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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Campanha brasileira


Vi na Globo as entrevistas que, ao longo desta semana, foram realizadas com os principais candidatos, os melhor colocados segundo as sondagens, às Presidenciais brasileiras (hoje, será a vez de Marina Silva). A primeira coisa que me saltou à vista, foi a excelente qualidade da preparação dos entrevistadores que, sem excepções, colocaram questões que realmente embaraçaram cada um dos candidatos. William Bonner e Renata Vasconcellos não precisaram de não deixar falar os seus interlocutores, nem de adoptarem um estilo hirto, policial. O escrutínio, durante 28 minutos com cada candidato, foi muito bem conseguido. Em segundo lugar, dada a ausência de Lula da Silva, ou de qualquer outro candidato do PT a estas eleições, há um redobrar de atenções para aquele que é o candidato que se encontra em segundo lugar nas sondagens, Jair Bolsonaro. Este, na Globo, teve dificuldades na tentativa de recuo em quase todos os temas que o tornaram conhecido ao longo dos anos, mesmo fora do Brasil (questões como aceitação de salários diferentes para o mesmo trabalho, consoante este seja desempenhado por homens ou mulheres; homofobia; recentes declarações sobre direitos de trabalhadores). Procurando recentrar, nestes âmbitos, o seu perfil, Bolsonaro intentou matizar, "contextualizar", "desdramatizar" afirmações carregadas de outrora. Todavia, um âmbito houve sobre o qual este candidato não "voltou atrás": a sua resposta política à criminalidade. Em um raciocínio extremamente perigoso, Bolsonaro deu como inevitáveis as "balas perdidas", da polícia, que vitimam inocentes em favelas, em intervenções das autoridades. Para Bolsonaro, só há duas alternativas: ou a polícia não entra em favela; ou, entrando, são inevitáveis as "vítimas colaterais". Se ouvirmos com atenção vários actores políticos brasileiros (por exemplo, o responsável pela pasta económica de Bolsonaro, Paulo Guedes teorizou mesmo o ponto central da actual disputa a desordem que pede a força hobbesiana do Estado que garanta vida, propriedade, etc.), e diversos cidadãos, a questão da (in) segurança, da criminalidade, da sobrevivência, da ideia de uma mão forte poderá jogar um papel determinante no resultado destas eleições.
Na Economia, a falta de preparação de Bolsonaro foi muito apontada - não apenas nesta entrevista, mas ao longo da campanha. E, de facto, aquilo que o candidato presidencial faz é dizer que não é um conhecedor da matéria, que convidou um reputado técnico para ser seu ministro da pasta, e que acredita no que ele vai fazer. Também ao longo da semana, a GloboNews, ao longo de uma hora com cada responsável pela pasta económica de cada candidatura, levou Paulo Guedes a estúdio. O responsável pela Economia da candidatura de Bolsonaro propôs um forte choque liberal na economia brasileira, com um programa de privatizações a todo o vapor, reforma do sistema de previdência, o mesmo se passando com a Administração (que pretende reduzir). O défice zero num ano, a compressão da despesa, o cheque-educação tudo variáveis que compõe as propostas habituais do pensamento económico liberal estão aqui presentes. Acontece que ao longo de anos, Bolsonaro foi estatista, votou contra as privatizações, não demonstrou qualquer pensamento ou filiação económica liberal. As coisas não se resolvem com o mero indicar de um técnico, por melhor que ele seja, como se um candidato à Presidência não tivesse opinião política sobre o rumo da economia e do país, da sociedade brasileira, e como se o técnico não tivesse ideologia, como tem e a assumiu. A entrevista com Paulo Guedes foi de meridiana clareza quanto ao que ocorre: uma espécie de coligação no interior da própria candidatura liderada por Bolsonaro, com as credenciais académicas de Paulo Guedes, a impressionarem - e a colonizarem ideologicamente, por consequência - Jair Bolsonaro.
O que a ausência do PT da campanha para as presidenciais, até ao momento, também traz como consequência é que Ciro Gomes, o professor de direito constitucional e ex-ministro de Lula, do PDT comece a ganhar uma (talvez surpreendente, visto de fora) aura de quem pode unir as esquerdas (ele diz que apenas na segunda volta). O candidato e o seu homem da economia, Mauro Benevides, fazem muita questão de apresentarem ao detalhe o seu programa - mal comparado, fazendo lembrar António Costa com o programa Centeno, nas últimas legislativas portuguesas -, no qual destacam o modo engenhoso do plano com que vão conseguir reestruturar a dívida dos particulares, a capitalização em âmbito de Previdência Social, com imposição de novos e mais baixos tectos às pensões, taxa de transacções financeiras, revisão da questão do imposto sobre as heranças, alteração ao código de trabalho no sentido mais favorável aos trabalhadores. 
Uma das questões que, olhando de longe, me fica é se, sem Lula, qualquer outro candidato - neste caso Haddad, número dois - permitirá ao PT chegar a tempo de disputar estas Presidenciais, ou se, mesmo na primeira volta, ainda declararão apoio a um candidato.

P.S.: se a questão fosse, exclusivamente, o ideário, a ideologia, parece-me claro que havia sentido em o PT apoiar Ciro Gomes. Acontece que há uma outra contabilidade por fazer, que passa pela liderança da esquerda brasileira. E aí o PT não quererá ser ultrapassado por um candidato de um outro partido, por mais que com ele partilhe uma visão do mundo (e do seu país). De aí que o PT, ao que consta, esteja a tentar isolar Ciro Gomes. Será assim até ao fim?
Por outro lado, a entrevista de Bolsonaro teve imensa audiência; o político terá entusiasmado aqueles que já o apoiavam com o confronto que estabeleceu com os jornalistas. Tem sido assinalado um certo contencioso entre vários sectores da sociedade brasileira e a Globo - ainda as relações com a ditadura - e a ofensiva de Bolsonaro para com os seus entrevistadores terá agradado a vários telespectadores.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Em Outubro, as eleições no Brasil



No debate da passada quinta-feira, entre vários candidatos à Presidência do Brasil, notámos como a questão do emprego é aquela que, neste momento, mais preocupa os brasileiros. O que não espanta, se atentarmos que, actualmente, o Brasil conta com 13 milhões de desempregados. A realidade dos jovens, por seu turno, não é mais animadora: há 11 milhões de jovens nem-nem (jovens que não trabalham, nem estudam). Ainda assim, o Brasil é, por esta altura, a oitava maior economia do mundo. Sendo que apresenta gastos com Segurança que ultrapassam a média da OCDE. O que não impede que haja cerca de 62 mil homicídios ano (há quatro anos, eram 59 mil, pelo que, infelizmente, a criminalidade aumentou). 32 milhões de brasileiros não têm protecção social. Houve mais 8% de estupros contra mulheres, no último ano, bem como um incremento de 8% do "feminicídio". Há, igualmente, uma elevada taxa de homícidios de jovens.
No debate televisivo na Band, os candidatos mais articulados foram Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT), dentro do que são propostas político-ideológicas bem diferenciadas (ainda que com as narrativas que sobejam dos finais dos anos 70). Alckmin, à direita, propôs redução da despesa, baixa de impostos,
integração comercial em redes transnacionais, desburocratização, desregulação; redução do IRC, apoio à reforma laboral do Governo Temer. Ao mesmo tempo, do ponto de vista político, pretende uma legislação reformada que acabe com a existência de 35 partidos (assentando no modelo misto alemão). Ciro Gomes, à esquerda, prometeu alterar a legislação laboral que, com a última reforma, considerou "selvagem" e sem qualquer efeito no aumento de emprego. Mais protecção social, nos mais variados domínios, com investimento na economia, pelo Estado, resultante de uma maior taxação do capital, do que aquela hoje feita, e menor penalização do trabalho. No ensino, em vez da 
“decoreba, ensinar o jovem a pensar”e não “introduzir o
chicote dentro da aula”
. Notou-se alguma evolução, face há poucos anos, da posição do PSDB relativamente ao programa "Bolsa Família", agora qualificado por Alckmin como "um óptimo programa" (contrariando, assim, sublinhou Ciro Gomes, o editorial do referido partido no seu site, onde tal programa era classificado de "Bolsa Esmola" e se dizia que "escraviza" a pessoa).
As atenções, face às sondagens, talvez estivessem concentradas em Jair Bolsonaro, cuja participação, preparação e propostas foram bastante rudimentares. Talvez, o modo brutal como apresentou a questão do desemprego, tenha chegado para muita gente: sei que vou perder votos, disse, mas segundo muitos empresários me têm dito, prosseguiu, ou os brasileiros aceitam perder direitos para terem emprego, ou então estão no desemprego com os direitos todos. Defendeu o uso de castração química voluntário por parte de condenados por crimes de estupro. Confrontado com o (seu) uso pouco ético de dinheiros públicos, foi incapaz de dar qualquer resposta mínima.
Quanto a Marina Silva, a prestação que teve no debate foi, também, muito aquém de expectativas que ao longo de muitos anos muitos depositaram na mulher que subiu a pulso na vida.
Num debate em que termos como "escumalhação" ou "roubalheira" não deixaram de vir à cena, e no qual a invocação de Deus foi outra constante (“o grande problema que a nação enfrenta é a falta de amor ao próximo”, disse um dos candidatos) - termos pouco vistos em debates na Europa, mas presentes num Brasil onde os evangélicos detém hoje significativo poder -, registo ainda para as elevadas taxas de juro que o país paga neste instante.