É verdade que o populismo, assente numa visão homogénea e monolítica do povo e da sua vontade, está em estado de guerra contra os representantes do poder estabelecido (vistos fundamentalmente como inimigos e não apenas como rivais) e contra um «outro» grupo (cuja composição varia de acordo com cada movimento). Naturalmente, ao rejeitar, ao mesmo tempo, formas tradicionais de mediação e intermediação que «sufocam a voz do povo», o populismo pode, uma vez feito regime, ou seja, uma vez conquistadas as rédeas do poder, abalroar princípios sacrossantos do Estado liberal, como os direitos individuais, os direitos de minorias e o próprio pluralismo político (que, naturalmente, se enfraquece no interior de uma visão demasiado fechada e delimitada de povo).
José Pedro Zúquete, Populismo, in Maria do Céu Patrão Neves, António Costa Pinto e Luís de Sousa (coord.), Ética Aplicada. Política, Edições 70, 2018, pp.120-121.