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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

"ANÕES AOS OMBROS DE GIGANTES"



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Bernardo de Chartres dizia que somos como anões aos ombros de gigantes, de modo que podemos ver mais longe que eles, não em virtude da nossa estatura ou da acuidade da nossa visão, mas porque, estando aos seus ombros, estamos acima deles.  
(...)
O aforismo dos anões e dos gigantes é atribuído a Bernardo de Chartres por João de Salisbury no Metalogicon (III, 4). Estamos no século XII. Talvez Bernardo não seja o primeiro inventor, pois o conceito (se não a metáfora dos anões) surge seis século antes, em Prisciano, e entre Prisciano e Bernardo está Guilherme de Conches, que fala de anões e gigantes nas suas Glosas a Prisciano, 36 anos antes de João de Salisbury. Mas o que nos interessa é que, depois de Salisbury, o aforismo foi retomado mais ou menos por todos: em 1160, num texto da escola da Laon, por volta de 1185, pelo historiador dinamarquês Svend Aagesen, em Geraldo de Cambrai, Raoul de Longchamp, Égídio de Corbeil, Geraldo de Auvergne e, no século XIV, em Alexandre Ricat, médico do rei de Aragão, dois séculos depois nas obras de Ambroise Paré e ainda num cientista setecentista como Daniel Sennert e, a seguir, em Newton. Tullio Gregory assinala uma aparição do aforismo em Gassendi (Scetticismo e empirismo. Studio su Gassendi, 1961), mas poderíamos chegar, no mínimo, a Ortega y Gasset, que no seu ensaio En torno a Galileo (1947), falando da sucessão das gerações, diz que os homens estão «uns aos ombros dos outros e aquele que está no alto desfruta da impressão de dominar os outros, mas devia perceber que é, ao mesmo tempo, prisioneiro deles». (...)
Os antigos são certamente gigantes em relação a nós; mas nós, mesmo sendo anões, sentados aos ombros deles, ou seja, aproveitando a sua sabedoria, podemos ver mais longe que eles. Este aforismo era, originalmente, humilde ou soberbo? Queria dizer que sabemos aquilo que os antigos nos ensinaram (embora melhor) ou que sabemos bem mais do que eles (embora graças a essa dívida para com eles)?
Como um dos temas recorrentes da cultura medieval é a progressiva senescência do mundo, seria possível interpretar o aforismo de Bernardo no seguinte sentido: visto que mundus senescit, nós, mais jovens, envelhecemos em relação aos antigos, mas, graças a eles, ao menos conhecemos ou fazemos coisas que eles não chegaram a fazer nem a compreender. Bernardo de Chartres propunha o aforismo no âmbito de um debate sobre a gramática, no qual estava em jogo o conceito de conhecimento e imitação do estilo dos antigos, mas, sempre segundo João de Salisbury, Bernardo criticava os alunos que copiavam servilmente os antigos e dizia que o problema não era escrever como eles, mas aprender com eles a escrever tão bem quanto eles. De modo que, mais tarde, alguém possa se inspirar em nós como nós nos inspirámos neles. Portanto, havia no seu aforismo, embora não nos termos em que o lemos hoje, um apelo à autonomia e à coragem inovadora.
Dizia o aforismo que «nós vemos mais longe do que os antigos». Evidentemente, a metáfora é espacial e subentende uma marcha rumo a um horizonte. Não podemos esquecer que a História, como movimento progressivo em direcção ao futuro, da criação à redenção e desta ao retorno do Cristo triunfante, é uma invenção dos pais da Igreja - de modo que, quer nos agrade ou não, sem cristianismo (mesmo com o messianismo hebraico às costas), nem Hegel nem Marx poderia falar daquelas que Leopardi via, cepticamente, como «as magníficas e progressivas sortes»
O aforismo dos anões aparece no início do século XII.

Umberto Eco, Aos ombros de gigantes [2001], in Aos ombros de gigantes, Gradiva, 2018, pp.22-25. 


P.S.: neste ensaio erudito, fruto de uma lectio magistralis, para o festival La Milanesiana, Umberto Eco fala nos conflitos geracionais, no modo como os filhos precisam de "matar" os pais para se afirmarem/emanciparem/autonomizarem - e quem diz pais, diz mães (Nero e Agripina, os romances policiais) -, mas também, e não com menor violência, no ataque dos pais aos filhos (Édipo face a Laio, Saturno que devora os filhos, Tiestes, os sultões de Constantinopla) para nos mostrar como, sem que muitas vezes se note, nesse abandonar do "antigo" - das "antigas formas", dos "antigos valores", da "antiga lógica" ou da "antiga filosofia" - o que se faz é lançar mão de uma tradição, ainda mais antiga do que a paterna, para se justificar o "novo" (velho) caminho a empreender. Tomás de Aquino diria que segue Agostinho, tendo-o compreendido melhor do que o próprio (podendo, em rigor, ser mais consequente). A inovação só pode acontecer...porque se recuperam modelos esquecidos pelos pais (p.26). Por exemplo, "a partir da segunda metade do século XIX, abre caminho um movimento de inovação artística que se resume quase inteiramente a uma reapropriação do passado, dos pré-rafaelitas aos decadentes"(p.28). Contudo, as vanguardas históricas do início do século XX representam o ponto extremo do parricídio modernista, que se quer livre de qualquer obséquio em relação ao passado - o assassínio do luar, o culto da guerra como única higiene do mundo, a decomposição cubista das formas, a marcha da abstracção para a tela branca, a substituição da música pelo rumor ou pelo silêncio. Só que...Picasso chega a desfigurar o rosto humano a partir de uma reflexão sobre os modelos clássicos e renascentistas, e faz, por fim, uma revisitação de antigos minotauros; Duchamp põe um bigode na Gioconda, mas precisa dela para fazer o seu bigode (pp.28-29). Se, afinal, o "excesso de consciência histórica" (Nietzsche) não pode ser abandonado, nem sequer às mãos das vanguardas revolucionárias, então a prudência aconselharia a que se aceitasse a "angústia da influência, revisitar o passado sob a forma de homenagem aparente, reconsiderando-o, de facto, com o distanciamento proporcionado pela ironia" (p.29).
No nosso tempo, assinala, por fim, Eco, não estão reunidas as condições para um conflito de gerações: a dialética pais-filhos reclamou um modelo paterno muito forte, em relação ao qual a provocação do filho fosse de tal monta que o pai não pudesse aceitá-la, nem aceitar a redescoberta de gigantes adormecidos. Os mass media geraram a aceitação sincrética de todos os valores. Há um conjunto de modelos transgeracionais graças à televisão. Pode até, no limite, haver oposição de modelos, mas a sua difusão é tão acelerada é de imediato assimilada. A conclusão é, pois, de que não há motivos para um conflito geracional, o que não é visto pelo autor propriamente com bons olhos: "quando o próprio princípio do parricídio está em crise, mala tempora currunt" (p.36).
Escrito mesmo no início deste século XXI, o texto de Umberto Eco mostra-nos a debilidade, já aí muito clara, de grandes modelos, valores, ideologias, grandes narrativas; de aí, desde logo, a dificuldade de oposição - oposição a que valores, se estes ou não existem (em sentido forte), ou são uma combinação/mistura de (quase) todos os valores possíveis? Nesta crise de uma certa forma de racionalidade, bem como da figura paterna, se assinala uma ruptura, pelo menos aparente, com um passado recente, no qual havia cortes ("epistemológicos") suficientemente densos, para se assinalar um sério conflito entre gerações. No mundo dos mass media, é como se não houvesse espaço para a marginalidade - de imediato apropriada pelo "sistema" (os exemplos de Eco, em 2001, eram o cabelo azul, os piercings: estavam tão universalizados que não seria por isso que os pais se zangariam). Um ponto outro passa, sem embargo, pelo papel da internet. Eco garante estudos, com anos, que preconizavam e pretendiam os efeitos da "linguagem" e das "fórmulas" que adviriam dos usos do telemóvel e do email. O tempo é bem diverso, neste domínio, e afirmações como "ninguém amaldiçoa o próprio filho por navegar na internet e ninguém se opõe ao pai por essa razão" (p.33) surgirão, aos olhos de não poucos, como temerárias. Não são escassos os teorizadores de um novo "homo" surgido em função desta navegação, e mesmo de um hiato geracional absurdo - a começar pela escola. Outros entenderão que esse novo "homo" será transgeracional - ainda que, em qualquer dos casos, seguramente mais acentuado nas novas gerações. Será que daqui surgirá a inovação pretendida (quando se arremete contra a ausência de conflito geracional perante uma mediocracia que tudo nivela?). Uma outra dicotomia, a daqueles favoráveis ao movimento da globalização e dos que a ela se opõem, se estalando nas ruas de Seattle no início dos anos 2000, está hoje mais presente do que nunca. Mas, aí, sim, ela atravessa, essencialmente, grupos de pessoas que, mais do que geracionalmente delimitadas (embora os jovens, em alguns países, como sucedeu no referendo ao Brexit, no Reino Unido, se afirmassem mais favoráveis a essa abertura global), têm mais ou menos formação académica e que se movimentam pior ou melhor nas estradas globais. O que nos surge ainda agora estranho é que Eco divida aquela dicotomia entre "dois poderes, um baseado na posse dos meios de produção, e outro na invenção de novos meios de comunicação". Até porque no entender de não poucos a atomização social - que até pode ter funcionado como uma das motivações para as redes sociais; o não querer estar com outros, o ter companhia sem as exigências da amizade (para citar Sherry Turkle) -, isto é, a ausência de "poder colectivo", nomeadamente para se opor aos aspectos mais nefastos da globalização, terá aumentado com novos canais de comunicação (mesmo que essa seja matéria controvertida, na medida em que estes também permitem denunciar e fazer chegar a mensagem e criar redes mais longínquas, ou gerar, ou contribuir para movimentos eleitorais fortes em alguns país).