Depois de três dias de greve geral, decretados pela poderosa União de Sindicatos IG Metall, que representa 2,27 milhões de trabalhadores dos mais importantes sectores da economia germânica, o patronato cedeu. Acordou o maior aumento salarial das últimas décadas (4,3%), a redistribuição de lucros e aceitou até, embora com restrições específicas, uma reivindicação sem paralelo a nível mundial: as 28 horas de trabalho semanal.
"Este acordo será um marco no caminho para um mundo de trabalho moderno e auto-determinado", disse Jorg Hofmann, presidente da IG Metall, citado pelo Financial Times. Eleito em 2015, as preocupações centrais deste sindicalista, membro do SPD (partido socialista) alemão, retratam bem a situação confortável em que se encontra o operariado germânico. Mão de obra barata, eles não o são, nem aceitam ser - já bastam os 2,7 milhões de precários que se sujeitam a remunerações de miséria, como identificou o Instituto das Ciências Económicas e Sociais (WSI). O que os distingue é precisamente a sua qualificação, e a IG Metall conseguiu recentemente mais investimento das empresas na comparticipação dos estudos de trabalhadores que pretendam especializar-se, bem como a criação de estudos sobre o "Trabalho 4.0", buscando manter a capacidade competitiva dos operários nesta era tecnológica.
Num país que se pode gabar de estar muito próximo do pleno emprego (a taxa de desemprego é agora de 5,4%, a mais baixa desde a reunificação, em 1990), com os juros da banca favoráveis à classe média, onde as empresas produzem na sua máxima capacidade e a economia cresce consecutivamente desde 2011 (subiu 2,2%, em 2017), o Bundesbank anunciou também que em 2018 deverá registar-se o maior crescimento dos últimos sete anos.
As reivindicações salariais continuam a fazer parte da cartilha sindical, claro. Neste braço de ferro era reclamado um aumento de 6%, mas as prioridades são - e serão cada vez mais - as relacionadas com as condições gerais de trabalho e a promoção de um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Como escreveu Marx, há mais de 150 anos, n'O Capital, "quanto menos comes, bebes, compras livros, vais ao teatro e ao café, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres ou praticas desporto, mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Assim todas as paixões e actividades são tragadas pela cobiça". Com o nível de conforto assegurado, o proletariado alemão busca agora ser mais - mas também não aceita ter menos. (...)
Para já, [o acordo] abrange 900 mil trabalhadores nas fábricas de Baden-Wurtemberg, onde se inclui a Daimler (Mercedes/Mitsubishi) e o grupo Bosch, por exemplo, mas irá ser estendido a toda a metalurgia e indústria automóvel nacional - prevendo-se também um "efeito de imitação" para outros sectores, com negociações dos contratos colectivos de trabalho aprazados para os próximos meses.
Além do aumento salarial de 4,3%, a partir do vencimento de Abril, os trabalhadores receberão um pagamento de 100 euros extra neste primeiro trimestre de 2018. Em 2019, esse valor fixo será de 400 euros e eles receberão ainda um prémio equivalente a 27,5% do seu salário mensal, se as condições económicas favoráveis previstas para os próximos dois anos se mantiverem. Têm ainda a permissão para reduzir a sua semana de trabalho de 35 horas para 28 (mas sem manter o mesmo salário, como reivindicavam), excepção feita àqueles que tenham filhos pequenos ou idosos a cargo, que poderão reduzir o horário até dois anos e converter o valor dessas horas não trabalhadas em oito dias extra de folgas (pagas). Em contrapartida, as empresas podem a partir de agora voltar a propor contratos de 40 horas por semana, sempre que exista escassez de profissionais qualificados.
"Não há como negar, o 4 antes da vírgula dói", desabafou Stefan Wolf, director da Sudwestmetall, a federação de empregadores de Baden-Wurttemberg, no final das negociações (...) Depois de em 2015 ter fixado o valor mínimo de pagamento legal em 8,5€ por hora, colocando a Alemanha no top 5 dos países com os salários mínimos mais elevados (1527€, contra os 580€ de Portugal, que figura entre os cinco mais baixos da UE), a mais importante da indústria da Europa volta a ser um "farol" para o mercado de trabalho mundial, evoluindo no sentido contrário à precariedade.
Patrícia Fonseca, in Visão nº1301, 08-02-2018 a 14-02-2018, pp.56-61.