O ideal era acabar com o sono, os produtores-consumidores que somos passarem a dar vazão ao, ou maximizar o, actual mercado aberto 24 horas, 7 dias por semana (as "temporalidades 24/7"). Dito de outra forma, o sono, com o qual não se acaba finalmente - mesmo que se consiga, como se tem conseguido, erodir; hoje, o americano médio, adulto, dorme cerca de seis horas e meia por noite, por contraponto das oito horas da geração anterior e das dez horas dormidas no início do século XX, p.19 -, é como que uma utopia ("natural", inscrita no humano), relativamente concretizada (um lugar fundamental, até pelos caminhos que o sonho aponta, ou sugere; no sonho, diz Crary, a deriva interpretativa que o reduz a uma esfera exclusivamente privada, e ainda animalesca ou infantil, oblitera, reduz, ignora o quanto nele há de dimensão pública-colectiva; "a verdade comummente aceite de que qualquer sonho é a expressão confusa e dissimulada de um desejo reprimido é uma redução colossal da multiplicidade de experiências oníricas. A prontidão com que boa parte da cultura ocidental aceita as grandes linhas de tal tese só prova até onde a primazia do desejo e a carência do indivíduo haviam penetrado e moldado a maneira como o burguês se entendia a si mesmo em começos do século XX", p.113) contra a possibilidade, sistémicamente desejada, do indivíduo insone, trabalhador e consumidor compulsivo. O sono é uma impertinência ("o sono é uma afirmação irracional e intolerável de que pode haver limites à compatibilidade dos seres vivos com as forças alegadamente irresistíveis da modernização", p.21), uma desfeita ("o escândalo do sono é a incorporação na nossa vida das oscilações rítmicas de luz solar e escuridão, actividade e repouso, trabalho e recuperação, que noutros aspectos foram erradicadas ou neutralizadas", p.19), uma impugnação da mercantilização de tudo (do tempo às pessoas, das relações à anulação das "regularidades cósmicas"), pela natureza humana, que reverbera, ainda, contra os que pretendem a anulação absoluta do tempo, a consumação da sua total horizontalidade ("progressivamente, 24/7 vai minando as distinções entre dia e noite, entre luz e trevas e entre acção e repouso. É uma zona de insensibilidade, de amnésia, do que impede a possibilidade de experiência", p.25), a sua perfeita imanência ("um mundo 24/7 é desencantado na sua erradicação de sombras e obscuridade e de temporalidades alternadas. É um mundo igual a si mesmo, um mundo com o mais superficial dos passados, por isso à partida sem espectros. Mas a homogeneidade do presente é consequência do resplendor fraudulento que se assume estender-se a toda a parte e esvaziar qualquer mistério ou incognoscibilidade. Um mundo 24/7 produz uma equivalência aparente entre o que está disponível, acessível ou utilizável no imediato, e o que existe. O espectral é, em certa medida, a intrusão ou ruptura do presente por algo fora de tempo e pelos fantasmas do que a modernidade não eliminou, das vítimas que não serão esquecidas, da emancipação por cumprir. As rotinas do 24/7 podem neutralizar ou absorver muitas experiências perturbadoras de retorno que poderiam comprometer a substancialidade e identidade do presente e a sua aparente auto-suficiência", p.27), a derrisão do humano sem espaço para a efabulação e o imaginário que esbocem outros caminhos, de encontro às coordenadas do cosmos com dia e noite, dormir e despertar, possibilidade de contemplação das estrelas e do luar, de tudo não se dar no idêntico, na mesmidade, de encontro ao mínimo soluçar do que fosse algo a que se pudesse chamar singularidade .
O minar o sono, os néons, as cores intensas e berrantes, e os sons por todo o lado, a cidade conglomerada e sem o close em qualquer entrada, não deixa de permitir que o sono, que grita por nós, seja objecto de compra (os químicos com que se adormece, abastecidos na farmácia; "O golpe do sono é inseparável do desmantelamento em curso das protecções sociais noutras esferas. Tal como em todo o planeta se tem arrasado de modo programático o acesso universal de água potável, pela poluição e pela privatização, com a consequente monetização da água engarrafada, não é difícil descortinar no sono uma construção paralela da escassez. Todas estas incursões criam as condições insones nas quais o sono precisa de ser comprado (...) mesmo que se pague por um estado quimicamente alterado que só se aproxima do verdadeiro sono", pp.25-26). Apesar de todas as promessas tecnológicas, os drones, os gadjets de última geração ao serviço da indústria militar, tem-se hoje por certo que a presença humana no terreno não conhece, em determinadas circunstâncias, qualquer ersatz. De aí que alcançar o soldado cognitivamente no seu máximo, sem desfalecimentos ou entorpecimentos momentâneos, todos os dias, seja desiderato. E, obtido este, conseguida a fórmula a propósito ou em âmbito militar, a possibilidade, já se vê, de estender a toda a sociedade, essa performance inabalável 24/7 para todo o obediente trabalhador-consumidor ("como nos mostrou a história, as inovações associadas à guerra são inevitavelmente assimiladas pela esfera social mais lata, e o soldado insone seria o precursor do trabalhador ou consumidor insone",p.11). Há um pássaro, curioso paradoxo quando este (animal) aparenta ser símbolo de liberdade, e a (humana) emulação que se procura traça-se ao nível de um acréscimo de controlo do indivíduo, o pardal-de-coroa-branca que tem uma capacidade altamente invulgar, durante as migrações, de ficar acordado durante 7 dias. Ora, o Departamento de Defesa dos EUA gastou somas astronómicas no estudo destas criaturas (p.9).
Podia perguntar-se: e se conseguíssemos estar, sem perdas cognitivas nem fadiga de espécie alguma, 24 sobre 24 horas acordados - já agora, o ensaio lembra como as temporalidades não foram, em todos os tempos e lugares de semanas de 7 dias, chegando, estas, a 10 dias em tempos pretéritos -, vendo todos os filmes, ouvindo todas as canções, lendo todos os livros, apreciando todos os desportos, tendo todas as conversas, lobrigando todas as descobertas científicas, visitando todas as galerias de arte, numa palavra, "aproveitando a vida ao máximo"? Mesmo aí, "poder-se-ia contra-argumentar que os seres humanos devem dormir à noite, que o nosso próprio corpo está alinhado com a rotação diária do planeta, e que ocorrem em quase todos os organismos vivos comportamentos de reacção às estações do ano e à luz do Sol"(p.22). E, no entanto, sem grande esforço imaginar-se-ia o retorquir a este argumentário: "um perigoso disparate da Nova Era, ou pior, um anseio fatídico por uma espécie de conectividade heideggeriana à terra. E, sobretudo, no paradigma neoliberal da globalização, o sono é para os falhados" (p.22).
É interessante observar que o sono, sobre o qual, desde logo, teorizou Aristóteles, passa de ser concebido, no século XIX, por parte de quem dirige as fábricas, de elemento a contemplar para se produzir mais e/ou melhor, para um upgrade (mas com certos traços espelhares, isto é, o objectivo final o mesmo, mas interpretado à luz das que alguns julgam potencialidades diferentes neste tempo, como, in limine, eliminar o sono), no século XXI, que visa eliminá-lo: "no século XIX, na esteira dos piores maus-tratos de trabalhadores que acompanharam a industrialização na Europa, os directores fabris concluíram ser mais rendível se os operários tivessem direito a singelos períodos de repouso para poderem produzir a longo prazo com maior eficácia e sustentabilidade, como bem mostrou Anson Rabinbach"(p.22).
Até ao século XVI, o sonho gozou de boa reputação; existe, mesmo, "uma aceitação quase universal do sonho como indispensável na vida dos indivíduos e das comunidades. Só a partir do século XVII começa a marginalizar-se e desacreditar-se este singular elemento do sono. O sonho não pode ser integrado nas concepções da vida mental fundadas na percepção sensorial empírica ou no pensamento racional abstracto. Mesmo antes, em meados do século XV, rejeita-se na arte europeia a possibilidade de uma relação entre sonho e vigília, com o desenvolvimento de técnicas de representação concebidas e quantificadas para excluir o que é ilógico e inconsistente na visão onírica. As atitudes contra-sistémicas em relação ao sono e ao sonho persistiram certamente nas franjas de um Ocidente modernizado, ainda que tenha havido uma vasta expropriação e enfraquecimento nos séculos XVIII e XIX, quando o sonho foi amputado de quaisquer associações residuais a um enquadramento mágico-teológico. A capacidade imaginativa do indivíduo que dorme e sonha sofreu uma impiedosa erosão, e a identidade viciada de um visionário foi abandonada em detrimento de uma minoria tolerada de poetas, artistas e loucos. A modernização não podia prosseguir num mundo povoado de grande número de indivíduos que acreditava no valor ou na potencialidade das suas próprias visões ou vozes internas. A partir do século XIX, as novas indústrias de produção de imagens (e depois de formatos auditivos) transformaram por completo a própria possibilidade de experiência «visionária») (...) É célebre a sua [de Sigmund Freud] definição de sonho como arena isolada da irracionalidade primitiva: «O que um dia dominou a vida de vigília, quando a psique era ainda jovem e incompetente, parece agora ter sido exilado para a noite [...] O sonho é um pedaço da vida anímica infantil já suplantada». Na verdade, Freud estava transtornado por sonhar como sonhava em estados de transe, e a sua obra neste domínio é uma cama de Procusto na qual procura domesticar o que se encontrava fora do seu controlo ou entendimento (...) A privatização dos sonhos de Freud é mero sinal de um rasurar maior da possibilidade do seu significado trans-individualista (...) Mas a redução psicanalítica não se limita a proibir anseios e carências que transcendem o desejo e o instinto de posse do indivíduo (...) Vincula, categórico, todos os sonhos, todos os desejos, num campo estanque de acontecimentos esquecidos dos primeiros anos de vida, e enfraquece ainda mais o sonhador pois limita ao analista a faculdade de os decifrar. Os sonhos podem bem ser veículos de desejos, mas os desejos em causa são os anseios humanos insaciáveis de exceder os limites que isolam e privatizam o eu. Por entre as poucas vozes no século XX a reclamar a importância social do sonho, uma das mais conhecidas foi André Breton (...) O [seu] intuito era romper qualquer oposição entre acção e sonho, e afirmar que um alimenta o outro" (pp.110-115).
O sonho contido no sono de Jonathan Crary dir-se-ia que assenta na possibilidade de (um político) resgatar dos elementos primordiais a uma harmonia (cósmica) do humano, na reivindicação de um corpo político que não permita deixar-se saciar por uma série de necessidades inventadas ("a enorme parcela da nossa vida que passamos a dormir, livre de um pântano de necessidades simuladas subsiste como uma das grandes afrontas humanas à voracidade do capitalismo (...) A maioria das necessidades aparentemente irredutíveis da vida humana - fome, sede, desejo sexual, mais recentemente a necessidade de amizade - têm sido reconcebidas como formas mercantilizadas ou financeirizadas. O sono representa a ideia de uma necessidade humana e de um intervalo de tempo que não podem ser colonizados e canalizados num gigantesco motor de rendibilidade, e assim continua a ser uma anomalia incongruente e um lugar de crise no presente global", p.18, escreve o Professor de Teoria e Arte Moderna, na Universidade de Columbia), mas que se cumpra na protecção comum - que passa por uma espécie de direito ao sono, quer na sua rigorosa literalidade e manifestação, quer na sua potencial proposta mais alargada de recusa da mercantilização de tudo, primado da pessoa, ligação aos elementos (direito ao silêncio e à noite), imaginário mais amplo, afirmação da comunidade (corte com a atomização dos indivíduos).