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domingo, 11 de agosto de 2019

DIÁRIOS


JL: Nunca viu um diário como tempo roubado à vida?


Eugénio Lisboa: Pode ser visto assim, mas a redacção de cada entrada  representa um investimento relativamente pequeno em tempo. Normalmente, um diário será feito ao fim do dia, à noite. Mas nem sempre é assim: muitas vezes o momento de que se dispõe para o escrever aparece no meio do dia. Nesta perspectiva, não é um roubo à vida, antes uma anotação. Ao contrário do que se possa pensar, o que o autor passa para o diário não é necessariamente o que de mais relevante lhe aconteceu na vida. Coisas importantíssimas ocorrem num período em que o diarista não está de todo disponível para a escrita. E o diário acaba por ser omisso, incompleto. O leitor não deve entrar nos diários com a esperança de descobrir a vida toda do autor...

JL: E é o diário também uma 'construção'?

Eugénio Lisboa: Sim, claro. O diário faz parte do cânone literário. De certa maneira, quando embarca num projecto com estas características o autor não está completamente inocente. Às vezes sabe que poderá vir a ser lido. Outras vezes até o deseja. Estamos sempre a fazer escolhas. Há sempre uma montagem, embora, como digo, não necessariamente de tudo o que é importante. Os momentos decisivos de uma vida podem ser de tal forma obsidiantes que consomem toda a disponibilidade nervosa de uma pessoa
(...)
O memorialista nasce precisamente da sensação de que o tempo está em vertiginosa aceleração. Como queremos que certas coisas não se percam, por serem demasiado preciosas, escrevemos. (...) A leitura é uma forma de nos encontrarmos connosco e, ao mesmo tempo, de nos reconhecermos nos outros, incluindo nas personagens. Toda a leitura é um fenómeno de grande enriquecimento. Fui um leitor compulsivo.

in JL, nº1274, de 31 de Julho a 13 de Agosto de 2019, pp.10-13.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Cidadania


Face à densidade e amplitude da sua obra, é difícil traçar uma visão sumária, mas cremos ser possível definir um eixo condutor, que reside na reabilitação do conceito de cidadania. Partindo da tradição filosófica da modernidade, Habermas foca-se na ideia do sujeito racional, procurando, porém, resgatá-lo de um certo solipsismo no qual este se enredou, por força do discurso filosófico, político e sociológico dos últimos dois séculos, para o qual também contribuíram as formas institucionais e mediáticas do mundo contemporâneo. A seu ver, é imperativo repensar o sujeito enquanto cidadão reavaliando a dimensão construtiva e interventiva da acção, situada num plano intersubjectivo (ético) e colectivo (social e político). (...) Destacando a participação activa do sujeito na construção dos processos decisórios, tomados em sentido lato: na definição de princípios éticos e de normas de convivência entre indivíduos, na determinação de processos legais que regulam a vida em sociedade e no estabelecimento de alicerces institucionais que enquadram a experiência colectiva.
O núcleo do projecto habermasiano implica, portanto, uma reconsideração do potencial inerente à discussão racional e à interacção social, que destaca a criação de acordos entre agentes morais. Estes não representam exercícios de compreensão de princípios preformados (valores universais a priori), sendo ao invés eles próprios produtores de conteúdo, na sequência de um processo de justificação dialógica. (...)
Não se trata, todavia, de seguir os postulados de Rawls neste domínio, porque este exercício não se dirige a agentes egoístas situados sob um "véu da ignorância" (pressupondo-se que só nessa "suspensão do juízo" poderiam formular princípios justos), mas apelar a que cada indivíduo, tomado como sujeito concreto num cenário real (a sua condição biológica, moral e social), se coloque no papel dos demais, conciliando as suas pretensões particulares com os interesses dos outros
Neste sentido, a ética de Habermas enfatiza o poder criativo do discurso intersubjectivo, uma arte necessariamente frágil e provisória, mas da qual resulta uma praxis simultaneamente dinâmica (decorre de uma acção produzida pelos próprios agentes implicados no debate), racional (presume uma troca de argumentos, tendo em vista acordos mútuos) e universal (almeja estabelecer normas de convivência que possam ser tidas como justas por todos os envolvidos). (...)
Cada indivíduo é assim tomado como cidadão, ou seja, como agente capaz de colaborar mutuamente na discussão e formação de valores colectivos, que não provêm de uma declaração abstracta de direitos nem são impostos exclusivamente pelos quadros legais normativos, mas resultam de um processo sempre em criação e mudança, assente na vitalidade das redes discursivas inerentes à experiência sociopolítica. (...)
A promoção da chamada "sociedade civil" reforça o ideal democrático, não apenas pelo evidente estímulo da autonomia dos cidadãos e do seu papel na experiência comunitária, mas também porque a existência de uma esfera pública forte e diversa promove a vigilância popular sobre as instâncias governativas e dificulta a imposição de práticas políticas opressoras e contrárias ao interesse comum. (...) Habermas cunhou (...) o termo 'constelação pós-nacional', que aponta para a necessidade de estender o ideal democrático (...) para além das habituais fronteiras do Estado-Nação. (...)A famosa tese de Habermas sobre o valor do 'patriotismo constitucional', termo que pretende designar a possibilidade de uma lógica de conciliação entre o postulado identitário nacional (que enforma a um nível basilar o espírito colectivo de uma comunidade política) com uma perspectiva universalista comprometida com os princípios do Estado de Direito democrático, que integre e estimule a solidariedade entre os 'cidadãos do mundo', bem como o processo dialógico anteriormente descrito


José Gomes André, Professor de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Habermas: o elogio da cidadania, JL, nº1274, de 31 de Julho a 13 de Agosto de 2019, pp.37-38.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Greene


Não por acaso, quando pediu o ingresso na Igreja Católica, o nome que adoptou como catecúmeno foi o de Tomé, o do apóstolo que duvidou, e que apenas acreditou quando pôde colocar o dedo na ferida aberta pela lança no corpo de Jesus. (...) Sendo muito diferente de Mauriac, Bernanos, Bloy, Chesterton e Waugh - o que o romancista "elogia nesses escritores não é a faceta apologética, mas a forma como utilizam, cada um a seu modo, a 'dimensão adicional' que a fé católica lhes oferece". (...) Se tinha bem presente o exemplo de S.Tomé, não esquecia as negações de Pedro ou os imprudentes encontros de Cristo com a samaritana ou com a mulher adúltera - que não podiam deixar de se relacionar com o exemplo do clérigo alcoolizado de O poder e a Glória (...). Por isso afirmou não ser possível criar um Homem Novo. O "mais que podemos desejar é uma mudança de condições que torne os pobres menos pobres e os ricos menos ricos. Sou por mais humanidade, não por um novo conceito de humanidade". (...) 
A atracção emocional pelo catolicismo sentiu-a no México, perante uma Igreja proscrita com os seus crentes perseguidos: "Vi os índios descerem das montanhas e entrarem nas Igrejas, onde tentavam recordar os velhos ritos". (...)
Como afirma Pedro Mexia: "Impregnado de teologia, impressionado com a Igreja dos humilhados e ofendidos, solidário com os católicos perseguidos (O poder e a glória, 1940), apoiante do Concílio Vaticano II e da Teologia da Libertação, Greene sempre se mostrou hostil a tudo o que lhe parecesse conservadorismo ou impiedade".

Guilherme d'Oliveira Martins, Entre santos e pecadores, JL nº1269, de 22 de Maio a 4 de Junho de 2019, p.32.


P.S.: Graham Greene passou por Portugal, enquanto esteve no M6, os serviços secretos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Separados à nascença (III)


*Na crónica que assina no mais recente número do JL, Hélder Macedo dá nota de que, no ano passado, a edição que organizou, com as obras, tão completas quanto possível, e com inéditos poemas que encontrou e juntou à edição, de Bernardim Ribeiro, um dos "três grandes" (a juntar a Camões e Sá de Miranda) da nossa "época de ouro", publicada pela Presença vendeu 2 exemplares. Lemos bem: dois.

*Também ao JL, diz, em entrevista, Hélia Correia: "sempre digo que o mundo começou a perder desde que o século de ouro grego acabou. Porque o gosto pela discussão de ideias, o amor, a volúpia, a liberdade da palavra foram empobrecendo. Até à proibição, até à palavra ser considerada perigosa, com as ondulações da História. O que sinto é que, hoje, pelas condições que existem, se podia ser mais exigente ao nível da palavra. E Portugal é, neste aspecto, paupérrimo, porque as pessoas parecem não gostar de falar, de debater, quanto mais de ler ou escrever literariamente. As pessoas não só não se entendem, como não têm prazer na troca, porque a comunicação não se faz. Cada um está ligado aos seus aparelhinhos" (p.17, nº1254). 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O poder encantatório da voz

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A oralidade implica a proximidade física das pessoas, a sua descoberta. E tem um lado encantatório, desde logo porque tem a ver com a voz. E a voz é em si mesma outra categoria perturbadora e fascinante. Podemos, por exemplo, fazer uma reflexão sobre a História dos regimes autoritários e das democracias, se fizermos uma análise da voz, da forma como foi amplificada ou como foi usada e associada a determinadas expressões faciais, a certos gestos, por ditadores ou homens que querem seduzir a sua população ou por populistas. Não é por acaso que a questão da voz está sempre a saltar nas páginas do livro e não só quando falo do som. Mas no universo onde cresci, também salientaria outra questão: a curiosidade.

Joaquim Pais de Brito, entrevistado por Maria Leonor Nunes, JL nº1230, ano XXXVII, pp.23-26.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Adolescentes e a cultura


Na mais recente entrevista ao JL, Tiago Rodrigues, director artístico do Teatro Nacional D. Maria II volta - como em outras entrevistas - a enfatizar a importância de aposta cultural num público adolescente, muitas vezes descurado nas programações culturais, e essencial de trazer às salas de espectáculo se se pretende formar públicos para futuro. Indo além das visitas pela(s) escola(s), procurando fomentar o gosto que leve o adolescente e os amigos, agora por vontade própria (não já acompanhando os pais enquanto crianças; não já por imposição da escola) aos espaços de cultura da cidade:

"Ainda este ano, teremos no Salão Nobre um conjunto de conferências sobre temas fundamentais da adolescência (...) Temos a convicção que é nessa fase que é interrompida a relação com o teatro. E acreditamos que o adolescente não pode ir ao teatro apenas no contexto escolar, embora trabalhemos com mais de 150 escolas. Tem que vir de mote próprio, escolher vir sozinho ou com amigos. Por isso, queremos que esse espaço exista e com legitimidade artística".

[JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.23, entrevista conduzida por Maria Leonor Nunes]

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Vidas


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Por causa da Dona Maria [professora primária que lhe perguntara sobre uma composição que ele redigira: "Diz lá, meu filho, não foste tu quem escreveu, pois não?"], zanguei-me com o Português. Não ligava às onomatopeias, desprezava as parassínteses, desleixava de propósito as redacções, não atinava com o lugar das vírgulas. Aqui a culpa não era da Dona Maria. O problema vinha de trás, da Aritmética. Na 3ª classe, o professor verdescava-me as orelhas de cada vez que, nas divisões com números decimais, eu não acertava com o sítio de pôr a vírgula. Ainda hoje não certo. Passei a detestar Aritmética e acabei por vir a recusar para sempre a Matemática. O divórcio, agora, do Português ameaçava deixar-me perdido, em terra de ninguém. O professor de Moral, conhecido do meu pai, levou-lhe a má nova e segredou-lhe: 
- O rapaz não dá para os estudos. Ponha-o na loja de fazendas do avô.
Mas sabia o mestre que, dias antes, numa breve passagem pelo balcão, "o rapaz" vendera ali, por 4 escudos e 50 centavos, uma peça de 45 escudos. Creio bem que o meu pai só serenou definitivamente quando, muitos anos mais tarde, o filho se classificou em primeiro lugar no exigente concurso para juízes sendo, entre 23 magistrados do Ministério Público concorrentes, o único a obter a classificação de Muito Bom. (...)
E como sofria a minha mãe com a minha participação nas greves académicas, nos lutos, nas manifestações de estudantes, com o meu pai a recomendar-me que o deixasse mediar as más notícias e a esconder, dela, outras, como a do retorno a Coimbra, detido, em grupo, pela PSP, por tentativa de participação no Dia do Estudante, em Lisboa, em plena crise académica de 1962.
- E agora, queres seguir o quê?, perguntou o meu pai, concluído o 7º ano do liceu.
- Quero ir para o teatro - respondi.
Fui para a Justiça!
Acabou por me interessar mais esta do que o Direito. Ainda que sem este jamais a Justiça possa verdadeiramente realizar-se.

Álvaro Laborinho Lúcio, Autobiografia, Entre as linhas, Jornal de Letras, Ano XXXVII, nº1214, 12 a 25 de Abril, de 2017, p.36

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Da lentidão do pensamento


O pensamento pede lentidão, aquilo a que nós latinos chamavam ócio. Está tudo dito, não é? Ou seja, temos que afastar algum tempo as exigências finalísticas da vida, desde a sobrevivência pura e dura até ao divertimento. É preciso fazer uma suspensão para o pensamento se desenvolver. Mas todos os dias recebemos mensagens no computador para fazermos as coisas mais depressa. O que gostaria é que não falassem comigo tão depressa. (...) [Não tem facebook, não usa as redes sociais?] Não. Sou incapaz. Não quero ter amigos...É outro efeito da angústia que vivemos, preenche anseios, muitas solidões ou o desejo de não querer ficar para trás. Ou simplesmente de ter alguém que nos ouça. E por outro lado, obriga-se toda a gente a ouvir o que dizemos. A tecnologia, em todas as suas facetas, é uma instância muito absorvente, a que temos de dar muita atenção. E de vez em quando entrar em pausa, como quem faz uma dieta, para libertar as forças do corpo que ficam demasiado domesticadas.

Maria Filomena Molder, Idem, p.25

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Pensamento e solidão


Hermann Broch tinha uns oito anos quando, como sucede com outras crianças, lhe aconteceu aquilo a que chamou "cair em si", perceber que um dia ia morrer. Recorda na sua autobiografia que estava a brincar num bosque, perto de Viena, e percebeu que estava sozinho no mundo. Descobriu a solidão da vida humana e que a morte é um acontecimento solitário. O pensamento é uma tentativa de superação, uma espécie de protecção contra a morte. Move-se numa área em que ninguém pode viver. O pensamento conhece a solidão absoluta. Todo o esforço da nossa vida é na verdade dar-lhe forma, desde o fazer pão a abrir uma cova para enterrar alguém, a escrever um livro, a inventar um axioma. Tudo isso são efeitos da incidência da solidão imensa e irreparável do pensamento sobre o respirar, o correr do sangue nas nossas veias, o andar.

Maria Filomena Molder, em entrevista concedida a Maria Leonor Nunes, JL nº1201, 12 a 25 de Outubro de 2016, p.23

sábado, 30 de maio de 2015

Skholé


A palavra "escola" deriva do latim "schola", por sua vez formada a partir do grego "skholé". Pierre Bordieu recuperou para o conceito contemporâneo de "escola" o sentido primordial do termo grego, definindo escola como "tempo livre e libertado das urgências do mundo que torna possível uma relação livre e libertada com essas urgências e esse mundo". Numa sociedade em que a Escola esteja ligada a uma visão utilitária do conhecimento e em que estudar apareça exclusivamente associado à obtenção de vantagens profissionais, económicas e sociais, pode parecer um contrassenso recuperar o seu sentido original de "tempo de lazer ou de descanso". Na realidade, essa proposta de Bordieu faz todo o sentido, porque é aquela que melhor nos ajuda a compreender a relação intrínseca entre Escola e Saber. E encarar a Escola como "tempo livre e libertado das urgências do mundo" é, na minha opinião, a melhor forma de fazer jus à almejada "Sociedade do Conhecimento" (...)
Na realidade e ao contrário do que muitas vezes ouço dizer, creio que os alunos que frequentam a Escola de hoje são muito mais exigentes do que os do meu tempo. Mas o que exigem eles de nós, professores? O que é o mesmo que perguntar: num mundo altamente competitivo, que vantagem apresenta, ainda, a Escola relativamente a todas as outras fontes de obtenção de informação? A primeira que me surge parece-me óbvia: a Escola é o único lugar onde os alunos podem estar em contacto permanente com profissionais que estudaram para os ajudar a hierarquizar, criticar e organizar toda a informação de que já dispõem e toda aquela que está à sua disposição (...)
Advogo uma ideia ao mesmo tempo antiga e nova, simultaneamente simples e complexa: a Universidade deveria começar muito mais cedo. O que quero eu dizer com isto? Que desde a mais tenra infância se deveria promover uma Escola que colocasse o aluno na posição de investigador, investigador de si, dos seus semelhantes, do mundo à sua volta, do mundo imaginado. Este lugar é, do meu ponto de vista, muito mais compatível com o mundo em que vivemos e com os imensos meios de que todos dispomos, a começar pelos alunos, para acedermos a todo o tipo de informação. Porque o que transforma a informação em conhecimento é o processo que envolve o sujeito numa descoberta significativa e profunda que altera drasticamente a sua relação consigo próprio e com o mundo em que vive.

António Branco, Professor e actual Reitor da Universidade do Algarve, na intervenção no colóquio na Gulbenkian Pensar a Educação. Portugal 2015, publicado pelo JL nº1165, ano XXXV, 27 de Maio a 9 de Junho de 2015, suplemento Educação, p.3.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Livre-arbítrio (VIII)


Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:
                                        

Eu quereria dizer...que o pensamento político deveria ter por tarefa reconstruir a pessoa humana. A noção de pessoa humana é o que há de melhor na herança do cristianismo para o qual cada ser humano é único. Os liberais e Marx pensam o progresso da Humanidade, os cristãos pensam na salvação da alma - é uma diferença fundamental a favor destes. Claro que nós já não podemos reconstituir o antigo dualismo da alma e do corpo, é preciso fundar a pessoa humana sobre dados diferentes à luz das ciências humanas e da biologia. Dizia-me um biólogo americano...que o "sistema de comunicação (no sistema nervoso) de cada um de nós, de cada vida, é diferente. No fundo, a ciência começa a descobrir a alma no próprio corpo. É sobre esta base que é preciso reconstituir a pessoa antes de sonhar com a reforma da sociedade. Não se pode voltar a cair nos velhos erros revolucionários. E, no entanto, é preciso proclamar que as nossas sociedades precisam de reformas profundas" (Jacques JULLIARD, As paixões rebeldes - entrevista a Octavio PAZ, in JL, 719, 6. 05. 1998, 23).

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Sobre a penúltima AM de Vila Real


Contra a demagogia.


Depois vem Galvão Teles (1962-68), um ministro muito mais conservador, que introduz a Telescola para generalizar o 6º ano de escolaridade. Uma solução que sendo moderna do ponto de vista tecnológico, é muito conservadora do ponto de vista da organização social, porque visa impedir que os meninos, e sobretudo as meninas, saiam das suas aldeias e venham para as sedes de distrito estudar. É ainda a escola em proximidade, ao lado da casa, muito local, e pouco afectada pelos princípios da abertura.

Maria de Lurdes Rodrigues, entrevistada por Carolina Freitas, JL nº1143, 23 de Julho a 5 de Agosto de 2014, JL Educação, p.1.


sábado, 14 de junho de 2014

Do 'medo de existir' (2014)


Maria Leonor NUNES, (entrevista)  José  GIL, Metafísica do quotidiano, Jornal de Letras , ano XXXIV, número 1140, 11 a 24 de Junho, 2014, 29-30

Há nove anos que o filósofo, mensalmente, toma o pulso ao país na revista Visão em breves ensaios que agora reúne em livro: uma leitura sobre os factos políticos, as forças e mecanismos sociais, o modo de ser português

É uma “metafísica do quotidiano” que José Gil procura nos seus textos da Visão que agora publica em Pulsações. E, nessa medida, não pode deixar de concluir que é de uma “grande pobreza e falta de cultura”, a metafísica do governo de Passos Coelho. Da mesma maneira que conclui que António José Seguro não é um líder, encontrando na falta de liderança uma explicação para os resultados eleitorais do PS, como adianta ao JL.
O filósofo lê os gestos, os acontecimentos políticos e sociais, por vezes episódios e circunstâncias de outra natureza, e ensaia nas suas crónicas ou “micro-ensaios”, como lhes chama, uma leitura mais profunda, além da espuma dos dias, do senso comum, do imediatamente legível, do modo de ser português. O que interpela são as forças, os mecanismos de funcionamento, as lógicas internas, simbólicas, o não expresso. Interroga por exemplo por que os portugueses não protestam mais ou parecem resignar-se aos sacrifícios impostos. No prefácio do volume agora editado pela Relógio d’Água, encontra razões basilares do comportamento do português: uma situação de permanente “duplo impasse”, uma “pescadinha de rabo na boca” entre o sonho de avançar e o real que faz recuar, os fortes “laços de afetividade” e um “silêncio” inconsciente e atávico, interiorizado no fascismo, e que prevaleceu até hoje, traduzido no medo de se exprimir, no limite de existir. Um modo de ser português em que a “lei da troika” veio desferir um profundo golpe.
Portugal, Hoje O Medo de Existir é, de resto, uma das obras de referência de José Gil, 74 anos, prof. catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa, autor de Em Busca da Identidade, Metamorfoses do Corpo, Monstros, A Arte como Linguagem e O Devir-Eu de Fernando Pessoa, entre outros. Pulsações junta as crónicas publicadas entre 2005 e 2014. Não se tratará apenas de um exercício de filosofia política ou de politologia, como reconhece. É seguramente um olhar que pensa a realidade portuguesa e abarca o pulsar do mundo.

Jornal de Letras: Como sente, no conjunto, as suas Pulsações?
José Gil: O que queria fazer, e possivelmente faço um pouco, era delinear aquilo que se pode chamar uma metafísica do quotidiano. Porque uma medida no ensino ou mais uma taxa de solidariedade pressupõem sempre uma ideia do homem, do futuro do ser português. Esse pressuposto é essa metafísica. E o que verifico é que a metafísica por trás das medidas deste governo é de uma enorme pobreza e falta de cultura.

Voltou a ler todos os seus micro-ensaios: como avalia esse corpo de trabalho, de análise da política e da sociedade portuguesa que constituiu ao longo destes anos?
Ao reler tudo, tive a sorte de apanhar aquilo de que sempre andei à procura desde que escrevi Portugal, Hoje O Medo de Existir.

Que é...
A lógica dos mecanismos que produzem esse medo de existir e que fazem com que o português tenha medo de avançar. Porque o português quer avançar, mas quer que outros façam o trabalho por ele. Por que não avança? Esse estado de obediência implica todo um nexo lógico que faz com que as forças que se querem exprimir inflitam o seu rumo e venham para trás, sem que nos apercebamos disso. Por isso, senti necessidade de escrever o prefácio, em que de alguma maneira abordo esse funcionamento.

Encontrou linhas que se cruzam nos seus micro-ensaios?
Sim, nos artigos sobre política, há uma insistência nessa lógica das forças. Além disso, há um conjunto de crónicas que já não tem a ver com a política e onde talvez estejam aquelas de que mais gosto.

Quais?
Por exemplo, uma a que chamei A arte de descansar ou uma outra que escrevi sobre um gorila.

É curioso que hoje o medo parece mais visível na sociedade portuguesa do que na altura em que escreveu o seu livro Portugal, Hoje O Medo de Existir.
Sem dúvida. E entretanto foram publicados vários livros sobre o medo. A verdade é que há hoje um medo de superfície, de perder a casa, o emprego, a reforma... Mas que radica e enxerta-se no medo mais profundo de não viver, de não se exprimir. No fundo o medo de não existir torna-se ele próprio um medo de existir.

País Para a Cova

No prefácio do seu livro, sustenta como a ‘lei da troika’ constitui um rude golpe no próprio modo de ser português, nas relações de afetividade, que em seu entender, têm constituído uma pedra angular da sociedade portuguesa, na própria relação com o território, em paralelo com o empobrecimento do país, a falta de perspetivas de futuro ou de mudança.
O que me aflige verdadeiramente é a falta de consciência, de visão dos nossos governantes relativamente a domínios como a saúde ou a educação. A educação é o que pode salvar o país e o que se está a fazer nessa área leva o país para a cova. Falo com muitos professores, meus antigos alunos, e é esse o sentimento geral. Que será Portugal no futuro? Um país pobre, possivelmente não ao modelo do que tínhamos antes do 25 de Abril, mas talvez uma outra pobreza. Vamos estagnar, não nos vamos desenvolver, não vai haver um programa de modernização, como dizia José Sócrates. E estagnação, porque não vejo nenhum plano, nem de desenvolvimento económico, de que o Governo tanto fala. Por que não trabalham nisso? Talvez os ‘poderes instalados’ impeçam a conceção e realização desses planos.

Com a ‘saída’ da troika, o que pode mudar?
Vai ser a mesma coisa, talvez de uma maneira um pouco atenuada. Ou seja, a confusão, as imagens baralhadas de dois poderes, o português e o estrangeiro, que na verdade tem mais poder. Tudo isto baralha um pouco a cabeça das pessoas. Estou convencido de que o facto de não haver um alvo bem claro e nítido é um dos fatores que explicam não haver mais oposição nas ruas. Outro fator importante é a emigração. A sobreposição de poderes faz com que não se saiba contra quem verdadeiramente protestar. E o governo de Passos Coelho não vai tornar-se esse alvo claro, porque continua a haver a supervisão da troika. Isso serve-lhe, de resto, muito bem. O programa do governo e da troika, medido em décadas, é uma catástrofe para Portugal.

Fala também no seu livro de um silêncio inconsciente que está na base da sociedade. Como vê nesse sentido o aumento da abstenção nas europeias?
Tem que ver com a desconfiança relativamente aos políticos e aos partidos, sobretudo ao PS, ao PSD e ao CDS. Não foi porque as pessoas foram para a praia, como já se disse, nem sequer porque os portugueses não se interessam pelo sistema democrático. Fizeram-se muitos inquéritos e o que ouvimos foi dizerem que não acreditavam nos políticos, por isso não iam votar.

Uma forma de protesto?
Sim, ainda que os interrogados não consigam definir os parâmetros do protesto. Não dirão que é porque não há um espaço público aberto, mas é realmente porque não se podem exprimir, porque há um pacto de silêncio.

As europeias revelaram também votações expressivas em Marinho e Pinto (MPT) e, menos, num novo partido, o Livre. Isso é revitalizante do próprio sistema político e partidário?
Julgo que isso é um signo, um sinal do não expresso que os partidos existentes não conseguem exprimir. Há um espaço de não expressão aberto para outras vias. Parece-me que os 7,5% de Marinho e Pinto vieram de pessoas de esquerda e de direita, por ter qualquer coisa, numa ténue linha de fronteira entre a democracia e o populismo. Mas na medida em que são um sintoma, julgo que esses partidos não vão vingar. A votação mostra que o leque partidário era lacunar. Mas não me parece que seja o embrião de um novo sistema partidário português.


CONGREGAR FORÇAS

Perante os resultados eleitorais, a derrota da direita, o PS numa disputa de liderança, como toma hoje o pulso ao país, à nossa democracia?
Parece-me que as pulsações são fracas...

Mas o estado não é crítico?
Não, claro que não. Temos uma Constituição, instituições. Fazendo uma reflexão sobre o estado do país, é inevitável falar sobre a situação no PS, como aliás fiz na última Visão. Este governo impôs ao povo português tanta austeridade e tanto sofrimento não contabilizado, e, depois de três anos desta política insuportável, o que é que o PS tem para apresentar como balanço do seu trabalho de oposição? Nem 4% a mais. É um saldo positivo, mas incompreensível.

Qual a sua explicação?
Para mim esse resultado tem fundamentalmente a ver com a liderança.
A crónica a que se referiu era focalizada nessa questão.
O título era mesmo: “O que é um líder?” E o atual secretário-geral do PS, António José Seguro, não o é, como procurei comprovar.

E o que faz um líder?
Ser um foco de atração, de transmutação e de emissão de energias intensas. Por isso provoca adesões, tem uma espécie de autoridade natural, congrega as vontades que se expressam confusamente e dá-lhes uma voz.

Essa ideia não pode ser muito perigosa?
Pode-se em alguns casos descambar para um tirânico, populista. Mas um líder não é um chefe que submete, que comanda e quer obediência. Nestas questões do PS tem-se confundido aliás obediência com fidelidade. Na verdade, um líder prolonga as vozes que não são expressas.
Isso implica um poder oratório e de contágio. Quando se dizia que De Gaulle encarnava a França era porque quando ele falava, não se ouvia o sr. Charles De Gaulle, ouvia-se outra coisa. O líder é uma pessoa habitada por um sentido. Seguro não tem nada disso, é um homem simpático e terrivelmente mediano.

António Costa é um líder?
Não tenho a certeza que tenha as condições para o ser, nem razões para pensar o contrário. Mas no caso de se tornar secretário-geral do PS pode revelar-se um líder, capaz de congregar as forças da sociedade e dizer o que o povo quer dizer. Parece-me muito grave que, por razões estatutárias, de secretaria, o PS possa acabar por se estilhaçar, por ir dividido às legislativas e não ganhar, um estilhaçamento que terá consequências graves para a esquerda.

Põe a tónica na questão da liderança, mas a alternativa não tem que passar também por um programa?
Numerosos estudos dizem que o fator emotivo, afetivo, é muito mais importante na definição da liderança e do líder do que o fator cognitivo. Mas não nego a sua importância. Aliás, uma das razões por que um líder é líder, é porque vê mais longe e toma decisões mais rapidamente. Mesmo aí é importante. O erro é pensar que se decide apenas por diálogo e argumentação. Por isso, gosto de usar a noção de forças que se investem de fatores de comunicação afetiva, mas também de cognição. Uma ideia brilhante, nova, é uma ideia que suscita forças. Se não houver uma alternativa pertinente e eficaz, capaz de provocar a adesão popular na esquerda, o Governo vai continuar a sua política de incompetência e empobrecimento do país.

Na Europa, assistimos à ascensão de eurocéticos, da extrema-direita e mesmo de partidos neonazis, que vão tomar assento no Parlamento Europeu. Adensa-se a ameaça de desmantelamento da própria União Europeia?
Essa emergência é justamente o sinal de que a Europa está realmente partida aos bocados. Não há uma União Europeia. A crise económica e financeira revelou-se uma extraordinária crise social. É aproveitando-se do caos em que a Europa se encontra, que a extrema direita está a subir. Há o medo que esse fenómeno alastre e pode acontecer. No pior dos cenários, teríamos um fascismo europeu. Seria horrível. Mas não podemos descartar essa possibilidade. Sobretudo não devemos relativizar, dizendo que Marine Le Pen é apenas um epifenómeno da sociedade francesa. Não, não podemos desvalorizar essa extrema direita, porque justamente joga nas ruínas, na ausência de política que faça uma efetiva união europeia, retomando e reformulando uma série de regras da democracia, que não têm funcionado. E se analisarmos a questão em termos de forças, o que verificamos é que a extrema-direita é capaz de as intensificar.

Em que sentido?
O fascismo, o nazismo são capazes de entusiasmar, de congregar forças, enquanto a democracia segrega aborrecimento, não entusiasma. Isso é muito grave. É preciso fazer com que a democracia entusiasme.




sábado, 14 de dezembro de 2013

Tolentino e o haiku: uma entrevista luminosa (I)


Maria José NUNES, José TOLENTINO MENDONÇA, A Arte do Silêncio, in Jornal de Letras, ano XXXIII, número 1127 (11 a 24. 112. 2013), 20132, 8-11.


A Papoila e o Monge, sob o signo do haiku, traz-nos de novo a escuta de uma das vozes mais intensamente radicais da poesia portuguesa contemporânea. Com este livro de poemas convida à “arte do silêncio”, para “hospedar o mundo”. Mas o poeta e padre propõe também outras palavras numa reedição que reúne um conjunto de textos e crónicas, O Hipopótamo de Deus, e num ensaio com fotografias de Duarte Belo, Os Rostos de Jesus. Da obra poética e ensaística, do teatro e dos tempos que correm, da universidade, da Igreja e do Papa Francisco, falou ao JL numa longa “viagem”, como diz serem todas as conversas. E foi-a, de facto, a que aqui fica, a seguir, acompanhada da crítica de António Carlos Cortez ao seu último livro - e que conclui, com a parte respeitante à recente “Exortação Apostólica” do Papa, que autonomizamos e aparece, junto a outro texto sobre ela, na pp 28/29.

Enunciar o “mistério do real”, sem ornatos ou sentimentos, esta a aprendizagem poética de José Tolentino Mendonça, no seu novo livro de poemas, A Papoila e o Monge, edição Assírio & Alvim, em que trabalhou a forma do haiku japonês, à maneira ocidental, segundo a lição de Jack Kerouac. A experiência impôs-se depois de uma viagem ao Japão, que o poeta fez a convite do Centro Nacional de Cultura, em que não terá tomado uma nota, mas deu “oportunidade ao silêncio”. E é o “silêncio que escreve o poema”, garante.
Se tem a arte do silêncio, José Tolentino Mendonça, 48 anos, padre e poeta, é, no entanto, um mestre da palavra. Escrita e dita, na poesia, como no ensaio e no teatro, ou numa simples conversa. Nascido na Madeira, filho de um pescador, passou parte da infância em Angola. O chamamento do sacerdócio foi nele tão forte como o da literatura, intensificado por muitas leituras e pelas histórias contadas pela avó Maria. Foi ordenado sacerdote aos 24 anos e fez posteriormente um doutoramento em Teologia Bíblica, em Roma. Estreou-se na poesia em 1990, com Os Dias Contados. Daí para cá, publicou, entre outros, Longe não Sabia, A que Distância Deixaste o Coração, Baldios, A Estrada Branca, O Viajante sem Sono, e Estação Central, este depois de um ano em Nova Iorque a estudar a religião e o espaço público. Para o palco, escreveu Perdoar Helena e o recente O Estado do Bosque. E a nível ensaístico, destacam-se As Estratégias do Desejo: Um Discurso Bíblico sobre a Sexualidade e A Construção de Jesus. Traduziu, entre outros, O Cântico dos Cânticos. Além de A Papoila e o Monge, publicou recentemente O Hipopótamo de Deus, uma edição Paulinas, e Os Rostos de Jesus, pela Temas e Debates/ Círculo de Leitores; e escreve uma crónica semanal na “Revista” do Expresso.
É prof. e vice-reitor da Universidade Católica, em Lisboa, pároco da Capela do Rato, responsável pela Pastoral da Cultura do Conselho do Episcopado Português e integra o Pontifício Conselho para a Cultura do Vaticano. Ao JL fala da necessidade de abertura da Igreja à cultura e às artes. E de como prefere uma palavra que lhe ‘morda’ a mão, “selvagem“ e “violenta”, mais capaz de o conduzir ao divino do que os discursos ‘mornos e beatíficos’ que o fazem adormecer.

Jornal de Letras: O que o interessou poeticamente no haiku?
José Tolentino Mendonça: A poesia japonesa sempre foi uma companhia do caminho que faço e entre os poetas que leio estão muitos japoneses. Só que olhava para o haiku como um género que de alguma maneira só naquela língua é possível. As traduções são o mesmo e outra coisa. Mas apesar de haver sempre uma barreira, é um género que admiro muito.

Porquê?
Pela sua radical economia de meios, uma pobreza que é ao mesmo tempo uma concisão total. E uma capacidade de tornar o menos mais de uma forma muito fulgurante. Mas sempre pensei que era um género impraticável para um ocidental.

Por causa da métrica?
O próprio japonês não se mede por sílabas, mas por sons. É um jogo sonoro que nos escapa. Mas um pouco por acaso, cheguei ao Livro de Haikus de Jack Kerouac, que fala do haiku ocidental, no fundo um poema muito breve.

No caso de A Papoila e o Monge, são três versos.
Sim, para homenagear os japoneses, mas o importante é que seja o mais breve possível. Porque o haiku, para Kerouac, é essencialmente a capacidade de trazer à página ‘the real thing’, a coisa real, verdadeira. Ou seja, o real na sua espontaneidade, não o sentimento, nem o antes ou o depois, mas o instante, com toda a fragilidade e força que pode ter. E muitas vezes, o instante tem a forma de um enigma, nem sequer o conseguimos explicitar completamente. É mais enunciar o próprio mistério do real, dizer o sentido sem o capturar por nenhum tipo de hermenêutica. O haiku propõe uma atenção ao real que constituiu para mim uma maneira de colher o essencial tal como nos é dado, numa evidência que nos apanha desprevenidos.

Em que sentido?
Não estamos preparados para a revelação das coisas. E o haiku pede-nos isso.

O que trouxe de novo o haiku à sua poesia?
Cresci muito como poeta na escrita de A Papoila e o Monge, porque há uma espontaneidade neste livro que nasce de uma capacidade mais radical de hospedar o mundo. O haiku é também uma forma de hospitalidade. Como o amor. Além disso, há uma retração do eu, da dimensão emocional, da memória. É a celebração do mundo e desse encontro interminável, mas que se traduz em coisas muito simples, em pausas, em passos, em silêncios.



Há um poema do seu livro O Viajante Sem Sono em que fala do real que o poema convoca, das bicicletas a um disco dos The Smiths. E se toda a sua poesia vem do mundo, nos seus haiku é completa a depuração. Como foi esse trabalho poético em termos formais?
Não se trata realmente de uma oposição relativamente à minha poética, mas de dizer o mesmo pelo seu oposto. O poema é poema, porque convoca tudo e nada fica fora dele e é poema, porque se desliga de tudo. Este livro é também a experiência do vazio, que é enunciada, desse despojamento radical, do silêncio. É quase um calar de todas as coisas, de todas as razões para ser surpreendido pela evidência. Às vezes, escrevemos poemas porque sabemos e outras chegamos ao poema porque não sabemos. O haiku é de facto uma poética do não saber.


 (Cont.)


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Maquiavel


JL nº1126, de 27 de Novembro a 10 de Dezembro de 2013, p.28-29

O príncipe, de Maquiavel
A obra fundadora da política moderna

João Relvas Caetano

Escrito há 500 anos, O Príncipe continua atual. Como aliás continua atual toda a obra de Maquiavel. Mas O Príncipe é especial, porque é a obra fundadora da política moderna. No presente ensaio, procurarei analisar o porquê e as implicações desta afirmação, assim como as possibilidades de superação do maquiavelismo como modelo de comportamento político.
Poucos autores foram tão admirados ou criticados como Nicolau Maquiavel (1469-1527), ao longo dos últimos 500 anos. E ainda hoje o seu legado gera forte controvérsia. Uma razão é suficientemente forte para que demos atenção à obra do florentino: a sua influência foi e é enorme, o que só está ao alcance de um autor de elite. Palavas como "maquiavelismo” e “maquiavélico” persistem na linguagem comum como sinónimos de, respectivamente "procedimento astucioso ou desleal" e de "falso", "pérfido".
No entanto, em Portugal, o realismo político (teoria explicativa da política conforme aos ensinamentos de Maquiavel, nomeadamente em O Príncipe) é não só uma doutrina com muitos adeptos como conformou a ciência política como a Ciência do Poder (propositadamente escrito com maiúscula).
Qual foi o contributo de Maquiavel para a definição da política? De que modo está isso expresso em O Príncipe? Existe no modelo de política de Maquiavel um sentido de futuro ou não? Como é evidente, existiu política antes de Maquiavel. E desde os alvores do pensamento grego a política foi teorizada. Mas há uma diferença entre os autores clássicos e Maquiavel. E uma diferença de forma e de substância. Platão e Aristóteles construíram as bases de uma ética política transcendente. Esta ética foi cristianizada, em particular S. Tomas, mas manteve o mesmo carácter transcendente.
Maquiavel inspirou-se nos autores clássicos, mas desligou a prática política de qualquer referência transcendente. A sua "ética" política é imanente, fundada no comportamento dos seres humanos. O Príncipe tem muitos exemplos de uma suposta invariância nos comportamentos humanos ao longo da história. E é uma "ética" finalista: o ser homo politicus está subordinado apenas à prossecução dos interesses do Estado como categoria imanente.
Segundo Maquiavel, o Estado, como princípio de ordem e de coerência sobre o qual assenta a comunidade política e como fundamento de toda a autoridade legítima, serve para garantir a salvação de todos. É nesta perspectiva que se jogam a política e as decisões que se jogam a política e as decisões políticas, agora libertadas de todas as amarras. E de todos os Poderes. Critérios religiosos, morais ou racionais podem orientar a conduta humana nos negócios privados, mas não podem condicionar a esfera política. Era manifestamente o caso, para Maquiavel, da Igreja Católica, com quem se incompatibilizou.
Maquiavel viu que no seu tempo havia muitos conflitos entre Estados (ou cidades-Estado, no caso de Itália), e no seio dos Estados, e construiu uma chave de leitura da realidade existente. E também uma fórmula política que assegurasse prestígio e capacidade de actuação aos governantes. A forma política do Estado (República ou Principado) seria pouco relevante desde que este cumprisse a sua finalidade.
O Príncipe é difícil de interpretar. Homem do seu tempo, Maquiavel destacou-se nos campos do pensamento e da acção política. Além de escritor, foi secretário da República de Florença e diplomata. Independentemente das suas reais intenções ao escrever O Príncipe, é certo que autonomizou a política, como realidade temporal. E estabeleceu o interesse nacional como critério supremo da acção politica. Por isso o seu pensamento foi tão útil aos construtores da modernidade e dos Estados nacionais, por via da definição dos princípios da laicidade do Estado e da soberania nacional, interna e externa.
Numa altura em que, continuando a ser nacionais de Estados, assistimos não só à proliferação de conflitos de interesses entre aqueles no seio da comunidade internacional motivados pela crise económico-financeira, mas também ao enfraquecimento de muitos Estados periféricos em relação aos Estados centrais, temos de convir que, pelo menos no plano da explicação da política, as ideias de Maquiavel são pertinentes. Ainda recentemente, o insuspeito Jurgen Habermas (veja-se, v.g., Um Ensaio sobre a Constituição da Europa, Edições 70, 2OI2) defendeu a necessidade de se terem em linha de conta no projecto de construção europeia os interesses nacionais a par do interesse da União. Com efeito, muitos Estados europeus deixaram de ser “suficientemente” soberanos para a defesa dos seus interesses sem que tenham sido substituídos nessa tarefa (ou as pessoas representadas) pelas instâncias europeias.
Popularmente, entende-se o maquiavelismo como a prossecução de fins sem olhar a meios. E como maquiavélico aquele que age sem princípios éticos, ou seja, aquele que dissimula, engana e prejudica os adversários. Passagens várias de O Príncipe sugerem esta leitura, que, não fazendo sentido vista isoladamente, se coaduna com a perspectiva maquiavélica da política separada da moral.
Maquiavel não advogava que o príncipe adoptasse, por regra, comportamentos perversos, salvo se isso fosse necessário à defesa dos interesses do Estado. A realidade actual da política internacional parece confirmar a tese de Maquiavel de que os Estados prosseguem os seus interesses de modo persistente e duradouro. Mas não confirma que os Estados estejam preparados para se digladiarem com igualdade de armas ou, tampouco, que estejam preparados para combaterem outros poderes, nomeadamente o poder financeiro global.
Justifica-se, hoje, a defesa do ponto de vista maquiavélico? O maquiavelismo é uma teoria do Poder e do Estado. E que os engrandece. E ainda uma doutrina politica que, nas palavras de Jaime Nogueira Pinto, assenta "num pessimismo antropológico numa concepção greco-romana de salus publica que eleva a razão de Estado a critério supremo da acção política, concebendo o bem público como bem maior, primeiro, e o ordenador, no plano axiológico, de outros valores e princípios”. Jaime Nogueira Pinto, que acaba de escrever um livro intitulado Ideologia e Razão de Estado – uma Historia do Poder (Civilização, 2013), que de novo medra como as novas leis e ordens por ele inventadas. Tais coisas, quando bem fundamentadas e possuidoras de grandeza, proporcionam- lhe uma majestade maravilhosa".
A razão de Estado como critério máximo de actuação dos governantes não foi criada por Maquiavel mas ele tornou-a o padrão "ético" da conduta normal. Contra a ciência política antiga, Maquiavel afirmou a irrelevância para o governo das nações da procura do bem ou da verdade. Esse foi o passo que lhe permitiu procurar o bem público através do Estado. E eliminando considerações metafísicas dos pressupostos e da finalidade da política, estabeleceu critérios de objectividade e rigor compatíveis com as exigências científicas contemporâneas (Jaime Nogueira Pinto). A autonomização e superiorização do político em relação a todas as esferas normativas passaram a determinar, no que se refere à governação, o modo de actuação do príncipe e, posteriormente, dos Estados constitucionais.
Não advogou uma forma específica de Estado, mas uma forma eficaz, o que nos remete para uma reflexão sobre o modo de organização e de exercício da autoridade na União Europeia
Não podemos falar ainda de uma infirmação pela ciência da teoria maquiavélica. Se me parece que o modo de organização em rede das sociedades contemporâneas e do futuro poderá pôr em causa alguns dos pressupostos do maquiavelismo como teoria cientifica, serão sobretudo os avanços na compreensão do comportamento humano que poderão sugerir alterações ao modelo. Refiro-me, nomeadamente, às descobertas de António Damásio de que não só existe livre-arbítrio mas também uma necessidade material de ética para o desenvolvimento das sociedades políticas.
Para já, no plano politico-constitucional, assistimos, em vários níveis, a debates difíceis postos pela consideração dos direitos fundamentais como limites de actuação ao poder politico. Claro que estamos longe do poder incondicionado do príncipe, mas defrontamo-nos com a incapacidade de afirmação dos Estados e da política, problema que necessita de respostas.


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Camus, por Oliveira Martins


Jornal de Letras

Página 28

A paixão das ideias

Guilherme D’Oliveira Martins

A Presença de Albert Camus

Já cem anos… A imagem que temos de Albert Camus é a de alguém que partiu cedo, jovem, com apenas 46 anos, antes de nos ter legado a obra que dele esperaríamos. O tempo passou e a sua influência, longe de se ter desvanecido, cresceu e tornou-se um símbolo do tempo em que viveu – de grandes mudanças e escolhas dilacerantes: a emergência do singular, os existencialismos, a consideração do absurdo, num contexto de fim de uma guerra violenta e de queda do eurocentrismo e dos colonialismos. No dia 3 de Janeiro de 1960, o potente Facel-Veja de Michel Gallimard despistou-se numa longa recta, perto de Montereau, embatendo contra um plátano. Albert Camus, que deveria ter viajado de comboio, teve morte imediata, o editor resistiria cinco dias. Tudo absurdo.
Numa pasta de couro, estavam 144 páginas de Le Premier Homme, romance incompleto que veria a luz do dia numa edição em 1994. Sete anos antes, Camus escrevera l’Homme Revolté, que gerara uma tempestade nos meios intelectuais parisienses, por comparar a barbárie nazi e a lógica estalinista, o que conduziu ao corte de relações com Sartre e a uma violenta reacção da revista Les Temps Modernes. E em 1957, no auge do conflito argelino, depois de tentar uma via legalista (então impossível), no momento em que o Prémio Nobel reconhece a importância da sua obra, incendeia, de novo, o debate politico ao dizer “creio na justiça, mas defenderia a minha mãe antes da justiça”. Num tempo em que os nervos estão à flor da pele e em que o tema da independência e da autodeterminação estava na ordem do dia, a independência de Camus é por muitos interpretada como um desvio aos ideais da esquerda. E á pergunta que se considerava um intelectual de esquerda contrapõe: “Não estou certo de ser um intelectual. Quanto ao resto, sou pela esquerda, apesar de mim, e apesar dela.”
A capa da nova edição de A Felicidade em Albert Camus, de Marcello Duarte Mathias (M.D.M) (Rio de Janeiro, 1975; 3ª ed., D. Quixote, 2013) apresenta-nos um jovem que nos sorri. Não estamos perante a imagem de alguém que transporta os males do mundo. A obra tornou-se profundamente actual. Limpos os circunstancialismos dramáticos de debates muito duros de vida ou de morte, podemos reencontrar Camus como alguém que compreendeu a história, recusando uma lógica de sistema. Como o autor português do magnífico ensaio recorda, Camus fez seu o grito de alma de Píndaro, colocando-o como epígrafe de O Mito de Sísifo: “Ó minha alma, não aspires à vida imortal mas esgota o campo do possível”. De facto, como diz Marcello: “Para lá das contingências históricas que o condicionam, todo o homem é uma liberdade em movimento, liberdade que se afirma e interroga ao serviço de uma ambição mais alta”.
Eis o centro desta reflexão.
Eis a marca fundamental da personalidade de Camus – engrandecer o homem e desdenhar o que o apouca e empobrece. E a decantação do tempo permitiu que essa liberdade se tenha projetado para além dos episódios momentâneos dessa hora já distante. Sendo certo que (como bem viu Raymond Aron) não estamos perante alguém que apenas foi clarividente. Não, Camus foi importante porque viu o que poderia ver, mesmo sem ver tudo, como sempre no-lo disse. Cometeu erros? Poderia ter tido mais? O certo, porém, é que teve as intuições fundamentais. Como referia o obituário do The Times, Camus foi “a man who walked alone”, e como tal soube definir o momento histórico singular em que viveu. Não por acaso, tanto Calígula como Sísifo são protagonistas únicos. E a felicidade como o absurdo são filhos da mesma terra, da relação entre o homem e entre o mundo e os outros homens.
Num ensaio luminoso, intitulado Albert Camus ou l’appel des humiliés (Esprit, jan, 1950), escrito pouco antes de morrer, Emmanuel Mounier procura compreender a originalidade do autor de l’État de Siège. “O mundo nem é tão racional assim, nem irracional. É desrazoável, e nada mais que isso”. Aqui estaria a raiz do absurdo – “como divórcio entre o espírito que deseja e o mundo que desilude, este espírito e este mundo estão confrontados um contra o outro sem poderem abraçar-se” (como se diz no Mito). O absurdo é o “pecado sem Deus”. E Camus recusava o jogo de palavras, de um suposto divórcio entre o homem e o mundo.
Como diz Mounier a “vitalidade mediterrânica que bate no coração de Camus não pode tirar, do nada como espectáculo, o dever de agravar ainda mais a negação. Mesmo o absurdo quer mantê-lo em vida, não como absurdo, mas como algo de vivo”. E, em convergência com o tema do ensaio de M.D.M., diz-se que “a abstracção se opõe à felicidade”. É esta recusa da abstracção e do sistema (que nos aproxima de Kierkegaard) que torna os temas da felicidade e da vida decisivos. A felicidade passa além do heroísmo, levando-nos a uma “exigência generosa” (que encontramos em A Peste e nas Cartas a um Amigo Alemão). E o absurdo é o contrário da esperança. Mounier fala, por isso, de uma “esperança de desesperados”, unindo os destinos de Malraux, Camus, Sartre e Bernanos. Para eles, a recusa não é uma renúncia, como um não de método, mas um sim à vida. E a felicidade é a maior das conquistas contra o destino que nos é imposto… É a vida que está em causa. E foi isso que perturbou os bem pensantes quando Camus invocou o exemplo da sua mãe, exposta ao drama da violência. Calígula organiza a indiferença. Mas nem tudo é permitido. A vontade incessante e obstinada do homem é que decide o absurdo. A Prometeu, herói da superação, Camus contrapõe Sísifo, herói da incessante repetição. Impõe-se compreender os limites: escolher a história contra o eterno, a acção contra a contemplação, o presente contra a abstracção, escolher uma vida inteiramente voltada à dispersão”.
O que tem sentido para Camus? Não é um sentido superior, mas um sentido – “le monde a du moins la verité de l’homme”. Tolstoi como Camus (segundo Mounier) consideram como raiz do mal a cedência á autoridade de uma abstracção, estatística ou teocrática (Magris falou-nos da idolatria). Daí a importância dos limites. Anos passados, M.D.M sabe que as considerações que apôs no final da sua reflexão confirmaram, de pleno, a indiscutível influência de Camus, o carácter premonitório das suas consideração e, sobretudo, a abertura de horizontes no sentido dos limites e da imperfeição.
“Camus possuía uma profunda, uma tenaz esperança nas virtualidades redentoras do homem. Essa esperança apontava um caminho e constituía, já de por si, uma promessa de plenitude que o levava a naturalmente imaginar Sísifo feliz – pois não renovava Sísifo todos os dias, perante todos e sem desfalecimentos, a liberdade do seu sonho?
Isolado decerto, mas solidário dos outros na procura e conquista da felicidade. E é isso que afinal importa.