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domingo, 9 de junho de 2019

EIS O PONTO


Jean-Claude Michéa, seguido por Charles Robin, demonstrou perfeitamente que o liberalismo económico «de direita» e o liberalismo societal «de esquerda» estão destinados a juntarem-se porque partem dos mesmos postulados fundadores.

O liberalismo económico integral (oficialmente defendido pela direita) traz, pois, consigo a revolução permanente dos costumes (oficialmente defendida pela esquerda), assim como esta última exige, por sua vez, a liberalização total do mercado (Jean-Claude Michéa).

(...) Slogans de Maio de 68 como «gozar sem entraves» e «é proibido proibir» eram slogans tipicamente liberais. A esquerda, hoje, dá-se bem no liberalismo societal na medida em que se converteu completamente ao liberalismo económico mundializado.
Não sou a pessoa indicada para dizer se o liberalismo é ou não uma «estrutura de pecado», para falar como o Papa Francisco.


Alain de Benoist, Liberalismo: despolitização, politização e liberdade, in António Bento e José Manuel Santos (org.), Neoliberalismo Liberdade Governo, Documenta, 2019, pp.72-73. 


P.S.: Ou seja: defender-se que os indivíduos fazem o que quiserem com a sua propriedade e o Estado não deve nunca interferir, nomeadamente com impostos progressivos, a sério, para fazer uma redistribuição para os mais pobres - a defesa desta ideia de abstenção do Estado, feita pelo liberalismo económico, difunde a ideia cultural de que não temos nada a ver uns com os outros ("vou descontar para depois darem o meu dinheiro a malandros?"; e portanto voto numa ideologia que defenda a menor percentagem de impostos que eu tenha que pagar); ora, se nada temos a ver uns com os outros, se não há um bem comum, depois não se admirem (estes defensores do liberalismo económico) que, no plano dos costumes, "societal" as pessoas digam "sou dono da minha barriga" (aborto) ou "ninguém pode impor a sua moral aos outros e quem quiser ser eutanasiado deve sê-lo"(eutanásia). 

Por outro lado, quem diz que "a barriga é minha", ou "ninguém pode impor a sua moral aos outros" (liberalismo no plano societal e dos costumes), depois não pode ficar admirado, se a concepção antropológica de que parte é o indivíduo isolado ("a barriga é minha") que não haja depois solidariedade económica ("é preciso taxar os mais ricos para ajudar os mais desfavorecidos"). 

Um liberalismo alimenta o outro. Tradicionalmente, a direita só gosta do liberalismo económico, e a esquerda do liberalismo societal, mas como em ambos os casos o pressuposto antropológico é "cada um faça o que quiser" e não há uma ideia de bem comum, contribuem ambos para alimentar o outro.

Para a Doutrina Social da Igreja, nem um Estado laissez faire no plano económico, nem o liberalismo a outrance no plano societal. A Igreja parte da pessoa - não do indivíduo isolado, absolutizado - e de uma ideia de "bem comum".

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Uma outra direita


Jean-Claude Michéa é um filósofo francês com uma imagem de marca: um gorro de lã e uma t-shirt vermelha, ora com a foice e o martelo estampados ora com a sigla CCCP, o que em russo quer dizer URSS. Mas desaconselham-se as conclusões apressadas. Um texto seu, na revista Limite, aplaude os coletes amarelos com vários jogos de palavras. "O povo finalmente está em marcha" - ironia com o slogan eleitoral de Emmanuel Macron, EnMarche! - "contra um governo thatcherista de esquerda". A revista é de direita, mas gosta da imagem, e das palavras, do filósofo libertário de 68 anos (que parece bem mais jovem na ilustração do que a revista publica). Aliás, a Limite é uma publicação com um manifesto que explica ao que vem: "encorajar todas as alternativas à sociedade de mercado. Recusando a 'alternância sem alternativa' da divisão direita/esquerda, Limite dá a mão a todos aqueles que lutam contra o duplo império da tecnologia sem alma e do mercado sem lei".
Os textos que publica têm verve e argumentos. O que parece estranho é aquilo a que Mark Lilla, professor de Humanidades na Universidade de Columbia, nos EUA, chama de "ecumenismo". A revista, como boa parte de uma nova direita francesa - que não se revê nos Republicanos, da direita tradicional, nem na extrema-direita de Le Pen -, parece juntar partes inconciliáveis do puzzle político que nos habituámos a conhecer. É conservadora em termos sociais (antifeminista, antieutanásia, assumidamente católica). Mas mostra orgulhosamente um discurso económico que parece tirado do movimento Occupy Wall Street. É anti-União Europeia e anti-Bolsonaro. Defende o conservadorismo indo buscar o Camus ideal.
Mark Lilla tem passado os últimos tempos a entrevistar alguns destes jovens intelectuais da nova direita francesa. Escreveu, na última edição da New York Review of Books, um texto onde os descreve: "as visões destes jovens conservadores sobre a família e a sexualidade são católicas tradicionalistas. Mas a forma como as defendem é estritamente secular: "querem regressar a um ideal de "família forte" para combater o "individualismo radical".
A novidade, aponta Lilla, é que "pensemos o que pensemos sobre estas ideias conservadoras sobre a economia e a sociedade, elas formam uma leitura coerente". E isso contrasta com a crise actual das ideias dominantes: social-democracia, liberalismo, democracia-cristã. E é por isso que - afastando-se do populismo nacionalista e xenófobo, mas rejeitando quase nos mesmos termos o "cosmopolitismo" - esta nova direita pode vir a ter espaço político. (...)
O que ela [a nova direita francesa] mostra, ainda assim, é uma mudança profunda nas fronteiras políticas tradicionais.

Paulo Pena, Há uma nova direita a nascer em França pós-coletes amarelos, DN, 16-12-2018, p.30.

P.S.: uma direita mais radical junta-se em torno de revistas como Valeurs Actuelles e L'Incorrect.

P.S.2: Alguns artigos da revista ecológico-católica Limite.