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sábado, 22 de junho de 2019

Escolas


Depois entro para o Liceu e já não havia reguadas, já havia outro tratamento. Mas aí só gostei das disciplinas quando gostei dos professores. Quando não gostava, a minha reacção era não estudar. Fui bom aluno numas disciplinas e medíocre noutras por causa dos professores. Os bons professores fizeram de mim pessoa interessada nas matérias, os maus professores desinteressaram-me. (...) Quando fiz o sétimo ano [12º] quis ir para Geologia. Estávamos no ano de 1950. Ninguém sabia o que era [Geologia]. [Os meus pais] queriam que eu fosse para Biologia, para ser professor de liceu. Ser geógrafo era insignificante. E foi o que eu fiz: vim para Lisboa fazer Biologia. Chumbei no primeiro ano, chumbei no segundo, e depois a tropa chamou-me e acabou-se. Vou para Évora, passo dois ou três anos lá, com um bom ordenado (...) Com o meu dinheiro matriculei-me então na licenciatura que eu queria, Geologia, e aí foi um sucesso. (...) Nunca simpatizei com a biologia. Tinha vocação para as pedras, para os minerais, para os fósseis, para as rochas. (...) Naquela altura, mesmo o professor de liceu ou o professor primário eram uma entidade de grande prestígio na cidade. (...) Hoje, nas escolas, domina a professora: 80% são mulheres. E os homens estão imbuídos naquele espírito. Há afecto, há família. Mas os professores, hoje, estão muito maltratados. Tiraram-lhes o prestígio, a dignidade, atentou-se contra a disciplina com uma liberdade excessiva nas escolas. (...) No meio disto, os programas são maus e os livros também. (...) Trabalham para as estatísticas, não para a formação de cidadãos. Os manuais de ensino são estereotipados, copiam-se de uns anos para os outros, são um negócio das editoras. O professor não tem tempo para divagar, tem de cumprir e pronto. Não está a ensinar, está a amestrar as crianças para responderem num exame e poderem passar. (...) Tenho discutido muito sobre isso com os professores. (...)
Não fiquei parado. Da jubilação para cá já publiquei 20 livros. (...) 
Vai haver um tempo em que as pessoas têm um contador de oxigénio para entrar em casa. E pagam. (...) As baratas estão cá há 300 milhões de anos, iguaizinhas a elas próprias. (...)
[O que mais me preocupa no país hoje] Não termos aproveitado 45 anos para cultivar este povo, para lhe dar cultura cívica. Não precisava de ser cultura científica, é cultura cívica. Só lhe damos futebol, só lhe damos porcaria. Sou capaz de gostar de ver um desafio de futebol, a habilidade dos jogadores. Agora, o mundo do futebol, aqueles comentadores, aqueles treinadores, desligo logo. É um país alienado, as nossas televisões são alienantes, mesmo a televisão do Estado, tirando a [RTP]2. (...)
Tudo o que aprendi foi fora da escola. Convivia muito com o Lima de Freitas, pintor com o Mário Ruivo, que foi político, e com dois ou três rapazes mais velhos do que eu que sabiam muito de filosofia e história. Tinha 15, 16 anos quando fiz as primeiras perguntas e nunca mais deixei de estudar por mim. Aprendi muito com os camponeses. Foi aí que fiz a minha formação social e política.

Galopim de Carvalho, Professor Jubilado da Faculdade de Ciências de Lisboa, em entrevista a Marta F.Reis, "A escola está a amestrar crianças para passarem nos exames", I, 21-06-2019, pp.20-26.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Pais


Qual é que é hoje a principal preocupação dos pais?


Acho que é quererem ser pais perfeitos e fazerem tudo bem e culpabilizarem-se muito se alguma coisa corre mal. Têm sempre as gavetas cheias de culpa. Querem muito que os filhos tenham tudo e não conseguem dar-lhes um bocadinho de frustração. Quando dizem Maria não vais comer um gelado porque acabaste de comer um. Alguns não conseguem dizê-lo, a Maria faz uma birra e leva um segundo gelado. Mas mesmo aqueles que conseguem e dizem que não, ficam mortificados, o que fiz à minha filha. (...) Sim, coitadinha, queria tanto o gelado. Não deu e pronto. As pessoas têm de perceber que não é isso que põe em causa o amor dos pais, pelo contrário, as regras, a firmeza e haver alguma orientação são uma demonstração de amor, mesmo que os filhos fiquem furiosos. O nosso papel é desmontar essa fúria e mostrar que há mais tempo, há mais gelados. É essa a perspectiva que os adultos têm de dar e por vezes se demitem, a perspectiva de quem já viveu, tem experiência e que a experiência diz que é preciso ter calma. (...) Sim, mas [dar o segundo gelado] é comprar afecto, é despachar tudo. Mas se calhar acaba o segundo gelado e pede o terceiro e com que cara é que a pessoa não dá o terceiro. E este quero tudo já leva ao narcisismo, que é a pior doença social, a que desgasta mais. Está muito relacionada com o poder: os narcisista quando tem poder, seja doméstico, social ou político, sobe aos píncaros

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.26.

Lar


Lar vem de lareira. No sistema matriarcal romano, era mantida acesa pela mãe e o pai trazia a lenha. A família reunia-se à volta do fogo. Quando se regressa a casa, o pensamento devia ser, goste-se mais ou menos da casa que se tem, que é o sítio do mundo que está mais à nossa medida. E quem lá está são as pessoas que eu amo mais. É o nirvana. Devia deixar essa luta diária do patrão, do trânsito, que até pode ser estimulante mas também é cansativa, de fora. (...) Ou outra coisa que para as crianças faz uma diferença enorme: cumprimentá-las, brincar, perguntar às pessoas "como te sentes?", que é uma pergunta que não se faz. (...) As redes sociais são um espelho dessas vidas fabulosas. Sim, "fui almoçar aqui", "olha para mim em Nova Iorque". Ninguém mete "olha para mim no trânsito" (...) E não se diz onde é para as pessoas perguntarem, "onde estás, que paisagem tão bonita". E lá vem a resposta: "algures no norte". Depois de se fazer sofrer um bocadinho é que se diz onde é. (...) O ser humano é mauzinho até prova em contrário. Acredito que tem uma possibilidade de ser muito bom, mas tem uma parte narcisista, egocêntrica, uma ganância que se não for domesticada vai crescendo. Se não percebermos o sofrimento dos outros, se não tivermos empatia, se não valorizarmos o que temos, portanto sermos frugais, entramos numa espiral.

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.23.

Arquétipos


Tínhamos uma boa vida e não vou negar isso mas tínhamos o que precisávamos, não mais do que precisávamos. [O meu pai] era uma pessoa altamente espartana, tinha vindo sozinho de Goa aos 14 anos, para casa de um tio jesuíta, muito rígido, rigoroso e exigente. Herdou um bocado isso. Quando tínhamos boas notas, enquanto alguns pais ofereciam prendas aos filhos, o meu pai dizia sempre "têm livros, andam numa escola boa - andava no Pedro Nunes - e portanto não fizeram mais do que o que deviam". Às vezes, irritava-me, via os meus amigos com isto e aquilo, mas fez-me muito bem. O meu pai era muito solicitado até para a vida social e nunca fez nada disso. Gostava de estudar, fazia consultório [pediatria] porque precisava, tinha oito filhos, mas eram só três dias por semana entre as três e as seis da tarde. (...) São as memórias que ficam e que depois reproduzimos, são os tais arquétipos de opções de vida: mesmo quando estava a trabalhar na faculdade, fazia tudo por ir almoçar a casa. Gostava de estar ali aqueles dez minutos e nós todos fazíamos um esforço para ir almoçar. Depois íamos tomar café. O meu pai ia sempre dormir um quarto de hora antes d ir apanhar o metro para ir para o consultório e pedia sempre a um de nós que escolhesse um disco para pormos a tocar. Não tocava nenhum instrumento mas era um melómano e contava sempre alguma coisa sobre as músicas. (...) Enganar e repetir não sei quantas vezes. Uma das coisas que aprendi mais com ele foi que não somos perfeitos, longe disso. O que devemos pensar é que somos imperfeitos mas isso é uma vantagem: é um estímulo a aprender, a melhorar, a aperfeiçoar. Voltamos ao início: leva-nos a pensar no que podemos fazer para que amanhã seja melhor do que o hoje.

Mário Cordeiro, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.22.

Discutir um livro


Tive a sorte de fazer parte do meu estágio em Inglaterra. O ensino inglês não era aquele género de encher um anfiteatro de 100, 200 ou mil alunos e depois estar ali alguém a debitar. Era tutorizado. Cheguei a dar aulas lá e tínhamos grupos de cinco, seis alunos. Obviamente havia aulas mais teóricas e eram mais expositivas. Mas no final da aula o professor lançava o desafio de estudar ou pensar sobre alguma coisa. (...) Um professor (...) dizia: "daqui a dois dias vamos discutir este livro no Brown's", que era um café ali perto. Às cinco da tarde lá estávamos e não era dizer que tínhamos lido o livro e desbobinar, perguntava o que achávamos da estrutura, coisas assim. (...) Pergunto quantos professores de português do 11º ano aqui da região de Lisboa disseram aos alunos que até dia 18 está uma exposição gratuita na Gulbenkian sobre "Os Maias" ou organizaram uma visita. Se fosse 100% seria perfeito, suspeito que não. Às vezes, convidam-me para ir dar umas aulas ao Liceu Filipa de Lencastre onde andam os meus filhos - um está no 11º e os gémeos estão no 10º - e oiço aquele comentário "'Dos Maias já há o filme, que bom". O objectivo não é saber a história, conta-se num minuto. É o prazer de ler Eça, as palavras, a descrição dos lugares. Gostei muito do filme, mas quando li fantasiei o Carlos da Maia e a Maria Eduarda à minha maneira e é essa fantasia que se tem na leitura que é importante.

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, para o I, 08-02-2019, p.22.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Duas perguntas por aula


As crianças estão a ser habituadas a não pensar. A Universidade do Porto fez há pouco tempo um estudo, creio que no secundário, em que chegou à conclusão de que a média de perguntas por aula eram duas. Fazendo uma pool de todas as perguntas, em 60% dos casos a pergunta era "setor, posso ir à casa de banho?"

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, "Não vale a pena andarmos armados em super-homens porque não somos", I, 08-02-2019, p.22.

Vidas apressadas (II)


Um estado de permanente irritação de quem deixou de saber viver num registo de luta, adrenalínico - que devemos aplicar na escola, no trabalho, no fazer e mais todos os verbos transitivos - mas ao mesmo tempo garantir um registo endorfinico de calma, paz, que seria aquele que a pessoa encontra em casa e nos tempos de lazer. (...) Acho que vem muito de não compreendermos a nossa biologia, de não percebermos que de facto existe este lado adrenalínico mas também de termos de respeitar o lado mais calmo. Somos animais antes de sermos pessoas e cidadãos. (...) Num mundo com tanta comunicação, nunca se comunicou tão impropriamente. Olhar nos olhos da empatia, não é um emoji que a cria, às vezes até reduz. Por fim, o nosso lado animal está completamente esquecido. Os miúdos na escola aprendem a biologia da rã, do coelho, do dinossauro...Do ser humano sabem muito pouco

Mario Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, "Não vale a pena andarmos armados em super-homens porque não somos", I, 08-02-2019, p.21.

Vidas apressadas


A maior parte das pessoas que recebe não se sente bem com a vida que leva?

Diria 99%. Uma esmagadora maioria das pessoas que falam comigo não estão muito contentes. Claro que há uma insatisfação que é própria do ser humano, que nos faz evoluir. Num marasmo não haveria sequer arte, os movimentos criativos resultam de rutura, angústia. Portanto, ainda bem que o ser humano quer mais e melhor, outra coisa é sentir o stress e a angústia de uma vida apressada. Se tivesse de elencar o problema número um, seria esse. 

Mário Cordeiro, pediatra, entrevistado por Marta F.Reis, "Não vale a pena andarmos armados em super-homens, porque não somos", I, 08-02-2019, p.21.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O primeiro filho


Sim, porque no primeiro filho mistura-se tudo: os pais que tivemos, os pais que desejávamos ter tido, os pais que nos imaginamos a ser capazes de construir. Um primeiro filho é de tal forma um entreposto de histórias que não tem muito espaço para ele ser ele próprio. Num segundo filho já estamos tão livres disto que sintonizamos mais facilmente com ele, enquanto o primeiro filho tem coisas que às vezes não são tão ele mas pequenos espelhos de nós
(...)
Somos todos óptimos a enganarmo-nos com a verdade. Quando olhamos para a história, nunca houve tantos pais com tanto tempo para os filhos, o que é exactamente o contrário do que passamos a vida a dizer. Temos micro-ondas, máquinas de lavar e Segurança Social, que mal ou bem vai funcionando
(...)
Quando as crianças estão fechadas 90 minutos e têm recreios de cinco, a primeira coisa que fazem é querer correr. Precisam de espaço, de andar à bulha e não permitimos nada disso, que usem o corpo, que sejam vivas. Quando aprendemos a dimensão da agressividade não somos violentos. Passamos a vida a querer educar as crianças como se fossem de porcelana. Vivem debaixo de um stress permanente porque são mais inteligentes se tiverem 5 a tudo, mesmo que estejam a repetir sem pensar
(...)
Hoje somos os melhores pais que a humanidade já conheceu. E por isso, havendo problemas, as crianças são hoje menos deprimidas e agitadas do que eram.


Eduardo Sá, psicólogo clínico e Professor de Psicologia na Universidade de Coimbra, entrevistado por Marta F.Reis, I, 07-12-2018, pp.25-28.