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Quando se fala na falta de narradores, de contadores de histórias, nos nossos dias - e creio que, provavelmente, se fala com razão; sentimos que vamos perdendo os últimos dos que ainda dominam a arte -, a noite de ontem, no Grémio Literário de Vila Real, na evocação de Camilo de Araújo Correia, pelos dez anos do seu desaparecimento, contou com uma dessas avis rara, o psiquiatra Dr. Louzã Henriques, de Coimbra, cuja intervenção, envolta em uma liturgia de palavras pesadas delicadamente, uma elegia, convicta e convincente, da fraternidade e amizade (nas repúblicas coimbrãs dos anos 50), o retrato de carácter do homenageado, seus irmãos, terra, família, companheiros de boémias e letras, com a erudição de quem conhece bem a literatura - portuguesa e universal -, e fala por entre cuidados silêncios, vocábulos que nos aconchegam, intuições e vislumbres de um futuro de reunião plena (noutras dimensões) e sabe de cor a matéria dos néctares e conhece o tempo e o modo de os criar, fala da terra, de pais e filhos e seus carinhos e/ou severidades, tornou a noite em locus amenus.
Ainda que à evocação da personalidade, de um tempo e espaço, depois faltasse, uma vez mais, uma aproximação estritamente literária: a medida do cronista, o porquê de aí - na crónica, mas ainda na dedicatória - ser grande, os meios em que escreveu, quando escreveu, as características que nesse contexto o diferenciavam, que estética e ética eram suas. O retrato humano fez-se; do retrato literário, pouco se disse.