[Graham Greene] soube tirar mais da dúvida. (...) Foi um miúdo dolorosamente tímido (...) [em que] a depressão na adolescência o levou a cultivar um certo fascínio pelo suicídio (...) sendo a literatura uma forma de codificar e interpretar a vida (...) Compreendia e aproveitava-se da vida não se reduzir a uma equação moral (...) a frieza de quem sabe como a virtude pode encerrar-nos num cárcere e que funciona mais como uma orientação geral para os espíritos que não se entendem com as entrelinhas nem têm o que fazer às subtilezas.(...) Há o reconhecimento de um sentido de graça, a partilha de uma consciência soberana das coisas, um entendimento firme que nos torna cúmplices face a um sentido ulterior. (...) Esse aventureiro sem paciência para os modos requintados de se ser covarde (...) Alguém que 'apesar do seu catolicismo, estava sempre a tentar descobrir a santidade em figuras seculares, valorizando nos outros uma simplicidade e inocência que lhe foram negadas' (...) repudiando a fé como esconderijo (...) cita Blake (...) 'quem deseje fazer o bem aos seus vizinhos deve fazê-lo nas pequenas ocasiões, pois o bem geral é sempre invocado por canalhas, hipócritas e bajuladores' (...) Concordando com Charles Waterton, sentencia: "neste país o catolicismo que devia produzir revolucionários produz apenas excêntricos (a excentricidade viceja num sistema social desigual). Adianta ainda que "conservadorismo e catolicismo deveriam ser impossíveis aliados" (...) E ainda cita o Aliocha de Os Irmãos Karamazov, que se despoja de tudo para servir a Deus: "não posso renunciar a dois rublos em vez de 'tudo o que tendes' ou limitar-me a ir todos os dias à missa em lugar de vinde e segui-me". (...) A extrema disciplina com que se dedicava à escrita - todos os dias, mal o sol raiava, obrigando-se a escrever 500 palavras nuns pequenos cadernos, e não mais, ao ponto de ficar muitas vezes a meio de uma frase - se tornar aparente na eficácia de uma prosa que não brinca em serviço. (...) Não menos poderosa é a noção de que talvez só se possa salvar a fé deixando-a à beira da extinção, de modo a que nos livremos por uns tempos destes tão relutantes fiéis, ou desses outros, tão odiosos. Uns servindo-se da crença como uma espécie de ademane do espírito, ajeitando o cabelo ao passar em frente ao espelho que nos espia a alma, os outros servindo-se dela como pretexto para perseguirem a diferença, para darem cabo dos modos que tem o mundo de escarnecer de quem coça a sua fraqueza tirando à vida a sua graça.
Diogo Vaz Pinto, Graham Greene. Peregrinação em busca de um tipo diferente de fé, I, 06-05-2019, pp.36-39.


