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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

"Todas as épocas têm o seu fascismo" (Primo Levi)


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Os julgamentos de Nuremberga tinham estabelecido o princípio de que nem o «obedecer às leis» nem o «cumprir ordens» eram justificação legal para os que são acusados de violar os padrões básicos de civilização. Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos criou um enquadramento que permite responsabilizar os governos, seguindo-se-lhe três anos depois a Convenção para a Prevenção e repressão do Crime de Genocídio. Nas décadas de 1970 e 80, foram aplicadas sanções internacionais à Rodésia e à África do Sul racistas, acabando, em última análise, por transformar os dois países. No mesmo período, os Estados Unidos e a UE começaram a fazer do respeito pelos direitos humanos uma condição para prestar auxílio militar a todos os países. Durante o conflito da Bósnia, foi criado um tribunal internacional para processar os autores de crimes contra a humanidade (p.136).

Queixamo-nos amargamente quando não conseguimos tudo o que queremos, como se fosse possível haver mais serviços pagando impostos mais baixos, uma cobertura mais ampla dos cuidados de saúde sem participação estatal, um ambiente mais limpo sem regulamentações, segurança contra os terroristas sem invasão da privacidade e bens de consumo mais baratos fabricados localmente por trabalhadores com salários mais elevados. Em resumo, ansiamos pelos benefícios da mudança, mas sem custos. Quando ficamos decepcionados, remetemo-nos ao cinismo, e a seguir começamos a pensar se haverá forma mais rápida, mais fácil e menos democrática de satisfazer os nossos desejos (p.147). 

Contudo, a reputação de ambos [Perón e Eva] ficaria manchada para sempre devido à decisão de oferecer refúgio a Josef Mengele, Adolf Eichmann e outros destacados responsáveis nazis, aparentemente em troca de consultoria tecnológica e dinheiro (p.155)

Estava num intervalo - os anos de 1970 - em que a Guerra Fria gerou vários confrontos entre a esquerda marxista e a direita nacionalista, na Turquia como noutros países. A subida acentuada nos preços do petróleo importado conduziu à estagnação da economia e a carências de açúcar, margarina e óleo alimentar. Temendo uma revolta, os militares [turcos] intervieram, afastaram os políticos civis e praticamente dizimaram a esquerda através da combinação de tortura, assassínio e detenção de meio milhão de pessoas. (...) Ao esmagarem a esquerda política, os militares abriram espaço para que este novo movimento crescesse. Os pobres marginalizados, impedidos de se organizarem em torno de uma ideologia, uniram-se à volta da religião. Quando um partido se levantou apelando a uma «ordem justa» e ao derrube do muro que havia muito separava o islão do Estado, os turcos compareceram em grandes números: duzentos mil em 1991; quatro milhões em 1995. «Os outros partidos têm membros; nós temos crentes», vangloriava-se um dirigente. A popularidade surpreendente da organização causou o pânico nos sectores seculares. Em 1998, as autoridades ilegalizaram-na, esperando forçar os islamitas à submissão, como tinham feito com os comunistas. Mas, enquanto a ideologia marxista fora importada, os crentes havia muito tinham criado raízes profundas no coração de Anatólia (...) Erdogan também passou a defender-se menos quanto à partilha da sua opinião sobre a identidade turca. Durante o mandato, mais de nove mil mesquitas abriram as portas pela primeira vez. As crianças que frequentavam escolas religiosas aumentaram de sessenta e três mil para mais de um milhão e meio. Aulas sobre o Islão sunita são actualmente obrigatórias para todos os estudantes. Nos discursos, um Erdogan já menos reticente passa a referir-se ao Islão como a fonte fundamental da unidade turca e fala muitas vezes sobre a importância de criar uma «geração piedosa». Cancelou as paradas do orgulho gay e condenou o activismo LGBTI (...) como sendo «contrário aos valores da nossa nação». Sempre político, estabeleceu um contraste entre o «caminho sagrado» do AKP e o suposto ateísmo dos rivais. Erdogan, o unificador de outrora, vai-se tornando polarizador, insulta os secularistas e os liberais. Tomou inclusivamente medidas para reverter um dos avanços históricos de Ataturk. A Constituição confere direitos iguais às mulheres, mas Erdogan propôs uma interpretação «ao estilo turco», condenando o controlo da natalidade, incentivando as mães a ter três ou mais filhos e sugerindo que as mulheres que trabalham são «meias pessoas». Em 2016, uma comissão parlamentar propôs baixar para quinze anos a idade mínima legal para o casamento e recomendou que os homens acusados de violação sejam autorizados a evitar o julgamento desde que consintam em casar-se com as vítimas (pp.175 e 181 e 182). 

Putin quer que os súbditos acreditem que ele é politicamente invencível. Luta diariamente para desencorajar potenciais adversários de tentarem - ou ousarem - estabelecer uma coligação nacional credível contra ele. Prefere opositores que se sentem em casa a saborear vodca e a queixar-se uns aos outros sobre como tudo é infrutífero; é isso que muitos deles fazem
Para manter o seu poder de atracção, Putin nunca se comprometeu a fundo com qualquer ideologia ou partido. Ao invés, retrata-se como o rosto de toda a nação. Não obstante poder ser terrível a atacar os opositores, não polariza intencionalmente da mesma maneira que Chávez ou Erdogan. Ao contrário dos direitistas na Europa, respeita os judeus e os muçulmanos. Reserva a maior parte das munições verbais para os inimigos estrangeiros (p.200). (...) O uso pioneiro das redes sociais como arma pela Rússia não reflecte nenhuma aptidão cultural invulgar para a pirataria informática, mas a experiência de Putin no KGB, no qual espalhar a desinformação era simultaneamente um modo de vida e uma arte. Todavia, o impacto é agora maior do que durante a Guerra Fria, porque a audiência-alvo torna-se mais acessível e maior. O Facebook tem dois mil milhões de utilizadores activos. Quais são as motivações da Rússia? Provavelmente, desacreditar a democracia, dividir a Europa, enfraquecer a parceria transatlântica e castigar os governos que se atrevem a enfrentar Moscovo. Esta agenda não é ideológica; é sobre poder, pura e simplesmente (p.201) (...) Putin tem pés de barro. A economia russa, tão robusta na primeira década do regime, permanece mais frágil do que as de Itália ou Canadá e não dá mostras de melhorar. A livre iniciativa desaparece à medida que os investidores estrangeiros abandonam o país devido a sanções, às regras pouco claras para fazer negócios e à relutância em pagar subornos. A riqueza está distribuída mais desigualmente do que em qualquer outro grande país - o regresso ao tempo dos czares. A população envelhece. A nível político, há sinais - como a menor afluência às urnas - de que os russos começam a ficar cada vez mais cansados do putinismo, apesar de a maioria não estar ainda pronta para se revoltar contra o homem (p.206).   

Madeleine Albright (com Bill Woodward), Fascismo. Um alerta, Clube de Autor, 2018. Tradução de Ana Glória Lucas

P.S.: A dedicatória da autora, reza assim: "às vítimas do fascismo no passado como no presente e a todos os que combatem o fascismo nos outros e em si próprios". O mote do livro é dado por Primo Levi: "Todas as épocas têm o seu fascismo". Nesta última citação, como que se aponta para o que há de idêntico e, simultaneamente, de diverso nos fascismos das primeiras décadas do século passado, com os movimentos autoritários do presente.

P.S.1: Pacheco Pereira escrevia no Sábado passado, no Público, que pelo menos, comparado com Bolsonaro, Mussolini sabia ler e escrever e tinha conseguido fazer com que os comboios andassem a horas. Diferentemente, Madeleine Albright considera que a ideia de que Mussolini fez os comboios andarem a horas é "um mito": o Duce tentou que tal acontecesse, mas não foi bem sucedido em tal empresa.

P.S.2: Uma das notas comuns a grandes e pequenos ditadores é, nota Albright, terem passado pela prisão: assim sucedeu com Hitler, Mussolini ou Estaline, mas também com Chavez, Erdogan ou Putin.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

COMO CAIU MUSSOLINI


O momento crucial surgiu em finais de 1942, quando as forças aliadas forçaram a saída do Eixo do Norte de África, criando uma plataforma para libertar a Europa a partir do Sul, através da Itália. A deterioração da posição deste país reflectiu-se em mudanças no seu dirigente.
Nem o italiano comum, nem as forças armadas, nem o acossado rei desejavam ser associados ao Terceiro Reich. O paganismo transparente de Hitler não caía bem nos católicos e muitos resmungaram quando, em 1938, Mussolini permitiu os mesmos estatutos antissemitas aprovados anos antes na Alemanha. Mesmo os que adoravam o Duce, e talvez especialmente esses, não gostaram de o ver sócio minoritário de um racista teutónico (...) O Grande Conselho do Partido Fascista reuniu-se [em Julho de 1943] em Roma. (...) Enquanto ele [Mussolini] discursava os delegados fizeram circular furtivamente uma declaração propondo o restabelecimento dos plenos poderes constitucionais do rei e do Parlamento. O principal autor, Dino Grandi, estivera no início entre os companheiros mais militantes de Mussolini. Agora, levantava-se para enfrentar o antigo chefe:

O senhor acredita que conta com a devoção do povo, mas perdeu-a no dia em que amarrou a Itália à Alemanha. O senhor sufocou a personalidade de toda a gente sob o manto de uma ditadura historicamente imoral. Deixe-me dizer-lhe que a Itália se perdeu no dia em que o senhor colocou o galão dourado de marechal no seu boné.

A resolução de Grandi, posta à votação, foi aprovada (...) contando-se o genro de Mussolini entre os que pediam a mudança. O ditador infalível já não contava com o apoio do partido que tinha forjado na bigorna do próprio poder - e desta maneira uma votação de vinte minutos fechou a cortina sobre vinte anos de fascismo. Numa última tentativa de salvação, o Duce procurou obter uma renovada declaração de solidariedade por parte do rei - em vão. Durante mais de duas décadas, Vítor Emanuel curvara-se perante Mussolini porque sentia que não tinha outra opção e porque era cobarde. 
Agora, finalmente, as cartas mais altas tinham caído na sua mão. «Hoje, o senhor é o homem mais odiado de Itália», disse o rei ao visitante. «Se isso for verdade, apresento a minha demissão», foi a resposta. «E eu aceito-a incondicionalmente», declarou ainda Vitor Emanuel. 
As notícias sobre o fim de Mussolini foram recebidas com celebrações por toda a Itália. As fotografias emolduradas do ditador deposto foram retiradas das paredes aos milhares e deitadas nos caixotes do lixo; de repente, não havia nada mais difícil de encontrar do que um fascista confesso. (...) As tropas de Hitler ocuparam a parte setentrional do país e insistiram em que Mussolini fosse o chefe de um regime fantoche. Ele aceitou, infeliz, praticamente prisioneiro dos alemães. (...)
Nos dias finais da guerra, soldados americanos e comunistas italianos convergiram para o mal defendido quartel-general de Mussolini. O ditador caído fugiu, primeiro com a esperança de se encontrar com o que ele imaginava ser um resíduo substancial de seguidores preparando-se para resistir. Fracassado este plano, ele e os companheiros juntaram-se a alguns soldados alemães que estavam em fuga na direcção da fronteira austríaca. No dia 28 de Abril de 1945, apesar de ele envergar um sobretudo e um capacete da Luftwaffe, foi reconhecido por membros de um destacamento comunista. Um pelotão de fuzilamento matou-o, bem como a amante de longa data, Claretta Petacci, e outros membros do grupo, meteu os corpos num camião e despejou-os em Milão.

Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube de Autor, 2018, pp.99-103

"O FASCISMO NÃO É UMA EXCEPÇÃO À HUMANIDADE, MAS PARTE DELA"


Em retrospectiva, é tentador rejeitar todos os fascistas dessa época [anos 20/30 do séc.XX] como tipos malévolos ou lunáticos, mas isso é demasiado fácil e, ao provocar a complacência, é também perigoso. O fascismo não é uma excepção à humanidade, mas sim parte dela. Mesmo as pessoas que se filiaram nesses movimentos por ambição, ganância ou ódio, provavelmente não tinham consciência dos verdadeiros motivos - ou então negavam-nos perante si mesmas
Relatos orais desse período testemunham a esperança e o entusiasmo que o fascismo gerou. Homens e mulheres que tinham desesperado por uma mudança política subitamente sentiram-se perante as respostas que procuravam. Ansiosas, percorreram longas distâncias para assistir a comícios fascistas, nos quais encontraram almas gémeas desejosas de restaurar a grandeza da nação, os valores tradicionais da comunidade e o optimismo quanto ao futuro. Ali, nesta cruzada, ouviram explicações que para elas faziam sentido acerca das poderosas correntes que estavam em movimento no mundo. Ali encontravam as oportunidades que procuravam para participar em grupos juvenis, organizações de atletismo, acções de solidariedade e actividades de formação profissional. Ali estavam as ligações de que precisavam para iniciar um negócio ou pedir um empréstimo. Muitas famílias que se tinham limitado a ter dois filhos, pensando que eram os que podiam criar, encontravam a confiança necessária para ter quatro, cinco ou seis. Na companhia de outros fascistas com quem sentiam afinidades, podiam partilhar uma identidade que lhes parecia correcta e envolver-se numa causa que serviriam com alegria e espírito franco. Acreditavam que estes eram prémios pelos quais valia a pena marchar e até renunciar às liberdades democráticas - desde que os dirigentes pudessem cumprir o prometido e tornar reais as suas fantasias.
Durante muito tempo, pareceu que esses líderes podiam fazer o que prometiam. Ao longo dos anos de 1920, Mussolini tinha o aspecto de vencedor, assim como Hitler depois de 1933.  Neles - mais do que em quaisquer outros estadistas europeus - residia a confiança de que viessem a ser bem-sucedidos onde os políticos convencionais tinham fracassado. Eles eram os pioneiros, os visionários que estavam firmemente em contacto com o perturbador, e no entanto estimulante, zeitgeist, o espírito do tempo. (...)
O fascismo consolidou-se porque muitas pessoas na Europa e noutros lugares viram nele uma vaga poderosa que estava a transformar a história, que apenas a elas pertencia e que não podia ser travada.

Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube do Autor, 2018, pp.86-87.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Memória (II)


Prosseguindo com Fascismo. Um alerta, de Madeleine Albright:

A guerra civil espanhola durou quatro anos e matou mais de meio milhão de pessoas. Do lado dos republicanos, apareceram voluntários de 54 países diferentes - mas as questiúnculas e divisões no meio esquerdista foram um grande problema para um putativo sucesso inalcançado. Também foi solicitado apoio a Estaline. Do lado franquista, o apoio de forças nazis e fascistas italianos. Os combates não foram menos do que selvagens. Sobre Barcelona, incluindo bairros residenciais, edifícios públicos, 1300 mortos de uma assentada. Sobre Guernica,  onde se deu um o célebre bombardeamento alemão, culpabilizando-se ainda as vítimas. Os republicanos, por sua vez, não deixaram de fazer cerca de 10 mil vítimas entre  bispos, padres, freiras, monges - sendo que a hierarquia católica esteve, sobretudo, ao lado de Franco, ainda que alguns padres fossem contrários e hostis ao poder nacionalista. As forças republicanas renderam-se em 1939 - mas Franco, depois, não aceitou ir para a guerra com Hitler e Mussolini, apesar das pressões e da presença em pessoa do Fuhrer (colocando, nomeadamente, exigências tidas como incomportáveis, como ficar com Marrocos, no que desagradaria ao regime de Vichy que, a concretizar-se, deixaria de ser colaboracionista, segundo os cálculos germânicos).

Hitler teve, à semelhança do caso italiano com Mussolini, os seus rufiões e (no caso) camisas castanhas. Intimidou, espancou e matou com as SA de Rohm. Essenciais para a subida ao poder, mas perigosas para lidar com o establishment. Quando Rohm sugere as SA no lugar do Exército, não só lhe é negada a pretensão, como, daí a nada, está a ser capturado pela Gestapo e morto (por ordem do ex-amigo; daquele que ajudou a fazer ascender ao poder).
Hitler, que conhecia bem as ruas, usou a linguagem e os conteúdos que sabia interessarem à plateia, e que não passavam por argumentos abstractos. Palavras fortes, incendiárias, capazes de captar, a um tempo, a ira e o ódio, e de os gerar. Capaz de dar uma fé que os seguidores não seriam capazes de estruturar, mas da qual careciam. Hitler chega ao poder, tal como Mussolini, não porque tenha ganho uma eleição, mas também não à margem da Constituição. Depois, sim, imediatamente abolirá partidos políticos, acabará com sindicatos, colocará nazis fiéis em todas as estruturas políticas, desde logo municipais. Mentirá sem pejo, e beneficiará da complacência dos que o subestimaram. Juntamente com Mussolini, nele estará presente o ressentimento para com uma sociedade que o não reconheceu, mais o seu génio, durante anos. Será declaradamente bárbaro, imoral, sem qualquer piedade. Anti-comunista bem antes de o partido chegar ao poder, ainda que o vermelho da bandeira nazi aludisse a uma preocupação social (cujo nome terá o termo "socialista" pelo meio e diz representar os "trabalhadores"), acabará com o 1º de Maio, tornando-o feriado pago e a 2 de Maio, ocupando as instalações dos sindicatos em todo o país.

Memória


Com Madeleine Albright, é interessante recuperar a biografia de Mussolini, aclamado no seu tempo por Thomas Edison como o «génio dos tempos modernos», por Gandhi como «super-homem», ou com o qual Churchill prometeu estar na «luta contra os apetites bestiais do leninismo». 
Nascido em Predappio, a 65 km de Florença de pai ferreiro e socialista e de mãe professora e devota, vivendo desafogadamente, frequentou colégios internos, dirigidos por religiosos, desde os 9 anos, e nos quais se levantou em luta contra a injustiça, quando observava a separação, às refeições, entre os alunos mais abastados e os demais (entre os quais se contava Mussolini). Brigão e duro, gostava, contudo, também da leitura: dos periódicos diários, a Os miseráveis, de Vítor Hugo. Expulso aos 11 anos do colégio, por esfaquear colegas. Obteve o diploma para professor, mas a falta de disciplina nas suas aulas levou a que fosse dispensado. Aos 19 anos, viaja para a Suiça, onde trabalhou como operário, dormia em cima de um caixote de madeira e foi preso por vadiagem (uma de várias detenções). Depois de sair da cadeia, arranjou emprego como pedreiro e tornou-se activo no sindicato. Foi na época em que houve uma viragem das leis laborais num sentido mais favorável aos trabalhadores. Mussolini não era um pensador original, mas um "talentoso actor". Foi expulso da Suiça, regressou a Itália, e escreveu um folhetim contra as elites, em favor dos trabalhadores e apelando, mesmo, à via da violência, com a revolução como método. 
Subitamente, muda de ideologia: "a reviravolta pode ter resultado de uma mudança sincera de opinião, porque os compromissos ideológicos de Mussolini nunca foram profundos e o pacifismo era alheio à sua natureza, mas existem outras possibilidades. Interesses empresariais franceses pediram-lhe ajuda para empurrar a Itália para a luta contra a Alemanha e a Áustria-Hungria e prometeram recompensá-lo. Além disso, manter um jornal é dispendioso; os fabricantes de armamentos mostraram-se generosos no financiamento ao Il Popolo d'Italia" (p.35). Quando Itália entra em guerra, Mussolini é recrutado para o exército onde, durante 17 meses, cumpriu serviço militar. Durante uma manobra de treino, com a explosão de um morteiro, quase perde a vida.
Apesar da coligação vencedora, Itália não teve direito aos frutos da vitória, o que fez com que os partidos de esquerda vissem vindicadas as suas razões anti-participação na guerra e aumentassem muito a sua votação nas legislativas. Numerosos governos municipais e fábricas estavam sob o governo de forças de esquerda. 
O establishment industrial e agrícola reagiu e as tensões aumentaram fortemente na sociedade italiana. Houve derramamento de sangue, os extremos venciam, as pessoas moderadas e de centro não tinham voz. Os regressados da guerra eram questionados e não tinham lugar numa administração controlada pelos sindicatos. O Parlamento era visto como um bazar de corruptos. Os representantes não faziam um esforço para serem entendidos pelos representados. A Itália estava à beira do desmembramento. Condições propícias a um líder forte, autoritário, que unisse o país. Um Duce. "Os fascistas cresceram porque milhões de italianos odiavam aquilo a que assistiam no seu país e tinham medo do que o mundo testemunhava na Rússia bolchevique" (p.38). Talvez como que ilustrando a tese de que mais do que uma ideologia, o fascismo seria um método de aquisição e manutenção do poder, eis o que escreve Madeleine Albright acerca do discurso de Mussolini: "apelava aos compatriotas para que rejeitassem os capitalistas que queriam explorá-los, os socialistas que se empenhavam em transtornar-lhes a vida e os políticos desonestos e invertebrados que não paravam de falar enquanto a pátria amada se afundava cada vez mais no abismo. Em vez de lançar as classes sociais umas contra as outras, propunha que os italianos se unissem - trabalhadores, estudantes, soldados e empresários - e formassem uma frente comum contra o mundo (...) Quanto aos parasitas que tinham apostado no atraso do país - os estrangeiros, os fracos, os políticos indignos de confiança -, que se desenvencilhassem sozinhos. Apelava aos seguidores que acreditassem numa Itália próspera, pois seria autossuficiente e respeitada porque seria temida. Foi assim que começou o fascismo do século XX: com um líder carismático explorando o descontentamento generalizado com promessas de tudo" (pp.38-39). A america grande outra vez, a Washington corrompida, os exploradores da globalização, o desprezo pelos estrangeiros e pelos fracos actuais têm aqui uma clara ressonância. Como tem o colocar pobres contra pobres, o recorrer a brigadas e esquadrões de entre os que estão na pior posição na escala social para intimidar aqueles que quem domina no movimento fascista pretende afastar: "para contrariar a sua influência [a dos socialistas], os fascistas recorreram à vasta reserva de veteranos desempregados para organizar os esquadrões de homens armados, os Fasci di Combattimento, para matar os dirigentes sindicais, vandalizar as instalações dos jornais e espancar operários e camponeses. Estes bandos prosperaram porque muitos sectores da polícias os viam com simpatia e fingiam não ter conhecimento dos danos que infligiam aos inimigos esquerdistas. Passados meses, os fascistas estavam a expulsar os socialistas das cidades e vilas, especialmente nas províncias do Norte de Itália. Para publicitar a sua identidade, usavam uniformes improvisados - camisa preta, calças cinzento-esverdeado e chapéu preto estilo fez com borla" (p.39).
Convidado a expor o seu programa, Mussolini diria: "É quebrar os ossos aos democratas (...) e quanto mais depressa, melhor" (p.40). Sem ganhar uma eleição, mas sem violar a Constituição, Mussolini chegou à liderança política de Itália, quando o rei Vítor Emanuel entre os socialistas que queriam o fim da monarquia e os fascistas que, sendo grosseiros, poderiam eventualmente mantê-la, e após, vários ziguezagues e paralisia, permitiu que aquele ascendesse ao topo da escala política. Sobre Roma marcharam então pescadores de Nápoles e empregados de escritório e lojistas, vestindo camisolas negras e bonés de piloto. Mas havia camponeses da Toscana, um estudante liceal de 16 anos, gente descalça por não ter dinheiro para comprar sapatos. Gente com pistolas, mosquetes, espingardas, tacos de golfe, gadanhas, entre outros artefactos. 
Não tendo a maioria no Parlamento, Mussolini intimidou a Assembleia e teve carta branca para fazer quase tudo o que lhe aprouvesse. E inicialmente destacou-se mesmo em medidas como a desburocratização, admoestando funcionários que chegassem atrasados, despediu 35 mil funcionários públicos em função das contas do Estado, deu a Itália o dia de trabalho de 8 horas, destacou bandos de fascistas para evitar ladrões de mercadorias por caminhos de ferro, financiou clínicas de saúde pré-natal, destinou verbas para construção de pontes, estradas, aquedutos gigantescos, codificou benefícios de segurança social para incapacitados e idosos, criou campos de férias para crianças e deu um golpe na Máfia ao suspender o sistema de júri. Não conseguiu que os comboios andassem a horas, apesar de o tentar (p.43)
Mulherengo, gostava de natação e esgrima - e pouco mais. Aprovou uma lei eleitoral que deu o poder no Parlamento aos fascistas. A fraude denunciada levou a que o dirigente socialista fosse raptado e assassinado. Em 1926, aboliu os partidos políticos concorrentes, acabou com a liberdade de imprensa, neutralizou o movimento sindical e fixou o direito a ser ele a nomear os funcionários municipais. Exortava os italianos a abdicarem do conceito de igualdade humana e a aderir a «o século da autoridade, um século a tender para a 'direita', um século fascista» (...) Nunca antes as pessoas se mostraram tão sequiosas de autoridade, orientação e ordem como agora. Se cada época tem a sua doutrina, então (...) a doutrina da nossa época é o fascismo". (p.44).
Desencadeou uma política externa agressiva que reduziu a Albânia a um protectorado e invadiu a Etiópia ("a maior guerra colonial de toda a história", segundo Mussolini). O Duce "não era um perspicaz avaliador de indivíduos, mas sabia bem o que as grandes massas queriam: espectáculo" (p.45). 
Antes de se tornar primeiro-ministro, nunca vestira roupa formal; não aprendera qual a colher ou garfo que se devia usar num jantar em sociedade; não fumava, não apreciava bebidas alcoólicas, nem gostava de apertos de mão (que considerava pouco higiénicos). Mau ouvinte, não gostava de escutar os outros a falar, nem gastava mais de 3 minutos com uma refeição. 
Mussolini prometeu tornar a Itália muito mais rica, promovendo, com irrealismo, uma moeda robusta e a auto-suficiência nacional. O falhanço foi rotundo.

domingo, 25 de março de 2018

Uma interpretação soberba

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Só na noite deste Sábado, os óscares já lá vão e desde há uns bons anos nem dou por ela, Gay Oldman entrou para a galeria das soberbas interpretações de uma personalidade central da história contemporânea, Churchill no caso concreto, a que já assisti. Das fúrias e do mau feitio, da capacidade de juntar palavras, grandes discursos e oratória, o mobilizador/motivador da nação (a guerra também se ganha nas palavras e nas emoções e vontades que despertam), dos vícios que eram pouco privados, do humor de recorte irónico e sagaz, dos erros do passado e das intuições do presente, mas muito especialmente, o rosto a soçobrar, a angústia cravada em todos os gestos, quando chega a duvidar da gesta para com os nazis, quando quase tomba aos adversários/inimigos (presentes no gabinete de guerra) que o querem a assinar um tratado de paz, à laia de Mussolini ("o lacaio" de "herr Hitler") - até que conta com o apoio real (o monarca desconfiara, ao início, de Winston e sua personalidade - ela inspirava-lhe medo, ninguém sabia o que pensar de quem mudava muitas vezes de opinião -, e seguira Halifax, mas no momento decisivo entendeu que o caminho era o preconizado por Churchill - "a nossa política é a guerra", com "sangue, trabalho, suor e lágrimas") e popular (a capital cena do metro), numa verdadeira religitimação que lhe levanta o moral - se faz, também em filme, uma presença "maior que a vida". 
Quando, a propósito de Churchill, se diz que o ex-PM britânico hoje sucumbiria ao politicamente correcto, e não resistiria, no poder, com tanto scotch whisky e charutos, viver nas madrugadas e dormir as suas sestas ("e isso é permitido?", pergunta o rei sobre a sesta, quando empossa o Primeiro Ministro; "não, mas é necessário", replica Churchill), talvez se pense que esses hábitos em nada eram estranhos à época (dos acontecimentos) ou, então, que eram recebidos de bom grado, ou, pelo menos, com indiferença. Ora, na classe política representada na película, esses pecadilhos de Churchill não deixam de ser claramente apontados. O filme carrega nesses elementos, aliás - embora não se veja nenhuma reacção popular adversa, nenhuma revista da socialite, nem redes sociais (a arder) então inexistentes. 
O filme de Joe Wright, mesmo que com erros históricos (como a cena do metro, p.ex.) mostra um homem ambicioso que conhece todas as manhas e jogos de poder (desde o momento inaugural, na Câmara dos Comuns, quando a queda do então PM não é por ele assistida para "não deixar impressão digital", ou quando no Gabinete de Crise junta os seus maiores inimigos, dentro dos conservadores; sendo que é com Churchill que o clássico dos inimigos estarem no mesmo partido, se aprende), desde o berço decidido a ser PM e que nunca soube o que era uma fila para comprar pão, andar de metro, ou estrelar um ovo. Um homem volátil entre partidos. Com erros e manchas no currículo. É um Churchill humano, ainda que com uma auto-confiança, uma perseverança, uma compreensão de quem era Hitler, uma capacidade de ir contra os apaziguadores que enterrariam a ilha, com uma leitura, a sua, de quem tinha estado no campo de batalha (na anterior Grande Guerra) e não adormeceu à sombra dos generais (não deixar a guerra apenas aos generais), um político que conhecia a geografia do mundo, sabia peças de cor, não descurava a História e que conseguiu que a sua visão fosse adoptada, durante anos, por um povo (que assim construiu, mas ao qual, igualmente, foi buscar forças, usando-as para derrubar os seus oponentes).

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Só para coleccionadores (III)


Agora que a Quetzal reúne crónicas sobre futebol escritas por Dinis Machado, vale a pena dizer que o jogo mereceu já, felizmente, tratos requintados, de calcanhar ou de chilena, por parte de alguns reconhecidos literatos. Recordo, aqui, o clássico de Eduardo Galeano, Futebol a sol e sombra.

A bola como bandeira

O futebol e a pátria estão sempre unidos; e com frequência os políticos e os ditadores especulam com esses vínculos de identidade. A esquadra italiana ganhou os mundiais de 34 e de 38 em nome da pátria e de Mussolini, e os seus jogadores começavam e terminavam cada jogo dando vivas à Itália e saudando o público com a palma da mão estendida.
Também para os nazis, o futebol era uma questão de Estado. Um monumento recorda, na Ucrânia, os jogadores do Dínamo de Kiev de 1942. Em plena ocupação alemã, eles cometeram a loucura de derrotar uma selecção de Hitler no estádio local. Tinham sido advertidos:
- Se ganham, morrem.
Entraram resignados a perder, tremendo de medo e de fome, mas não conseguiram aguentar as ganas de ser digno. Os onze foram fuzilados com as camisolas vestidas, no alto de um barranco, quando terminou o jogo.

Eduardo Galeano

[tradução nossa]