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sábado, 2 de fevereiro de 2019

"Fundamentalistas cristãos"


É curioso, esses fundamentalistas europeus que ostentam o estandarte do cristianismo, da Igreja. É um fundamentalismo que tem a necessidade de utilizar a Igreja, mas vai contra ela, desnatura-a. (...) Sem referir países, podemos falar desse princípio geral: a Igreja é por vezes utilizada para justificar uma postura fundamentalista

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.106-107.

[p.s.: apesar de o Papa Francisco não ter querido citar os exemplos de Hungria e Polónia, é evidente que é aquilo que aqui está em causa]

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Um lastro histórico para explicar as democracias iliberais


Na Polónia, há ainda alguns jornais privados com significado e até uma cadeia de televisão privada. Na Hungria, já não.  (...) O que é paradigmático e paradoxal é que esta regressão democrática acontece nos países que tinham sido os casos de maior sucesso da democratização e foi justamente por isso que entraram na União Europeia. Como se lembra, tínhamos essa visão de que a simples entrada na União Europeia era a ancoragem irreversível à democracia (...) Pode haver uma regressão democrática no seio da União Europeia. Não era o fim da História, porque a História não tem fim. (...) O que se está a passar com o "Brexit", na Itália, na Áustria, mostra que não é um problema da periferia pós-comunista. Descobrimos que o problema existe também no seio da União Europeia, ainda que haja graus muito diferentes. Aliás, Orbán e Kaczynski não se enganaram: foram os primeiros a saudar a eleição de Trump. (...) [Orbán] compreendeu que era uma forma de legitimação. Se até dois países que representavam a pedra angular da democracia liberal ocidental - a Grã-Bretanha e os EUA - voltavam a defender a soberania nacional, então "nós somos a vanguarda". Trump foi recebido euforicamente na Polónia, como um herói, e retribuiu fazendo um discurso no qual saudava a Polónia como o último da defesa dos valores conservadores e cristãos. (...) Foi um catalisador para tornar o discurso nacionalista muito mais explícito. O que era implícito antes, com a crise migratória, Orbán e Kaczynski puderam dizer abertamente: nós somos os protectores da nação: nós defendemos que as nossas sociedades devem fechar-se aos imigrantes, sobretudo islâmicos. (...) Vão ainda mais longe, porque transportam o discurso de protecção da nação para a escala europeia. A sua narrativa não é à toa, quando invoca a protecção da nação contra a invasão islâmica que chega pela via otomana. Foi pelos Balcãs que os turcos chegaram lá no século XVI, quando a capital teve de se mudar para outra cidade, que hoje se chama Bratislava. É preciso saber isto para se perceber até que ponto o discurso ressoa na mente das pessoas. "Nós temos de travar a invasão que regressa pela via otomana". Conseguiram construir uma narrativa sobre a imigração à volta desta ideia de protecção da nação, mas também da protecção da Europa, porque historicamente foram eles a barreira à conquista otomana. "Fomos nós que protegemos a Europa cristã e hoje voltamos a desempenhar esse papel". Acusam-nos de sermos de extrema-direita? Não, apenas nos reclamamos dos valores tradicionais e conservadores: a família, a nação, a Igreja. E ainda bem que o fazemos  porque os conservadores europeus, aqueles que o deveriam fazer, abdicaram do seu papel. Olhem para os alemães da Senhora Merkel: adoptaram o casamento gay, defendem o multiculturalismo, transformaram-se num partido centrista, deixaram de ser conservadores. Nós somos os defensores da Europa cristã, não apenas porque defendemos as suas fronteiras, mas porque defendemos os seus valores nacionais conservadores. (...) No final dos anos 1980, os países ocidentais compraram tudo, o que de algum modo era inevitável: não se pode construir o capitalismo sem capital e eles não tinham capital. O capital veio do Ocidente. E com ele vieram os grandes centros comerciais, onde se vendiam os produtos produzidos pelo Ocidente. Vieram os bancos. E tudo isto foi feito sob a égide da União Europeia, que vêem como uma potência tutelar, que lhes diz o que podem ou não podem fazer e quais são as regras. Olham-na como um neocolonialismo soft. É o termo que eles utilizam. E não se pense que são marxistas anticapitalistas que dizem  estas coisas. São sobretudo os partidos de direita que recuperam um discurso pós-colonial e que defendem que é preciso resistir-lhe. Foram vocês que bombardearam a Líbia, são vocês que têm de receber os refugiados e os imigrantes. Foram vocês que colonizaram a África no século XIX, é da vossa responsabilidade receber os imigrantes desses países. Simplificando um pouco, eles pensam que devemos ser punidos pelos nossos pecados históricos. E vêem-se a si próprios como as vítimas. Vítimas da História - nomeadamente de terem ficado do lado errado depois da II Guerra - e consideram que os países  da Europa ocidental nunca quiseram saber do seu destino. São vítimas e são incompreendidos. Angela Merkel recebeu os refugiados simplesmente para  expiar os pecados da Alemanha. (...) A ironia está em que eles transpuseram o discurso sobre a nação para o nível europeu, mas foram buscar esse discurso aos alemães no século XIX. Era a definição alemã da nação. A nação é a língua, a cultura, a religião. A definição francesa é outra: é o Estado que constrói a nação. Para os alemães, é a nação que constrói o Estado. Os europeus de Leste adoptaram este modelo, transpondo-o para a escala europeia - uma Europa que se define como cultura, como civilização que se protege dos outros. No momento em que adoptam o modelo alemão, a Alemanha diz-lhes que mudou de modelo. Hoje, os turcos podem ser cidadãos alemães


Jacques Rupnik, Professor de Ciência Política, politólogo da Sciences Po, entrevistado por Teresa de SousaPúblico, P2, 20-01-2019, "Hoje temos uma espécie de balcanização a Ocidente", pp.6-7.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Hungria



Em 2008, a Hungria só não entrou em bancarrota, porque contou com 14 mil milhões de euros de empréstimos, vindos do FMI e UE. O país pagou a última tranche deste envelope financeiro este ano. Por vezes, ignoramos este dado quando assistimos ao que se seguiu neste país, desde há 8 anos. Segundo Zoltán Kizzelly, em artigo no jornal austríaco Die Presse, em finais de Abril, a vitória de Órban e seus índices de popularidade muito se devem, também, aos sectores de esquerda que nele votaram, e que o "obrigaram" a não seguir o pacote neoliberal recomendado pelas instituições que forneceram o empréstimo, pelo que "deu origem a uma política económica julgada desde então pouco ortodoxa e que consistiu em transferir o essencial do fardo da dívida para os especuladores estrangeiros, os investidores, as cadeias comerciais e os bancos, e não unicamente para a população (como sucedia até aí). A indústria, pelo contrário, foi logicamente poupada (...) Actualmente, a Polónia recorre a medidas da mesma ordem para tentar repartir mais equitativamente os frutos de uma economia próspera". Houve limitação de apoios sociais, mas aumento do emprego no sector público, na Hungria, tal como a introdução da formação profissional por alternância. Entre os motivos pelos quais a imigração foi colocada em causa, conta-se o facto de "Budapeste não quer concorrência nos mercados de trabalho e do alojamento, nem o nivelamento por baixo dos salários que resultaria de uma imigração em massa". O que mostra que múltiplas são as correntes ideológicas e as razões travadas na abordagem à complexa realidade da imigração (que é diversa e não subsumível à questão premente de ajuda aos refugiados).

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Esperar contra toda a esperança




Esperança de uma nova vida - intitulou o australiano Warren Richardson, a foto nocturna, tirada entre a Sérvia e a Hungria, a 28 de Agosto de 2015, um bebé passado entre uma cerca, o drama dos refugiados exposto em toda a sua nudez. Foi fotografia do ano do World Press Photo.