Depois entro para o Liceu e já não havia reguadas, já havia outro tratamento. Mas aí só gostei das disciplinas quando gostei dos professores. Quando não gostava, a minha reacção era não estudar. Fui bom aluno numas disciplinas e medíocre noutras por causa dos professores. Os bons professores fizeram de mim pessoa interessada nas matérias, os maus professores desinteressaram-me. (...) Quando fiz o sétimo ano [12º] quis ir para Geologia. Estávamos no ano de 1950. Ninguém sabia o que era [Geologia]. [Os meus pais] queriam que eu fosse para Biologia, para ser professor de liceu. Ser geógrafo era insignificante. E foi o que eu fiz: vim para Lisboa fazer Biologia. Chumbei no primeiro ano, chumbei no segundo, e depois a tropa chamou-me e acabou-se. Vou para Évora, passo dois ou três anos lá, com um bom ordenado (...) Com o meu dinheiro matriculei-me então na licenciatura que eu queria, Geologia, e aí foi um sucesso. (...) Nunca simpatizei com a biologia. Tinha vocação para as pedras, para os minerais, para os fósseis, para as rochas. (...) Naquela altura, mesmo o professor de liceu ou o professor primário eram uma entidade de grande prestígio na cidade. (...) Hoje, nas escolas, domina a professora: 80% são mulheres. E os homens estão imbuídos naquele espírito. Há afecto, há família. Mas os professores, hoje, estão muito maltratados. Tiraram-lhes o prestígio, a dignidade, atentou-se contra a disciplina com uma liberdade excessiva nas escolas. (...) No meio disto, os programas são maus e os livros também. (...) Trabalham para as estatísticas, não para a formação de cidadãos. Os manuais de ensino são estereotipados, copiam-se de uns anos para os outros, são um negócio das editoras. O professor não tem tempo para divagar, tem de cumprir e pronto. Não está a ensinar, está a amestrar as crianças para responderem num exame e poderem passar. (...) Tenho discutido muito sobre isso com os professores. (...)
Não fiquei parado. Da jubilação para cá já publiquei 20 livros. (...)
Vai haver um tempo em que as pessoas têm um contador de oxigénio para entrar em casa. E pagam. (...) As baratas estão cá há 300 milhões de anos, iguaizinhas a elas próprias. (...)
[O que mais me preocupa no país hoje] Não termos aproveitado 45 anos para cultivar este povo, para lhe dar cultura cívica. Não precisava de ser cultura científica, é cultura cívica. Só lhe damos futebol, só lhe damos porcaria. Sou capaz de gostar de ver um desafio de futebol, a habilidade dos jogadores. Agora, o mundo do futebol, aqueles comentadores, aqueles treinadores, desligo logo. É um país alienado, as nossas televisões são alienantes, mesmo a televisão do Estado, tirando a [RTP]2. (...)
Tudo o que aprendi foi fora da escola. Convivia muito com o Lima de Freitas, pintor com o Mário Ruivo, que foi político, e com dois ou três rapazes mais velhos do que eu que sabiam muito de filosofia e história. Tinha 15, 16 anos quando fiz as primeiras perguntas e nunca mais deixei de estudar por mim. Aprendi muito com os camponeses. Foi aí que fiz a minha formação social e política.
Galopim de Carvalho, Professor Jubilado da Faculdade de Ciências de Lisboa, em entrevista a Marta F.Reis, "A escola está a amestrar crianças para passarem nos exames", I, 21-06-2019, pp.20-26.