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sábado, 6 de maio de 2017

Sem jacobinismos


A tolerância de ponto concedida para a próxima sexta-feira convocou, de novo, a terreiro os sentinelas mais apaixonados, que não perdem uma oportunidade de se fazerem notar, a par de uns tacticistas mais dados ao (momentâneo) oportunismo (na disputa partidária).
Ainda que partindo de uma pré-compreensão do mundo diferente da minha, como é óbvio (ele descrente), este texto de José Pacheco Pereira, no essencial, e ainda que tivesse algumas discordâncias pontuais, é equilibrado e mostra como não é preciso ser-se crente para reconhecer o papel (actual) da Igreja. Num tempo em que muitas vezes é "trés chic" dizer mal desta, por tudo e por nada, há quem, não sendo católico, não alinhe em atitudes jacobinas (obsoletas) e reconheça o contributo indispensável ao mundo, por parte da Igreja Católica. Quando tantos vão em modas, a rebeldia não consiste em atirar-se à mundividência que defende o humano como nenhuma outra, mas, exatamente, o inverso.

sábado, 18 de março de 2017

Uma renúncia explicada


Sobre a renúncia de Bento XVI, a explicação do próprio não eliminará as desconfianças de muitos, nem, evidentemente, poderia (poderá) esgotar a leitura (plural) do seu significado. No entanto, sobre este ponto, o Papa Emérito, no livro de entrevistas com Peter Seewald, Conversas Finais, é bem claro, ao afirmar que não foi empurrado, nem pressionado para sair - e, caso tal tivesse sucedido, então é que permaneceria, mesmo, no cargo. Nem, tão pouco, em algum momento, causaria um escândalo para provocar uma limpeza na Igreja (p.50). Pareceu-lhe que o que tinha a dar, estava dado (à Igreja), o cansaço das viagens ao México e Cuba tremendos, o horizonte das Jornadas Mundiais da Juventude, no Brasil, demasiado penoso - o médico proibira-lhe viagens para a América. Só porque tudo estava pacificado, aduz, pôde tomar a decisão, comunicada em latim (p.44), porque uma decisão tão relevante teria que ter tal solenidade. A ideia de que já não consegue cumprir as funções inerentes ao Pontificado pode cair em âmbito de uma interpretação excessivamente "funcionalista", da sua parte, do Papado, mas há limites que lhe pareceram, mesmo, inultrapassáveis. O exemplo de João Paulo II estava contextualizado num Pontificado longo, num século em que o seu antecessor tinha carregado "o mundo aos ombros" e aquele martírio se incluía em tal lógica; a um pontificado de 8 anos, não poderia juntar-se 8 anos no mesmo estádio de doença (que se vira a J.Paulo II). E, na verdade, "não podíamos repetir a experiência [de J.Paulo II] indefinidamente" (p.48). Em todo o caso, o entrevistador não deixa de questionar, comentando o significado de um gesto: "Não foi certamente por acaso que a sua última grande celebração litúrgica coincidiu com a Quarta-feira de Cinzas. Foi como se dissesse: «vejam, era até aqui que eu vos queria conduzir: purificação, jejum, arrependimento"(p.61). Ao que Bento XVI responde, não contraditando propriamente in limine, no fim da resposta: "Ter, por um lado, o Sábado Santo a prevalecer sobre o início da minha vida e, por outro, a Quarta-feira de Cinzas, com os seus múltiplos significados, a recair sobre o fim do meu serviço concreto foi algo pensado, mas também aconteceu assim" (p.61). Rejeitando a ideia de que com a sua decisão tenha secularizado ("um cargo como os outros") o Papado (até porque, exemplifica, também os Bispos não ficam no lugar até ao fim, o que não os dispensa de particulares responsabilidades e cuidado para com a ecclesia), Bento XVI reconhece, contudo, que com a sua renúncia "o carácter humano [do Papado] se tenha tornado mais evidente"(p.54). Talvez o choque tenha sido superior ao que o próprio pensava, houve quem gostando da sua mensagem se sentisse em luto pela perda de um mestre, mas não dormiu especialmente mal na noite anterior de revelar a sua decisão, tomada em Agosto de 2012, aos cardeais e ao mundo. Peter Seewald que fez um conjunto de livros-entrevista com Joseph Ratzinger, e ganhou a sua consideração, não tem dúvidas na nota que deixa na Introdução: "por fim, mas não menos importante, o acto histórico da sua renúncia transformou profundamente o ministério petrino. Devolveu-lhe a dimensão espiritual que lhe tinha sido originalmente confiada" (p.22)

sexta-feira, 27 de março de 2015

terça-feira, 24 de março de 2015

"Escutar a cidade"



O "agnóstico de proveniência católica", que ainda não resolveu o seu posicionamento face à religião e a Deus, depois de uma forte educação católica ("a certa altura, deixei de ter interlocutor"), vê uma estreitíssima relação entre religião e política (ao contrário do que supunha Hegel e do que sugere um conceito singularmente cristão, eternidade, que parece manifestar um desconforto "ontológico" com este mundo). E, na esteira de António Vieira ou Bartolomeu las Casas sublinha o património cristão/católico na valorização da dignidade do outro - algo que "nenhum Torquemada" poderá fazer esquecer. Por isso, exorta a Igreja a suscitar debates e compromissos na salvaguarda do património europeu que se esvai. Nesse sentido, manifesta alguma perplexidade por uma passividade (da Igreja) que entende existir. E puxa pelo pensamento de Hannah Arendt, cuja "grandeza" só agora estamos em condições de descobrir, traçando imprevisibilidade e irreversibilidade como marcos que sempre estarão adstritos à decisão política. E através dos escritos da pensadora alemã, judia, vem ao cristianismo recuperar a ideia de perdão para que, aplicada à política, possa permitir o desfazer de equívocos/preconceitos (entre povos europeus), dando lugar a um recomeçar absolutamente indispensável.