1.Macron, na entrevista à Der Spiegel (na tradução do Expresso, p.59 da Revista, edição 4/12/2017): “há
que voltar a ter receptividade à criação de grandes narrativas. Se quisermos, o
pós-modernismo foi a pior coisa que
podia ter acontecido à nossa democracia. A ideia de que temos de desconstruir e
destruir todas as grandes narrativas não é boa. Desde então, a confiança em
tudo e em todos evaporou-se”. Sustenta uma defesa “heróica” da democracia,
e questiona: “Por que é que parte da
nossa juventude se deixa fascinar pelos extremos – o jiadismo, por exemplo? Por
que é que as democracias modernas recusam permitir aos seus cidadãos que
sonhem?”. Implicitamente, a pergunta (que surge no contexto da entrevista
como retórica), parece ter como resposta a falta de sonho, de ideal (seria por
isso que a juventude desertaria para um refúgio aparentemente forte).
Acontece-me
ter lido por estes dias o Maritain
de Cristianismo e democracia, no
qual, precisamente, o filósofo utiliza a expressão “heróica” para se referir à
crença (do Evangelho) fundamental para a Democracia ter seiva onde haurir (no
desenvolvimento de uma perspectiva de Bergson).
Entre
o desprezo pelas grandes visões que
no século XX inflamaram tantos, a ponto de uma destruição maciça de vidas
humanas – bendito desprezo, dirá Luc Ferry, só morremos por pessoas e já
não por ideias, no que poderia ser vista como contraponto de Macron – ter destruído
essa “confiança”, e o niilismo que se
apodera de tantos (quando nenhum ideal parece sobreviver); quando qualquer visão – há visões nas quais a ideia é a pessoa -, para muitos, perdeu
qualquer atractividade (credibilidade), e sabendo-se de interpretações muito
restritivas – e essa interpretação é e deve ser disputada – do liberalismo (neutralidade) das democracias
o desafio a pensar-se – e em termos globais, sem etnocentrismos -, de
facto, o que poderá ser bem para lá
de justo continua a erguer-se como
problema nada menor dos nossos dias (problema de ordem tanto prático quanto
teórico).
2.Ao
mesmo tempo que Karen Armstrong, em
interessante entrevista ao ElPaís semanal,
dizia, há três dias, que ainda não alcançámos, ainda não se encontrou um
fundamento racional para os direitos humanos, em A estranha ordem das coisa, por sua vez, António Damásio pensa o inverso: teria sido muito bem-sucedido o
empreendimento de inculcar nas pessoas a ideia de um “antepassado universal comum” que justificaria a dignidade da pessoa e a igualdade em dignidade da mesma. Inclino-me
mais para a primeira das posições, neste sentido: não se encontrou um
fundamento racional suficientemente forte (que realmente me obriga,
com o qual me sinta verdadeiramente constrangido) para essa defesa (sendo que,
aqui, “racional” é entendido nos mais estritos termos “positivistas”; a razão ampla pode ir além dos mesmos).
3.No
jornal – no caso, semanário – mais próximo do PSD, o Sol, José António Saraiva
prognosticou uma vitória de Pedro
Santana Lopes nas próximas eleições internas do partido ainda liderado por Passos Coelho, enquanto no interior do
jornal Sebastião Bugalho zurzia em Rui Rio (o que são alguns sinais sobre
para onde pende uma parte do partido com acesso aos media). As duas críticas
substantivas de Bugalho a Rio, a meu ver, têm pleno cabimento: a) fazendo uma
apresentação da candidatura em tons sociais-democratas,
Rio veio agora dizer que se estivesse no lugar de Maria Luís Albuquerque, enquanto titular da pasta das Finanças
durante parte do mandato do anterior Executivo, teria feito “o mesmo ou pior” do que aquela (e os
esclarecimentos posteriores do candidato, fosse ao Observador, fosse ao Expresso,
em nada invalidaram o sentido que se retirou de uma primeira aproximação às
suas afirmações), no que, com efeito, se assinala como contradição de termos
(entre a aproximação ideológica inicial da candidatura e essa posição nas
jornadas parlamentares do PSD; a não ser que se considerem as medidas de
Albuquerque como sociais-democratas). Diga-se, aliás, que Pedro Adão e Silva, no Expresso
do último Sábado, reclamava para o PS outdoors
com esta mesma afirmação de Rio, na campanha das próximas legislativas (ao passo que lembrava afirmações sobre municípios sobreendividados e suspensão de eleições nos mesmos, presidencialização da justiça, mudança de regime…Rio que vá tomando
nota dos tópicos a que terá que responder, pelo menos, em saindo vencedor nas
internas do PSD, em 2019; por outro lado, é bastante elucidativo todo o texto
de Adão e Silva, quer como prognóstico acerca da próxima liderança do PSD,
quer, porventura, daquele candidato que mais temerá defrontar num
futuro-próximo).
A
segunda das críticas, a meu ver igualmente procedente, tem que ver com o “banho
de ética” prometido por Rio e a simultânea presença, a seu lado, de alguns dos
piores personagens do PSD ao nível de jogadas de bastidores (a imprensa, naturalmente, tem trazido, a esse respeito,
fotos de personagens lisboetas desse jaez, mais ou menos conhecidos; mas a
questão está longe de se subsumir a personagens lisboetas, e não deixa de ser
realmente absurdo que um dos méritos, ou o mérito, de Rio, na vida pública
portuguesa, tenha sido o processo de refiliação no PSD, com vista a acabar ou
mitigar sindicatos de voto –
conhecido, à época, em analogia com outros processos no país, como “gangue do
multibanco” – e, agora, tenha a seu lado quem é conhecido, onde é,
precisamente, por essas jogadas, pagamentos de quotas em lugar de outros,
manipulação de pessoas…sem nunca esquecer que rei morto, rei posto…em dez segundos).
Se
as críticas a Rio encontram sustentação – a inabilidade tática, aliás, faz com
que Rio seja contestado por querer ser um “António Costa dois”, um defensor de
um “bloco central”, um “social-democrata quando a social-democracia está no PS”
e, ao mesmo tempo, represente, e suscite críticas, por ser a “continuidade de
Maria Luís”, “um segundo contabilista”, “um tecnocrata economicista” -, já a
argumentação de Saraiva, relativamente a Santana Lopes, não me parece merecer o
mesmo beneplácito: uma promessa (no caso, política), a meu ver,
só o é até provar (e, nesse lugar e
tempo, ou se cumpre, ou não). Pretender que depois das responsabilidades tidas –
nomeadamente, ao mais alto nível como PM -, Santana ainda é uma “promessa” não
creio que cole com o que a maioria dos portugueses pensam. De facto, durante
uma boa parte da década de 1990, Pedro Santana Lopes assumia um dom juanismo político que empolgava
muitos (mesmo os que, no interior do PSD, optavam por preferências mais
sisudas, não raramente manifestavam o seu apreço pelo Santana grande agitador
dos congressos). Ora, os que apreciavam esse Santana dificilmente estarão agora
em condições de apreciar um outro – dito mais maduro, mais “pesado”, mais
sisudo. Um dos problemas, com efeito, da candidatura de Santana Lopes é ela
parecer mais motivada pelos anti
(Rio) do que pelos pró (Santana). Um
dos motivos principais pelos quais continuo a pensar que Rui Rio sairá
vitorioso.
Por
outro lado, a ideia (de Saraiva) de que Santana se apresentará aos portugueses
dizendo “fui derrubado por Jorge Sampaio,
tenho direito a uma segunda oportunidade” tem dois grandes problemas: i)
colocaria o candidato em contradição com a repetida ideia – por si
reiteradamente transmitida - de que está “de bem com a vida”, não se candidata
para “fazer um ajuste de contas”, hoje “está mais maduro” (e segue uma linha de
“descrispação” mais próxima de Marcelo
Rebelo de Sousa); ii) concorde-se, ou não, com a decisão então tomada por
Jorge Sampaio, entenda-se que foi motivada por melhores ou piores intenções
(mais, ou menos obscuras/maquiavélicas), a verdade é que a seguir a tal decisão
houve eleições legislativas (e a decisão de Sampaio só seria ratificada se, no
país, houvesse uma maioria absoluta
contrária à maioria parlamentar dissolvida; e isso sucedeu mesmo).
Finalmente,
é a meu ver inaceitável que se considere “provinciana” qualquer personalidade
política que não esteja de há muito radicada em Lisboa (numa perspectiva
tributária, ela sim, de uma parolice e patologia centralistas). Saraiva chama “provinciano”
a Rio, da mesma maneira que Fernando
Rosas, por exemplo, o tinha feito na TVI24. É outro dos grandes défices
democráticos de que este país padece (que se manifesta nos grandes
investimentos, candidaturas, obras, apostas, e outras áreas múltiplas para além
da política e da economia).
Em
suma, o PSD, estou convencido – pura análise política -, vai considerar
escolher um mal menor – nenhuma candidatura
entusiasmando, visto de fora. E nessa escolha – o ponto em que a candidatura de
Rio tem estado bem na mensagem – estou persuadido que no fim entre a endogamia (de uma amargura passista) e o
cálculo do que o país escolherá e votará, a maioria dos militantes do PSD
acabará por optar por este último critério.