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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Venezuela em análise


Na mais recente edição do GPS, de Fareed Zakaria, Moisés Naím (ex-ministro do Comércio e ex-Diretor do Banco Central da Venezuela, e um reputado intelectual) colocou em três níveis fundamentais os problemas que se vivem na Venezuela de hoje:

a) a ajuda humanitária, enviada pelos EUA e outros países da América Latina e que o Governo Maduro não permite que entre no país. Face à fome vivida na Venezuela, e com a população desesperada por estes alimentos e medicamentos, a tensão na fronteira com a Colômbia fez sentir-se e poderá tornar-se ainda mais incandescente;

b) sistema financeiro internacional. O auto-proclamado novo presidente da Venezuela, Juan Guaidó, tentou tomar o controlo de bens venezuelanos no exterior do país, nomeadamente os que contendiam com a petrolífera estatal venezuelana; 

c) disputa nos quartéis e nas bases militares. Entre soldados e oficiais de topo. "Os oficiais de topo estão bem, são corruptos, alguns traficam droga". Recebem incentivos do Governo para se manterem leais. Mas os militares (de base) sofrem como a restante população.

Fareed Zakaria lembrou Samuel Huntington, quando este asseverava que a transição surge quando surge a cisão na elite do regime. Para já, ainda não há generais a desertarem, p.ex., com uma ou duas excepções. 

De acordo com Shannon O'Neil, o motivo pelo qual as Forças Armadas não se afastaram do regime radica no facto de o próprio regime ser militarista. Muitos ministros são generais, quem dirige o programa alimentar também, quem dirige a empresa estatal de energia, idem aspas. As Forças Armadas mandam no Governo e, por isso, são elas que vão decidir se Madura fica ou cai. 

Outro dos motivos pelos quais o regime venezuelano de Nicólas Maduro não cai é pelo suporte externo de que dispõe, em particular da China e da Rússia. 

Em breve, os recursos financeiros à disposição do Governo serão escassos e isso poderá fazer com que os oficiais revejam o apoio que têm dado ao regime. 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Livre-arbítrio (XL)




A predestinação, pois claro. A ética protestante e o espírito do capitalismo. O espírito do tempo.

«Eles estão a roubar-nos as ovelhas». Foi assim que um jesuíta descreveu a vaga de mudança que está a varrer o cristianismo na América Latina, um antigo bastião católico. Quem são «eles»? As novas Igrejas protestantes evangélicas, pentecostais e carismáticas que nasceram na região nos últimos 30 anos - tal como aconteceu nos Estados Unidos, em África e noutros lugares - estão a preocupar a Igreja Católica e a reduzir rapidamente os seus rebanhos. (...)
No entanto, as ovelhas não foram roubadas. As ovelhas já não são ovelhas: são consumidores, e encontram um produto mais atractivo no mercado da salvação. (...) Muitos [destes novos movimentos que nas últimas décadas congregam milhões de seguidores] pregam o chamado evangelho da prosperidade, que afirma que Deus aprecia a acumulação de riqueza na vida terrena e recompensará as doações materiais à Igreja com prosperidade e milagres. De facto, numa sondagem recente do Pew sobre as atitudes religiosas nos Estados Unidos, onde 50 das maiores 260 Igrejas se baseiam agora na prosperidade, 73 por cento de todos os Latinos religiosos concordavam com a afirmação de que «Deus concederá sucesso financeiro a todos os crentes que tenham uma fé suficientemente forte». (...) Em parte, este falhanço [da Igreja Católica, nomeadamente, em manter o número de fiéis na América Latina, mas também de algumas das principais denominações protestantes] tem que ver com a doutrina e com a capacidade das Igrejas evangélicas de oferecerem uma mensagem baseada na riqueza e em ofícios espectaculares (...) Uma mensagem explícita sobre riqueza e prosperidade e uma ênfase nas acções individuais e na redenção ajustam-se a um cenário onde a pobreza e a exclusão têm sido a regra.

Moisés Naím, O fim do poder, Gradiva, Lisboa, 2014, pp.283-290.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O estado do poder (ele mesmo)




O poder pode ser definido como “a capacidade de orientar ou de prevenir as acções presentes ou futuras de outros grupos e indivíduos”; ou, “dito de outra maneira, o poder é aquilo que exercemos sobre os outros, levando-os a comportar-se de uma maneira que, de outro modo, não se comportariam” (Naím, 2014, p.37). No clássico «The Concept of power», Robert Dahl define, desta forma, o poder: “A tem poder sobre B na medida em que pode levar B a fazer algo que, de outro modo, B não faria” (Ibidem). E, para Michael Barnett e Raymond Duvall, “o poder é a produção nas e através das relações sociais de efeitos que moldam as capacidades dos agentes para determinar as suas circunstâncias e destinos” (Naím, 2014, p.369).
Cumpre compreender que hoje o poder está em um radical processo de mutação, isto é, “a transformação do poder é mais total e mais complexa” (Naím, 2014, p.27) do que possa pensar-se. Na descrição do politólogo/cientista político e ex-ministro Moisés Naím, o poder é, em nossos dias, “mais fraco e vulnerável” do que até há bem pouco tempo, “mais acessível – e, de facto, no mundo de hoje, há mais pessoas com poder. Contudo, os seus horizontes contraíram-se e, depois de adquirido, é mais difícil de utilizar” (Ibidem). As barreiras de acesso ao poder quebraram em virtude de um conjunto de factores: transformações económicas (maxime, rápidos crescimento económico em países pobres); padrões migratórios; difusão das tecnologias de informação; mudanças políticas; alteração das expectativas pessoais; mudança nos valores e normas sociais; melhoria ao nível da medicina e cuidados de saúde; educação massificada e hábitos culturais alterados. Entre estes últimos, de grande relevo a emergência de uma sociedade (mais) horizontalizada (por referência a sociedades mais hierarquizadas que a antecederam; tomamos, mais do que outras latitudes, o Ocidente por referência; vide, Innerarity, 2012). A eclosão dos micropoderes em vários domínios – e note-se como o poder está presente não apenas nas grandes questões geopolíticas entre Estados, como nas empresas, nas organizações, nas universidades, e até na esfera íntima, como a família – pode ter tornado a sociedade menos hierárquica/rígida/inflexível, mas a decadência do poder (ele mesmo) não contém apenas virtudes: “embora possa parecer um bem genuíno que os poderosos sejam menos poderosos que antes (afinal de contas, o poder corrompe, não é verdade?), a sua despromoção pode também gerar instabilidade, desordem e paralisia face a problemas complexos” (Naím, 2014, p.32).


segunda-feira, 19 de maio de 2014

A transformação/perda do poder (ele mesmo)





Os jogadores estão a aprender o jogo [xadrez] e a alcançar a mestria em idades muito mais jovens. Há agora mais Grandes Mestres do que alguma vez houve: 1200 actuais contra os 88 que existiam em 1972. À medida que os recém-chegados derrotam os campeões estabelecidos com cada vez mais frequência, o tempo médio de consagração dos jogadores mundiais de topo tende a diminuir. Além disso, os Grandes Mestres de hoje têm origens muito mais diversas que os seus antecessores. Como observou o escritor D.T.Max: «Em 1991, no ano em que a União Soviética se desmoronou, os nove maiores jogadores do mundo eram da URSS. Nessa altura, nos últimos 43 anos os jogadores treinados na União Soviética haviam vencido 37 dos últimos campeonatos mundiais».
Mas as coisas mudaram. Mais jogadores são agora capazes de chegar ao topo das ligas de xadrez, e vêm de uma grande variedade de países e bairros. No entanto, quando chegam ao topo, têm grande dificuldade em permanecer nessa posição. Como observou o blogger de xadrez Mig Greengard: «Existem 200 pessoas no planeta que, com um vento de feição, jogam o suficiente para derrotar o campeão do mundo». Por outras palavras, até entre os Grandes Mestres actuais o poder já não é o que era.
O que explica estas mudanças na hierarquia do xadrez mundial? Em parte (mas apenas em parte), a revolução digital.
Desde há algum tempo que os jogadores de xadrez têm acesso a programas de computador que lhes permitem simular milhões de partidas jogadas pelos melhores do mundo. Podem também usar esses programas para estudar as implicações de cada jogada possível; por exemplo, os jogadores podem repetir qualquer jogo, examinar os movimentos seguindo cenários diferentes e estudar as tendências de jogadores específicos. Assim, a internet alargou os horizontes dos jogadores de xadrez em todo o mundo e, ao mesmo tempo - como comprova a história de James Black -, criou novas possibilidades para pessoas de qualquer idade ou condição socioeconómica. Inúmeros sites de xadrez fornecem dados e oportunidades de jogos competitivos a qualquer pessoa que tenha uma ligação à internet.
No entanto, esta história não é apenas sobre a tecnologia. Veja-se, por exemplo, o caso do jovem campeão norueguês Magnus Carlsen, outro fenómeno do xadrez que, em 2010, se tornou o nº 1 do mundo, com 19 anos. Segundo D.T. Max, que fez o perfil deste jogador na The New Yorker, o êxito de Carlsen deveu-se mais às suas estratégias pouco ortodoxas e surpreendentes (baseando-se parcialmente na sua memória prodigiosa) do que a um treino baseado em programas de computador: «Como Carlsen passou menos tempo que os adversários a treinar com computadores, tende menos a jogar como eles. Confia mais no seu próprio juízo. Isto torna-o complicado para os adversários, que treinaram com programas informáticos e com bases de dados».
A demolição da estrutura do poder do xadrez mundial decorre também das mudanças na economia global, na política e nos padrões demográficos e migratórios. As fronteiras abertas e as viagens mais baratas deram a mais jogadores hipótese de participarem em torneios em qualquer parte do mundo. Os padrões mais elevados de educação e o aumento da literacia, da cultura aritmética e dos cuidados médicos infantis criaram uma reserva maior de potenciais Grandes Mestres. E hoje, pela primeira vez na história, vivem mais pessoas na cidade do que no campo - um desenvolvimento que, acompanhado pelo período prolongado de crescimento económico de que muitos países pobres gozaram desde os anos 90, abriu novas possibilidades para milhões de famílias para quem o xadrez era um luxo inacessível, ou até desconhecido. No entanto, não é fácil para um indivíduo ser um jogador de xadrez de classe mundial se viver numa quinta isolada num país pobre, sem electricidade ou sem computador, ou se passar muitas horas em busca de comida - ou a carregar água para casa. Antes de a internet fornecer a sua magia criadora de poder, é preciso que muitas outras condições estejam satisfeitas.

Moisés Naím, O fim do poder, Gradiva, 2014, pp.18-20.