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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Cavaco, por Pacheco Pereira


Cavaco Silva, que é inicialmente um eurocético, com muita desconfiança em relação à Europa, muda progressivamente de opinião. Exactamente pela ideia de que com os factores endógenos não se faziam mudanças [nomeadamente, na Administração Interna], de que não havia forças no interior do país para isso. E ele converte-se nesses termos ao papel da UE, tornando-se num euro-optimista. (...) Nessa conversa fui o único a introduzir uma dúvida, perguntando assim: mas será que as pessoas querem ser mudadas? E a pergunta tinha alguma razão de ser. (...)
Cavaco fez de facto duas ou três coisas. Uma delas é a modernização do sistema de impostos e outra, relevante, é o plano de erradicação das barracas, que traduz a deslocação de uma quantidade significativa de recursos para o sector da habitação e que acabou com as que existiam na altura. Agora temos um novo surto, mas durante algum tempo, ali naquela zona a seguir ao aeroporto, era uma verdadeira selva de barracas. (...)
Com Cavaco Silva (...) criou-se uma espécie de «governocentrismo»: quem estava no governo e quem estava à volta dos ministérios é que tomava as decisões mais importantes, esvaziando os órgãos do partido. (...)
[Houve também] deslocação de recursos para o interior e para as pequenas cidades e vilas. E isso, como digo, vê-se nas fotografias aéreas. 
Isto vai parecer estranho, mas eu fui director de um dos jornais de campanha de Cavaco Silva e apareceu-me um dia um artigo do Roberto Leal. Foi das melhores coisas que surgiram na altura, porque é a perspectiva de alguém que não vivia em Portugal, que estava fora e via as mudanças no país. É um artigo muito genuíno, testemunhal, em que ele diz: eu vou às terras, aos sítios que conhecia e aquilo mudou completamente. Muitos equipamentos sociais, o saneamento e a electrificação...Isso foi um adquirido. Claro que isto também teve que ver com os fundos europeus, mesmo com a consciência que os dinheiros da Europa não iam para o que mais precisávamos. Havia muitos dinheiros que eram assacados a coisas não prioritárias. (...) Mas é um período que vai ficar com marcas específicas, do ponto de vista da pobreza, das desigualdades e de alguma redistribuição. Depois deixou de funcionar

José Pacheco Pereira, entrevistado por Ana Drago e Nuno Serra, para a Manifesto, Outono e Inverno 2019/20, nº4, 2ª série, pp.38-39.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Ecologias políticas e culturais


Por que razão a direita mais à direita precisa desesperadamente do PSD?

Se deixarmos a competição por lugares nas listas de deputados, que não têm ideologia, sobra uma questão que tem a ver com a ecologia dos actuais conflitos no PSD. Não explica os conflitos, mas explica a razão pela qual os contestatários da actual direcção têm tão boa imprensa em tudo o que é de direita mais pesada em Portugal, ou seja a direita que vai da Aliança ao CDS, ao Observador, ao Sol, à alt-right nacional, e aos comentadores e autores de blogues que se apresentam como sendo "liberais", quando na realidade são conservadores e reaccionários. A razão é clara: precisam do PSD para lhes arranjar os votos para prosseguir com as suas políticas, visto que nenhum dos partidos e grupos dessa área tem votos suficientes para governar. E já tiveram, no mais que saudoso governo da troika-Passos-Portas. Por isso, há uma enorme orfandade por essas bandas, com o risco de perderem o instrumento que lhes permitiu virar a ecologia política do país, com efectivo sucesso.


O que mudou sem retorno

Há duas grandes diferenças na vida política portuguesa nos últimos dez anos, e essas diferenças marcam muito daquilo que é o actual contexto da acção política: a "geringonça" e o aparecimento e o acesso ao poder de uma direita muito à direita. São diferenças qualitativas que implicam mudanças profundas na vida política e, em ambos os casos, são diferenças sem retorno. Quem queira agir politicamente nos dias de hoje e não as percebe, comete erros. 
A "geringonça", acabando com uma longa história de impossibilidade prática de alianças à esquerda, tornou a espelhar a capacidade da esquerda de aceder ao poder, que já existia à direita, por via de alianças e acordos parlamentares. A direita era capaz de se unir, e a esquerda não. Mas acabou: hoje só se acede ao poder tendo uma maioria absoluta. E isso torna vital a aliança PSD-CDS, a todos os níveis do processo eleitoral, para potenciar os resultados. 
O segundo factor é igualmente novo. Nos últimos 10 anos a esquerda perdeu a hegemonia do debate político e ideológico e, mesmo com a "geringonça", continua a perder. A corrupção dos governos socialistas, o caso Sócrates e a bancarrota, tudo contribuiu para abrir um terreno para que crescessem os embriões, até então isolados, de um pensamento de direita radical. Esses embriões germinaram nos anos da troika encontrando condições para influenciar think tanks, universidades, jornais, televisões, blogues e redes sociais com grande dinamismo. Com a troika a encontrar um governo muito próximo ideologicamente da sua visão da economia e da sociedade, e esse governo a usar a troika e a situação extraordinária do "ajustamento" para fazer engenharia social, estes sectores não só influenciaram o poder, como acederam ao poder. Ganharam, do ponto de vista político, mas também, o que é mais importante, mudaram a economia da cultura política a favor da direita


José Pacheco Pereira, Sábado, nº769, 24/01/2019, p.32-33.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

A 'Quadratura do Círculo'


O fim da Quadratura do Círculo, para mim, é o fechar de um encontro semanal, um ritual constantemente renovado, que durava desde meados dos anos 90. Não segui o programa desde o seu início, sou demasiado novo para os tempos de Vasco Pulido Valente e, depois, de Miguel Sousa Tavares no Flashback. Mas, dado o prazer da política - apetece dizê-lo assim hoje, mais do que nunca -, mal superada a infância, escutava o trio composto por José Magalhães, José Pacheco Pereira e Nogueira de Brito (sempre moderados por Carlos Andrade). Não se descia do carro, aos Domingos, antes de os microfones da tsf passarem o genérico, por vezes atribulado, entre altercações verbais, do programa. O momento, talvez mais marcante, da era radiofónica que acompanhei, foi a cara pintada a preto de José Magalhães, cumprindo a promessa de assim, literalmente, se apresentar, se o Governo Guterres, por si apoiado e defendido, falhasse o défice - como, então, falhou. Das intensas discussões sobre o rendimento mínimo, passando, já no meio televisivo, pela guerra do Iraque - altura, hoje pouco menos do que impensável, em que Pacheco Pereira varria a testada com as mais recentes elocubrações da imprensa e think tanks neoconservadores nos EUA -, culminando com as duras lutas ideológicas em tempos de de Governo Passos e de troika, a Quadratura foi sempre companhia indispensável. 
Achei, sempre, um bocadinho excessivo considerar Jorge Coelho, que fala mal português, um intelectual - e de cada vez que ele estava residente no programa, a coisa perdia um tanto de graça. Desde há 7 anos, sensivelmente, as grandes disputas verbais (político-ideológicas) fazem-se entre Pacheco Pereira e Lobo Xavier, com António Costa, primeiro, e Jorge Coelho, depois, a terem dificuldades de posicionamento face à assertividade de Pacheco Pereira relativamente à "direita". Este último, foi, a meu ver, dos importantes actores no espaço público português durante a legislatura 2011-2015, capaz de a) representar uma parte do eleitorado português que, tendo fortes críticas a fazer ao Governo PaF, não se sentia representado pelos partidos à esquerda no espectro político português; b) gizar um argumentário, uma crítica original que depois, por si próprio, alimentava as discussões políticas que se produziam no país, sendo replicado constantemente; c) porque, sendo ainda militante do PSD, as suas críticas virulentas ao Governo Passos eram escutadas com especial atenção. Uma coisa seria um membro, ou senador, do BE reproduzir, ipsis verbis, tais críticas - tal era esperado e não seria propriamente notícia; outra, eram pessoas como Pacheco Pereira (ou Manuela Ferreira Leite, Diogo Freitas do Amaral, Silva Peneda, Adriano Moreira) a causticarem o Executivo Passos. De aí, muito do azedume de então, e que ainda hoje pode ser encontrado nas redes sociais - nos comentários a propósito da notícia do fim da Quadratura -, o que, em realidade, só reforça o carácter especial que o programa tinha. Aliás, ainda ontem, um sénior e ferrenho militante do PSD me confidenciava ao café que desde há uns anos deixara de ver o programa, amargurado com Pacheco. Neste sentido também, trata-se de um programa que documenta o devir sócio-político português, na medida em que este tipo de reacções é expressão de um tempo extremamente carregado e polarizado na sociedade portuguesa. A dita cuja crispação. E de uma evolução - neste caso corporizada em Pacheco Pereira - política/ideológica que a crise iniciada em 2008 suscitou em tanta gente.
Não menos importante, o programa deu um PM ao país, sendo certo, evidentemente, que o currículo de António Costa - que, diga-se de passagem, declarou cerca de 7 mil euros de remuneração mensal no programa de debate político de que vimos falando; o "programa de prestígio" fazia-se pagar bem; houve um tempo em que o DN, pagando também por isso bom preço, reproduzia, às sextas, o que fora dito na tv na noite anterior, a que acrescia um comentário de Carlos Andrade - era extenso antes da presença semanal nos ecrãs; mas não é menos verdadeiro que o programa o catapultou, lhe deu a possibilidade de entrar em eleitorados que poderiam vir a alargar a base do PS; lhe conferiu uma respeitabilidade e uma gravitas que caucionaram o seu avanço face a Seguro. No dizer de António Costa Pinto, ao I, "em Portugal, as televisões são - mais do que noutros países - não apenas locais de debate político entre comentadores e representantes dos partidos, mas plataformas de lançamento de políticos. Muitas vezes a participação de políticos nestes programas serve para rampa de lançamento para congressos partidários, para eleições internas nos partidos ou para outros lugares de destaque"(p.11).
Invocado, constantemente, quando alguém queria referir-se a um programa político respeitável e com nível, a Quadratura do Círculo, na SicNotícias, cairá, no dizer de José Magalhães aos pés de um tempo que troca "o debate livre pela zurrapa" (p.10). Para Costa Pinto, o espaço público preenchido a crime, escândalos e futebol levou para longe a política - agora com escasso espaço. 
Ficámos a saber, pelos dados da GfK, que em 2017 viam, em média, o programa, 72100 espectadores, números que baixariam para os 52600 em 2018 (e, nas duas emissões de 2019, 44400 espectadores). Não conheço os dados de 2011-2015, mas, face a um tempo tão conturbado e muito mais politizado do que antes e depois, suspeito que as audiências eram, então, mais robustas - e que alguma "normalização" posterior fez alguns milhares dedicarem-se a outras àreas de interesse e actividade nos serões de quinta-feira.
O I sinaliza, a "amarelo", Daniel Oliveira, como responsável de programas da Sic, como o profissional que decidiu o fim da Quadratura, em virtude dos números das audiências, e conclui: "era, apesar de tudo, um dos poucos espaços civilizados na Tv" (p.48). Espera-se/deseja-se agora que outro canal de notícias/informação, ou uma estação de rádio possam recuperar tal civilidade.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Pós-passismo



Primeiro, foi Nuno Morais Sarmento na entrevista a Vítor Gonçalves. O tiro para o pós-passismo, se a oportunidade se proporcionar, chegou, o novo governo acabado de tomar posse, com a bengala da evocação de uma (suposta) deriva esquerdista do PS: agora que o Partido Socialista se radicalizou à esquerda, disse Sarmento, é fundamental que o PSD esteja ao centro. O partido precisa de se recentrar, porque isso é fundamental para a sociedade portuguesa. É certo que o confesso barrosista nunca remeteu para termos como social-democracia, ou outras expressões mais ousadas (quando não equívocas). Habilmente, o ex-ministro afirmou que nunca, como agora, Passos Coelho tem o apoio do partido, dado ter ganho eleições em circunstâncias eleitoralmente menos propícias. Num primeiro momento, assim será. O antigo comentador da RTP concluiu, já lá vão duas semanas, com a afirmação de que PSD e CDS devem seguir separados (ainda que com alguns acordos, nomeadamente em matéria orçamental).

Depois de Nuno Morais Sarmento, Miguel Albuquerque, na RR, afinou pelo mesmo diapasão: a coligação PaF deve desfazer-se. O jornalista da Renascença nota mais: o silêncio quando se fala da liderança do partido é muito significativo, as frases de apoio a Passos Coelho adquirem um tom excessivamente formal, frio. Algo que, em alguém tido como próximo do actual líder do PSD, não deixa de ser, de facto, surpreendente.

No programa Falar Claro, também José Eduardo Martins deu voz aos que expressam descontentamento com a possibilidade da coligação, à direita, se manter. E, se o social-democrata não antevê Passos fora do poder (no PSD), é muito crítico dos que o acompanham e, mais ainda, recusa, definitivamente, fazer parte de qualquer direcção social-democrata presidida por Passos Coelho.

Nuno Morais Sarmento - como por exemplo, Nuno Rogeiro, na Sábado elogiaram, ainda, a competência e capacidade política de António Costa para firmar os acordos que o levaram ao Governo.

Manuela Ferreira Leite repete, a cada quinta-feira, que fica chocada cada vez que alguém diz que o PSD é um partido de direita.

Quer dizer, tudo visto e somado, está, com efeito, criado um caldo de cultura no interior do PSD favorável a mudanças internas - que poderão ter múltiplas e diferentes expressões, mas que, como é evidente, tenderão a afectar a liderança se o novo Governo durar mais tempo do que aquele mínimo que recolocaria, inevitavelmente, Passos Coelho na liderança de um Governo que substituiria um que (eventualmente) se fragmentasse. Claro que experimentado, desde há décadas, no mundo das juventudes partidárias, fazendo um longo percurso partidário, Passos Coelho já se apercebeu do agitar de águas. A política, como o próprio sabe, não se dá com complacências; é implacável. "Se não tiveres eleições no país, vais tê-las no partido", poderia repetir-lhe, hoje, Marco António Costa.

É um pouco neste contexto que situo, até, a mais recente polémica criada com Pacheco Pereira. Se as àguas internas se agitam, necessário é criar uma nuvem de fumo. Mas num PSD que, em o actual Governo se aguentando duradouramente - hipótese muito discutível, diga-se -, ainda que não por genuína convicção, mas por táctica a maioria entendesse que o caminho centrista, menos liberal e mais social-democrata fariam sentido, então ao historiador poderia estar reservado, muito ironicamente (embora sem excessiva surpresa olhando ao modo como os partidos votam, mudando de rumo interno, às vezes radicalmente, com um grande facilidade ou irreflexão ideológico-programática), de não pouco relevo. De aí que me surpreenda, sim, de algum modo, que no caminho para um novo centro em Portugal, Pacheco Pereira não apoie, de imediato, Marcelo Rebelo de Sousa - fazendo desse apoio a leitura que, por exemplo, um Pedro Marques Lopes tem dado a uma vitória marcelista (na reconfiguração da social-democracia à portuguesa).
Possivelmente, a excessiva proximidade temporal com o período que antecedeu as últimas legislativas, as cumplicidades programáticas, pessoais formadas, ou a compreensão de que Marcelo é demasiado inteligente para se deixar acantonar em qualquer pomo de facção (ideológica) o tenham levado ao actual "agnosticismo" presidencial.
Esperemos para ver se não regressam as disputas entre bases e elites e quem representará estas dentro de dois anos (se entretanto o novo Executivo até lá não cair).

sábado, 28 de fevereiro de 2015

A pobreza como problema político


Desde que Giscard D'Estaing recusou a François Miterrand, em célebre debate, "o monopólio do coração" que, por entre registos muito diversos, tal é atirado, frequentemente, em diálogos entre interlocutores que evocam, de algum modo, a situação dos mais desfavorecidos. António Lobo Xavier, na quinta-feira, dizia que "só um psicopata" não se preocupa com os marginalizados e, este Sábado, no Público, Vasco Pulido Valente retoma, de modo implícito, a acusação de "moralistas" aos que aludem, em tom mais ou menos enfático e/ou apaixonado, aos concidadãos que se encontram em pior situação. O modo como o problema deve ser colocado, a meu ver, é político. A questão, infantil, de ver quem é melhor ou pior pessoa, nos debates na ágora, parece deslocada. O foco, o ponto deve ser, inequivocamente, político. Se há programas criados para combater a pobreza que demonstram resultados em conseguir mitigá-la, há-de ser política a explicação para os colocar em causa - partindo do pressuposto de que todos estão interessados em combater a pobreza (dado não contarmos que haja "psicopatas" com responsabilidades públicas). Há-de ser política a discussão de que outros programas ou formas de prosseguir este combate poderemos lançar mão para essa luta ser mais eficaz do que é hoje. Se o comentador "A" não é pior pessoa - nem isso, aliás, interessa para o caso - do que o comentador "B", pode, todavia, entender que este problema não é uma prioridade pública - e que, por exemplo, deve ser combatida, essencialmente, pelo (lado) privado, por aquilo que cada comunidade consiga fazer pelos que estão em pior situação. Uma das discussões mais interessantes, destes quase quatro anos, na Quadratura do Círculo, foi mesmo sobre a Caridade/Solidariedade (como aqui se deu conta). Portanto, o resvalar para um puro plano moral, desta problemática, acaba sempre por fazer com que a caricatura ganhe sobre a substância. Proponha-se, um jornalista, a investigar, para ilustrar, quantas intervenções, em congresso de um determinado partido - os últimos 5 congressos, convenções, etc., por exemplo - tiveram a pobreza e a desigualdade como mote, ou como lugar com algum relevo e vejamos com que afã essa realidade foi (ou não foi) tratada. Politicamente, claro.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Metapolítica. O princípio do prazer



“Os artigos de regresso, já de alguns anos para cá, são aquilo que os ingleses chamam gloomy, tristes e sombrios, porque o que espera os que vêm é trabalho - melhor: "ter que ir para o trabalho", o que é suficientemente sinistro -, cidades pouco amáveis, trânsito, rotinas, horários, chuva, crianças e escolas. Para sociedades em que domina o princípio do prazer, isto basta para deprimir muita gente (…) Vivemos de facto acima das nossas posses. Deveríamos poupar uma vida inteira para comprar casa só no fim. Ir ao médico só muito doentes. Ir ao hospital só de maca. Andar dois ou três quilómetros para apanhar uma camioneta. Ir ao restaurante uma ou duas vezes ao ano e só nas cidades. Emigrar em massa para qualquer "batimento" antes na França, agora em Angola. Cada dez famílias, uma ter um carro utilitário, que de vez em quando leva a família toda numa grande excursão a Fátima. Fazer dois anos de serviço militar obrigatório, escola profissional dos pobres, pré, comida e alojamento de graça e relações sociais úteis para arranjar trabalho. Como os nossos avós faziam. Como nos anos cinquenta. Só falta o sr. Presidente do Conselho sua excelência Professor Doutor António Oliveira Salazar”. 

Estes dois passos do mais recente texto de José Pacheco Pereira no jornal Público, ajudam a ilustrar o que se pretende dizer quando, em contexto de Igreja, se discute se a (sua) intervenção deve ficar no plano “pré-político” (ou “metapolítico”), no “combate cultural”, ou se, ao invés, deve mesmo ir até ao terreno do propriamente “político” (ainda que não partidário). Quando Pacheco Pereira, com ou sem razão, fala, aqui, em sociedades em que “domina o princípio do prazer”, ele remete-nos, claramente, para essa zona de valores, digamos, “pré-políticos” (admito o contraditório), como que o pano de fundo aonde o político chega, com que convive e em quem tem que atentar. Que, neste plano, a Igreja pode e deve actuar, claríssimo. Que se deva ficar por aí, outra conversa.