Vi
o documentário que passou no National
Geographic, Mistérios de Jesus,
no Domingo de Páscoa. Esperava, francamente, melhor. No primeiro capítulo,
digamos assim, sobre a Natividade,
não é traçada uma linha de fronteira totalmente clara entre o que pertence ao
domínio da história – tal como hoje a concebemos – e o registo puramente
narrativo. Assim, se se realça o simbolismo da mirra, enquanto elemento que serve ao embalsamar do cadáver, assim
significando, os Reis Magos, com
essa oferenda, quanto a morte daquela pessoa (bebé que vão visitar) será tão importante,
quase perpassa a ideia de que estes adivinhos conheciam toda a história
subsequente, pelo que esta – a História – mais não foi do que um simulacro da
realidade, onde, efectivamente, ninguém actuou, ninguém foi responsável,
joguetes nas mãos do destino, dignidade perdida.
Depois,
a ideia de associação de um cometa ao
que foi a estrela descrita pela
Bíblia que guiou até Jesus, releva,
a nosso ver, da tal noção de que a ciência pode corroborar a fé, pode
apresentar provas para esta. Se há provas, não há mistério, nem necessidade de
abertura a este, nem fé. Bem sei os cálculos de astronomia feitos ao longo dos
séculos para tentar provar que a estrela
– ou um elemento que com ela pudesse parecer-se – existiu historicamente. Muito
mais interessante me parece, no entanto, a abordagem puramente narrativa de que
fala, por exemplo, Carreira das Neves,
na qual a estrela aponta para o
carácter extraordinário de Jesus, a sua singularidade e divindade (aliás,
presentes, igualmente no episódio bíblico da matança de bebés por Herodes, a anunciar, já, a realeza de Jesus).
Este o ponto central e que importa; não a Bíblia a fazer ciência. Também não
fica claro no documentário se este leva completamente a sério – e se se
interessa – pelo cometa (no sentido
da abordagem científica; e sobre a matança dos bebés, a mando de Herodes, aos costumes diz nada).
Segue-se
um tempo desmesurado oferecido à peregrina ideia de que Jesus terá estado no
Reino Unido, aprendendo dos druidas as
curas e os milagres. Sem um único facto a sustentar, sem um texto a remeter
para essa zona, sem uma amostra de prova da sua passagem por Inglaterra,
revela-se um exercício um tanto fútil aquele que o documentário realiza durante
15 ou 20 minutos.
A
leitura do processo de Jesus também não prima pelo pormenor, nem pela exactidão
jurídica (por exemplo, quanto aos poderes do Sinédrio). Mas, pelo menos ali, não se coloca um Pilatos à beira da conversão e a deixar
à escolha de uma nação o nazareno ou Barrabás (aqui já opta, completamente, o
documentário, por um registo histórico-crítico).
Já
agora, para se ter uma ideia de quão complexa perdura sendo a hermenêutica dos
textos acerca do encontro com o governador romano, Aslan chega a questionar a sua realização histórica (mais ainda, a
parte relativa a qualquer discussão (filosófica) sobre a verdade) – na esmagadora
maioria dos casos, Pilatos colocava “um rabisco” e não procedia a qualquer
julgamento; só quando considerava muito perigoso o réu. Tal autor coloca,
igualmente, em cheque a ideia de julgamento do Sinédrio, nomeadamente na hora descrita e em casa do sumo-sacerdote. Quanto à crucificação,
esta era muito utilizada, porque, informa-nos, era “muito barata”. Mas não
servia para condenar alguém à morte, pois muitas vezes, fruto da selvajaria
(nomeadamente, perpetrada pelos soldados) até ao local da crucificação, já os
condenados tinham perecido. O objectivo era amedrontar, intimidar: se beliscais a ordem (pax romana), é isto
que vos acontece. Por isso, sempre as crucificações eram públicas e
publicitadas. Os cadáveres, expostos, ficam à espera de aves e outros animais
que venham sobre eles (daí, destes cadáveres das crucificações, ganhou o nome o
lugar do gólgota, o lugar da caveira, diz Aslan). Está longe,
este autor, é de explicar, ainda por cima com riqueza de detalhes, como faz
Gnilka, como aqui se separavam procedimentos de judeus e de romanos (e, como,
por isso, foi o corpo de Jesus recolhido e sepultado).