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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Desarmante



Fim de tarde em Mateus, neste 5 de Outubro, para escutar Hélder Macedo, na sua inimitável criatividade e profundidade de leitura da obra camoniana, redescobrindo a Ilha como sendo no singular: do Amor. A utopia a cumprir, enquanto reconciliação de contrários (e o que tem de neoplatonismo nisto). Obra camoniana, capaz de refletir os valores femininos e de investir o sexo, no masculino, de uma intrínseca violência. 

domingo, 2 de setembro de 2018

Música (II)


Ontem, valeu a pena enfrentar a canícula, e como que despertar com o som vivo e alegre da Orquestra Juvenil Luso-Alemã. Mateus, 1 de Setembro de 2018, 11h. O programa, do qual deixei nos posts anteriores algumas das composições escutadas, pode ser apreciado  aqui. 
Cerca de quatro dezenas de ouvintes, com presença germânica significativa na Casa de Mateus.

Música

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O prazer da discussão

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No passado dia 1 de Abril, estivemos em novo encontro em Mateus, no Ciclo de Conversas de Arte, Ciência e Cultura dedicado, desta feita, às Utopias. Para a conferência-debate "Democracia e Utopia" marcou presença o filósofo brasileiro Renato Janine Ribeiro que convocaria à discussão, sobretudo, as obras de Maquiavel (O Príncipe) e de Thomas More (Utopia), escritas, quase pela mesma altura, há 500 anos, para afirmar que num e no outro dos casos os livros em causa são de "fácil leitura, mas de difícil compreensão", em especial na medida em que o que cada uma das obras sustenta se afasta da restante produção ensaística dos respectivos autores, podendo, assim, ser vistos, como corpos estranhos na economia literária de tais personalidades
O Príncipe, redigido em 3/4 meses, foi compreendido por Jean-Jacques Rousseau como uma paródia (portanto, não interpretando, literalmente, o livro). A ideia de que estamos, neste ensaio, perante a apologia dos fins sem cuidar dos meios foi prevalecente durante séculos, mas, em 1919, Max Weber, em O cientista como vocação, propõe interpretação diversa daquela (num marco interpretativo decisivo), sendo que caminho fará a ideia de Maquiavel como pensador ético. No caso de Morus, em nenhum outro livro seu havia colocado em causa a propriedade privada, como faz em Utopia, posição que parece remeter, claramente, para Platão (que o antecede largamente) num curso que desaguará, posteriormente, no socialismo.
Convocando, aqui, uma panorâmica geral quanto ao modo como se podem conceber (politicamente) as sociedades, o filósofo distinguiria entre a) Utopia e b) Redução de danos.
No caso daqueles que sustentam uma utopia, verifica-se que o diagnóstico que fazem assenta na consideração de i) toda uma sociedade como infeliz e ii) a causa dessa infelicidade e injustiça (o mundo é, dramaticamente, injusto; não há, aqui, matizes) é única (exclusiva): a propriedade privada (Platão, Morus, Marx; já no caso de Rousseau, e quanto às causas de infelicidade, remete-se para o amor próprio, a vaidade - de que se fala desde o Eclesiastes - e é curioso que a Psicologia, quando nasce, não estude a vaidade), sendo que, em conformidade, iii) a solução para o mundo passa por atacar a causa da injustiça/infelicidade e revertê-la (maxime, Revolução Russa).
Diferentemente, quem olha para a sociedade no sentido de procurar uma redução de danos (Hobbes, Freud), iv) indica que as causas da infelicidade e da injustiça são múltiplas, v) é impossível tirar todos os males do mundo (desejo infinito, possibilidades finitas), vi) e a felicidade consiste na adequação do meu desejo ao mundo. Esta última perspectiva, apresenta uma vii) maior modéstia, entendendo que a natureza humana não pode ver todos os seus defeitos suprimidos. considerando, ademais, que os utópicos (nas suas formulações/propostas/soluções) não pensam em seres humanos reais.
Não podemos, em todo o caso, segundo Renato Janine Ribeiro, identificar, como tantas vezes se faz, todas as utopias com a esquerda. Por exemplo, acabar com o consumo de drogas seria uma utopia de direita (e, a esta utopia, responderiam os que buscam a redução de danos com propostas como a da troca de seringas, descriminalização das drogas leves, etc.).
Por outro lado, o pensador brasileiro procedeu, ainda, a uma distinção entre distopias na governação (comunismo) e distopias desde a sua concepção (nazismo). 
A utopia coloca-se como problema intrínseco à democracia, na medida em que é difícil falar da democracia sem o elemento utópico (quer dizer, parece a própria democracia relevar de uma utopia...concretizada). E, importa ainda referir, houve utopias que se realizaram, como a do viii) fim da escravatura (no sentido que esta teve durante séculos, embora na verdade ainda hoje se possa falar, com propriedade, da existência de escravos) e a ix) igualdade de género (que Castoriadis considera a grande revolução do séc.XX). 
Se pensarmos em utopias, agora ao nível de formas de relação humana, pensemos nos x) vegetarianos (algo que no Rio Grande do Sul, ou na Argentina é muito agressivo, dada a tradição dominical de comer carne, sendo uma heresia não o fazer nesse dia), na xi) relação homem-mulher, nas xii) relações pais-filhos, xiii) patrão-empregado.
A UE pode, igualmente, ser vista, de novo no plano político, como forma de utopia. Ou podemos falar da utopia de Chico Buarque da Holanda (o samba como outro nome da utopia) e distinguir entre xiv) utopia épica (política), xv) lírica (declaração amorosa) e dramática (antagonismo Eu-Tu).
Dada a grande capacidade humana de imaginar e ser criativa, a pergunta que se coloca, afinal, segundo o Professor Tasso, é porque não temos mais utopias (?). "Porque toda a utopia tem que entrar no político", em última instância, procura responder Renato Ribeiro. 

Sessão moderada por Álvaro de Vasconcelos, e que contou com a presença de Pedro Bacelar de Vasconcelos, entre as cerca de três dezenas de ouvintes.

Renato Janine Ribeiro é Professor de Ética e Filosofia Política, especialista em Thomas Hobbes e foi ministro da Educação durante alguns meses

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Um trabalho épico (III)


Na segunda metade do século I da era cristã, o manancial (já de si tão rico) de textos em língua grega veio enriquecer-se ainda mais com o aparecimento de quatro textos que mudaram para sempre a História da Humanidade. Nestes textos, o leitor escolarizado da época ter-se-ia confrontado com uma temática muito diferente da que conhecia de Homero, Sófocles ou Platão. Pois nestes quatro textos não se falava das façanhas heróicas de reis e de guerreiros, nem se reportavam as conversas de aristocratas atenienses com o lazer e o dinheiro para se dedicarem à filosofia. Aqui falava-se de pescadores e de leprosos; falava-se de pessoas desprezadas pela sua baixa condição na sociedade, pelas suas deficiências físicas, pelos seus problemas de saúde mental; falava-se de figuras femininas que não eram as rainhas e princesas da epopeia e da tragédia gregas, mas sim mulheres normais da vida real (a queixarem-se da lida da casa ou a exercerem, talvez, a mais antiga profissão do mundo).
Acima de tudo, nestes quatro textos falava-se de certo homem, filho de um carpinteiro nazareno: um homem carismático, cheio de compreensão por todo o tipo de sofrimento humano; um homem que, apesar de não ter praticado qualquer crime, acabou por morrer crucificado como se fosse um criminoso, no meio de dois ladrões. Esse homem - que muitos foram reconhecendo como «Ungido» (Khristós: Cristo) de Deus e até como Filho de Deus - era portador da mais extraordinária das mensagens, transmitida com palavras simples, por vezes sob a forma de pequenas histórias singelas, compreensíveis em qualquer aldeia (e, por isso, muitos termos por ele utilizados eram palavras da aldeia - como «estrume»).
Por terem sido escritos num grego despretensioso, sem vestígio da sumptuosidade verbal dos grandes autores helénicos, é provável que estes quatro textos nem merecessem ao leitor culto da época o alto estatuto de literatura. No entanto, estes textos conquistaram o mundo antigo, tanto grego como romano. Lendo-os dois mil anos depois, não é difícil perceber porquê. Sobre um desses textos [Evangelho de S.João] já se escreveu que se trata do «mais divino de todos os livros divinos»: na verdade, essa descrição assenta a qualquer um deles. São textos que - com a sua mensagem sublime veiculada por palavras cuja beleza desarmante ainda deixa arrepiado quem os leu e releu ao longo de uma vida inteira - estão simplesmente numa categoria à parte.

Frederico Lourenço, Introdução aos Quatro Evangelhos, in Bíblia - vol.I. Novo Testamento.Os quatro Evangelhos, Quetzal, 2016, pp.21-22

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Um quadro de referência (II)


                                      ÉTICA DO DEVER (a partir do SÉC.XVIII)

Duas teorias sobre o dever:

a) CONSEQUENCIALISMO

b) DEONTOLOGISMO


a) "De boas intenções está o inferno cheio". O que fazemos deve ser medido pelas consequências e não pelas intenções. Por melhor que seja a intenção, se depois tem más consequências, o que fazemos é errado.

A perspectiva UTILITARISTA (Bentham, Stuart Mill, Peter Singer) propugna a maximização do bem-estar. Devemos buscar esta maximização quer enquanto indivíduos, quer na acção política. Conseguir alcançar o maior bem possível, do ponto de vista das consequências, eis o desiderato. O que é o bem-estar? Muitas vezes, tem-se respondido com "prazer", ou "ausência de dor". Esta ética, curiosamente, foi tida por João Cardoso Rosas como excessivamente altruísta - "tenho mil euros no banco, quando podia tê-los entregue a uma instituição de caridade e satisfazer muitas mais pessoas" -, "própria de santos ou heróis".

b) A Deontologia é um sistema de regras. Regras absolutas (em princípio, nunca, em nenhuma circunstância, devem ser quebradas). Pensemos nos 10 mandamentos, na ética kantiana (imperativo categórico). Aqui, estamos perante uma ética centrada no agente e não nas consequências. Para a deontologia, matar e deixar morrer, por exemplo, são coisas diferentes (ao contrário do que sucede, no mesmo exemplo, para o consequencialismo).

Os exemplos de Jim e os Índios (perante um general que capturou Jim e 5 índios, Jim é colocado perante a circunstância de atirar perante um Índio, com a promessa de matando um, os restantes sobreviverem; ou abster-se de matar algum e os cinco morrerem - isto, claro, num óbvio exercício "torturador" por parte do general), isto é, o que faz Jim nesta situação (?), ou o de podendo, nós, capturar, na rua, alguém, para lhe retirar órgãos para salvar 5 pessoas (ainda que à custa da pessoa capturada), ilustram como, umas vezes, seguimos uma lógica deontológica e, em outras ocasiões, uma consequencialista. A hesitação entre a opção por uma, ou outra, dá-se tanto a nível pessoal, como profissional e político.

Na medida em que a ética do dever, embora imperativa (deves fazer isto), nos dá duas pistas diferentes (utilitarismo e deontologismo), será que fracassou? Tem-se colocado a tal ética os problemas do intuicionismo, da motivação e o regresso de uma ética das virtudes.

A questão da motivação, por exemplo, é sem dúvida importante: eu posso achar que devia ser vegetariano e ser incapaz de resistir a um bom bife. Entre o achar que e o fazer vai uma distância considerável. A ética do dever procurou ser um "céu racional".
A ética das virtudes procura que sejam cultivados os bons traços de carácter e, portanto, não tem aquele problema. Em todo o caso, oferecendo orientação, não dá uma solução evidente, uma decisão casuística. "Quando não se acredita em nenhuma regra absoluta, só se pensa nas consequências" (João Cardoso Rosas).

Os Direitos humanos, por sua vez, são uma tentativa de harmonizar consequencialismo com deontologia - um consequencialismo das regras.

Embora não acredite nas regras, o consequencialista pode pensar "ainda bem que as regras existem, porque assim as pessoas sentem-se mais seguras e há maior bem estar". Os juristas tendem a ser anti-consequencialistas.

Em suma, a ética antiga, centrada na virtude, e a ética moderna, focada no dever, são, ambas, relevantes para quem pensa sobre Moral. Perante questões como "O que é a justiça?", ou "O que é a coragem?" - perguntas colocadas por Sócrates - as pessoas não tinham ideias muito claras. Com Platão assistimos a uma hierarquização das virtudes e, sobretudo, a uma visão muito intelectualizada acerca destas, pressupondo o atingir do mundo das Ideias - quem alcançasse as verdadeiras ideias, alcançaria, ipso facto, as virtudes. Para Aristóteles, a virtude ética é um traço de carácter, manifesto no agir habitual. Traço, pois, manifestado empiricamente. Como sabemos o que é a coragem? Na acção é que vemos como é.

Aristóteles erigiu o meio termo, a justa medida, a virtude cardeal. Ela situa-se, aliás, entre dois vícios: vício por excesso e vício por defeito. Pensemos na generosidade: o seu vício por defeito é a avareza, enquanto que o seu vício por excesso é o desperdício. O homem virtuoso atinge a felicidade (corajoso, justo, honesto). Para Aristóteles a felicidade é o telos (fim) do Homem; todas as coisas têm um propósito. 

A ética das virtudes é atractiva, porque nos coloca perante questões como "que tipo de pessoa devemos ser?" como "construção que cada um faz de si próprio" (Cardoso Rosas) e fornece orientação - dá pistas, mas não oferece solução. A sua lógica é teleológica. A ética do dever coloca-nos questões como "como devemos viver?", "o que devemos fazer?", deveres positivos e negativos e baseia-se num olhar da ciência moderna (o mundo sem finalidades ínsitas). O domínio e transformação que preconiza para a natureza parte de uma visão desencantada desta.

Um quadro de referência



No passado Sábado (13-02-2016), regressámos a Mateus para as Conversas sobre Arte, Ciência e Cultura (no actual ciclo, consagradas à Ética). Desta feita, pudemos escutar a magnífica conferência do Professor João Cardoso Rosas, com boa conversação de seguida, sob o título Da virtude ao dever: o carácter imperativo da ética moderna

Desde já, impor-se-à deixarmos, de modo esquemático (recorrendo ao desenho do Presidente da Associação Portuguesa de Ciência Política), o quadro de referência que serviu, modelarmente, à palestra e charla tidas:



ÉTICA DAS VIRTUDES                                                              ÉTICA DO DEVER
(Ética Antiga)                                                                                     (Ética Moderna)

- Atractiva                                                                                      - Imperativa

- Oferece orientação                                                                       - Oferece decisão

- Ciência antiga                                                                              - Ciência Moderna
  
- Ontologia teleológica                                                                  - Ontologia anti-teleológica

- Paradigma aristotélico                                                                - Paradigma newtoniano

- Viver de acordo com a natureza                                                - Dominar e transformar a natureza  


(continua)


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Pub: Conversas de Mateus



A primeira vez em que apareço num anúncio, lool. Com amigos, a ouvir falar da amizade - a partir da Ética a Nicómaco, de Aristóteles.