Jean-Claude Michéa, seguido por Charles Robin, demonstrou perfeitamente que o liberalismo económico «de direita» e o liberalismo societal «de esquerda» estão destinados a juntarem-se porque partem dos mesmos postulados fundadores.
O liberalismo económico integral (oficialmente defendido pela direita) traz, pois, consigo a revolução permanente dos costumes (oficialmente defendida pela esquerda), assim como esta última exige, por sua vez, a liberalização total do mercado (Jean-Claude Michéa).
(...) Slogans de Maio de 68 como «gozar sem entraves» e «é proibido proibir» eram slogans tipicamente liberais. A esquerda, hoje, dá-se bem no liberalismo societal na medida em que se converteu completamente ao liberalismo económico mundializado.
Não sou a pessoa indicada para dizer se o liberalismo é ou não uma «estrutura de pecado», para falar como o Papa Francisco.
Alain de Benoist, Liberalismo: despolitização, politização e liberdade, in António Bento e José Manuel Santos (org.), Neoliberalismo Liberdade Governo, Documenta, 2019, pp.72-73.
P.S.: Ou seja: defender-se que os indivíduos fazem o que quiserem com a sua propriedade e o Estado não deve nunca interferir, nomeadamente com impostos progressivos, a sério, para fazer uma redistribuição para os mais pobres - a defesa desta ideia de abstenção do Estado, feita pelo liberalismo económico, difunde a ideia cultural de que não temos nada a ver uns com os outros ("vou descontar para depois darem o meu dinheiro a malandros?"; e portanto voto numa ideologia que defenda a menor percentagem de impostos que eu tenha que pagar); ora, se nada temos a ver uns com os outros, se não há um bem comum, depois não se admirem (estes defensores do liberalismo económico) que, no plano dos costumes, "societal" as pessoas digam "sou dono da minha barriga" (aborto) ou "ninguém pode impor a sua moral aos outros e quem quiser ser eutanasiado deve sê-lo"(eutanásia).
Por outro lado, quem diz que "a barriga é minha", ou "ninguém pode impor a sua moral aos outros" (liberalismo no plano societal e dos costumes), depois não pode ficar admirado, se a concepção antropológica de que parte é o indivíduo isolado ("a barriga é minha") que não haja depois solidariedade económica ("é preciso taxar os mais ricos para ajudar os mais desfavorecidos").
Um liberalismo alimenta o outro. Tradicionalmente, a direita só gosta do liberalismo económico, e a esquerda do liberalismo societal, mas como em ambos os casos o pressuposto antropológico é "cada um faça o que quiser" e não há uma ideia de bem comum, contribuem ambos para alimentar o outro.
Para a Doutrina Social da Igreja, nem um Estado laissez faire no plano económico, nem o liberalismo a outrance no plano societal. A Igreja parte da pessoa - não do indivíduo isolado, absolutizado - e de uma ideia de "bem comum".