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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O Papa e o Islão


Penso que seria proveitoso fazerem um estudo crítico do Corão, como nós fizemos das nossas Escrituras. O método histórico e crítico da interpretação fá-los-à evoluir

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.81.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Um outro objecto



A cena inicial, plano sobre uma rua, a passadeira numa avenida de Teerão, mostra uma metrópole por onde há jovens de jeans e t-shirt como em qualquer lugar ocidental, mochila a tiracolo, mesclados com jovens cobertas com  véu. A realidade, feita desta mistura, reconhecer-se-à, mais adiante, em uma outra cena, em que um acidentado, em estado aparentemente muito grave, pede que lhe seja gravado o testamento, via telemóvel de última geração, enquanto o dita no caminho para o hospital. O testamento visa preservar os direitos da esposa, a quem nada restaria não fosse a bondade daquele marido. As tensões modernidade/conservadorismo são expostas, inúmeras vezes, de modo hilariante até, ao longo do filme.

Entrámos no taxi do intelectual Jafar Panahi e não mais dele saímos, num conjunto de histórias susceptíveis de nos darem a conhecer o actual Irão, num enredo que passa pela micro-narrativa naif, doce, surreal até desembocar, ou dar a ver desse forma, em modo de paradoxo maior, a gélida crueldade do regime.

No carro de Panahi entra um "trabalhador independente", que mais tarde se define como "assaltante" que defende a pena de morte para os assaltantes que dias antes roubaram os pneus de um carro, de um seu conhecido, e em seu lugar colocaram uns tijolos. Que exagero!, responde-lhe a professora que segue, também, na parte de trás da viatura. Aquele tu cá-tu lá, homem-mulher, poderá parecer, de algum modo, surpreendente, ao leitor ocidental, dado o estatuto da mulher a oriente. De qualquer forma, e conquanto o "trabalhador independente" queira centrar-se na punição, e a professora - com o cabelo coberta - ache que o "importante é ir às causas" (no que teríamos uma espécie de ensaio direita-esquerda), o espectador é informado de que o Irão é recordista em execuções (de penas de morte), só suplantado pela China.

Um novo cliente está agora a bordo do taxi, um espertalhão que reconhece o "taxista" e se aproveita da fama deste para se apresentar como "sócio" do realizador e assim impingir mais uns filmes, vendidos no mercado negro, a um estudante de cinema. Conhecer Woody Allen, entre muitos outros cineastas, em Teerão, só pela porta do cavalo - diz-nos o filme, por entre o jeito para o negócio do empresário anão que tem um video-clube com entrega ao domicílio.

Duas velhotas tomam o táxi, uma das quais munida de um aquário com um peixe lá dentro, para depositar, impreterivelmente, ao meio-dia, num lago qualquer, numa localidade ainda aparentemente distante. Um abanão repentino do carro, leva a que o aquário se parta, os peixes fujam, e o condutor tenha que retirar um saco de plástico e enchê-lo de água para devolver o peixe ao seu habitat. Antes, já as velhotas levavam as mãos à cabeça - "é demasiada emoção" -, entendendo que, por via da sua data de nascimento, sem que os peixes fossem devolvidos ao lago até ao meio-dia, estas morreriam. O momento surreal do filme.

Atrasado, com um sentimento de culpa, o taxista vai ao colégio buscar a sobrinha que, longe de uma obediência acrítica e uma mansidão sem fala - como o espectador ocidental poderia (pré) julgar -, fala em tom zangado com o tio, fazendo a sua birra e convocando o especialista em cinema para o auxílio no trabalho marcado pela professora de cinema. Trata-se de filmar uma história sobre o país, onde os bons devem ser identificados por não usarem gravata, não terem a barba feita, utilizarem nomes sagrados do Islão. O filme deverá ter realidade, "mas não realidade realidade", e, muito menos, "realismo sórdido". Mais, estejam à vontade as crianças, dirá a professora, para se autocensurarem quando virem que a história tem partes menos edificantes. Política nem pensar. 

Ainda que aparentemente protegida da realidade - um café gelado que ela gosta, uns mimos -, a pequena sobrinha de Panahi virá a perceber que a liberdade de expressão, ou melhor, a sua denegação por exemplo, integra o conceito de "realismo sórdido" que não é para mostra em nenhuma curta. Na escola, ou fora dela. Mas a combatividade de que a criança/adolescente dá mostras, revelar-se-à quando recebe, em nome do tio preso pelo regime, o Urso de Ouro, em Berlim.

Um filme, que o Teatro de Vila Real passou na terça-feira desta semana, que num tom (aparentemente) leve, glosando o documentário - o homem acidentado que tem muito "sangue cinematográfico" e só de um lado da cara -, questionando o modo de apreensão da verdade - o empresário anão: "pensas que eu não percebi que este casal acidentado era composto por dois actores" -, flirtando com o jogo verdade/mentira com o espectador, apostando no binómio modernidade - tecnológica, social nas respostas da adolescente - vs conservadorismo - maxime, a questão da herança da mulher, a impossibilidade de se aceder livremente aos filmes ocidentais - nos dá, num humor de quem não abdica de rir mesmo no interior de um regime tenebroso - nas voltas infantis, na realidade à parte, com a sobrinha, algo de A vida é bela recordei.

sábado, 11 de outubro de 2014

A clareza de um mundo


Sábado


Na entrevista de Fábio, o “jihadistas português”, a Nuno Tiago Pinto (o “sr.Pinto”, da Sábado) é possível observar, com muita nitidez, alguns dos grandes desafios que continuam a colocar-se em muita da que é a recepção islâmica de Deus: a) a visão idolátrica do livro (Corão): “como o profeta não sabia ler ou escrever, o livro só pode provir do divino”. Quer dizer, não há aqui espaço para qualquer mediação – humana, cultural, de linguagem – e o texto é Deus, enviado sem mais, por Ele, para ser lido e interpretado, pois, literalmente; b) “só há uma maneira” de fazer a vontade de Alá na Terra, e, logo, não há espaço para caminhos de criatividade, de inventividade, de liberdade; c) a “ummah é um corpo” e “se parte sente dor, o resto do corpo também a sente”. A definição identitária como que marcada, em exclusivo, pelo religioso, sem permitir que outras dimensões nos religuem ao outro. Esta ligação à ummah, a uma comunidade de crentes, é, ainda, estranha a uma constelação civilizacional (ocidental) na qual vínculos como os da pátria tendem a primar (preocupamo-nos mais em saber se o “jiahdista” é português, antes de saber se era, por exemplo, cristão - antes da 'conversão', é claro). Este foco de polarização identitário é muito forte na formação de “Bin Ladens” (leia-se, já com alguns anos, o “Criando Bin Ladens”, de Zachary Shore); d) a religião vivida como ideologia totalitária, sem espaço para liberdade: “é uma religião de paz depois das pessoas viverem sob os mandamentos de Alá”. Quer dizer, aqui não vigora o “liberdade é, também, liberdade para o mal” (BentoXVI, Spe salvi); e) não há separação entre “Deus e César”, daí que, por exemplo, a educação esteja apenas ao serviço de Deus e uma disciplina, como a filosofia, que coloque em causa a “unicidade” Deste é banida. A dificuldade ou impossibilidade de articulação do pluralismo na concepção de Deus fica aqui, igualmente, bem exposta.
Dito isto, na entrevista há espaço para a revelação da procura de um sentido que assume, não raro, uma declinação de negação do/deste mundo – “não procuro possessões mundanas. Apenas o prazer de Alá. Porque o além é melhor e mais longo do que este mundo” – e alguns inesperados momentos “gato fedorento”: perguntado sobre a mulher, Fábio responde, rindo, “qual delas?” e, em afirmando estar a caminho da quarta (mulher; que juntará às três a que se encontra vinculado), atira ao jornalista que se este vive com apenas uma “está a perder o comboio”, acrescentando que estas não vivem juntas “por questões de segurança”. O toque pós-moderno a uma visão do mundo – “elas gostam de andar cobertas” – que muitos descrevem como medieval.