Mostrar mensagens com a etiqueta Lynne. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lynne. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

600 MIL MORTOS DEPOIS



Resultado de imagem para Vice


1."Mas, afinal, nós acreditamos em quê?". A pergunta a Donald Rumsfeld, Rummy ou Don para os amigos, era colocada, início dos anos 70 (era Presidente o republicano Richard Nixon, e Rumsfeld via-se ultrapassado por Kissinger na influência sobre a liderança) por um ainda desconhecido estagiário no Congresso, afecto ao gabinete do já durão Rumsfeld, um novato que aprende depressa (com o boss) e cedo se desengana, ouve calado, absorve tudo, Dick Cheney. A resposta de Rumsfeld, uma imensa e sonora gargalhada, uma gargalhada como se a pergunta tivesse sido retórica - não acreditamos em nada, claro; acreditamos em ter poder, se preferires - como que evocava a pergunta de Pilatos: "O que é a verdade?". Uma das cenas maiores, de "Vice", a meu ver.

2.Cheney, que acedera a Yale por força da (brilhante aluna e sua mulher) Lynne, é expulso da faculdade, como um "estróina", um "sacanazito" que bebe mais do que faz qualquer outra coisa e cujas notas o desqualificam. Continuará assim, até a sua relação ficar ameaçada pelas palavras da sua mulher que o obrigam/incentivam/instam a lutar e chegar ao topo da montanha (social-política-empresarial).

3.Com vários problemas de coração ("achaques" no miocárdio) ao longo da vida, em se encontrando a candidatar-se ao Senado, Cheney é acometido por novos casos de saúde e fica de cama. A sua mulher, como que o substituindo em comícios, discursa, então, no Sul e critica os "liberais snobes" de Washington que "não conhecem as pessoas reais como nós", lá onde as "mulheres queimam sutiãs" enquanto aqui "nós os usamos". Na genealogia histórica do populismo é como se o realizador Adam McKay quisesse sublinhar que aquele já vem de longe (aliás, bem antes dos anos 70, diga-se; mas o populismo, com aqueles traços e discurso concreto, repetido,desde então, como se passasse por aquele preciso tempo).

4.Embora o filme seja anunciado como tendo momentos de comédia, talvez, e mesmo assim não dá para grandes risadas, até porque fiel leitor de Orwell e portanto muito mais "científico" do que possa parecer, (a cena que, a esse propósito, o da comédia, se possa escolher seja a de) o génio do marketing, numa sessão do principal think tank americano de direita, mostrando, a um focus group, que a proposta republicana, em vez de ser "eliminar a taxação de heranças acima de 2 milhões de dólares", era acabar "com o imposto da morte" ("os liberais até mortos nos querem pôr a pagar impostos"). Aquilo que não passava [não era passível de ser aprovado, em termos políticos] como "eliminação da taxação de heranças acima dos 2 milhões de euros" passa [recebe a concordância de uma parte muito substancial do eleitorado] como "eliminação do imposto de morte".

5.Não sei se vem de antes, mas os "focus group" e os "think tank" como uma tendência crescente, de testar políticas, mensagens, palavras, reformas no final do século XX, início do século XXI. E, sobretudo, o filme mostra, como aliás descrito em vários outros lados, think tank financiados por multimilionários, como os irmãos Koch, para arranjar "intelectuais engajados" - muitas vezes, na verdade, propagandistas; no melhor dos casos, sofistas (na pior acepção acerca destes que nos chegou da antiguidade clássica) - de modo a encontrar justificações - ou jogadas de marketing - para fazer passar leis que até então parecia impensável fazer passar. Com vários idiotas úteis a alinharem em políticas que prejudicam a esmagadora maioria da população. E, esta, não raro, a "comprar" a propaganda.

6.Colocar pessoas em lugares-tenentes. O caso Antonio Scalia. O Supremo não permitiu a continuação da recontagem de votos na Florida. Bush filho eleito por uma diferença de 536 votos.

7.Cheney coloca a família em primeiro lugar, mesmo em permanência fazendo cálculo político. Uma das suas filhas, Mary, é homossexual. Cheney desiste de lutar por uma nomeação republicana, porque sabia que durante as primárias a descendente seria trucidada. A velha capa dupla, pai extremoso - compreensivo com a orientação sexual da filha, amando-a como ela é - e político implacável e sem o menor escrúpulo é aqui exposto à exaustão. Comparado com a mulher, Cheney chega a ser especialmente sensível nesse âmbito familiar.

8.Dedicando-se à vida empresarial, Cheney chega a CEO da Halliburton, empresa do ramo petrolífero. Quando, posteriormente, aceita fazer parte do ticket com George W.Bush, rescinde com a empresa, recebendo, para o efeito, 26 milhões de dólares. Inicialmente, pensava serem 13. "Não são burros", diz-lhe a mulher. Umas cenas adiante no filme: os generais informam o Vice e os seus apaniguados de que a Halliburton está a sobrefacturar. Estes afirmam-se não preocupados com o assunto. E mandam seguir com o briefing. Durante a guerra do Iraque, as acções da Halliburton chegam a valorizar 500%.

9.Apagões de emails das contas da Casa Branca, inacessíveis até hoje, nomeadamente as que contendiam com Dick Cheney. Um Presidente completamente dominado pela ala do Vice, que incluía o não menos falcão Paul Wolfowitz. Ou o agora discípulo - invertem-se os papéis, pois - Rumsfeld. Um Presidente pau mandado que quer a Presidência para impressionar o pai - tese que o filme corrobora. Os juristas essenciais para legitimar a tortura. A teoria jurídica para reforçar, praticamente sem restrições, o poder do Presidente. A decisão de invadir o Iraque antes mesmo da Presidência se iniciar. As mentiras deliberadas para justificar as armas de destruição maciça. O pior dia da vida política de Colin Powell, um homem que não acreditava no que foi dizer à ONU. Ausência de quaisquer registos, nomeadamente fiscais, de Cheney. As multinacionais a legislarem. O "aquecimento global" abafado e substituído pelas "alterações climáticas". Al Zarqawi a fazer nascer o Estado Islâmico, o ISIS, precisamente quando os serviços secretos eram manipulados para estabelecer uma inexistente ligação Al Qaeda-Iraque. O aproveitamento do clima de medo, por um lado, e de vontade de "vingança", por outro, de muitos americanos na sequência do 09/11. O fim da lei que exigia o contraditório, nos media, quando se dava cobertura a uma dada questão, tentando-se uma racionalidade a partir dos factos: eis o início da nova era das "verdades alternativas", das "fake news", de "a cada um a sua verdade". 

10.O filme contabilizou, em vítimas diretas da Guerra do Iraque, 600 mil pessoas. Mais 150 mil mortos na guerra civil da Síria, e no Iraque, às mãos do Isis. 

11.A monstruosidade, o dolo sem escrúpulos, a matança e a destruição de países, povos, culturas, património da humanidade precisava de um filme que ajudasse a fixar os acontecimentos e a cupidez pornográfica na origem dos mesmos para o grande público. Tudo se passou, como escreve o Expresso, com uma bateria exaustiva de entrevistas, de recolha de materiais, de uma biografia que meteu jornalistas contratados para o efeito, advogados que viram se o filme estava em condições de ser lançado. Que depois disto se tenha lido, por cá, nos sítios do costume, que faltava isenção, foi como que cair na armadilha daquele republicano que diz, na última cena do filme, "ah, isto é um filme com viés liberal". O crítico já não ouviu a resposta: "os factos são liberais?". Talvez seja o momento de mordacidade irónica que conservemos de um filme que mostra a miséria moral levada a um extremo absurdo, bem como o falhanço dos checks and balances e de como a concentração mediática deixa o liberalismo sem um dos seus tripés.


P.S.: sei que os "monstros" nacionais são sempre mais importantes, que o Iraque fica longe, etc. Mas vale a pena ter noção das coisas: quando olhamos, em termos ocidentais para o que foi este século XXI, convinha ter noção de quem perpetrou o quê. De quem continua à solta. De quem apoiou semelhante catástrofe e de qual foi o futuro de cada um. E comparar com os que recentemente foram obrigados a abandonar a vida política portuguesa pelo opróbrio em torno de si. E comparar o mal a que ficaram ligados. Recordar de quem disse Rumsfeld, imagine-se, ser "muito ambicioso". O retrato de concentração mediática também seria curioso de aplicar mais perto de nós. Dos anos da Guerra do Iraque, honra a Diogo Freitas do Amaral, por exemplo, que entre manter a pose bem comportada e defender a verdade, a moralidade e a legalidade internacional preferiu pagar o preço por recusar a primeira. Há momentos particularmente especiais em que se medem os homens. 
Os auto-proclamados "vigilantes", na época, assim se mantém, quase vinte anos volvidos como as grades cassandras do regime, sem um pedido de desculpa.