Cavaco Silva, que é inicialmente um eurocético, com muita desconfiança em relação à Europa, muda progressivamente de opinião. Exactamente pela ideia de que com os factores endógenos não se faziam mudanças [nomeadamente, na Administração Interna], de que não havia forças no interior do país para isso. E ele converte-se nesses termos ao papel da UE, tornando-se num euro-optimista. (...) Nessa conversa fui o único a introduzir uma dúvida, perguntando assim: mas será que as pessoas querem ser mudadas? E a pergunta tinha alguma razão de ser. (...)
Cavaco fez de facto duas ou três coisas. Uma delas é a modernização do sistema de impostos e outra, relevante, é o plano de erradicação das barracas, que traduz a deslocação de uma quantidade significativa de recursos para o sector da habitação e que acabou com as que existiam na altura. Agora temos um novo surto, mas durante algum tempo, ali naquela zona a seguir ao aeroporto, era uma verdadeira selva de barracas. (...)
Com Cavaco Silva (...) criou-se uma espécie de «governocentrismo»: quem estava no governo e quem estava à volta dos ministérios é que tomava as decisões mais importantes, esvaziando os órgãos do partido. (...)
[Houve também] deslocação de recursos para o interior e para as pequenas cidades e vilas. E isso, como digo, vê-se nas fotografias aéreas.
Isto vai parecer estranho, mas eu fui director de um dos jornais de campanha de Cavaco Silva e apareceu-me um dia um artigo do Roberto Leal. Foi das melhores coisas que surgiram na altura, porque é a perspectiva de alguém que não vivia em Portugal, que estava fora e via as mudanças no país. É um artigo muito genuíno, testemunhal, em que ele diz: eu vou às terras, aos sítios que conhecia e aquilo mudou completamente. Muitos equipamentos sociais, o saneamento e a electrificação...Isso foi um adquirido. Claro que isto também teve que ver com os fundos europeus, mesmo com a consciência que os dinheiros da Europa não iam para o que mais precisávamos. Havia muitos dinheiros que eram assacados a coisas não prioritárias. (...) Mas é um período que vai ficar com marcas específicas, do ponto de vista da pobreza, das desigualdades e de alguma redistribuição. Depois deixou de funcionar.
[Houve também] deslocação de recursos para o interior e para as pequenas cidades e vilas. E isso, como digo, vê-se nas fotografias aéreas.
Isto vai parecer estranho, mas eu fui director de um dos jornais de campanha de Cavaco Silva e apareceu-me um dia um artigo do Roberto Leal. Foi das melhores coisas que surgiram na altura, porque é a perspectiva de alguém que não vivia em Portugal, que estava fora e via as mudanças no país. É um artigo muito genuíno, testemunhal, em que ele diz: eu vou às terras, aos sítios que conhecia e aquilo mudou completamente. Muitos equipamentos sociais, o saneamento e a electrificação...Isso foi um adquirido. Claro que isto também teve que ver com os fundos europeus, mesmo com a consciência que os dinheiros da Europa não iam para o que mais precisávamos. Havia muitos dinheiros que eram assacados a coisas não prioritárias. (...) Mas é um período que vai ficar com marcas específicas, do ponto de vista da pobreza, das desigualdades e de alguma redistribuição. Depois deixou de funcionar.
José Pacheco Pereira, entrevistado por Ana Drago e Nuno Serra, para a Manifesto, Outono e Inverno 2019/20, nº4, 2ª série, pp.38-39.
