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sexta-feira, 14 de junho de 2019

Prefácios

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Por mais extravagante que pareça, sou um grande leitor de prefácios. Inclusive prefácios a obras que não interessam nem ao burrinho do presépio, livralhada cujo efeito sobre a nossa inteligência se desvanece imediatamente e que tornam muito difícil a possibilidade de um diálogo civilizado com os autores. Porque as humaníssimas sensações de vazio, desolação e arrependimento que esses livros nos deixam costumam ser directamente proporcionais ao proveito que podemos retirar dos respectivos prefácios. (...)
Em primeiro lugar, não se pode evitar a questão de saber qual dos cinco Presidentes é que escreveu mais prefácios: Marcelo Rebelo de Sousa assinou 111, Mário Soares 72, Jorge Sampaio 36, Ramalho Eanes 18 e Cavaco Silva 11 (dados recolhidos no catálogo da Biblioteca Nacional). (...)
A este respeito, Marcelo é demolidor. A sua pulsão e capacidade ilimitada para prefaciar livros a todos esmaga. Marcelo não é apenas um animal televisivo, é também um animal prefaciador. Porque Marcelo gosta de prefaciar, sem complexos nem pruridos. Marcelo é um ser mitológico que tanto prefacia obras como Telecomandos, Ratos e Votos: A Vídeo-Democracia e as Crises da Participação e da Representação, Ténis: o poder da mente, Um Herói Vianês ou O Miraculado Morto Vivo, como escreve prólogos para Fonógrafos e Gramofones (...), Não consigo parar de espirrar: Alergias e Asma (con)Viver com Elas, Pé descalço: da Suécia a Portugal Sem um Tostão, César Correia: O Árbitro um Ser humano ou Angola no Coração, Angola em Poesia (que contém versos como "Na Chicala come-se um pincho/Ao sabor da Cuca cerveja/Por muitas semanas incho/Fico igual a uma cereja!" ou "De Agostinho Neto relembro/Um homem corajoso e perspicaz/Foi sempre um membro/ Da Reconciliação e da Paz// Eduardo dos Santos a Presidente/Por Angola, pela Paz/Consolida o Presente/Um lutador audaz// Foi com este Presidente/ Reconstruiu-se um futuro de Paz/Por uma Angola diferente/Uma Angola que não volta atrás!"). (...)
Mário Soares só levantava a caneta para escrever sobre obras de criaturas compatíveis com o seu prestígio, como François Miterrand, Václav Havel, Raúl Morodo, Pascal Fontaine, Joe Sacco, Aquilino Ribeiro, Raul Rêgo, Jaime Cortesão, D.Juan Carlos, Norton de Matos, Ruben A., Mari Alkatiri ou Stéphane Hessel. Se tivessem títulos franceses como Le Salazarisme: Histoire et Bilan (1826-1974) ou Histoire du Portugal et Son Empire Colonial, ou se possuíssem uma dimensão europeia como as Actas do 5º Congresso da Sociedade Europeia de Antropologia, Soares era também capaz de lhes conceder a graça de um preâmbulo ou de uns parágrafos introdutórios.
Dentro dos seus limites - menos conhecido cá e lá fora - Jorge Sampaio segue a tradição republicana e socialista: só livros de personalidades como Frei Bento Domingues, Nuno Teotónio Pereira, Carrilho da Graça, Joseph Stiglitz ou Manuel Castells são dignos das palavras prefaciais do nosso (...) Presidente. (...) Para Soares e para Sampaio, ao que parece, seria descer muito prefaciar livros de autores como Paulo Caetano, M.Conceição Galveia Ferreira, Manuel Alves Pinheiro, António Paisana, Ana Amorim, Hugo Justo, Sandra Anastácio, Luís Cangueiro, António Saldida ou Neto Gomes.

João Pedro George, O grande prefaciador, Sábado, nº789, de 12 a 19 de Junho de 2019, pp.84-85.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

E outros escritores


A partir do momento em que se comprometeu a casar com ela [Dora Diamant], muito provavelmente para se emancipar do pai e escapar à sua influência, Kafka viu-se perante um dilema: converter-se num animal doméstico ou entregar-se exclusivamente à escrita, reduzindo a sua actividade sexual, como nos tempos de estudante, a aventuras efémeras com prostitutas, empregadas de cabarés e com mulheres aleatórias, como as inúmeras que conheceu nos locais de vilegiatura, em pensões ou sanatórios (Silésia, Morávia, Itália, Alemanha, etc.)? A possibilidade de o casamento o impedir de escrever causava-lhe ataques de pânico e fê-lo deixar para segundo plano os grandes assuntos da política e da sociedade do seu tempo, como aliás fica patente nas duas únicas frases que apontou no seu diário, a 2 de Agosto de 1914, poucos dias depois do início da Primeira Guerra Mundial: "A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, aulas de natação". (...) Kafka revela abertamente o medo de não conseguir conciliar o matrimónio, uma respeitável vida de casal com crianças saltando e gritando de volta dele, e o regime monástico de escrita que ambicionava para o seu futuro. (...)
António Lobo Antunes declarou (...) que estar casado "é uma coisa muito boa para trabalhar, caso contrário perde-se muito tempo a perseguir mulheres" e que "nunca trabalhei tanto como quando estou casado". A opinião (...) situa-se nos antípodas da concepção que Kafka fazia do escritor (...) Para Kafka, a independência do escritor nascia justamente da recusa de se ater às normas da vida comum e maioritária: da recusa de se inscrever na tradição dos que contraem matrimónio, fazem a barba e vivem regalados e gordos como carneiros: da recusa de obedecer às satisfações mundanas e à necessidade de estar onde e quando se deve estar, para promoverem a carreira e serem largamente premiados, condecorados e homenageados.
Dentro da intrincada personalidade de Kafka, a solidão era o tónico ou o excitante da sua energia criadora, em contrapartida, o casamento representava a estéril normalidade e a castradora ordem social convencional (...) 'sinto avidez pela solidão, a ideia de uma viagem de lua-de-mel horroriza-me, qualquer casal em viagem de recém-casados, relacione-a comigo ou não, parece-me um espectáculo repugnante (....)'. 

João Pedro George, Sábado, 27-12-2018, p.93. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Anotações matinais


*Completando as informações acerca do retrato sobre a pobreza em Portugal publicado na semana passada pelo INE, através do texto de hoje, do Prof.Carlos Farinha Rodrigues no Público: como se tinha aqui referido, o valor para aferir do risco de pobreza, em Portugal, era, em 2017, (menos de) 468€ por pessoa. Acrescente-se, agora, que para um casal com dois filhos dependentes esse valor é de 982€/mês. A linha de pobreza (o valor para se considerar alguém acima desse limiar) subiu 3% em 2017. A proporção de crianças e jovens em situação de pobreza diminuiu de forma ainda mais significativa, reduzindo-se a sua taxa de incidência de pobreza de 20,7% para 18,9%. A taxa de pobreza das famílias monoparentais e das famílias alargadas com três e mais crianças, dois dos grupos sociais mais vulneráveis à situação de pobreza, diminuiu em 4,9 p.p. e 9.8 p.p., respectivamente. A intensidade da pobreza (quão pobres são os pobres) desceu de 27% para 24,5%; a taxa de privação material severa baixou 0,9%. Mas porque aumentou a pobreza entre os idosos (0,7%)? "Uma explicação possível pode residir no facto de uma parte significativa da população idosa com menos rendimentos se situar muito próxima da linha de pobreza e, portanto, a sua classificação como pobre ou não pobre ser muito sensível às oscilações da própria linha de pobreza. O acréscimo dos seus rendimentos não foi suficiente para compensar o acréscimo do limiar de pobreza. Por outro lado, alguma desadequação dos instrumentos de combate à pobreza dos idosos como o CSI, cujo referencial em 2017 estava cerca de 10% abaixo do limiar de pobreza, pode constituir outro factor explicativo"
Todos os índices de desigualdade registam uma diminuição: "é indiscutível que eles [os números] traduzem uma melhoria relevante da condição social do país e traduzem uma redução dos principais indicadores de pobreza, desigualdade e exclusão social. Tal deve-se em grande medida à recuperação económica do país, ao crescimento económico e à queda do desemprego. Mas deve-se igualmente a uma preocupação acrescida das políticas públicas com as questões sociais, com a preocupação de priorizar o crescimento dos rendimentos das famílias de menores rendimentos e ao reforço das políticas sociais" (p.55).

*Nas sugestões de livros para o Natal do Professor Carlos Fiolhais encontra-se o novo livro do Prof. Onésimo Teotónio Almeida ("O século dos prodígios") que já tenho na estante. Mas não deixei, também, de certa maneira a propósito, de anotar o comentário de João Pedro George, na Sábado (no contexto do debate dos "Descobrimentos"): diz ele que, por um lado, dizemos que não temos nada que ver com a escravatura, foram os antepassados, não tivemos qualquer intervenção nisso; por outro, já nos reclamamos da mesma linhagem - e em "linha recta" - com os inventores de instrumentos científicos, com aqueles que no contexto das descobertas acrescentaram ao mundo. Adicione-se a leitura do capítulo de Michael Sandel em "Justiça. Fazemos o que devemos?" sobre esta herança (de termos alguma responsabilidade ainda hoje pelo legado dos antepassados nacionais) e a obrigatoriedade (ou não) de, enquanto comunidade, nos referirmos a ela (e isto a propósito dos alemães que agora nascem e o problema do nazismo). 
Achei curiosa a referência á permanência das «duas culturas» face à ausência, na comitiva lusa das letras, das «ciências exactas» em Guadalajara (embora creia que em "Dizer Deus na pós-modernidade", o Prof.João Duque faz uma leitura em grande profundidade das várias, múltiplas culturas, já não apenas «duas», «incomensuráveis entre si», com «jogos de linguagem» impenetráveis, ficando a «razão crente», respeitando as várias «razões contextuais», com essa responsabilidade do que Adriano Moreira chamou de «transdisciplinariedade»). 

*Fiquei a saber pelo artigo/homenagem de Rui Tavares que Fernando Belo, agora desaparecido, era ex-sacerdote; desconhecia esse facto. Gostava de ler os seus artigos no Público, que assinava de tempos a tempos, mas nunca li nenhum livro dele. Talvez vá aproveitar a oportunidade para no Natal ler o livro que liga a Filosofia à existência Europa. 

*Com Paula Teles ficámos a saber que a quota de utilização do automóvel, nas áreas metropolitanas de Porto e Lisboa, aumentou, em mais de 20% (em cada uma delas), entre 2001 e 2017, diminuindo, inversamente, a taxa de utilização de transportes públicos.

*A estratégia ambiental do governo passa por, em 2050, termos menos 25 a 50% de efectivos bovinos. 

*O modelo político chinês, na definição de Richard McGregor: "leninismo de mercado". A balança comercial portuguesa é bastante deficitária face aos chineses. No balanço entre o que exportamos e o que importamos da China são 900 milhões de perda. Marcelo fez bem em referir a questão dos direitos humanos face ao homólogo chinês. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Leituras diversas


*Hélia Correia sobre Frederico Lourenço

*A grande ironia de discursos xenófobos é ver países, muito naturalmente, preocupados não com o excesso, mas com a falta de imigrantes. Às vezes, até os nossos emigrantes vêm da Suiça com esse discurso anti-imigrantes, como se não partilhassem da mesma condição. Este texto, nesse sentido, tem um carácter muito pedagógico: ler aqui. 


* "Para o investigador e especialista em Educação da Universidade Católica, Joaquim Azevedo, as mudanças previstas [para as escolas, nos curricula e métodos de ensino] são, mais cedo ou mais tarde, inevitáveis”. “Tenho estado em algumas escolas [que aderiram ao projecto] e tenho constatado dificuldades, mas nada que não se possa ultrapassar". Mas para concretizar esta visão optimista, acrescenta, vão ser precisos “recursos adicionais, pessoas experientes e financiamento, seja para a formação [de professores], seja para o acompanhamento e avaliação, seja ainda para a capacitação dos directores e das lideranças pedagógicas intermédias". E depois é preciso contar com esse obstáculo maior que é a resistência à mudança. “As rotinas instaladas são poderosas e na hora de colocar de pé uma escola mais motivadora e promotora do sucesso escolar de todos e de cada um, isso cria muitas dificuldades na concretização dos novos projectos, como se houvesse uma mó que nos prende atrás enquanto queremos seguir em frente”, diz Joaquim Azevedo. Que dá conta também do seguinte: “O drama existe quando os directores e professores nos dizem que já há muito que fazem isto que agora se quer realizar e, de uma penada, prosseguem a execução do projecto, a fazer o que é (seria) novo como sempre fizeram o que é (efectivamente) velho, normalizador e ineficaz”, no Público. Ler: aqui. Joaquim Azevedo foi dos principais responsáveis pela introdução desta reforma curricular, entre nós, na medida em que foi quase pioneiro na defesa pública dessa agenda. Se, na sua área política fosse mais escutado, se no comentariado político tivesse assento (nomeadamente nas tv's), evitavam-se os slogans e as frases feitas, e uma oposição apenas "ideológica" (e fraquinha) e passava-se a uma discussão mais conhecedora.

*Uma deputada do PSD avisou, por email, segundo os jornais, o que aí vinha na liderança daquela bancada parlamentar. A sessão legislativa não podia ter acabado pior.

* João Pedro George, hoje, em entrevista ao I [nesta questão, em particular, de acordo com António Araújo]: Pensa que essa sobranceria é outra chave para perceber a actual irrelevância da crítica? Por se recusar a ter em conta manifestações de ordem social? 

 Em parte sim. Escritores como José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Domingos Amaral, Margarida Rebelo Pinto, etc., devem ser estudados, não pela fama, pelo prestígio ou pelo dinheiro que possuem, mas porque têm um alcance social enorme. Não só para perceber o que é que há nesses livros que atrai tantas pessoas, mas também para criticar a visão estática, rudimentar e esquemática da realidade que está por trás desses romances. E ainda para chamar a atenção para um determinado clima estilístico, quase sempre bastante rançoso e sem grandes subtilezas intelectuais, onde as metáforas, as comparações, o léxico, a própria estrutura frásica, a arquitectura de conjunto só por caridade é que podem ser considerados literatura. Tanto o Equador como o Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, são bons exemplos da mentalidade machista e marialva em que ele vegeta. As descrições físicas das personagens femininas, de um mau gosto clamoroso, sobrepõem-se quase sempre à caracterização psicológica. Além de que os atributos físicos e eróticos dos homens, que poderiam explicar atracção das mulheres, nunca são descritos, provavelmente porque isso poderia pôr em causa a masculinidade do próprio Sousa Tavares. Depois, as negras e as mulatas são invariavelmente reduzidas à esfera animal dos instintos primários e da sensualidade mais compulsiva, por isso são tantas vezes comparadas a gazelas. No Equador a subjectividade ou o ponto de vista dos negros nunca é descrito e quando aparece é apenas para sublinhar o humanismo de Luís Bernardo, quando ele se opõe às injustiças dos outros brancos. Regra geral, os negros são concebidos como entidades homogéneas, são circunscritos às emoções e pensamentos básicos de agradecimento, medo, submissão, raiva, etc. Mas se até mesmo as personagens principais quase nunca estão submetidas a um grande número de ambivalências… A verdade é que ele revela-se incapaz de articular os problemas pessoais das personagens com as estruturas sociais que os criaram, os amplificaram e lhes colocaram determinados dilemas ou contradições.


*O exemplo da NBA como bem presente na hora de pensar em soluções para limitar uma concentração de poder económico-financeiro e desportivo de determinados clubes: tectos orçamentais a caminho? Multas pelo luxo? Chegam tarde e veremos se chegam a ser concretizadas, estas medidas.