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quarta-feira, 8 de maio de 2019

Mas há alguma dúvida?


Em Portugal, fica mal, há uma espécie de censura implícita, de sub-reptícia insinuação de falta de patriotismo, se um português amante de futebol se atreve a dizer que Messi é melhor do que Ronaldo. Paciência (...) Azar o de Ronaldo ser contemporâneo de Messi, azar o de Messi não ser alto e fotogénico, seja de cara ou de abdominais. Mas hoje, que não tenho dúvidas de que Messi é o melhor jogador que alguma vez vi jogar, também não tenho grandes dúvidas em afirmar que jamais existirá alguém que se lhe compare. Porque eu vi jogar Cruyff e Maradona (os mais próximos dele) e ainda vi jogar Pelé (...) mas nenhum deles, nem mesmo Cruyff, conseguiu atingir a sua dimensão sobrenatural - e época após época, já lá vão treze anos. Na verdade, penso que só para evitar a monotonia é que Messi não ganha todos os anos a Bola de Ouro (...) Porque durante todos estes treze anos ele foi sempre o melhor e continuará a sê-lo enquanto pisar os relvados

Miguel Sousa Tavares, Um deus no estádio, ABola, 08-05-2019, p.36.

domingo, 15 de julho de 2018

Quebras de tensão



Sandro William  JUNQUEIRA, O Meu Mundial. A Vitória do Tédio Mortal, Expresso. 1. Caderno, n. 2385, 14. 07. 2018, 43

O escritor volta ao futebol romântico do Mundial de 1982, em particular ao Brasil de Zico, Sócrates e Falcão para criticar os excessos defensivos atuais

Quando resolvi enfiar os dedos na memória e revolvê-la em busca dos primeiros registos de um mundial, detive-me no ano de 1982. No Espanha 82. Numa chispa voltei a ter oito anos, a comer quatro carcaças com manteiga ao pequeno-almoço, a querer dar mergulhos suicidas e saltos pós-apocalípticos com Conan — O rapaz do futuro, a frequentar a escola primária do Montalvão em Setúbal, a colocar o Naranjito no rabo do lápis e a mordiscá-lo sempre que me deparava com uma conta de dividir.
Dentar o Naranjito aliviava-me da frustração de nunca acertar no quociente e era bem mais agradável ao palato do que a madeira pintada do Viarco. Aprender a dividir exige muita concentração, alertava-me a professora Celeste, munida de toda a sua pedagogia. Mas o meu centro já se tinha inclinado para as alegrias e desgraças resultantes do mundo da bola.
Latto, Boniek, Ardiles, Passarella, Arkonada, Platini, Rummenigge, Shumacher, Zoff, Gentile, Tardelli, Maradona — eram os cromos que coloriam de vaidade a minha caderneta “Ases do Mundial”. Os rostos e os nomes que folheava diária e avidamente como se daquilo dependesse a minha vida e a sorte do mundo inteiro. Mas o que teimou em ficar grafado numa tatuagem cardíaca, a experiência iniciática que transformou a minha perceção do jogo, não foi a máquina de fazer golos como quem cospe cubos de gelo chamada Paolo Rossi, nem o cortejo de lágrimas da seleção das Honduras após a eliminação, nem sequer a sobre-humana recuperação da Alemanha contra a França nas meias-finais e o subsequente alvoroço perante a primeira decisão por penáltis na história dos mundiais; não, nada disto; foi, sim, o frango guisado de um almoço algures entre Aires e Palmela em casa de amigos, e uma tragédia polvilhada de crueldade servida à hora do lanche na televisão a cores, quando se deu o Brasil-Itália no Sarriá.
O Espanha-82 foi o meu primeiro mundial. E com ele veio a minha primeira desilusão. Tive um caso de amor. Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo, Eder e Júnior: os nomes responsáveis por este golpe de afeto. O que o escrete fazia no campo era algo que nunca tinha sido visto pelos meus músculos, pelos meus terminais nervosos. Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo, Eder e Júnior não vestiam apenas a pele de jogadores de futebol. Transformaram-se em príncipes, mágicos, bailarinos, encantadores de serpentes, inventores de beleza, tudo ao mesmo tempo. Pelos relvados espanhóis, espalharam batucadas do Chico, do Caetano e do Gilberto como eu ainda não tinha ouvido. Nas suas chuteiras a bola era empurrada ora com respeito ora com insolência. Tratada com veneração e desleixo. Chutada com samba e malandrice.
Perante aquelas montanhas de talento, o selecionador Telê Santana, humilde e inteligente, decidiu curvar-se e soprar ao ouvido dos gigantes qualquer coisa à la Quinito, simplesmente isto: oiçam, esqueçam o modelo de jogo e o rigor tático, divirtam-se e sejam felizes. E eles foram. Muito. E nós fomos ainda mais, por estarmos ali a ver como a alegria acontece. Foi tudo tão bonito, tão embriagante, pelo menos até chegar o fim de tarde no Sarriá em que o icebergue Rossi decidiu abalroar o casco daquele cruzeiro feito de luxo. O pano fechou-se.
É curiosa a força que as coisas parecem ter quando precisam de acontecer. Durante aquele Mundial a canarinha produziu puro espanto. Como diria Manoel de Barros: descobriu insignificâncias. Em termos práticos, foram inúteis, derrotados pela Itália por 3-2, eliminados da competição. Mas o capítulo que escreveram no clássico da literatura dos mundiais, na forma e no conteúdo, foi sublime em termos estéticos.
A beleza autoriza tudo. Até autoriza o erro. Um dia, Wislawa Sczimborska contou esta anedota.
Einstein chegou às portas do céu e, ao ser recebido por Deus, perguntou: “Durante toda a minha vida me questionei sobre que princípios teria o criador seguido para fazer o universo. Qual foi o modelo?” Deus respondeu: “É muito simples.” E escreveu num quadro uma equação muito longa. Einstein, analisando o que via, comentou: “Desculpe, mas há aqui um erro que se repete muitas vezes.” E Deus disse: “Exatamente!”.
Se pudesse voltar atrás — e isto talvez seja uma lição da doce burrice — desejaria que aquela derrota do futebol-arte se perpetuasse para sempre e por todos os mundiais. Que a minha deceção amorosa tivesse vindo para ficar. Ou seja: que o Brasil (ou outra seleção qualquer) jogasse como aquele Brasil jogou e perdesse como aquele Brasil perdeu; mesmo permitindo que a Itália (ou outra seleção qualquer) ganhasse como aquela Itália ganhou. Prefiro o inferno da desordem ao inferno da organização.
Trinta e seis anos volvidos, faço o contraponto com o Mundial da Rússia: uma janela aberta com vista para o tédio. Tirando duas ou três parcimoniosas exceções, os países participantes vêm-se escudando na grande cobardia tática da ordem. Na exemplar transição defensiva. Na construção das grandes muralhas. Na engenharia do resultadismo. E no doutoramento em golos decorrentes de lances onde a bola está quieta — a grande contradição do futebol moderno.
Onde a maioria dos comentadores e arautos dos ferrolhos táticos consegue dissecar virtudes, eu só encontro aborrecimento mortal. E sofro de quebras de tensão. Continuo a preferir mil vezes a ideia de suportar a tristeza da derrota da beleza, de sofrer um baque de desgosto, a essa celebração da vitória moral do prático.
Parece que o futebol moderno foi ferido de morte pelo neoliberalismo. A professora Celeste ficaria contente com esta vitória da infalível matemática. Eu é que não.