reprodução, destacada do artnet, de Arkwright's Cotton Mills by Night (Fábricas de Arkwright à Noite), de Joseph Wright (Wright de Derby)
Numa conhecidíssima obra de arte, encontram-se algumas das primeiras antecipações significativas das temporalidades 24/7 (...) Tem sido abundantemente reproduzida em livros sobre a história da industrialização para ilustrar - muitas vezes de forma enganadora - o impacto da produção fabril na Inglaterra rural (impacto esse que não foi muito sentido durante décadas). A estranheza da pintura advém em parte da implantação subtil mas nitidamente anti-pitoresca de edifícios de tijolo de seis e sete andares no que, fora isso, é uma zona rural reflorestada e por domar. Como constataram os historiadores, trata-se de estruturas inéditas na arquitectura inglesa. Mas o que desconcerta é a elaboração de uma cena nocturna onde a luz de uma lua cheia que ilumina um céu repleto de nuvens coexiste com os pontinhos das janelas alumiadas por lamparinas nas fábricas de algodão. A iluminação artificial das fábricas anuncia a implantação racionalizada de uma relação abstracta entre tempo e trabalho, independente das temporalidades cíclicas dos movimentos lunares e solares. A novidade nas fábricas de Arkwright não é um determinante mecânico, como a máquina vapor (as fábricas eram alimentadas somente por água ou pela recém-inventadas máquinas de fiar). Trata-se, pelo contrário, de uma reconceptualização radical da relação entre trabalho e tempo: a ideia de operações produtivas que não param, de trabalho que gera lucro e que pode funcionar 24/7. No lugar concreto que a pintura mostra, preparava-se para trabalhar nas máquinas mão-de-obra humana, que integra crianças, em turnos contínuas de doze horas. (...) A fábrica moderna emergia como espaço autónomo onde a organização laboral podia ser desligada da família, da comunidade, do meio ou de quaisquer interdependências ou associações tradicionais. (...)
Para ser claro, recorro às fábricas de Arkwright, na sua visualização por Wright de Derby, para designar não o racionalizar da manufactura, mas um homogeneizar mais lato do tempo e um conceptualizar de processos ininterruptos que se sobrepõem aos constrangimentos naturais e sociais. É evidente que, nos cem anos seguintes, já em pleno século XIX, a realidade de fábricas em funcionamento vinte e quatro horas por dia era a excepção, não a regra. Foi noutras esferas da modernização económica que se disseminaram organizações ininterruptas e desnaturalizadas do tempo. (...) A imagem de Wright de Derby é uma revelação precoce da concomitância e contiguidade de sistemas que são em última análise incompatíveis. A produção em fábrica, por exemplo, não extinguiu de supetão os antigos ritmos e laços sociais dos meios agrários. Houve pelo contrário um largo período de coexistência durante o qual a vida rural foi progressivamente desmantelada ou integrada em novos processos.
Jonathan Crary, 24/7, Antígona, Lisboa, 2018, pp.69-74 (tradução de Nuno Quintas)