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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Uma Antologia


A mais recente leitura de férias. Católicos e política, edição do Padre José da Felicidade Alves, é uma preciosa antologia de textos que Católicos, nessa rigorosa qualidade, enquadrados em grupo, solitariamente, leigos ou sacerdotes subscreveram, no âmbito da vida pública nacional, no contexto histórico do Estado Novo. Datados entre 1958 e 1969, eles testemunham, essencial ainda que não exclusivamente, uma consciência cristã católica, mesmo que minoritariamente assumida em tempo de ditadura, crucificada, e já não mais conseguindo calar uma indignação e revolta face ao que entendem como clara desconformidade entre "os princípios cristãos" e a conduta do Estado Novo. É certo, ainda, que nesta selecta não se ignoram dois documentos, igualmente subscritos por católicos, em sentido diverso dos primeiros e em defesa da compatibilidade entre o regime político, e suas práticas, então vigente em Portugal e os princípios do catolicismo. 
Mas a grande maioria dos textos, em bom português, acham-se marcados por uma tensão face à vida política portuguesa a partir dos fundamentos da fé (que os seus autores acusam), louvando-se, estes, com manifesto conhecimento de causa, e par e passo, numa doutrina lida à luz dos pronunciamentos de sucessivos Sumos Pontífices, mas, de um modo muito particular, se acaso haveria de ser apontado um documento-guia, da "Pacem in Terris", de João XXIII; são textos que se confrontam com os problemas da censura, da violência para com os presos políticos, com a questão colonial, com, até, a "defesa exterior" da Igreja simultaneamente ao postergar do espírito que a devia animar e ao concurso que asfixiava aqueles por quem mais esta devia zelar; são, pois, artigos de jornal, manifestos públicos, cartas, por vezes sem que saibamos os nomes de quem as assinou por motivos de segurança dos mesmos (á época), em que se discutem formas de "Constantinismo", de um estado qualificado como "totalitário" e se reflecte sobre as relações e ambiguidade do modo como os cristãos olham para a política (nessa qualidade de cristãos; em havendo convergência nos grandes princípios, e dificilmente se concebendo que a fé não implica o sujeito nas opções para a cidade, depois, na concretização dos mesmos, não deixa de se observar uma diversidade de pontos de vista e soluções, o que, em um quadro de liberdade e democracia nos surgem como o mais natural, de resto); textos de quem chega a fazer substantiva auto-critica pelo "pecado do silêncio e da cobardia",  cumplicidade que se percebe que a partir de 1958, da carta de D.António Ferreira Gomes a Salazar (presente integralmente nesta antologia), dos resultados, processo eleitoral das Presidenciais de 1958, da morte de Humberto Delgado, dos direitos proclamados pela Pacem in Terris, de João XXIII, como inerentes a todos os humanos, da presença de Paulo VI no Congresso Eucarístico e da destemperada reacção do Governo Português, da permanência e irresolução da questão colonial se afigurou, a muitos, definitivamente como não podendo continuar.
Neste livro, e de entre documentos e momentos célebres - como a já mencionada carta do Bispo do Porto a Salazar, mais do que qualquer outro -, encontramos também muito bem explicitada a jornada pela Paz e a noite de vigília que nos anos 60 levaria centena e meia de jovens-adultos à Igreja de São Domingos, da qual sairia a Cantata pela Paz ("Vemos, ouvimos e lemos"; cantata, na qual, não apenas os problemas portugueses, mas ainda os que contendiam com o nuclear ou o Vietname , por exemplo, estavam presentes).
Pese, como se disse, nem todos os documentos surgirem rubricados, nos diversos que o estão contam-se, em permanência, as assinaturas de figuras como João Benárd da Costa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco Lino Netto, Francisco Sousa Tavares, António Alçada Baptista...o documento que acolhe mais assinaturas prende-se com a reacção de dezenas ou centenas de católicos contra o pronunciamento do regime, através dos Negócios Estrangeiros, à ida de Paulo VI ao referido Congresso. 
Uma carta de Bispos de Moçambique a favor da independência, ou pelo menos autonomia do poder espiritual ao temporal (onde se acusa este de tentar comprar e silenciar aquele) figura, igualmente, no corpus desta selecta. Na qual é possível, ademais, tomar nota como, já na longínqua década de 880, séc.IX portanto, o Papa Nicolau I postulava o erro grave da tortura (nomeadamente, desde logo, como método policial, como método de obter informações, ou confissão).

terça-feira, 26 de junho de 2018

O impulso para a actividade política, de António Arnaut


Apesar de, posteriormente, ter abandonado a fé católica, a verdade é que a entrada de António Arnaut para a vida política faz-se por via desse impulso, como explica António Pedro Pita, no JL (nº1245, de 20 de Junho a 3 de Julho de 2018, ano XXXVIII, p.9): "É no âmbito de um catolicismo que se interroga e, ao interrogar-se, coloca o problema da dimensão política da mensagem evangélica, que acontece a entrada na cena política de António Arnaut. Sob a forma implícita de "manifesto" (um documento que se quer acção discursiva eficaz), os dois documentos referidos ["As relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos" e "Carta a Salazar sobre os serviços de repressão do regime"] punham inevitavelmente o problema das concretizações histórico-sociais de uma determinada experiência da transcendência. O primeiro subscritor de ambos era o padre Abel Varzim e à sua assinatura seguiam-se as de, entre outros, António Alçada Baptista, Francisco Sousa Tavares, João Benárd da Costa, Manuel Serra e Sophia de Mello Breyner Andersen. Orlando de Carvalho, professor de Arnaut (na Fac. de Direito de Coimbra) e figura de referência de todo o seu percurso, também assina.
É, pois, como católico que se envolve na candidatura presidencial de Humberto Delgado, em 1958 e contribui para a sua vitória na freguesia natal de Cumieira". 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

História contemporânea portuguesa




O episódio de Humberto Delgado, na conferência de imprensa no café Chave d’Ouro, em Lisboa é, sobretudo, conhecido pelo “Obviamente, demito-o”, dirigido a Salazar. Longe de se esgotar em si mesma, a frase reclama a leitura da Constituição de 1933: o Presidente da República tinha, com efeito, o poder de demitir o Presidente do Conselho. Por isso, a frase não era ilógica. Todavia, existindo esse poder de jure, nunca de facto era pensável o seu exercício (dirigido a quem era: Oliveira Salazar). De aí o espanto pela afirmação. Mais, ainda: o espanto pela pergunta. Quem se atreveria a colocar a questão, em plena ditadura, sobre o destino a dar ao Presidente do Conselho? Nenhum jornalista de um órgão de informação português, na verdade. No dia seguinte, de resto, a frase não permeou qualquer manchete. Lindorf Pinto Basto estava na conferência de imprensa de Humberto Delgado pela agência France Press. Foi ele quem fez a pergunta. Estas e outras histórias contadas agora em livro por Humberto Delgado Rosa, neto do general que no dia anterior à conferência prometera no círculo maís íntimo ser deferente com o Presidente do Conselho, caso perguntado sobre o mesmo.