esquisitas, de roer côdeas duras, até de comer velas...(risos). A minha avó paterna fazia maravilhosos pães doces. Provavelmente vem dela esse gosto.

Maria Filomena Molder, Idem, p.24.

domingo, 26 de junho de 2016

Da amizade


Conhecemos a valorização transcendental e o papel da amizade, a philia, na sensibilidade clássica. A amizade é a bonificação da existência humana, a sua recompensa imerecida (...) Nada suplanta "ser-se amigo de um amigo" (na expressão jubilosa de Schiller). A morte é quase um privilégio quando ela vem salvar um amigo. Por sua vez, a perda de um amigo é algo irreparável (podemos voltar a casar, adotar mais um filho). Três lamentos pelo desaparecimento do amigo determinam o idioma da desolação na literatura e no sentimento ocidental: Gilgamesh sofrendo por Enkidu, Aquiles gemendo de dor sobre o corpo de Pátroclo, David chorando por Jónatas.
O manancial do qual brota a amizade é insondável. Ela pode surgir do perigo momentâneo, apossando-se da nossa consciência como uma tempestade de vento ou uma melodia. "Porque era ele, porque era eu" (Montaigne) (...) Numa formulação demasiado famosa, E.M.Forster convida-nos a trair antes o país do que um amigo (...) O homem ou a mulher imune à amizade, desprovido de amigos seja por acidente ou por desígnio, é um exilado, um sonâmbulo (...) A amizade autoriza-nos a dizer "Eu sou porque tu és". Por seu turno, não existe dor mais duradoura, nenhuma cicatriz mais insarável do que a de uma amizade traída (...) Aqueles que foram torturados para que revelassem nomes falam das vozes mudas da amizade que se sobrepõem ao sofrimento. Aqueles que acabaram por ceder vivem o resto das suas vidas a meio-tempo (...) Amizades absorventes, da mais extrema intensidade, podem medrar durante a infância. Fidelidades inamovíveis são marca da adolescência. Trocam-se palavras-passe, inventam-se linguagens secretas, representam-se rituais de confiança. As intimidades contra mundum tornam-se mais vitais do que quaisquer rotinas familiares. A puberdade é o maio e junho da amizade. Para utilizar um jargão já gasto, o coração, a mente e a sexualidade nascente são "esmagados" pelo desejo mútuo, pelas lealdades recíprocas, pelas privacidades simbióticas de tal modo intensas que podem levar ao suicídio.
O caleidoscópio das amizades na idade adulta é variegado. Ele estende-se através de ideologias, barreiras étnicas, separações prolongadas. A philia, como Homero e Virgílio o sabiam, é indispensável à insensatez sacrificial da batalha, à solidariedade de homens armados que defrontam a morte (...) A amizade autêntica exulta pelos louros conquistados por um amigo. As amizades antigas têm o seu encanto peculiar. Elas comportam as recompensas da rememoração, as ironias que tornam suportáveis as enfermidades. Velhos amigos encontram-se nos bancos de jardim públicos, farejando o ar à procura do perfume da morte, partilhando as inquietantes pressões do vazio. Aquele que sobrevive fala consigo mesmo para que o diálogo possa perdurar. Pavilhões de geriatria, os nocturnos dos lares de idosos estão repletos do mesmo murmurejo que repercute nas 'últimas gravações' de Beckett. Até no seu ocaso, a amizade é o enigma da graça que ´permitida ao homem (caído) (...) Onde há amizade, há liberalidade electiva e ponderada. Entregamo-nos mesmo na ausência dos benefícios necessários ou das gratificações implícitas do erótico. Neste sentido, a amizade pode ser definida como o acto gratuito, mas profundamente provido de sentido, daqueles que estão "em liberdade" (...) A amizade, além disso, pode ser profícua de um modo bastante poderoso; pode produzir acção política, descobertas científicas, argumentos filosóficos. Há muito no progresso político, no debate intelectual, na inovação estética, que é de natureza cooperativa. tem origem, e delas retira a sua energia, nas nuvens estelares de talentos individuais colidindo, conspirando, rivalizando em amizade. As cartas de amor tendem a ser monótonas e, mesmo, pueris. As que são trocadas no contexto da amizade podem ser a verdadeira fonte e o laboratório do génio (Espinosa para Boxel, Goethe para Schiller, Coleridge para Wordsworth (...) A simetria na estima, a parceria na coragem, a diferenciação criativa ou a ascensão política são parte integrante da relação. Em suma - e isto é difícil de articular de modo claro - a amizade é aquilo que, no âmbito da razão, no âmbito da compreensão desinteressada, é apaixonado. Aquilo que torna inteligentes a generosidade do pensamento e o coração.

George Steiner, Fragmentos, Relógio D'Água, 2016, 15-21.