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terça-feira, 7 de maio de 2019

Da "consciência soberana das coisas"


[Graham Greene] soube tirar mais da dúvida. (...) Foi um miúdo dolorosamente tímido (...) [em que] a depressão na adolescência o levou a cultivar um certo fascínio pelo suicídio (...) sendo a literatura uma forma de codificar e interpretar a vida (...) Compreendia e aproveitava-se da vida não se reduzir a uma equação moral (...) a frieza de quem sabe como a virtude pode encerrar-nos num cárcere e que funciona mais como uma orientação geral para os espíritos que não se entendem com as entrelinhas nem têm o que fazer às subtilezas.(...) Há o reconhecimento de um sentido de graça, a partilha de uma consciência soberana das coisas, um entendimento firme que nos torna cúmplices face a um sentido ulterior. (...) Esse aventureiro sem paciência para os modos requintados de se ser covarde (...) Alguém que 'apesar do seu catolicismo, estava sempre a tentar descobrir a santidade em figuras seculares, valorizando nos outros uma simplicidade e inocência que lhe foram negadas' (...) repudiando a fé como esconderijo (...) cita Blake (...) 'quem deseje fazer o bem aos seus vizinhos deve fazê-lo nas pequenas ocasiões, pois o bem geral é sempre invocado por canalhas, hipócritas e bajuladores' (...) Concordando com Charles Waterton, sentencia: "neste país o catolicismo que devia produzir revolucionários produz apenas excêntricos (a excentricidade viceja num sistema social desigual). Adianta ainda que "conservadorismo e catolicismo deveriam ser impossíveis aliados" (...) E ainda cita o Aliocha de Os Irmãos Karamazov, que se despoja de tudo para servir a Deus: "não posso renunciar a dois rublos em vez de 'tudo o que tendes' ou limitar-me a ir todos os dias à missa em lugar de vinde e segui-me". (...) A extrema disciplina com que se dedicava à escrita - todos os dias, mal o sol raiava, obrigando-se a escrever 500 palavras nuns pequenos cadernos, e não mais, ao ponto de ficar muitas vezes a meio de uma frase - se tornar aparente na eficácia de uma prosa que não brinca em serviço. (...) Não menos poderosa é a noção de que talvez só se possa salvar a fé deixando-a à beira da extinção, de modo a que nos livremos por uns tempos destes tão relutantes fiéis, ou desses outros, tão odiosos. Uns servindo-se da crença como uma espécie de ademane do espírito, ajeitando o cabelo ao passar em frente ao espelho que nos espia a alma, os outros servindo-se dela como pretexto para perseguirem a diferença, para darem cabo dos modos que tem o mundo de escarnecer de quem coça a sua fraqueza tirando à vida a sua graça.


Diogo Vaz Pinto, Graham Greene. Peregrinação em busca de um tipo diferente de fé, I, 06-05-2019, pp.36-39. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Pais


Qual é que é hoje a principal preocupação dos pais?


Acho que é quererem ser pais perfeitos e fazerem tudo bem e culpabilizarem-se muito se alguma coisa corre mal. Têm sempre as gavetas cheias de culpa. Querem muito que os filhos tenham tudo e não conseguem dar-lhes um bocadinho de frustração. Quando dizem Maria não vais comer um gelado porque acabaste de comer um. Alguns não conseguem dizê-lo, a Maria faz uma birra e leva um segundo gelado. Mas mesmo aqueles que conseguem e dizem que não, ficam mortificados, o que fiz à minha filha. (...) Sim, coitadinha, queria tanto o gelado. Não deu e pronto. As pessoas têm de perceber que não é isso que põe em causa o amor dos pais, pelo contrário, as regras, a firmeza e haver alguma orientação são uma demonstração de amor, mesmo que os filhos fiquem furiosos. O nosso papel é desmontar essa fúria e mostrar que há mais tempo, há mais gelados. É essa a perspectiva que os adultos têm de dar e por vezes se demitem, a perspectiva de quem já viveu, tem experiência e que a experiência diz que é preciso ter calma. (...) Sim, mas [dar o segundo gelado] é comprar afecto, é despachar tudo. Mas se calhar acaba o segundo gelado e pede o terceiro e com que cara é que a pessoa não dá o terceiro. E este quero tudo já leva ao narcisismo, que é a pior doença social, a que desgasta mais. Está muito relacionada com o poder: os narcisista quando tem poder, seja doméstico, social ou político, sobe aos píncaros

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.26.

Armados em super-homens


Sinto que [os pais] passam [aos filhos] muitas vezes a mensagem "tens de ter, tens de ter, tens de ter". Às vezes fico a pensar nesses casos todos que vemos: para quê querer ter tanta coisa? Muitas pessoas passam a vida a trabalhar e nem gozam nada, não têm tempo. E isso é outra coisa que vejo: as pessoas pensam a certa altura que são imortais, aquela ideia que se tem na adolescência. Ora, não vamos viver para sempre, é uma ilusão. A nossa vida é limitada. Mais, é quase ridícula quando comparada com uma árvore ou um saco de plástico. Até coisas tão banais vivem largamente mais tempo que nós. Ainda noutro dia estava em Serralves a olhar para uma oliveira. Aquela oliveira carcomida tinha mais de mil anos. Se uma pessoa se puser a pensar no que era isto quando aquela oliveira nasceu, como era o mundo, relativizamos muita coisa. Faz-nos sentir ridículos, não num sentido pejorativo, mas mostra como a nossa existência é pequenina. Não vale a pena estarmos armados em super-homens porque não somos.

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.23.

Arquétipos


Tínhamos uma boa vida e não vou negar isso mas tínhamos o que precisávamos, não mais do que precisávamos. [O meu pai] era uma pessoa altamente espartana, tinha vindo sozinho de Goa aos 14 anos, para casa de um tio jesuíta, muito rígido, rigoroso e exigente. Herdou um bocado isso. Quando tínhamos boas notas, enquanto alguns pais ofereciam prendas aos filhos, o meu pai dizia sempre "têm livros, andam numa escola boa - andava no Pedro Nunes - e portanto não fizeram mais do que o que deviam". Às vezes, irritava-me, via os meus amigos com isto e aquilo, mas fez-me muito bem. O meu pai era muito solicitado até para a vida social e nunca fez nada disso. Gostava de estudar, fazia consultório [pediatria] porque precisava, tinha oito filhos, mas eram só três dias por semana entre as três e as seis da tarde. (...) São as memórias que ficam e que depois reproduzimos, são os tais arquétipos de opções de vida: mesmo quando estava a trabalhar na faculdade, fazia tudo por ir almoçar a casa. Gostava de estar ali aqueles dez minutos e nós todos fazíamos um esforço para ir almoçar. Depois íamos tomar café. O meu pai ia sempre dormir um quarto de hora antes d ir apanhar o metro para ir para o consultório e pedia sempre a um de nós que escolhesse um disco para pormos a tocar. Não tocava nenhum instrumento mas era um melómano e contava sempre alguma coisa sobre as músicas. (...) Enganar e repetir não sei quantas vezes. Uma das coisas que aprendi mais com ele foi que não somos perfeitos, longe disso. O que devemos pensar é que somos imperfeitos mas isso é uma vantagem: é um estímulo a aprender, a melhorar, a aperfeiçoar. Voltamos ao início: leva-nos a pensar no que podemos fazer para que amanhã seja melhor do que o hoje.

Mário Cordeiro, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.22.

Discutir um livro


Tive a sorte de fazer parte do meu estágio em Inglaterra. O ensino inglês não era aquele género de encher um anfiteatro de 100, 200 ou mil alunos e depois estar ali alguém a debitar. Era tutorizado. Cheguei a dar aulas lá e tínhamos grupos de cinco, seis alunos. Obviamente havia aulas mais teóricas e eram mais expositivas. Mas no final da aula o professor lançava o desafio de estudar ou pensar sobre alguma coisa. (...) Um professor (...) dizia: "daqui a dois dias vamos discutir este livro no Brown's", que era um café ali perto. Às cinco da tarde lá estávamos e não era dizer que tínhamos lido o livro e desbobinar, perguntava o que achávamos da estrutura, coisas assim. (...) Pergunto quantos professores de português do 11º ano aqui da região de Lisboa disseram aos alunos que até dia 18 está uma exposição gratuita na Gulbenkian sobre "Os Maias" ou organizaram uma visita. Se fosse 100% seria perfeito, suspeito que não. Às vezes, convidam-me para ir dar umas aulas ao Liceu Filipa de Lencastre onde andam os meus filhos - um está no 11º e os gémeos estão no 10º - e oiço aquele comentário "'Dos Maias já há o filme, que bom". O objectivo não é saber a história, conta-se num minuto. É o prazer de ler Eça, as palavras, a descrição dos lugares. Gostei muito do filme, mas quando li fantasiei o Carlos da Maia e a Maria Eduarda à minha maneira e é essa fantasia que se tem na leitura que é importante.

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.22.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Duas perguntas por aula


As crianças estão a ser habituadas a não pensar. A Universidade do Porto fez há pouco tempo um estudo, creio que no secundário, em que chegou à conclusão de que a média de perguntas por aula eram duas. Fazendo uma pool de todas as perguntas, em 60% dos casos a pergunta era "setor, posso ir à casa de banho?"

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, "Não vale a pena andarmos armados em super-homens porque não somos", I, 08-02-2019, p.22.

Vidas apressadas


A maior parte das pessoas que recebe não se sente bem com a vida que leva?

Diria 99%. Uma esmagadora maioria das pessoas que falam comigo não estão muito contentes. Claro que há uma insatisfação que é própria do ser humano, que nos faz evoluir. Num marasmo não haveria sequer arte, os movimentos criativos resultam de rutura, angústia. Portanto, ainda bem que o ser humano quer mais e melhor, outra coisa é sentir o stress e a angústia de uma vida apressada. Se tivesse de elencar o problema número um, seria esse. 

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, "Não vale a pena andarmos armados em super-homens, porque não somos", I, 08-02-2019, p.21.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Da série "os últimos 30 anos do futebol português" (II)


Rui Santos: O "Playoff" tem uma coisa que os outros não têm: há uma consciência crítica. Por exemplo, o Rodolfo [Reis] é capaz de criticar o FCPorto (...) 
O Manuel Serrão não me parece que esteja condicionado a uma cartilha. Não vejo isso.

I: Então o FCPorto até é o mais independente no meio disto tudo, não? Se tem o Rodolfo, o Manuel Serrão...

Rui Santos: Sim, o FCPorto nesse aspecto (...) é o menos organizado. (...)
Tenho a sensação clara de que alguns jornalistas ditos independentes são fabricações dos próprios clubes. Alguns começaram a ser notados em estações televisivas de clube e acho que isso não é a melhor forma de começar a actividade. (...)
Na verdade, abomino cartilheiros. É a pior representação a que um ser humano se pode sujeitar, pelo que a isso corresponde em termos de indigência intelectual. (...)

I: O que pensa de Pinto da Costa?

Rui Santos: O melhor presidente de futebol em Portugal.


Rui Santos, entrevistado por Bruno Venâncio e Vítor Raínho, I, nº2871, 18-01-2019, pp.20-27.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

"Boxing Day"


Nos dias de hoje famoso pela parte desportiva, o Boxing Day ou St. Stephen's Day, era, há mais de 200 anos, reconhecido em Inglaterra como o segundo dia de Natal. 
E este prolongamento das festividades tinha um motivo simples: o 26 de Dezembro era o dia concedido pelos patrões aos seus subordinados, que tinham estado de turno no dia de Natal. Naturalmente. Assim, no dia seguinte à consoada, os empregados podiam gozar a folga a que tinham direito para estar junto das suas famílias. Dia merecido e presenteado com as tais "boxes". Ou, em português, "caixas". Depois do Natal, os patrões tinham o hábito de oferecer aos empregados caixas com os restos de comida da consoada para estes levarem para as suas festividades. Foi desta forma que o "Dia das Caixas" [Boxing Day] foi ganhando fama.
Mas, afinal, o que é que o futebol tem a ver com isto? É que era precisamente nesta visita às famílias que outro interessante conceito foi ganhando forma: de maneira a que houvesse mais público nos campos, os clubes locais defrontavam-se nesse dia (os famosos dérbis). 

Laura Ramires, Boxing DayAté os restos de comida ganham outro sabor, I, 26-12-2018, pp.42-43.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A vida não é fácil


Viver com uma outra pessoa é muito complicado, a capacidade de compatibilização de duas personalidades, feitios, carácter, preferências. Mas viver sozinho é mais difícil ainda, potencia a solidão, as doenças mentais, por regra morre-se mais cedo. Um casal que se apaixonou profundamente, que viveu muito em função do sentimento tende a ser, porventura, o que mais abalará: no amor, o edificar, o querer edificar, ter um projecto de vida, é o mais importante. Ou como, além de sentimento, no amor há razão e vontade. Educar, hoje, implica procurar que a descendência seja capaz de enfrentar o(s) outro(s), ter personalidade, conseguir lidar com os outros, com os quais vai lidar em múltiplas circunstâncias, em templo de pluralismo - diversos contextos e muito desafiantes - e de solipsismo e egocentrismo (dificuldade de desligar de si e sair para os outros). Daniel Sampaio, psiquiatra e em jeito de sabedoria, este fim de semana, ao I.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Política intra-partidária


Foto de Semanário SOL.
Não se pode dizer que, desde o momento zero da liderança de Rui Rio, o novel líder do PSD não tenha sido avisado do que iria ter pela frente: "Rui Rio vai ter oposição e não é a brincar" (disse Abreu Amorim, no próprio sábado do Congresso que entronizou o ex-edil do Porto, em entrevista ao mesmo semanário que hoje brinda com esta capa; e, mesmo assim, a entrevista é, cronologicamente, posterior às advertências de Pacheco Pereira, na Quadratura, sobre o que se seguiria pela nomenclatura que entretanto caíra; teoria da conspiração? vê-se). Só podiam poupar-nos os jornalistas indignados cada vez que, olhando-se para uma manchete, observando-se a mancha principal dos órgãos oficiosos (oficiais?) do tempo pretérito, se vê poucochinho jornalismo - "Santana avança se Rio cair até ao Verão" é, em rigor, não uma notícia, mas um título completamente especulativo e insidioso que, para mais, não está remetido a qualquer caixa, ou assunto mais ou menos de rodapé [qual o substracto de uma real possibilidade de queda de Rio da liderança do PSD a breve trecho? Conversas de corredor entre alguns políticos de facção e jornalistas que as ouvem, ou que delas participam, chegam para uma manchete? Mesmo o Expresso, que embora com menos destaque editorial, lançou o assunto há uma semana, tinha um artigo completamente especulativo que, tudo espremido, não era nada, a não ser afirmar que há uns senhores no PSD que não gostam da actual liderança. E então?] - e muito mais uma mistura entre títulos para vender jornais e o provocar danos, fazendo-se política intra-partidária. 
A propósito: na semana passada, a lista apoiada, segundo os jornais, pela direcção do CDS à concelhia do Porto deste partido, perdeu as eleições internas. A notícia foi dada de mansinho, só mesmo um leitor ou cidadão mais interessado na política terá dado por ela, mas mostra que quando os factos não encaixam na narrativa - a subida e marcha triunfal e imparável rumo à ultrapassagem deste PSD de Rio - o melhor é não fazer muito barulho e deixar as manchetes para factos potenciais, bem mais atraentes do que a comezinha realidade. Para que queremos a realidade, se a ficção é bem mais apetitosa?

P.S.: quanto ao papel de Santana Lopes, nestas coisas: ir à entrevista com Vítor Gonçalves no melhor espírito conciliador, para dali a uma semana estrear (de novo) na Sic Notícias com uma valentes caneladas, explica porque para muita gente a volatilidade que apresenta não é a característica mais requerida para os principais lugares do Estado. Nem se pode ir atrás dos facebooks nem das ondas, que irão como vieram. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Leituras diversas


*Hélia Correia sobre Frederico Lourenço

*A grande ironia de discursos xenófobos é ver países, muito naturalmente, preocupados não com o excesso, mas com a falta de imigrantes. Às vezes, até os nossos emigrantes vêm da Suiça com esse discurso anti-imigrantes, como se não partilhassem da mesma condição. Este texto, nesse sentido, tem um carácter muito pedagógico: ler aqui. 


* "Para o investigador e especialista em Educação da Universidade Católica, Joaquim Azevedo, as mudanças previstas [para as escolas, nos curricula e métodos de ensino] são, mais cedo ou mais tarde, inevitáveis”. “Tenho estado em algumas escolas [que aderiram ao projecto] e tenho constatado dificuldades, mas nada que não se possa ultrapassar". Mas para concretizar esta visão optimista, acrescenta, vão ser precisos “recursos adicionais, pessoas experientes e financiamento, seja para a formação [de professores], seja para o acompanhamento e avaliação, seja ainda para a capacitação dos directores e das lideranças pedagógicas intermédias". E depois é preciso contar com esse obstáculo maior que é a resistência à mudança. “As rotinas instaladas são poderosas e na hora de colocar de pé uma escola mais motivadora e promotora do sucesso escolar de todos e de cada um, isso cria muitas dificuldades na concretização dos novos projectos, como se houvesse uma mó que nos prende atrás enquanto queremos seguir em frente”, diz Joaquim Azevedo. Que dá conta também do seguinte: “O drama existe quando os directores e professores nos dizem que já há muito que fazem isto que agora se quer realizar e, de uma penada, prosseguem a execução do projecto, a fazer o que é (seria) novo como sempre fizeram o que é (efectivamente) velho, normalizador e ineficaz”, no Público. Ler: aqui. Joaquim Azevedo foi dos principais responsáveis pela introdução desta reforma curricular, entre nós, na medida em que foi quase pioneiro na defesa pública dessa agenda. Se, na sua área política fosse mais escutado, se no comentariado político tivesse assento (nomeadamente nas tv's), evitavam-se os slogans e as frases feitas, e uma oposição apenas "ideológica" (e fraquinha) e passava-se a uma discussão mais conhecedora.

*Uma deputada do PSD avisou, por email, segundo os jornais, o que aí vinha na liderança daquela bancada parlamentar. A sessão legislativa não podia ter acabado pior.

* João Pedro George, hoje, em entrevista ao I [nesta questão, em particular, de acordo com António Araújo]: Pensa que essa sobranceria é outra chave para perceber a actual irrelevância da crítica? Por se recusar a ter em conta manifestações de ordem social? 

 Em parte sim. Escritores como José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Domingos Amaral, Margarida Rebelo Pinto, etc., devem ser estudados, não pela fama, pelo prestígio ou pelo dinheiro que possuem, mas porque têm um alcance social enorme. Não só para perceber o que é que há nesses livros que atrai tantas pessoas, mas também para criticar a visão estática, rudimentar e esquemática da realidade que está por trás desses romances. E ainda para chamar a atenção para um determinado clima estilístico, quase sempre bastante rançoso e sem grandes subtilezas intelectuais, onde as metáforas, as comparações, o léxico, a própria estrutura frásica, a arquitectura de conjunto só por caridade é que podem ser considerados literatura. Tanto o Equador como o Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, são bons exemplos da mentalidade machista e marialva em que ele vegeta. As descrições físicas das personagens femininas, de um mau gosto clamoroso, sobrepõem-se quase sempre à caracterização psicológica. Além de que os atributos físicos e eróticos dos homens, que poderiam explicar atracção das mulheres, nunca são descritos, provavelmente porque isso poderia pôr em causa a masculinidade do próprio Sousa Tavares. Depois, as negras e as mulatas são invariavelmente reduzidas à esfera animal dos instintos primários e da sensualidade mais compulsiva, por isso são tantas vezes comparadas a gazelas. No Equador a subjectividade ou o ponto de vista dos negros nunca é descrito e quando aparece é apenas para sublinhar o humanismo de Luís Bernardo, quando ele se opõe às injustiças dos outros brancos. Regra geral, os negros são concebidos como entidades homogéneas, são circunscritos às emoções e pensamentos básicos de agradecimento, medo, submissão, raiva, etc. Mas se até mesmo as personagens principais quase nunca estão submetidas a um grande número de ambivalências… A verdade é que ele revela-se incapaz de articular os problemas pessoais das personagens com as estruturas sociais que os criaram, os amplificaram e lhes colocaram determinados dilemas ou contradições.


*O exemplo da NBA como bem presente na hora de pensar em soluções para limitar uma concentração de poder económico-financeiro e desportivo de determinados clubes: tectos orçamentais a caminho? Multas pelo luxo? Chegam tarde e veremos se chegam a ser concretizadas, estas medidas.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A crise (portuguesa) e suas origens


Cinco anos depois, continuamos a discutir as origens da crise (no que ela tem de especificamente portuguesa), as responsabilidades dos nossos dirigentes à época (ou em diferentes épocas), a importância dos factores externos para a emergência da mesma. Em virtude de a leitura ideológica e partidária tender a primar em muitas das análises, talvez mesmo quando mais anos tiverem passado desde esta concreta crise, ainda assim a completa concordância de pontos de vista dificilmente será exequível. Todavia, creio que hoje, na excelente entrevista que dá ao jornal I, Ricardo Paes Mamede pontua muito bem a questão (face à investigação que foi sendo publicada nos últimos quatro anos), numa visão equilibrada que considera constrangimentos internos – não raro obliterados à esquerda -, mas concluindo pela primazia da dimensão do peso de factores exógenos a Portugal – algo que à direita não é particularmente relevado.


"A segunda questão é saber se estamos nesta situação por escolhas internas ou por condicionalismos externos. Não há nenhuma governação que seja perfeita, e isto dá um poder enorme a quem recusa que haja condicionalismos externos porque os problemas seriam sempre motivados por falhanços internos. Houve erros internos em Portugal. Podemos apontar, por exemplo, políticas orçamentais que foram expansionistas quando a economia estava a crescer e que foram contracionistas quando a economia estava em recessão, o que é o contrário do que se deve fazer; podemos apontar o excesso de investimento em infraestruturas que a certa altura deixaram de ter razão de ser, tornaram-se pouco produtivas e redundantes do ponto de vista social. A questão é saber qual é o peso desse tipo de decisões de política interna para explicar a nossa situação, perante todas as transformações que houve, tanto a nível europeu como fora dele, que parecem muito mais importantes para explicar a situação a que chegámos".

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Umas vezes me espanto, outras me envergonho


Sabia-se que ia valer tudo na pré-campanha e na campanha eleitoral para as próximas legislativas. Mas, de facto, não deixa, ainda assim, de espantar o critério editorial do jornal I, que nesta sexta-feira concede uma extensa mancha da sua capa a uma sondagem interna de um dos concorrentes a estas eleições. Uma opção que permite dar o resultado de uma sondagem sem a realizar (sem nela nada investir: não responder por ela nem financeira, nem eticamente); que tende a igualizar uma sondagem de uma empresa conhecida/credível para um órgão de comunicação social (Católica, Eurosondagem, etc.) com uma outra feita para um partido (será que o I vai falar da metodologia da sondagem? Que escrutínio desta, sabendo-se que mesmo relativamente às que aparecem nos media, como um recente trabalho da Visão divulgou, falta uma bem maior/melhor supervisão/fiscalização das sondagens); mexe com as expectativas de campanha, e de todos os eleitores, como qualquer resultado de uma sondagem. Não duvido que a sondagem exista, ou apresente os dados oferecidos pelo jornal (mesmo que há menos de duas semanas uma grande sondagem, publicada pelo Expresso, tenha oferecido resultado bem diverso deste ora referido). Penso é que é inédito o destaque, com chamada à capa, dado por um órgão de comunicação social a uma sondagem interna de um partido (ou coligação) e que na ponderação dos bens em jogo - credibilidade da sondagem, expectativas eleitorais, aproveitamento do trabalho de outrem para divulgar uma sondagem na qual nada se investiu, igualdade de tratamento de partidos [o I dará amanhã destaque a uma outra sondagem do género: "PS rejubila com sondagem que lhe dá 7% de avanço", ou "BE exulta com sondagem que lhe garante dois dígitos"?] - a prudência aconselharia, claramente, uma outra opção jornalística.

domingo, 2 de agosto de 2015

Costa ao I

i

Maria de Lurdes Rodrigues não será a próxima ministra da Educação, mesmo que António Costa venha a ser o próximo Primeiro-Ministro de Portugal. É o que se deduz dos vários fins-de-semana que Costa diz ao I ter passado, enquanto Ministro, a tentar preencher os "quinhentos" papéis de um autêntico "monstro burocrático" que o modelo proposto pela ex-ministra preconizava para a avaliação de professores. Com uma mulher professora, Costa via a esposa participar em manifestações contra o governo de que este fazia parte, e diz que aprendeu a lição de que não se governa, não se reforma contra uma classe profissional. Cada vez mais solto face aos governos Sócrates, Costa terá assim produzido a afirmação mais (auto) crítica relativamente a um dos aspectos de uma governação socialista. Dito isto, puxou dos galões quanto à capacidade de levar um governo minoritário até ao fim de uma legislatura - ele que como ministro dos Assuntos parlamentares esteve na equipa do único governo que, não tendo maioria absoluta, completou os quatro anos de mandato (1995-1999, António Guterres era PM). E questionou, de modo retórico, sobre o porquê de nas eleições autárquicas em Lisboa ter recebido, sucessivamente, uma percentagem de votos mais elevada (principiando em 29% e terminando em 52%). Resposta: porque fez ainda mais do que prometeu. Tal pretende evidenciar a prudência com que agora, de novo, se dota, o certo cumprimento das propostas que faz, mais ainda, não se podendo comprometer com exactos valores em sede de aumento de progressividade de IRS, a garantia de uma surpresa, pela positiva, neste âmbito.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Talento


I: Passamos pouco tempo a pensar sobre nós próprios?
Tiago Forjaz: Claro, e a pensar no nosso argumento. Quem somos, o que queremos, que legado queremos construir, que mensagem queremos deixar. Há uma coisa muito importante no talento: é que só conseguimos ser resilientes se construirmos algo em cima do nosso ponto de vista original, a ideia de quem somos. Depois da intempérie, como volto ao estado inicial? Para isso tenho de me conhecer e isso obriga-me a ter consciência do meu propósito de vida.
Tiago Forjaz, em entrevista a Pedro Rainho, no jornal I, no suplemento Educa, p.11, 27/05/2015.

sábado, 23 de maio de 2015

Um balanço




I: Que balanço fazes destes anos de governo de Passos Coelho? É possível falar de uma mudança de paradigma da direita?

Pedro Mexia: Julgo que é possível, sim. A mudança já começava a existir antes deste governo, na blogosfera já era visível uma reconfiguração da direita portuguesa que se afastava de alguns sectores. Gente mais jovem e académica que se afastava do padrão democrata-cristão (estou a ser genérico). Uma visão mais parecida com os economistas austríacos ou com a chamada escola de Chicago. A ideia individualista era mais forte que o sentimento colectivo, ou, dizendo de outro modo, era visível a dissolução de uma matriz cristã. Aconteceu, sim. Nalguns momentos senti isso como um retrocesso, em alguns momentos houve figuras ligadas a este governo que fizeram declarações públicas que revelaram uma insensibilidade social muito gritante. (...) Tudo o que não respeita o sofrimento alheio, incluindo o desemprego e a pobreza, não me interessa. É o meu fundo católico, se quiseres.

entrevista concedida por Pedro Mexia a Luís OsórioI, ano 6, número 1869, 25/04/2015, p.25.

sábado, 18 de abril de 2015

Classe média




Pacheco Pereira responde hoje, no I, entre outros, a Vasco Pulido Valente:

Muitas vezes os críticos da classe média em Portugal dizem: 'ah, a nossa classe média cresceu encostada ao Estado'. É bom que se diga que nasceu encostada ao Estado em quase todos os países europeus, porque havia a consciência de que não podia haver uma sociedade de proletários e de muito ricos. E a classe média, com o crescimento do Estado em várias funções, como os correios, na saúde, na própria administração, no ensino, foi o mecanismo no qual se criava uma classe que funcionava como 'buffer' social que retirava as pessoas da pobreza e impedia a polarização social. De tal maneira que a geração seguinte era sempre mais letrada que a anterior. Esse mecanismo foi o primeiro a ser destruído com o processo de ajustamento em Portugal liderado pela actual maioria. E não necessitava de ser.

entrevista de José Pacheco Pereira, concedida a Luís RosaI nº1863, ano 6, 18 de Abril de 2015, p.24.

segunda-feira, 16 de março de 2015

O "medo de existir"


Leitor das críticas que lhe foram formuladas a quando de Portugal, o medo de existir, José Gil responde assim, a Luis Osório, este fim de semana, na entrevista publicada pelo I

O que raio é ser português?
Eu não sei. Quando me falam nisso, quando querem fazer de mim um especialista de identidade portuguesa, recuo sempre. Não tratei da identidade portuguesa, penso sobre mentalidades que são transitórias por natureza. Não sei qual é a identidade portuguesa.

[I, nº1833, 14/15 de Março, 2015, p.26]