
Por mais extravagante que pareça, sou um grande leitor de prefácios. Inclusive prefácios a obras que não interessam nem ao burrinho do presépio, livralhada cujo efeito sobre a nossa inteligência se desvanece imediatamente e que tornam muito difícil a possibilidade de um diálogo civilizado com os autores. Porque as humaníssimas sensações de vazio, desolação e arrependimento que esses livros nos deixam costumam ser directamente proporcionais ao proveito que podemos retirar dos respectivos prefácios. (...)
Em primeiro lugar, não se pode evitar a questão de saber qual dos cinco Presidentes é que escreveu mais prefácios: Marcelo Rebelo de Sousa assinou 111, Mário Soares 72, Jorge Sampaio 36, Ramalho Eanes 18 e Cavaco Silva 11 (dados recolhidos no catálogo da Biblioteca Nacional). (...)
A este respeito, Marcelo é demolidor. A sua pulsão e capacidade ilimitada para prefaciar livros a todos esmaga. Marcelo não é apenas um animal televisivo, é também um animal prefaciador. Porque Marcelo gosta de prefaciar, sem complexos nem pruridos. Marcelo é um ser mitológico que tanto prefacia obras como Telecomandos, Ratos e Votos: A Vídeo-Democracia e as Crises da Participação e da Representação, Ténis: o poder da mente, Um Herói Vianês ou O Miraculado Morto Vivo, como escreve prólogos para Fonógrafos e Gramofones (...), Não consigo parar de espirrar: Alergias e Asma (con)Viver com Elas, Pé descalço: da Suécia a Portugal Sem um Tostão, César Correia: O Árbitro um Ser humano ou Angola no Coração, Angola em Poesia (que contém versos como "Na Chicala come-se um pincho/Ao sabor da Cuca cerveja/Por muitas semanas incho/Fico igual a uma cereja!" ou "De Agostinho Neto relembro/Um homem corajoso e perspicaz/Foi sempre um membro/ Da Reconciliação e da Paz// Eduardo dos Santos a Presidente/Por Angola, pela Paz/Consolida o Presente/Um lutador audaz// Foi com este Presidente/ Reconstruiu-se um futuro de Paz/Por uma Angola diferente/Uma Angola que não volta atrás!"). (...)
Mário Soares só levantava a caneta para escrever sobre obras de criaturas compatíveis com o seu prestígio, como François Miterrand, Václav Havel, Raúl Morodo, Pascal Fontaine, Joe Sacco, Aquilino Ribeiro, Raul Rêgo, Jaime Cortesão, D.Juan Carlos, Norton de Matos, Ruben A., Mari Alkatiri ou Stéphane Hessel. Se tivessem títulos franceses como Le Salazarisme: Histoire et Bilan (1826-1974) ou Histoire du Portugal et Son Empire Colonial, ou se possuíssem uma dimensão europeia como as Actas do 5º Congresso da Sociedade Europeia de Antropologia, Soares era também capaz de lhes conceder a graça de um preâmbulo ou de uns parágrafos introdutórios.
Dentro dos seus limites - menos conhecido cá e lá fora - Jorge Sampaio segue a tradição republicana e socialista: só livros de personalidades como Frei Bento Domingues, Nuno Teotónio Pereira, Carrilho da Graça, Joseph Stiglitz ou Manuel Castells são dignos das palavras prefaciais do nosso (...) Presidente. (...) Para Soares e para Sampaio, ao que parece, seria descer muito prefaciar livros de autores como Paulo Caetano, M.Conceição Galveia Ferreira, Manuel Alves Pinheiro, António Paisana, Ana Amorim, Hugo Justo, Sandra Anastácio, Luís Cangueiro, António Saldida ou Neto Gomes.
João Pedro George, O grande prefaciador, Sábado, nº789, de 12 a 19 de Junho de 2019, pp.84-85.