Regressou, hoje, o reparo do dia, na ufm. Neste regresso pós-pausa estival, procurei fixar o que de mais positivo, para os europeus sem emprego e com menos esperança, pode ter surgido neste intervalo de cerca de dois meses. Revisão, pois, do discurso de Juncker e suas propostas para a Europa - seu possível significado.
A
surpresa Juncker
Talvez
a mais interessante e esperançosa das notícias deste Verão tenha sido o
discurso programático com o qual Jean
Claude-Juncker se apresentou a votação perante o Parlamento Europeu, a 15 de Julho último. Nessa alocução aos
deputados europeus, recorde-se, o agora presidente da Comissão Europeia anunciou um programa de estímulo económico, com vista à
criação de emprego, para os próximos três anos - apostando, em especial, na agenda digital e na indústria -, aposta
no valor de nada menos do que 300 mil milhões de euros - o dobro, refira-se, do
Pacto de Estabilidade e Crescimento desenhado
por François Hollande, em 2012.
Depois de vários anos a falar-se de crescimento, parece ter chegado a altura de
se passar à prática, com medidas concretas que se espera afectem, pela
positiva, a vida de muitos europeus (principalmente os que estiveram e estão
privados de trabalho, nos anos mais recentes - e ainda nestes dias). Mais, prosseguiu
Juncker, impõe-se flexibilidade na interpretação das regras fiscais; um
renovado impulso à Taxa Tobin;
a criação de um salário mínimo europeu. Houve auto-crítica, da sua parte, às
políticas de austeridade prosseguidas nos últimos três anos – uma espécie de
acto de contrição relativamente à sua liderança do Eurogrupo – e reconheceu-se a falta de equidade, tantas vezes
negada quantas verificada, na distribuição dos sacrifícios resultantes das
mesmas. Garantiu vir a existir um plano B
sempre que aconselhar medidas aos países para estes melhorarem a sua situação -
e estas falharem. Em editorial, ElPaís classificou o articulado do
ex-primeiro ministro luxemburguês como o discurso mais à esquerda de um Presidente da Comissão
Europeia desde os bonançosos tempos de Jacques
Delors. Apesar de o presidente vindo do PPE
não ter detalhado o modo de financiamento das medidas preconizadas e de,
simultaneamente, proclamar a manutenção do compromisso conservador com as chamadas reformas
estruturais, a verdade é que a exposição de Juncker soou tão social-democrata que o diário de direita espanhol ABC fez, mesmo, manchete, no dia
seguinte, com crítica cerrada a Pedro
Sanchez, nóvel líder do Partido Socialista Espanhol, pelo facto dos eurodeputados
socialistas espanhóis não terem ratificado o luxemburguês.
Analisar as motivações ou
razões de um discurso de algum modo surpreendente era o que importava fazer
também. Pego no contributo do analista Ignacio
Torreblanca para interpretar o problema. Na sua leitura, dois são os
factores que convergiram para obrigar a Europa, incluindo grupos políticos
menos propensos a assentir ao investimento público, a mexer-se: de um lado, o factor Marine Le Pen, isto é, a ascensão dos populismos e nacionalismos,
nas últimas europeias que, mais do que os mercados, ameaçavam, ou ainda
ameaçam, desintegrar a União Europeia
– era, portanto, preciso fazer qualquer coisa para que, de novo, a Europa fosse
vista como um projecto de vida para as populações; em segundo lugar, o factor Renzi, a liderança do novo PM
italiano que vinha sustentando, fortemente, flexibilidade nas regras do euro – que, segundo o que foi publicado
na nossa imprensa, o governo português estranhamente rejeitara – e uma política
de estímulo económico.
Fixo-me, ainda, no primeiro
dos factores enunciados. Pessoas com quem conversei acerca das últimas eleições
europeias diziam-me ter votado em partidos mais extremados face às suas
habituais opções, não como simples voto
de protesto, mas como voto
estratégico para obrigar o centro
a reagir. Não sei se foram muitos os que assim decidiram, mas os que o fizeram,
coqueteando com o fogo, parecem poder
ter prémio. Em sentido oposto, os que votando convictamente em partidos
nacionalistas ou anti-Europa por esse continente fora, poderão, eventualmente,
estar arrependidos da escolha feita, porque, ironicamente, poderão ter
accionado o sinal de alarme que,
deseja-se, leve a Europa de novo a um patamar de coesão social (que está ainda
muito por provar, apesar da muito positiva carta de intenções do agora
Presidente da Comissão). Não deixa de fazer reflectir, por outro prisma, que
tendo passado pela Presidência da Comissão, no pós-Delors, homens vinculados ao
grupo do Partido Socialista Europeu,
seja um conservador a produzir, no entender de alguns, o discurso mais à esquerda em largos anos. Se, durante
anos, os partidos social-democratas
foram acusados de sucumbir às ideias liberais,
podemos estar perante um momentum em
que mesmo os mais liberais aceitem
estímulos sociais-democratas na Economia. Ou que após o extremar ideológico
destes anos da troika, seja tempo de
maior compromisso político.
Boa semana.