Maria Leonor NUNES, (entrevista) José GIL, Metafísica do quotidiano, Jornal de Letras , ano XXXIV, número
1140, 11 a 24 de Junho, 2014, 29-30
Há nove anos que o filósofo, mensalmente, toma o pulso ao país na revista Visão em breves ensaios que agora reúne
em livro: uma leitura sobre os factos políticos, as forças e mecanismos
sociais, o modo de ser português
É uma “metafísica do quotidiano” que José Gil procura nos seus textos da Visão que agora publica em Pulsações. E, nessa medida, não pode
deixar de concluir que é de uma “grande
pobreza e falta de cultura”, a metafísica do governo de Passos Coelho. Da mesma maneira que conclui que António
José Seguro não é um líder, encontrando na falta de liderança uma
explicação para os resultados eleitorais do PS, como adianta ao JL.
O filósofo lê os gestos, os acontecimentos políticos e sociais, por vezes
episódios e circunstâncias de outra natureza, e ensaia nas suas crónicas ou “micro-ensaios”, como lhes chama, uma leitura mais profunda, além da espuma
dos dias, do senso comum, do imediatamente legível, do modo de ser
português. O que interpela são as forças, os mecanismos de funcionamento, as
lógicas internas, simbólicas, o não expresso. Interroga por exemplo por que os portugueses não protestam mais ou parecem
resignar-se aos sacrifícios impostos. No prefácio do volume agora editado
pela Relógio d’Água, encontra razões basilares do comportamento do português: uma situação de permanente “duplo impasse”,
uma “pescadinha de rabo na boca” entre o
sonho de avançar e o real que faz recuar, os fortes “laços de afetividade” e um
“silêncio” inconsciente e atávico, interiorizado no fascismo, e que prevaleceu
até hoje, traduzido no medo de se
exprimir, no limite de existir. Um modo de ser português em que a “lei da
troika” veio desferir um profundo golpe.
Portugal, Hoje O Medo de
Existir é, de resto, uma das obras de referência de José Gil,
74 anos, prof. catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa, autor de Em Busca da Identidade, Metamorfoses do
Corpo, Monstros, A Arte como Linguagem e O Devir-Eu de Fernando Pessoa,
entre outros. Pulsações junta as
crónicas publicadas entre 2005 e 2014. Não se tratará apenas de um exercício de
filosofia política ou de politologia, como reconhece. É seguramente um olhar
que pensa a realidade portuguesa e abarca o pulsar do mundo.
Jornal de Letras: Como
sente, no conjunto, as suas Pulsações?
José Gil: O que queria fazer, e possivelmente faço um pouco, era delinear aquilo que se pode chamar uma
metafísica do quotidiano. Porque
uma medida no ensino ou mais uma taxa de solidariedade pressupõem sempre uma ideia do homem, do futuro do ser português. Esse pressuposto é essa metafísica. E o que verifico é que a metafísica por trás das medidas deste
governo é de uma enorme pobreza e falta de cultura.
Voltou a ler todos os seus
micro-ensaios: como avalia esse corpo de trabalho, de análise da política e da
sociedade portuguesa que constituiu ao longo destes anos?
Ao reler tudo, tive a sorte de apanhar aquilo de que sempre andei à procura
desde que escrevi Portugal, Hoje O Medo
de Existir.
Que é...
A lógica dos mecanismos que
produzem esse medo de existir e que fazem com que o português tenha medo de
avançar. Porque o
português quer avançar, mas quer que outros façam o trabalho por ele. Por que
não avança? Esse estado de obediência implica todo um nexo lógico que
faz com que as forças que se querem
exprimir inflitam o seu rumo e venham para trás, sem que nos apercebamos disso.
Por isso, senti necessidade de escrever o prefácio, em que de alguma maneira
abordo esse funcionamento.
Encontrou linhas que se
cruzam nos seus micro-ensaios?
Sim, nos artigos sobre política, há uma insistência nessa lógica das
forças. Além disso, há um conjunto de crónicas que já não tem a ver com a
política e onde talvez estejam aquelas de que mais gosto.
Quais?
Por exemplo, uma a que chamei A arte
de descansar ou uma outra que escrevi sobre um gorila.
É curioso que hoje o medo
parece mais visível na sociedade portuguesa do que na altura em que escreveu o
seu livro Portugal, Hoje O Medo de
Existir.
Sem dúvida. E entretanto foram publicados vários
livros sobre o medo. A verdade é que há
hoje um medo de superfície, de
perder a casa, o emprego, a reforma... Mas
que radica e enxerta-se no medo
mais profundo de não viver, de não se exprimir. No fundo o medo de não existir torna-se ele próprio um medo de existir.
País Para a Cova
No prefácio do seu livro, sustenta
como a ‘lei da troika’ constitui um rude golpe no próprio modo de ser
português, nas relações de afetividade, que em seu entender, têm constituído
uma pedra angular da sociedade portuguesa, na própria relação com o território,
em paralelo com o empobrecimento do país, a falta de perspetivas de futuro ou
de mudança.
O que me aflige
verdadeiramente é a falta de consciência, de visão dos nossos governantes
relativamente a domínios como a saúde ou a educação. A educação é o que pode salvar
o país e o que se está a fazer nessa área leva o país para a cova. Falo
com muitos professores, meus antigos alunos, e é esse o sentimento geral. Que
será Portugal no futuro? Um país pobre, possivelmente não ao modelo do que
tínhamos antes do 25 de Abril, mas talvez uma outra pobreza. Vamos estagnar,
não nos vamos desenvolver, não vai haver um programa de modernização, como
dizia José Sócrates. E estagnação,
porque não vejo nenhum plano, nem de desenvolvimento económico, de que o
Governo tanto fala. Por que não trabalham nisso? Talvez os ‘poderes instalados’ impeçam a conceção e realização
desses planos.
Com a ‘saída’ da troika, o
que pode mudar?
Vai ser a mesma coisa, talvez de uma maneira um pouco atenuada. Ou seja, a
confusão, as imagens baralhadas de dois poderes, o português e o estrangeiro,
que na verdade tem mais poder. Tudo isto baralha um pouco a cabeça das pessoas.
Estou convencido de que o facto de
não haver um alvo bem claro e nítido é um dos fatores que explicam não haver
mais oposição nas ruas. Outro
fator importante é a emigração. A
sobreposição de poderes faz com que não se saiba contra quem verdadeiramente
protestar. E o governo de Passos Coelho não vai tornar-se esse alvo
claro, porque continua a haver a supervisão da troika. Isso serve-lhe, de
resto, muito bem. O programa do
governo e da troika, medido em décadas, é uma catástrofe para Portugal.
Fala também no seu livro de um
silêncio inconsciente que está na base da sociedade. Como vê nesse sentido o
aumento da abstenção nas europeias?
Tem que ver com a desconfiança
relativamente aos políticos e aos partidos, sobretudo ao PS, ao PSD e ao CDS.
Não foi porque as pessoas foram para a praia, como já se disse, nem sequer
porque os portugueses não se interessam pelo sistema democrático. Fizeram-se
muitos inquéritos e o que ouvimos foi dizerem que não acreditavam nos
políticos, por isso não iam votar.
Uma forma de protesto?
Sim, ainda que os interrogados não consigam definir os parâmetros do
protesto. Não dirão que é porque não há um espaço público aberto, mas é
realmente porque não se podem exprimir, porque há um pacto de silêncio.
As europeias revelaram
também votações expressivas em Marinho e Pinto (MPT) e, menos, num novo
partido, o Livre. Isso é revitalizante do próprio sistema político e
partidário?
Julgo que isso é um signo, um sinal do não expresso que os partidos
existentes não conseguem exprimir. Há um espaço de não expressão aberto para
outras vias. Parece-me que os 7,5% de
Marinho e Pinto vieram de pessoas de esquerda e de direita, por ter qualquer
coisa, numa ténue linha de fronteira entre a democracia e o populismo. Mas na medida em que são um sintoma,
julgo que esses partidos não vão vingar. A votação mostra que o leque
partidário era lacunar. Mas não me parece que seja o embrião de um novo sistema
partidário português.
CONGREGAR FORÇAS
Perante os resultados
eleitorais, a derrota da direita, o PS numa disputa de liderança, como toma
hoje o pulso ao país, à nossa democracia?
Parece-me que as pulsações são fracas...
Mas o estado não é crítico?
Não, claro que não. Temos uma Constituição, instituições. Fazendo uma
reflexão sobre o estado do país, é inevitável falar sobre a situação no PS,
como aliás fiz na última Visão. Este governo impôs ao povo português
tanta austeridade e tanto sofrimento não contabilizado, e, depois de três anos
desta política insuportável, o que é que o PS tem para apresentar como balanço
do seu trabalho de oposição? Nem 4% a mais. É um saldo positivo, mas
incompreensível.
Qual a sua explicação?
Para mim esse
resultado tem fundamentalmente a ver com a liderança.
A crónica a que se referiu
era focalizada nessa questão.
O título era mesmo: “O que é um líder?” E o atual secretário-geral do PS, António José Seguro, não o é, como
procurei comprovar.
E o que faz um líder?
Ser um foco de
atração, de transmutação e de emissão de energias intensas. Por isso provoca
adesões, tem uma espécie de autoridade natural, congrega as vontades que se
expressam confusamente e dá-lhes uma voz.
Essa ideia não pode ser
muito perigosa?
Pode-se em
alguns casos descambar para um tirânico, populista. Mas um líder não é um chefe
que submete, que comanda e quer obediência. Nestas questões do PS tem-se
confundido aliás obediência com fidelidade. Na verdade, um líder prolonga as
vozes que não são expressas.
Isso implica um
poder oratório e de contágio. Quando se dizia que De Gaulle encarnava a França
era porque quando ele falava, não se ouvia o sr. Charles De Gaulle, ouvia-se
outra coisa. O líder é uma pessoa habitada por um sentido. Seguro não tem nada
disso, é um homem simpático e terrivelmente mediano.
António Costa é um líder?
Não tenho a certeza que tenha as condições para o ser, nem razões para
pensar o contrário. Mas no caso de se tornar secretário-geral do PS pode
revelar-se um líder, capaz de congregar as forças da sociedade e dizer o que o
povo quer dizer. Parece-me muito
grave que, por razões estatutárias, de secretaria, o PS possa acabar por se
estilhaçar, por ir dividido às legislativas e não ganhar, um estilhaçamento que
terá consequências graves para a esquerda.
Põe a tónica na questão da
liderança, mas a alternativa não tem que passar também por um programa?
Numerosos
estudos dizem que o fator emotivo, afetivo, é muito mais importante na
definição da liderança e do líder do que o fator cognitivo. Mas não nego a sua
importância. Aliás, uma das razões por que um líder é líder, é porque vê mais
longe e toma decisões mais rapidamente. Mesmo aí é importante. O erro é pensar
que se decide apenas por diálogo e argumentação. Por isso, gosto de usar a noção
de forças que se investem de fatores de comunicação afetiva, mas também de
cognição. Uma ideia brilhante, nova, é uma ideia que suscita forças. Se não
houver uma alternativa pertinente e eficaz, capaz de provocar a adesão popular
na esquerda, o Governo vai continuar a sua política de incompetência e
empobrecimento do país.
Na Europa, assistimos à
ascensão de eurocéticos, da extrema-direita e mesmo de partidos neonazis, que vão
tomar assento no Parlamento Europeu. Adensa-se a ameaça de desmantelamento da
própria União Europeia?
Essa emergência
é justamente o sinal de que a Europa está realmente partida aos bocados. Não há
uma União Europeia. A crise económica e financeira revelou-se uma
extraordinária crise social. É aproveitando-se do caos em que a Europa se
encontra, que a extrema direita está a subir. Há o medo que esse fenómeno
alastre e pode acontecer. No pior dos cenários, teríamos um fascismo europeu.
Seria horrível. Mas não
podemos descartar essa possibilidade. Sobretudo não devemos relativizar, dizendo
que Marine Le Pen é apenas um epifenómeno da sociedade francesa. Não, não
podemos desvalorizar essa extrema direita, porque justamente joga nas ruínas,
na ausência de política que faça uma efetiva união europeia, retomando e
reformulando uma série de regras da democracia, que não têm funcionado. E se
analisarmos a questão em termos de forças, o que verificamos é que a
extrema-direita é capaz de as intensificar.
Em que sentido?
O fascismo, o
nazismo são capazes de entusiasmar, de congregar forças, enquanto a democracia
segrega aborrecimento, não entusiasma. Isso é muito grave. É preciso fazer com
que a democracia entusiasme.