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terça-feira, 2 de outubro de 2018

O(s) clima(s) frio(s) estimulam uma especial criatividade e energia dos povos?


Outra explicação, popular entre os habitantes da Europa Setentrional, invoca os supostos efeitos estimulantes do clima frio das suas pátrias e os efeitos inibidores dos climas tropicais quentes e húmidos sobre a criatividade e a energia humanas. Talvez o clima variável segundo estações das latitudes mais altas apresente desafios mais díspares do que o clima tropical constante. Talvez os climas frios exijam que se seja tecnologicamente mais inventivo para sobreviver, já que se torna necessário construir uma casa quente e fabricar roupas quentes, ao passo que é possível sobreviver nos trópicos com alojamentos mais simples e sem roupas. Ou então poderemos inverter o argumento para chegar à mesma conclusão: os longos Invernos das latitudes mais elevadas deixam os indivíduos com muito mais tempo livre para ficarem dentro de casa a inventar.
Embora popular em tempos passados, também este tipo de explicação não resiste a um escrutínio mais apurado. Tal como veremos, os povos da Europa Setentrional não contribuíram com nada de importância fundamental para a civilização eurasiática até ao último milénio; limitaram-se a ter a sorte de viver numa zona geográfica onde poderiam receber as inovações (como a agricultura, a roda, a escrita e a metalurgia) desenvolvidas nas áreas mais amenas da Eurásia. No Novo Mundo, as regiões frias das latitudes mais altas eram ainda mais atrasadas. As únicas sociedades nativas americanas a desenvolver a escrita surgiram no México, a sul do trópico de Câncer; a cerâmica mais antiga do Novo Mundo surgiu perto do equador, na América do Sul tropical; e a sociedade do Novo Mundo que regra geral é considerada a mais avançada no que diz respeito à arte, à astronomia e em outros aspectos foi a sociedade mais clássica do Iucutão e da Guatemala tropicais, no primeiro milénio da era cristã.

Jared Diamond, Armas, Germes e Aço, Temas e Debates, 2015, p.26. Tradução de Luis Oliveira Santos.

domingo, 16 de setembro de 2018

Sociedades tradicionais e o mundo contemporâneo


Resultado de imagem para Papua Nova Guiné


P: Os nossos antepassados, que dependiam daquilo que a Natureza lhes dava para sobreviverem, eram mais felizes do que nós? 

R: Com a minha experiência com povos tradicionais, principalmente na Nova Guiné, diria que em alguns aspectos eles são mais felizes do que nós, noutros menos. Eles morrem mais cedo, aos 40 ou 50 anos, e metade das crianças só vive até aos 5 anos. Têm mais dificuldades com fome, perigo, guerra e doenças. Por outro lado, têm relações sociais muito mais ricas. Talvez não seja assim em Portugal, mas os norte-americanos têm relações sociais pouco ricas. Em média, mudamos de casa a cada cinco anos e as amizades são menos profundas. Interagimos uns com os outros por telefone, email ou mensagens. Na Nova Guiné tradicional, todas as interacções são cara a cara. Pode olhar a outra pessoa nos olhos, ver a sua linguagem corporal, cheirá-la, ouvi-la...Por isso é que acho que, em média, as populações tradicionais têm vidas mais ricas do que norte-americanos e europeus.


P: O ser humano viveu durante milhares e milhares de anos em comunidades mais pequenas. Sentimo-nos mais confortáveis nesse ambiente?

R: Significativamente. Só nos últimos dez mil anos é que os humanos têm vivido em sociedades mais complexas. Nesse sentido, os povos tradicionais vivem de forma mais natural. Natural não significa melhor. Eu vivo em Los Angeles por escolha. Não quero mudar-me para a Nova Guiné. Prefiro visitar.


P: O que o surpreendeu mais no tempo em que esteve na Papua Nova Guiné? 

R: Tantas coisas! Fiquei chocado favoravelmente com algumas e negativamente com outras. Fiquei surpreendido com o tempo que passam a conversar. Muito mais tempo do que nós. Durante quase todo o tempo em que estão acordados, estão a falar uns com os outros. Mesmo quando estão na cama, às duas da manhã, alguém pode acordar e começar a gritar para alguém no outro lado da aldeia. Conversam 45 minutos e depois voltam a dormir. Do lado negativo, há muita crueldade e as mulheres são tratadas como bestas de carga. São espancadas pelos homens e lutam com eles, às vezes com armas. Na minha primeira visita à Nova Guiné, ouvi gritos e perguntei o que se passava. Disseram para não me preocupar, que era uma luta entre marido e mulher. E eu disse: "Coitada da mulher! Estão a lutar com o quê?". E eles responderam: "Com machados, claro." "OMG! Temos de ir ajudá-la", disse eu. Explicaram-me que a mulher era tão forte como o homem e conseguia defender-se. "Talvez mate o homem". Fico feliz por viver num país onde a minha mulher não vem atrás de mim com um machado.


P: Que lições deveríamos aprender com essas sociedades tradicionais?

R: Imensas lições. Influenciaram a minha vida. Quando os meus filhos nasceram - tenho dois gémeos -, a forma como os criei dependeu mais daquilo que vi os papuanos fazerem do que os americanos. Lá, as crianças têm imensa liberdade. Nós acharíamos que é demasiado, mas um bebé papuano pode ser deixado ao lado de uma fogueira, com hipóteses de rolar para o fogo. Se ele se aproximar, aprende que não pode voltar a fazê-lo. Não permiti aos meus filhos que pudessem cair em fogueiras, mas dei-lhes liberdade para fazerem as suas escolhas, desde que isso não os matasse. Aos três anos, um deles viu uma cobra e ficou fascinado. Pediu-me uma como animal de estimação. Eu e a minha mulher não adoramos cobras, mas sou biólogo...Não lhe demos uma víbora nem uma cascavel mas oferecemos-lhe uma pequena cobra do milho. Ele acabou por ter cada vez mais cobras, sapos, tartarugas e répteis até a nossa casa ter 146. 


P: O conceito de trabalho nessas sociedades tradicionais é muito diferente?

R: É drasticamente diferente. Eu e você distinguimos trabalho e lazer. Quando estou à secretária a escrever, isso é trabalho. Quando saio de casa de manhã para observar os pássaros, como fiz hoje, isso é lazer. Na Nova Guiné não fariam essa distinção. Tudo serve alguma função. Quando se sentam para conversar é lazer, mas também são relações sociais. Olhando para a Nova Guiné, percebe-se que o conceito de trabalho evoluiu à medida que a sociedade se complexificou. Ali, todos têm de ser capazes de cultivar a sua própria comida, ninguém tem um trabalho.

(...) 

P: Podemos ser os próximos Maias ou o próximo Império Khmer?

R: É possível. Mas a civilização Khmer colapsou sozinha. O mesmo com os Maias. O resto do mundo não colapsou. Hoje, nenhuma sociedade cai sozinha. Isso está a ver-se na Europa. Problemas nas sociedades africanas e no Médio Oriente levam as pessoas a fugir. Quando há problemas na Somália ou na Síria, isso é um problema para Portugal, Espanha e outros países europeus.


P: Partilhamos alguns dos problemas que estiveram na base do colapso dessas civilizações? 

R: Claro que sim. Essas civilizações colapsaram por motivos ambientais, gestão de recursos como água e floresta. Hoje, as sociedades do primeiro mundo têm esses problemas. No passado, havia dificuldades em manter a paz e, no mundo moderno, também as temos. 


P: Quais são as probabilidades de conseguirmos resolver esses problemas nos próximos 30 anos? 

R: Há 51% de hipóteses dos meus filhos serem felizes durante as suas vidas. Há 49% de hipóteses de eles e toda a gente acabaram a viver num mundo terrível.



P: O nosso futuro é mais frágil do que achamos. As grandes civilizações partilham uma certa arrogância?

R: Há arrogância, mas também ignorância. Muitas pessoas não sabem por que razão as sociedades colapsaram. Os líderes políticos, alguns do meu país, são propositadamente ignorantes. Não querem aprender. Desvalorizam a Ciência. A ignorância faz parte, o egoísmo também.

(...)

Eu diria que, daqui a 20 anos, cada vez mais gente vai dizer que não só foi horrível impedir as mulheres de votar e fazer experiências científicas em chimpanzés, como também, foi horrível criar porcos e vacas para os matar.


Jared Diamond, biólogo e escritor, entrevistado por Nuno Aguiar, para a Visão nº1332, de 13 a 19/09/2018, Há 49% de hipóteses de os meus filhos acabarem a viver num mundo terrível, pp.59-60.