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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Notícias e opiniões


*É curioso verificar como a globalização é rejeitada, numas partes do globo, por motivos económicos (as deslocalizações, a competição com recurso a dumping social, etc.) e, noutras, por razões culturais. É, este último aspecto, o que está em causa na Europa central: um nacionalismo identitário que recusa a globalização por trazer/fazer a apologia de, na voz dos líderes de países que recorrem a um discurso fortemente identitário, movimentos homossexuais, feministas, ou o ateísmo. O fechamento nacionalista também se faz, pois, com recuso a estes mantras
Mas um traço muito preocupante, a propósito da Europa de Leste, é a declaração de Órban de que as democracias liberais não serão, a breve prazo, competitivas (no que me fez recordar do livro de Robert Kagan, O regresso da história, que deve ter uma década e na qual o autor colocava, justamente, esta questão da possível atractividade de regimes autoritários que obtivessem bons resultados económicos, caso as/determinadas democracias não os alcançassem).

*Um outro modo de olhar a Hungria e Polónia. Na entrevista ontem concedida ao Público, Vasco Pulido Valente afirmava que os húngaros e polacos só são húngaros e polacos há 30 anos, pelo que em primeiro lugar têm que afirmar a sua nacionalidade. Não poderiam ser já democratas-liberais. Na mesma entrevista, VPV regista a possibilidade de cisão, de fim do estado federal brasileiro com Jair Bolsonaro, podendo, assim, cair-se no separatismo. O historiador, de direita, encontra em Rui Ramos o único historiador capaz de escrever em bom português, acusa Raquel Varela de profunda ignorância, identifica Mário Soares como o político português mais importante da modernidade (desde as invasões francesas), não leu o I Volume das memórias de Cavaco, nem lerá o II Volume, acusando o ex-PM de ser inculto (mesmo politicamente) e de ter feito mal ao país, ao mesmo tempo que, em sentido contrário, diz gostar muito de Passos Coelho. A direita portuguesa, considera, não recuperará dos votos perdidos em 2015 - já não regressam, sustenta -, ao mesmo tempo que zurze Rui Rio - "uma pessoa alucinada", "ultra-autoritário" e que se julga "superior" aos demais políticos, no retrato implacável do colunista. Considera a "UE um veneno que vai acabar". Numa confissão auto-biográfica, revelou-se, desde cedo, "incompatível" com a mãe, remetido a um conjunto de colégios internos. Durante a ditadura, em casa comia "bifes com batatas fritas" e tinha acesso aos jornais que lhe interessavam, mas, em 1958, a quando do ingresso na universidade, onde apenas estavam 6 mil outros seus compatriotas, verificou a miséria do ensino superior em Portugal àquela data. Quando foi estudar para Oxford, tinha que estudar "14 horas por dia" para recuperar do atraso e ignorância de matérias, autores, personalidades que desconhecia mas que para os seus colegas eram familiares. Qualifica como "fraude" as ciências sociais (sociologia, relações internacionais, ciência política).
Sem o 25 de Novembro, haveria terrorismo em Portugal e o único azar de Costa seria PS e BE terem juntos a maioria absoluta, na medida em que a facção Pedro Nuno Santos ganharia a força necessária para colocar em causa as parecerias público-privadas, ou forçar um regime de exclusividade dos médicos, por exemplo, o que Pulido Valente não considera, dada a ideologia em que se revê, positivo.
"Os anos 20, no mundo de hoje, vão ser como os anos 30 do século passado", sobretudo na (re) emergência dos nacionalismos. Essa frase pode comparar-se com o que disse Nicolas Baverez na entrevista já aqui citada e confronta com o que Ian Kershaw disse ao Expresso (num fim de semana que, por coincidência, teve várias entrevistas a historiadores na imprensa portuguesa de referência): "sim, podemos encontrar analogias e paralelismos [entre o tempo que vivemos e a década de 30 do século passado]. Há alguns elementos nos actuais partidos populistas, por exemplo, que fazem lembrar o fascismo. Estes partidos não serão fascistas, mas têm um elemento na sua clientela que é abertamente fascista. Além disso, o momento actual está marcado por perigos e ameaças internacionais, bem como pelas sequelas de uma enorme crise económica e financeira, semelhante à que tivemos nos anos 30. Em suma: encontro analogias em todo o lado, mas as diferenças são muito maiores do que as semelhanças (...) A comparação não funciona. Acho que o melhor é mesmo mantermo-nos afastados desse tipo de comparações. Deparamo-nos com dificuldades próprias e temos de fazer frente a elas em termos modernos, sem tirar lições dos anos 30. Dizer que Trump é como Hitler é um disparate que não faz sentido".

*O poder económico da China é oito vezes superior ao da Rússia.

*Talin, na Estónia, há 5 anos, foi a primeira capital europeia com transportes públicos gratuitos para todos os residentes; agora, Dunquerque, com 200 mil habitantes, passa a ser a maior cidade europeia a repetir tal experiência, mas a alargá-la, ainda, a não residentes

*Portugal prepara-se para perder, este ano, provavelmente, mais de um milhão de turistas face ao ano transacto.

sábado, 28 de junho de 2014

Em busca da verdade


Lera, há uns anos, numa entrevista de Ian Kershaw, e havia tomado como adquirido, que apesar de ambos absolutamente execráveis, os anti-semitismos cristão e nazi, respectivamente, se haviam distinguido, historicamente (e filosoficamente, se se pode dizer assim) por, no primeiro dos casos, face a um dada condição religiosa ela poder ser alterada (conversão) e, portanto, a eliminação das pessoas não ser um passo que se seguia (obrigatoriamente), enquanto que, no segundo dos casos, o problema era tido como racial e, logo, só com o desaparecimento dessa "raça" a pureza ariana era alcançada.
Todavia, entrevistado, hoje, no suplemento cultural do Público, o (27/06/2014), a propósito da edição do livro Racisms: from the crusades to the twentieh century, o historiador português Francisco Bethencourt afirma que "a diferença entre religião e descendência não existe. Os preconceitos em relação à religião judaica ou muçulmana foram transferidos para as populações que tinham sido convertidas. É como se a conversão não tivesse tido lugar, porque os cristãos velhos consideravam que os atributos físicos e mentais dessas populações se reproduziam de geração em geração (...) Do ponto de vista colectivo, é um dos casos mais flagrantes de acção discriminatória que rompe com toda a tradição de igualdade dos cristãos, porque a mensagem de São Paulo foi de difundir Jesus a toda a humanidade, saindo do contexto étnico judaico" (p.8). Se, a crer neste historiador, no caso da perseguição a judeus, nomeadamente na Península e, em particular, em Portugal, não assentou, exclusivamente, na dimensão religiosa, por outro lado, a perseguição rácica na Alemanha nazi assentou, também, em um preconceito religioso: "os preconceitos religiosos são mobilizados na perseguição aos judeus. Penso que é um aspecto em que também há alguma novidade no livro" (p.8).
Para futuros debates, identificadas posições diversas, em busca da verdade.