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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O ano em revisão


Esta quinta-feira, a Visão escreve, pela pena de Mafalda Anjos, que "Fukuyama está de volta com um novo livro, essencial para quem quer arrumar ideias e perceber os movimentos políticos e sociais que perpassam hoje pelo mundo" (p.35).

Sobre "Identidades", fui, no Jas-mim, partilhando o que me pareceu essencial e que procurei sintetizar em texto para a universidadefm

Identidades

Talvez o politólogo Francis Fukuyama seja um bom, porque um ilustrativo guia, para compreendermos o que mudou na política internacional desde que, em 1992, publicou O fim da história e o último homem – célebre ensaio no qual, na senda de Hegel, preconizava que a finalidade da História era uma sociedade liberal-democrática com economia de mercado – até à actual edição de Identidades, o seu novo livro no qual assume duas mudanças essenciais no seu pensamento político: i) o reconhecimento de que é muito difícil erguer-se um Estado moderno, impessoal; ii) a possibilidade de que a democracia liberal moderna decaia ou ande para trás (quer dizer, Estados que chegaram a democratas possam retroceder no regime político adoptado).
Em 1970, havia no mundo 30 «democracias eleitorais», mas em meados dos anos 2000 estas haviam chegado a um número que se aproximava das 120 (p.13). Contudo, "algures na segunda década dos anos 2000" tais democracias recuaram, passando, nas palavras de Larry Diamond, por uma «recessão global». 
À expansão democrática, na sequência da queda do muro de Berlim, com o fim da antiga URSS e dos regimes comunistas no Leste europeu - ambiente/espírito no qual se enquadrou "O fim da história" de Fukuyama, rapidamente considerado de uma confiança, ingenuidade ou arrogância excessiva na idealização de um modelo político-económico único a uma escala global, indiferente a culturas, geografias, histórias, resultados económicos muito diversificados - sucedeu um retrocesso contemporâneo concomitante a x) uma aceleração da globalização e a xx) uma crise financeira-económica-social, com o seu cortejo de falências, desemprego, quebra do rendimento de milhões de trabalhadores em todo o mundo, ou seja, na síntese do investigador, "as políticas da elite produziram" grandes problemas (p.23). Países autoritários como a China e a Rússia tornaram-se mais "auto-confiantes e afirmativos". Passaram a emergir as chamadas «democracias iliberais» - e, aos exemplos mais habituais neste contexto, Fukuyama acrescenta, ainda, o caso da Tailândia (p.23). O descalabro da invasão do Iraque, e mesmo a intervenção no Afeganistão, iriam conduzir à radicalização (religiosa/política) de milhões de pessoas.
Se a política do séc.XX parecia organizada em torno do binómio esquerda-direita atinente a questões de tipo económico - a esquerda reclamando mais igualdade, a direita mais liberdade; as ditas "políticas progressistas" centradas nos trabalhadores, nos sindicatos e em partidos social-democratas que pretendiam melhores prestações sociais e melhor distribuição da riqueza, enquanto a direita se preocupava em reduzir o tamanho do estado e em promover a iniciativa privada (p.24), a certo momento da última década tais agendas, não tendo desaparecido, pareceram dar o lugar "a um espectro definido pela identidade". A esquerda procurou promover uma ampla variedade de grupos - negrosmulheresimigranteshispânicoscomunidade LGBT - e a direita passou a um discurso em chave patriótica, ou mesmo nacionalista, associada esta a uma dada raça, etnia ou religião (isto é válido para o caso americano, mas não só).
Fukuyama reconhece, neste livro, a centralidade das questões económicas no agir humano - e daí os problemas fundamentais identificados (ausência de resposta aos afectados pela globalização e perda de rendimentos na sequência da longa crise iniciada em 2008) -, mas recusa o exclusivo motivacional deste: sem um quadro de «ressentimento» devidamente mobilizado, sedutor da parte da psique/alma humana que aspira ao reconhecimento (o thymos), as mudanças políticas a que estamos a assistir não teriam ocorrido: "o thymos é a parte da alma que almeja o reconhecimento da nossa dignidade; a isotimia é a exigência de se ser respeitado na base da igualdade com as outras pessoas; a megalotimia é o desejo de ser reconhecido como superior. As democracias liberais modernas prometem, e em larga medida oferecem, um grau mínimo de igual respeito, encarnado nos direitos humanos, o primado da lei e o direito ao voto. O que isso não garante é que numa democracia as pessoas sejam respeitadas igualmente na prática, em particular os membros de grupos com um historial de marginalização" (p.15). Outro problema é a recorrente existência histórica da megalotimia, que tanto deu origem a heróis como Churchill, ou «santos seculares» como Mandela, como tragédias como as de Hitler ou Mao. Possuirá a democracia liberal, ligada a uma economia de mercado, saídas para a megalotimia? Em O fim da história e o ultimo homem, Fukuyama, ironia da história, citava o exemplo de um tal Donald Trump que fazia desaguar a sua ambição e megalomania para o mundo empresarial. O que em 1992, com Trump no lugar de Trump, era a ilustração de que o modelo funcionava, em 2018, com Trump no lugar de César, as campainhas acendem em toda a sua extensão - isto, enquanto, de outro ângulo, o problema da isotimia é que nenhuma sociedade tratará de forma igual quem arriscou a vida pela comunidade (um bombeiro, um polícia, etc.), por exemplo, com quem fugiu ao primeiro sinal (e parece haver quem não aceite esta diferenciação).

Boa semana.

P.S.: "Desde que escrevi o livro, já surgiu um governo de direita populista em Itália, foi eleito um Presidente do Brasil de extrema-direita populista, e ambos os países vão desenvolver políticas que serão muito excludentes...o momentum favorece este tipo de políticos", diz Fukuyama na entrevista à Visão

sábado, 12 de maio de 2018

De almanaque


*"Se fosse um país independente, a economia da Califórnia seria a quinta maior do mundo, ultrapassando a do Reino Unido e sendo apenas superada pelo PIB dos Estados Unidos da América, China, Japão e Alemanha (...) Agora, após anos de expansão, a Califórnia tem um superavit de 6 mil milhões de dólares e, no entretanto, criou dois milhões de empregos, além de ter acrescentado mais 700 mil milhões de dólares à sua economia [no sector da tecnologia, indústria do entretenimento, mas sobretudo nos serviços financeiros e no imobiliário] (...) No entanto, a grande lição é que este crescimento foi alcançado num estado onde, como escreveu  o New York Times, "existem leis de protecção ambiental extremamente rigorosas, um sistema fiscal progressivo e um ordenado mínimo ascendente (...) O estado acolhe imigrantes, celebra a diversidade linguística e étnica, e combate de forma activa as mudanças climáticas. E com isso tudo, a sua economia continua a voar" (Rui Tavares Guedes, Visão, 10-05-2018, p.24); 

*"Finalmente, a discussão pública em torno de José Sócrates está onde deve estar: na ordem da moral e da política, mais do que ao nível da Justiça. Aconteça o que acontecer ao processo judicial, incluindo uma absolvição por falta de prova, de uma coisa o ex-primeiro-ministro, o PS e a democracia portuguesa não se poderão livrar do juízo fatal de ter tido um dirigente que viveu por vários anos às custas de um amigo empresário, que recebia molhos de notas às escondidas e que mentiu aos portugueses em diversas vezes sobre a sua condição e fortuna. E só isso bastaria para que, há muito tempo, o partido e as pessoas de bem à sua volta se tivessem demarcado dele" (Mafalda Anjos, Visão, 10-05-2018, p.8);

*Ao todo, a ETA vitimou 854 pessoas, desde a sua fundação em 1969, até à sua dissolução em 3 de Maio de 2018; o ano em que ocorreu o maior número de mortes por atentados da ETA foi 1980 (morreram 93 pessoas); o último ano em que houve uma vítima mortal da ETA foi 2010. No ano 2000, as vítimas foram 23. A ETA tinha cerca de 1000 militantes

*Aprendendo com Bárbara Reis, no Público: uma galinha dura, em média, 3 a 5 anos e põe 267 ovos por ano;

*Vladimir Putin tem 65 anos, num país em que a esperança média de vida masculina é de 64 anos (na Time);

*O salário médio bruto, no distrito de Vila Real, em 2016, foi de 897€, mais 5,7% do que em 2011;

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Educar


Até defendi uma disciplina no primeiro ciclo sobre disparates: não é má educação, é pensamento divergente. Passamos o tempo a dizer à criança, 'cala-te, não digas disparates'. Ela cresce, vai trabalhar e quando lhe pedem para fazer brainstorming bloqueia, porque reprimiu a sua imaginação, diz Jorge Rio Cardoso, autor do livro Este ano vais ser o melhor aluno - 'bora lá?, Professor no Instituto de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, quadro do Banco de Portugal, mas que ao longo da sua vida académica chumbou no 4º e 7º anos, sendo que aprendeu a cumprir horários, a ter disciplina, a respeitar o treinador, a adiar a gratificação, mas também a vencer medos e a dar a sua opinião quando se dedicou ao desporto, no caso o atletismo. Afiança que quando se refere a 'ser o melhor aluno' a "intenção é comparar-se consigo próprio e não com o melhor da turma" e "mais do que ter conhecimento interessa saber pensar com imaginação e resolver problemas em conjunto". De resto, "a programação do estudo começa logo no primeiro ciclo, com técnicas para organizar apontamentos e preparação para os testes, que deve ocorrer algumas semanas antes das avaliações". E "há que desmistificar: a energia, nos miúdos, é uma coisa positiva. O que não é positivo é querer que tenham notas altas a todo o custo, muitos a poder de medicamentos, ou estarem de volta dos filhos a fazer os trabalhos de casa por eles, com prejuízo da autonomia". As principais dificuldades dos alunos passam por "não saberem programar-se. Chegam à véspera dos exames com um amontoado de folhas, ainda por cima mal escritas, e começam logo a ficar com suores frios (...) A vida dos alunos com bom rendimento escolar não se resume, nem pode, a aulas, TPC e preparação para avaliação (...) Os pais também precisam mudar de atitude porque a nota já não é tudo, aprender e aplicar o conhecimento na vida é mais importante". O importante para que as coisas corram bem na escola é que "os miúdos precisam de confiar e de acreditar neles, na sua motivação intrínseca, para investirem tempo e atenção no estudo. Nenhuma criança consegue ter sucesso escolar se estiver triste ou deprimida e se a sua vida for só escola e estudo. Para viverem a cidadania as crianças precisam de ter equilíbrio emocional, reconhecer e gerir as suas emoções e perceber que o mundo não gira só à volta delas (...) A criança estranha que alguém lhe venha impor regras na escola quando os pais não o fazem. Ou tem dificuldades em dizer 'não'". Quanto a castigos, "eu defendo regras e limites: entre ballet e estudo, primeiro o estudo. Se chegar a casa à noite à hora combinada e sem estar alcoolizado, vai ter mais autonomia, porque foi responsável. Excessos de qualquer espécie, como o uso de telemóvel na hora de dormir, implicam retirada de benefícios ou de autonomia. Isto faz-se logo no jardim de infância, não é depois".  Entre outros conselhos, "digo aos pais para não se focarem tanto no rendimento e no resultado, antes na forma como os filhos organizam o estudo, ver o que é que eles não perceberam e identificar o que não está a correr tão bem, para poder melhorar (...) Evitem medir as coisas em termos de horas. Pensem em tarefas e façam perguntas: "explica lá o que aprendeste...". Porque é um incentivo que lhes dão". Já na adolescência, "é fundamental saber dizer o tal 'não' desde cedo (...) É aqui que entra o valor desse 'não' dado antes. O 'não' que lhes vai permitir renunciar à droga, ao charro, porque caso contrário é fácil entrar na onda". Em muitos casos, nos conflitos com os pais "os filhos só querem dizer "eu tenho direito à minha opinião" e há que respeitar isso, de forma serena. A ideia é poder discordar e treiná-los a defenderem os seus pontos de vista. Só consigo respeitar uma coisa quando a conheço e, além disso, é com o erro que se aprende". Quanto ao ensino, "ainda é muito teórico. Há uma preocupação excessiva em dar respostas ao nível das hard skills, as competências técnicas. Porém, já se começa a investir no campo das soft skills, as capacidades relacionais, como o saber ouvir, ter empatia, cooperar e ter um espírito crítico e construtivo. São essas que fazem bons cidadãos, bons pais e boas mães". A visão do autor, pode, em suma, resumir-se do seguinte modo: "os adultos devem preocupar-se menos com o Ter e ensinar a criança a Ser. Colocá-la em contacto com desportos, artes, museus, voluntariado. Se o modelo de ensino for orientado só para a competição, quando os jovens entrarem no mercado de trabalho não sabem cooperar. O objectivo último é a cidadania".

Entrevista a Jorge Rio Cardoso conduzida por Clara Soares, Visão nº1226, 01/09/2016 a 07/09/2016, pp.10-12