Esta quinta-feira, a Visão escreve, pela pena de Mafalda Anjos, que "Fukuyama está de volta com um novo livro, essencial para quem quer arrumar ideias e perceber os movimentos políticos e sociais que perpassam hoje pelo mundo" (p.35).
Sobre "Identidades", fui, no Jas-mim, partilhando o que me pareceu essencial e que procurei sintetizar em texto para a universidadefm:
Identidades
Talvez
o politólogo Francis Fukuyama seja um bom, porque um ilustrativo guia, para
compreendermos o que mudou na política internacional desde que, em 1992, publicou O fim da história e o
último homem – célebre ensaio no
qual, na senda de Hegel, preconizava que a finalidade da História era uma
sociedade liberal-democrática com economia de mercado – até à actual edição de
Identidades, o seu novo livro no qual assume duas mudanças essenciais no seu
pensamento político: i) o reconhecimento de que é muito difícil
erguer-se um Estado moderno, impessoal; ii) a possibilidade de que
a democracia liberal moderna decaia ou ande para trás (quer dizer,
Estados que chegaram a democratas possam retroceder no regime político
adoptado).
Em 1970, havia no
mundo 30 «democracias eleitorais», mas em meados dos anos 2000 estas haviam
chegado a um número que se aproximava das 120 (p.13). Contudo, "algures
na segunda década dos anos 2000" tais democracias recuaram, passando,
nas palavras de Larry Diamond, por uma «recessão global».
À expansão
democrática, na sequência da queda do muro de Berlim, com o fim da antiga URSS
e dos regimes comunistas no Leste europeu - ambiente/espírito no qual se
enquadrou "O fim da história" de Fukuyama, rapidamente considerado de
uma confiança, ingenuidade ou arrogância excessiva na idealização de um modelo
político-económico único a uma escala global, indiferente a culturas,
geografias, histórias, resultados económicos muito diversificados - sucedeu um
retrocesso contemporâneo concomitante a x) uma aceleração da globalização e a
xx) uma crise financeira-económica-social, com o seu cortejo de falências,
desemprego, quebra do rendimento de milhões de trabalhadores em todo o mundo,
ou seja, na síntese do investigador, "as políticas da elite produziram" grandes problemas (p.23).
Países autoritários como a China e a Rússia tornaram-se mais
"auto-confiantes e afirmativos". Passaram a emergir as chamadas
«democracias iliberais» - e, aos exemplos mais habituais neste contexto,
Fukuyama acrescenta, ainda, o caso da Tailândia (p.23). O descalabro da invasão
do Iraque, e mesmo a intervenção no Afeganistão, iriam conduzir à radicalização
(religiosa/política) de milhões de pessoas.
Se a política do
séc.XX parecia organizada em torno do binómio esquerda-direita atinente
a questões de tipo económico - a esquerda reclamando
mais igualdade, a direita mais liberdade;
as ditas "políticas progressistas" centradas nos trabalhadores, nos
sindicatos e em partidos social-democratas que pretendiam
melhores prestações sociais e melhor distribuição da riqueza, enquanto a direita se
preocupava em reduzir o tamanho do estado e em promover a iniciativa privada
(p.24), a certo momento da última década tais agendas, não tendo desaparecido,
pareceram dar o lugar "a um espectro definido pela identidade".
A esquerda procurou promover uma ampla variedade de grupos - negros, mulheres, imigrantes, hispânicos, comunidade
LGBT - e a direita passou a um discurso em chave
patriótica, ou mesmo nacionalista,
associada esta a uma dada raça, etnia ou religião (isto é válido para o caso
americano, mas não só).
Fukuyama reconhece,
neste livro, a centralidade das questões económicas no agir humano - e daí os
problemas fundamentais identificados (ausência de resposta aos afectados pela
globalização e perda de rendimentos na sequência da longa crise iniciada em
2008) -, mas recusa o exclusivo motivacional deste: sem um quadro de
«ressentimento» devidamente mobilizado, sedutor da parte da psique/alma humana
que aspira ao reconhecimento (o thymos), as mudanças políticas a
que estamos a assistir não teriam ocorrido: "o thymos é
a parte da alma que almeja o reconhecimento da nossa dignidade; a isotimia é
a exigência de se ser respeitado na base da igualdade com as outras pessoas;
a megalotimia é o desejo de ser reconhecido como superior. As
democracias liberais modernas prometem, e em larga medida oferecem, um grau
mínimo de igual respeito, encarnado nos direitos humanos, o primado da lei e o
direito ao voto. O que isso não garante é que numa democracia as pessoas sejam
respeitadas igualmente na prática, em particular os membros de grupos com um
historial de marginalização" (p.15). Outro problema é a recorrente
existência histórica da megalotimia, que tanto deu origem a heróis
como Churchill, ou «santos seculares» como Mandela,
como tragédias como as de Hitler ou Mao. Possuirá
a democracia liberal, ligada a uma economia de mercado, saídas para
a megalotimia? Em O fim da história e o ultimo homem,
Fukuyama, ironia da história, citava o exemplo de um tal Donald Trump que
fazia desaguar a sua ambição e megalomania para o mundo
empresarial. O que em 1992, com Trump no lugar de Trump, era a ilustração de
que o modelo funcionava, em 2018, com Trump no lugar de César, as campainhas
acendem em toda a sua extensão - isto, enquanto, de outro ângulo, o problema
da isotimia é que nenhuma sociedade tratará de forma igual
quem arriscou a vida pela comunidade (um bombeiro, um polícia, etc.), por
exemplo, com quem fugiu ao primeiro sinal (e parece haver quem não aceite esta
diferenciação).
Boa semana.
P.S.: "Desde que escrevi o livro, já surgiu um governo de direita populista em Itália, foi eleito um Presidente do Brasil de extrema-direita populista, e ambos os países vão desenvolver políticas que serão muito excludentes...o momentum favorece este tipo de políticos", diz Fukuyama na entrevista à Visão.