A cena inicial, plano sobre uma rua, a passadeira numa avenida de Teerão, mostra uma metrópole por onde há jovens de jeans e t-shirt como em qualquer lugar ocidental, mochila a tiracolo, mesclados com jovens cobertas com véu. A realidade, feita desta mistura, reconhecer-se-à, mais adiante, em uma outra cena, em que um acidentado, em estado aparentemente muito grave, pede que lhe seja gravado o testamento, via telemóvel de última geração, enquanto o dita no caminho para o hospital. O testamento visa preservar os direitos da esposa, a quem nada restaria não fosse a bondade daquele marido. As tensões modernidade/conservadorismo são expostas, inúmeras vezes, de modo hilariante até, ao longo do filme.
Entrámos no taxi do intelectual Jafar Panahi e não mais dele saímos, num conjunto de histórias susceptíveis de nos darem a conhecer o actual Irão, num enredo que passa pela micro-narrativa naif, doce, surreal até desembocar, ou dar a ver desse forma, em modo de paradoxo maior, a gélida crueldade do regime.
No carro de Panahi entra um "trabalhador independente", que mais tarde se define como "assaltante" que defende a pena de morte para os assaltantes que dias antes roubaram os pneus de um carro, de um seu conhecido, e em seu lugar colocaram uns tijolos. Que exagero!, responde-lhe a professora que segue, também, na parte de trás da viatura. Aquele tu cá-tu lá, homem-mulher, poderá parecer, de algum modo, surpreendente, ao leitor ocidental, dado o estatuto da mulher a oriente. De qualquer forma, e conquanto o "trabalhador independente" queira centrar-se na punição, e a professora - com o cabelo coberta - ache que o "importante é ir às causas" (no que teríamos uma espécie de ensaio direita-esquerda), o espectador é informado de que o Irão é recordista em execuções (de penas de morte), só suplantado pela China.
Um novo cliente está agora a bordo do taxi, um espertalhão que reconhece o "taxista" e se aproveita da fama deste para se apresentar como "sócio" do realizador e assim impingir mais uns filmes, vendidos no mercado negro, a um estudante de cinema. Conhecer Woody Allen, entre muitos outros cineastas, em Teerão, só pela porta do cavalo - diz-nos o filme, por entre o jeito para o negócio do empresário anão que tem um video-clube com entrega ao domicílio.
Duas velhotas tomam o táxi, uma das quais munida de um aquário com um peixe lá dentro, para depositar, impreterivelmente, ao meio-dia, num lago qualquer, numa localidade ainda aparentemente distante. Um abanão repentino do carro, leva a que o aquário se parta, os peixes fujam, e o condutor tenha que retirar um saco de plástico e enchê-lo de água para devolver o peixe ao seu habitat. Antes, já as velhotas levavam as mãos à cabeça - "é demasiada emoção" -, entendendo que, por via da sua data de nascimento, sem que os peixes fossem devolvidos ao lago até ao meio-dia, estas morreriam. O momento surreal do filme.
Atrasado, com um sentimento de culpa, o taxista vai ao colégio buscar a sobrinha que, longe de uma obediência acrítica e uma mansidão sem fala - como o espectador ocidental poderia (pré) julgar -, fala em tom zangado com o tio, fazendo a sua birra e convocando o especialista em cinema para o auxílio no trabalho marcado pela professora de cinema. Trata-se de filmar uma história sobre o país, onde os bons devem ser identificados por não usarem gravata, não terem a barba feita, utilizarem nomes sagrados do Islão. O filme deverá ter realidade, "mas não realidade realidade", e, muito menos, "realismo sórdido". Mais, estejam à vontade as crianças, dirá a professora, para se autocensurarem quando virem que a história tem partes menos edificantes. Política nem pensar.
Ainda que aparentemente protegida da realidade - um café gelado que ela gosta, uns mimos -, a pequena sobrinha de Panahi virá a perceber que a liberdade de expressão, ou melhor, a sua denegação por exemplo, integra o conceito de "realismo sórdido" que não é para mostra em nenhuma curta. Na escola, ou fora dela. Mas a combatividade de que a criança/adolescente dá mostras, revelar-se-à quando recebe, em nome do tio preso pelo regime, o Urso de Ouro, em Berlim.
Um filme, que o Teatro de Vila Real passou na terça-feira desta semana, que num tom (aparentemente) leve, glosando o documentário - o homem acidentado que tem muito "sangue cinematográfico" e só de um lado da cara -, questionando o modo de apreensão da verdade - o empresário anão: "pensas que eu não percebi que este casal acidentado era composto por dois actores" -, flirtando com o jogo verdade/mentira com o espectador, apostando no binómio modernidade - tecnológica, social nas respostas da adolescente - vs conservadorismo - maxime, a questão da herança da mulher, a impossibilidade de se aceder livremente aos filmes ocidentais - nos dá, num humor de quem não abdica de rir mesmo no interior de um regime tenebroso - nas voltas infantis, na realidade à parte, com a sobrinha, algo de A vida é bela recordei.