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quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Um lastro histórico para explicar as democracias iliberais


Na Polónia, há ainda alguns jornais privados com significado e até uma cadeia de televisão privada. Na Hungria, já não.  (...) O que é paradigmático e paradoxal é que esta regressão democrática acontece nos países que tinham sido os casos de maior sucesso da democratização e foi justamente por isso que entraram na União Europeia. Como se lembra, tínhamos essa visão de que a simples entrada na União Europeia era a ancoragem irreversível à democracia (...) Pode haver uma regressão democrática no seio da União Europeia. Não era o fim da História, porque a História não tem fim. (...) O que se está a passar com o "Brexit", na Itália, na Áustria, mostra que não é um problema da periferia pós-comunista. Descobrimos que o problema existe também no seio da União Europeia, ainda que haja graus muito diferentes. Aliás, Orbán e Kaczynski não se enganaram: foram os primeiros a saudar a eleição de Trump. (...) [Orbán] compreendeu que era uma forma de legitimação. Se até dois países que representavam a pedra angular da democracia liberal ocidental - a Grã-Bretanha e os EUA - voltavam a defender a soberania nacional, então "nós somos a vanguarda". Trump foi recebido euforicamente na Polónia, como um herói, e retribuiu fazendo um discurso no qual saudava a Polónia como o último da defesa dos valores conservadores e cristãos. (...) Foi um catalisador para tornar o discurso nacionalista muito mais explícito. O que era implícito antes, com a crise migratória, Orbán e Kaczynski puderam dizer abertamente: nós somos os protectores da nação: nós defendemos que as nossas sociedades devem fechar-se aos imigrantes, sobretudo islâmicos. (...) Vão ainda mais longe, porque transportam o discurso de protecção da nação para a escala europeia. A sua narrativa não é à toa, quando invoca a protecção da nação contra a invasão islâmica que chega pela via otomana. Foi pelos Balcãs que os turcos chegaram lá no século XVI, quando a capital teve de se mudar para outra cidade, que hoje se chama Bratislava. É preciso saber isto para se perceber até que ponto o discurso ressoa na mente das pessoas. "Nós temos de travar a invasão que regressa pela via otomana". Conseguiram construir uma narrativa sobre a imigração à volta desta ideia de protecção da nação, mas também da protecção da Europa, porque historicamente foram eles a barreira à conquista otomana. "Fomos nós que protegemos a Europa cristã e hoje voltamos a desempenhar esse papel". Acusam-nos de sermos de extrema-direita? Não, apenas nos reclamamos dos valores tradicionais e conservadores: a família, a nação, a Igreja. E ainda bem que o fazemos  porque os conservadores europeus, aqueles que o deveriam fazer, abdicaram do seu papel. Olhem para os alemães da Senhora Merkel: adoptaram o casamento gay, defendem o multiculturalismo, transformaram-se num partido centrista, deixaram de ser conservadores. Nós somos os defensores da Europa cristã, não apenas porque defendemos as suas fronteiras, mas porque defendemos os seus valores nacionais conservadores. (...) No final dos anos 1980, os países ocidentais compraram tudo, o que de algum modo era inevitável: não se pode construir o capitalismo sem capital e eles não tinham capital. O capital veio do Ocidente. E com ele vieram os grandes centros comerciais, onde se vendiam os produtos produzidos pelo Ocidente. Vieram os bancos. E tudo isto foi feito sob a égide da União Europeia, que vêem como uma potência tutelar, que lhes diz o que podem ou não podem fazer e quais são as regras. Olham-na como um neocolonialismo soft. É o termo que eles utilizam. E não se pense que são marxistas anticapitalistas que dizem  estas coisas. São sobretudo os partidos de direita que recuperam um discurso pós-colonial e que defendem que é preciso resistir-lhe. Foram vocês que bombardearam a Líbia, são vocês que têm de receber os refugiados e os imigrantes. Foram vocês que colonizaram a África no século XIX, é da vossa responsabilidade receber os imigrantes desses países. Simplificando um pouco, eles pensam que devemos ser punidos pelos nossos pecados históricos. E vêem-se a si próprios como as vítimas. Vítimas da História - nomeadamente de terem ficado do lado errado depois da II Guerra - e consideram que os países  da Europa ocidental nunca quiseram saber do seu destino. São vítimas e são incompreendidos. Angela Merkel recebeu os refugiados simplesmente para  expiar os pecados da Alemanha. (...) A ironia está em que eles transpuseram o discurso sobre a nação para o nível europeu, mas foram buscar esse discurso aos alemães no século XIX. Era a definição alemã da nação. A nação é a língua, a cultura, a religião. A definição francesa é outra: é o Estado que constrói a nação. Para os alemães, é a nação que constrói o Estado. Os europeus de Leste adoptaram este modelo, transpondo-o para a escala europeia - uma Europa que se define como cultura, como civilização que se protege dos outros. No momento em que adoptam o modelo alemão, a Alemanha diz-lhes que mudou de modelo. Hoje, os turcos podem ser cidadãos alemães


Jacques Rupnik, Professor de Ciência Política, politólogo da Sciences Po, entrevistado por Teresa de SousaPúblico, P2, 20-01-2019, "Hoje temos uma espécie de balcanização a Ocidente", pp.6-7.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Da balcanização da Europa


Macron está à espera há ano e meio. Foi eleito, criando um forte élan europeu, fez quatro discursos sobre a Europa de grande fôlego: na Sorbonne, em Atenas, no Parlamento Europeu e em Aix-la-Chapelle. Tem uma ideia. Não houve resposta alemã. (...) Se Macron não consegue fazer a Europa com quatro discursos, ela [Angela Merkel] também não pode fazê-la só com um gesto generoso ou porque a Alemanha é a economia mais poderosa. E aí faltou-lhe uma visão. Se me perguntassem hoje qual é a visão da Europa de Angela Merkel, eu não saberia responder. (...)
Na Itália, por exemplo, incluindo no interior do Governo, há os que querem mais despesa pública e os que dizem que não querem mais impostos. A Catalunha é uma revolta fiscal disfarçada de reivindicação identitária (...) É isso [a Catalunha não quer partilhar a sua riqueza com o resto da Espanha]. A Bélgica é um pouco a mesma coisa. Na Grã-Bretanha, há a questão escocesa. Acreditámos que a balcanização era um fenómeno apenas do Leste. Hoje temos uma balcanização também a Ocidente. (...) A Europa não está preparada porque, durante demasiado tempo, manteve a convicção de que a relação transatlântica lhe permitia prosseguir a integração europeia sem ter necessidade de se preocupar muito com as questões de natureza geopolítica. (...) Aliás, havia uma visão britânica, que também convinha aos países da Europa de centro-leste, mais ou menos assim: a soberania é nossa; a segurança é dos EUA e da NATO; e a prosperidade é da União Europeia. E agora descobre-se que isto deixou de funcionar. (...) A leste, Putin mantém esta espécie de guerra híbrida na Ucrânia, algo que é visto como uma ameaça, sobretudo pelos países como a Polónia ou os países bálticos, que estão na primeira linha. E há a ameaça a Sul, com a decomposição dos Estados, a guerra, o terrorismo, a imigração. A isto soma-se a incerteza sobre o nosso aliado americano. Se, nestas circunstâncias, os europeus não são capazes de pensar que o seu destino comum deve exigir uma resposta comum, então estão condenados. (...) Seria preciso uma liderança política forte e é precisamente o que nos falta. Não é o problema de a Comissão fazer isto ou aquilo, é o problema da vontade política dos Estados. Estamos perante uma mudança brusca na História - se a Europa escolher sair da História, acabará dominada por um mundo onde contam a China, os EUA e outras grandes potências como a Rússia ou a Índia. Acabará irrelevante. (...) O que idealizámos depois da Guerra Fria acabou. Quem não compreender isto, está condenado. Continuar a dizer que a Europa é apenas a prosperidade que saiu da história é renunciar a tudo. E isso, mais tarde ou mais cedo, conduziria ao apagamento e à fragmentação. Se queremos ter alguma influência, comecemos pelo Leste e pelo Sul. (...) O que é novo nesta situação é que acreditámos que o centro difundia os seus valores e as suas normas para a periferia, incluindo a estabilidade e a democracia. Hoje é o inverso que se verifica. A interpenetração é tal que quase deixou de haver centro e periferia


Jacques Rupnik, Professor de Ciência Política, politólogo da Sciences Po, entrevistado por Teresa de SousaPúblico, P2, 20-01-2019, "Hoje temos uma espécie de balcanização a Ocidente", p.9

Gilets Jaunes


Descobriu-se, nas prisões que foram feitas depois das manifestações, que, embora houvesse militantes de extrema-esquerda e de extrema-direita, mais os segundos de resto, que uma grande parte das pessoas presas, por exemplo nos actos de pilhagem, eram gente comum que nunca tinha participado em manifestações ou em partidos políticos. Deve manter-se a distinção entre o movimento e os casseurs, mas não é só isso. Os gilets jaunes perceberam muito bem que o seu eco nos media e a atenção constante da sociedade se devia apenas ao facto de manterem um elevado nível de violência. Compreenderam que havia uma correlação muito forte entre o ritual dos sábados e a atenção dos media. Perceberam que ocupam as cadeias de televisão em contínuo justamente porque praticam a violência. (...) Em democracia, a forma de resolver os conflitos é a negociação. Mas como negociar com gente que recusa qualquer representação? Eles eliminaram imediatamente aqueles que, numa ou noutra altura, quiseram arvorar-se em porta-vozes. Em segundo lugar, como iniciar uma negociação com um movimento cujas reivindicações são um catálogo absolutamente diverso em que cabe praticamente tudo, incluindo coisas que são absolutamente contraditórias entre si? Foi talvez para contornar este problema que Macron lançou o seu grande debate. Neste momento, o único sítio onde pode haver algum debate são as mairies (as câmaras municipais), com presidentes que são democraticamente eleitos e que são, aliás, o pessoal político que, em França, recolhe maior confiança por parte dos cidadãos. Foi uma escolha inteligente de Macron, mas é uma descoberta tardia do Presidente, que tinha ignorado os municípios - é este, de resto, o outro aspecto importante do debate actual. (...) Há muitas causas para os gilets jaune, mas uma delas é o desaparecimento dos corpos intermédios - sindicatos, patrões, associações profissionais, mas também câmaras, que são os mediadores entre os cidadãos comuns e o sistema político. Macron desdenhou-os ao ponto de se recusar a participar no Congresso dos Maires da França e reduziu os seus meios financeiros. Escolher agora as câmaras é uma coisa boa. Não haver temas tabu também é. Aliás, Macron participou agora [na semana passada] no primeiro debate numa câmara da Normandia, que durou sete horas. Esteve sete horas de pé numa sala apinhada de gente comum, mas também pelos chamados "notáveis locais". Diz-se que se saiu muito bem. Mas a maior dificuldade vai ser ultrapassar o cepticismo reinante perante a política e perante as elites políticas. (...) Temos a questão da fiscalidade e um conjunto de problemas sociais ligados ao que podemos chamar de classes médias baixas, que sofrem um pouco por toda a parte no contexto da mundialização. E que não são diferentes das pessoas que votaram pelo "Brexit" ou que alimentaram o Tea Party na América. É o mesmo perfil de pessoas, acompanhado pela mesma rejeição do peso dos impostos e da sensação de que o dinheiro resultante do crescimento vai não sabem bem para onde, mas nunca para elas. (...)
Em Paris, a moda entre os BoBo [designação dada a uma parte das elites citadinas: "Bon chique, bon genre"] é não ter carro. Eles podem dispensá-lo porque dispõem de uma rede de transportes eficaz. Para as pessoas das cidades, a questão política mais importante deste século são as alterações climáticas e o ambiente. Do outro lado, há este movimento que não tem o mínimo interesse pelas alterações climáticas e que apenas diz: eu preciso do meu carro para ir trabalhar, levar os filhos à escola e ir fazer as compras do mês à periferia. (...) Há dois mundos. A França urbana das grandes cidades que é bastante próspera, e a França periférica. Mas o que deixou as pessoas ainda mais espantadas não foi tanto o carácter súbito do fenómeno, mas esse ódio, essa cólera que se exprimiu espontaneamente e sem disfarces. Esta raiva às elites é nova e atinge as elites, mas também as instituições, que exige a dissolução do Parlamento e que se exprime contra um Presidente que foi eleito há menos de dois anos. Mas é preciso pôr as coisas na sua dimensão. Hoje, é um movimento que reúne 50 mil a 60 mil pessoas num país de 66 milhões. O que eles conseguiram, através da violência, foi ocupar o espaço público e isso é novo. (...) Outra coisa muito importante. Normalmente, quando há uma crise como esta numa democracia, as pessoas viram-se para a oposição. (...) Hoje ninguém pode dissolver a Assembleia, a não ser alguém que queira dar o poder a Marine Le Pen. Basta olhar para as sondagens para ver que nenhum outro partido conseguiu beneficiar com os gilets jaunes. Nenhum. Os republicanos, que estavam em 10%, continuam aí. Os socialistas mantém-se à volta de 6%. Além disso, ninguém os ouve. Desapareceram. Nesse contexto, se a opção fosse eleições legislativas, não haveria qualquer alternativa. (...) Ela [Le Pen] pode ganhar as eleições mas não tem meios para governar. As sondagens não chegam a dar-lhe 25%. (...) Acreditou-se que [Marine Le Pen], com o seu duelo perdido com Macron, estava acabada. Está de regresso. Por enquanto, parece ser a grande beneficiária da crise


Jacques Rupnik, Professor de Ciência Política, politólogo da Sciences Po, entrevistado por Teresa de Sousa, Público, P2, 20-01-2019, "Hoje temos uma espécie de balcanização a Ocidente", pp.4-9


P.S.: apenas uma precisão: de acordo com dados publicados em diferentes jornais, os "coletes amarelos" reunirá cerca de 80/90 pessoas (o que, de qualquer forma, não implica nenhuma alteração do argumento aqui citado, apenas se procura o maior rigor possível).