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sábado, 18 de março de 2017

Bento XVI e o futuro da Igreja


Sobre o seu sucessor, Bento XVI afirma, na entrevista a Peter Seewald, Conversas Finais, que se trata de "uma lufada de ar fresco na Igreja, uma nova alegria, um novo carisma com o qual as pessoas se identificam; de facto, é algo bonito" (p.60). A quando da sua eleição, Bento XVI ficou surpreendido ("foi por isso uma enorme surpresa para mim", p.54). Não que tivesse um nome na cabeça, mas um perfil ("não alguém em concreto, mas uma pessoa diferente, sim (...) não pensei que ele fosse um dos candidatos pré-seleccionados", p.55); ainda que o nome de Jorge Mario Bergoglio tivesse surgido com força no conclave que elegeu Ratzinger, a partir daí não mais tinha aparecido e o Papa Emérito não estava a pensar no argentino para Papa ("mas depois a sua forma, por um lado, de rezar e, por outro, de falar ao coração das pessoas acendeu imediatamente a centelha", p.54). Conhecia-o das visitas ad limina, tinha-o como um homem resoluto da argentina ("alguém que, na Argentina, de um modo bastante resoluto, afirmava: 'Isto faz-se e isto não se faz». Não conhecia a sua faceta afectuosa, de dedicação muito pessoal às pessoas", p.55), mas encontrou, agora, um afecto, um apego às pessoas, um calor que desconhecia. 
Francisco não consulta Bento XVI constantemente. Mas envia-lhe documentos - como exortações apostólicas - com especial reverência e simpatia. Sobre a Evangelii Gaudium: "Não é um texto pequeno, mas é bonito. Foi escrito de uma forma que nos prende. Certamente nem tudo é dele, mas contém muita informação pessoal" (p.59). Ou seja, Francisco "é certamente também um Papa da reflexão. Ao ler a exortação apostólica Evangelii Gaudium ou ainda as entrevistas, constato que é uma pessoa meditativa, alguém que trabalha intelectualmente as questões modernas" (p.57). Em todo o caso, Bento XVI acha "bem que que ele [Francisco] estabeleça um contacto tão direto com as pessoas, Pergunto-me naturalmente, quanto tempo é que ele irá aguentar, porque duzentos ou mais apertos de mão, e por aí adiante, todas as quartas-feiras, exige muita-força" (p.58) Vindo da Argentina, o Papa Francisco é também italiano, símbolo de uma união entre o antigo e o novo, no mundo católico que assim bebe uma inspiração tão necessária:

"Significa que a Igreja se mexe, é dinâmica e aberta e nela estão em curso novos desenvolvimentos. Significa que ela não ficou cristalizada num qualquer modelo. Antes pelo contrário, há sempre qualquer coisa de surpreendente a acontecer, ela tem uma dinâmica que a pode renovar constantemente. Admirável e encorajador  é o facto de precisamente também no nosso tempo acontecerem coisas de que não estávamos à espera e que mostram que a Igreja está viva e cheia de novas possibilidades. Por outro lado, era de esperar que a América do Sul tivesse um papel importante.  É o maior continente católico e, ao mesmo tempo, o mais sofredor e o mais problemático. Possui de facto grandes bispos e, apesar de todo o sofrimento e todos os problemas, também conta com uma Igreja muito dinâmica. Nessa medida, de alguma forma, era também a hora da América do Sul, sendo que o novo Papa é simultaneamente interior entre o antigo e o novo mundo, bem como a unidade interior da História (...) É evidente que a Europa já não é o centro da Igreja Universal. Pelo contrário, a Igreja surge agora verdadeiramente na sua universalidade, tendo o mesmo peso em todos os continentes. A Europa mantém a sua responsabilidade, as suas tarefas específicas. A fé na Europa tem-se enfraquecido de tal maneira que isso, só por si, faz com que apenas de forma limitada ela consiga ser a verdadeira força impulsionadora da Igreja Universal e da fé na Igreja. E vemos também que, através de novos elementos (por exemplo africanos, sul-americanos ou filipinos), há uma nova dinâmica que entra na Igreja e renova um pouco o Ocidente cansado, volta a dinamizá-lo, desperta-o mais uma vez do cansaço, do esquecimento da sua fé. Quando penso designadamente na Alemanha, lembro-me de que aí há certamente uma fé viva e um profundo empenho em Deus e nas pessoas. Contudo, por outro lado, temos o poder das burocracias, que está presente, a teorização da fé, a politização e a falta de uma dinâmica viva, que ainda por cima, sob o peso das estruturas, muitas vezes parece ser quase esmagada, pelo que a valorização de outros pesos na Igreja Universal e a nova evangelização  da Europa a partir do exterior são encorajadoras. (...) Não é apenas a Igreja, no seu todo, que influencia a igreja local. Segundo São Paulo, a doença de um qualquer membro afecta todos. O empobrecimento da fé na Europa, por exemplo, é também uma doença para os outros continentes" (pp.56-57 e 60)

domingo, 12 de maio de 2013

Sobre a "nova evangelização" (VII)


Redescobrir a paróquia

 
1-     Nesta segunda parte, do capítulo segundo, a instrumentum laboris apresenta a nova evangelização como “processo de relançamento da missão fundamental da Igreja” (nº77), que parte da auto-avaliação das comunidades, que compromete todos os sujeitos eclesiais: indivíduos, comunidades, paróquias, dioceses, Conferências Episcopais, movimentos, grupos – todos procederão a uma avaliação da sua vida de fé e acção pastoral.
A paróquia readquire, nomeadamente em sede de crescente concentração demográfica urbana, centralidade que visa, justamente, obstar à “dispersão das grandes metrópoles” e ser susceptível de melhor animar a fé e “irradiar com o seu testemunho o espaço social” (nº80); “sentinelas capazes de escutar as pessoas e suas necessidades”.
Em um balanço/aggiornamento do que é/deve ser a paróquia, creio que faz sentido dizer-se que

 

Inegavelmente, a paróquia continua a ter um papel central, em termos de vizinhança e ritmo cristão da vida para o comum dos crentes. Tem a força de milénio e meio de progressiva existência e a debilidade de ter nascido sobretudo em meio rural, que dificilmente se projecta tal e qual em meio urbano e, ainda mais, de urbanização massiva. A Ecclesia in Europa crê que, «embora carecida de constante renovação», a paróquia «é capaz ainda de proporcionar aos fiéis o espaço para um real exercício da vida cristã e ser lugar também de autêntica humanização e sociabilização, quer no contexto dispersivo e anónimo típico das grandes cidades modernas quer em zonas rurais com pouca população» (n.15).

Renovação paroquial que passará pela sua tessitura interna, em termos de «comunidades de comunidades» e «família de famílias», para usar expressões típicas do pontificado wojyliano; passará também pela necessária cooperação interparoquial, no esquema de «unidades pastorais» ou outro semelhante; e contará decerto com a cooperação que podem oferecer «os novos movimentos e as novas comunidades eclesiais» que, sempre segundo a Ecclesia in Europa e as propostas sinodais que lhe subjazem, «ajudam os cristãos a viverem mais radicalmente segundo o Evangelho; são berço de diversas vocações e geram novas formas de consagração; promovem sobretudo a vocação dos leigos e levam-na a exprimir-se nos diversos âmbitos da vida; favorecem a santidade do povo; podem ser anúncio e exortação para muitos que de outro modo não se cruzariam com a Igreja; frequentemente apoiam o caminho ecuménico e abrem sendas para o diálogo inter-religioso; servem de antídoto contra a difusão de seitas; são de grande ajuda para irradiar vitalidade e alegria na Igreja» (n.16)[1].

 

Para D. Manuel Clemente é evidente que

 

O catolicismo europeu só terá futuro se este for declaradamente evangelizador e missionário, começando a «gentilidade» no próprio bairro, escola ou hospital, quando não na própria casa e família de cada um (…) Partindo a missão da Igreja da própria missão divina, ela tem de radicar-se, necessariamente, em experiências comunitárias autênticas, que eduquem e transportem segundo o Deus Amor. Das famílias às paróquias, dos institutos a todas as formas agregativas da vida cristã, a partilha do Evangelho e da vida é a fonte essencial da missão e da nova evangelização. Retomo, a propósito, uma luminosa passagem da exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici, que já insistia em 1988: «É urgente, sem dúvida, refazer em toda a parte, o tecido cristão da sociedade humana. Mas a condição é a de refazer o tecido cristão das próprias comunidades eclesiais…» (n.34)[2].

 

Fundamental é que se perceba a urgência de

 

Reproduzir hoje as condições que permitiram a revelação de Cristo, como há dois mil anos aconteceu. A evangelização foi uma experiência comunitária (…) Nisto se distinguiu e distingue o Cristianismo de antigas e reincidentes derivas «gnósticas», que intelectualizam ou subjectivizam a doutrina e subalternizam a comunidade (…) o (re)conhecimento de Cristo está absolutamente ligado à pertença comunitária e evangelizar é integrar numa comunidade, que é também o seu corpo[3].



[1] M.CLEMENTE, o.c., p.54-55.
[2] Ibidem, p.63-64.
[3] Ibidem, p.67-69.

sábado, 11 de maio de 2013

Sobre a "nova evangelização" (VI)


R.FISICHELLA, o.c., p.37: “O homem contemporâneo (…) tendo esquecido toda a relação com a transcendência, tornou-se alérgico a todo o pensamento especulativo e limita-se ao simples momento histórico, ao átimo temporal, iludindo-se que é verdadeiro somente aquilo que é fruto da verificação científica. Perdida a relação com o transcendente e recusada toda a contemplação espiritual, precipita-se numa espécie de empirismo pragmático que o leva a dar valor aos factos e não às ideias”.
 
M.CLEMENTE, o.c., p.9-10, pede para se “olhar a realidade com mais humildade e menos preconceitos”: “se olharmos agora mais de perto para o que têm sido estes dois milénios, eclesialmente falando, concluiremos decerto que temos de dar muitas graças a Deus. Sem leituras encomiásticas, que só reparam nos altos cumes e não atendem às ravinas que entre eles infelizmente também se abriram; nem leituras destrutivas, que não consideram nem respeitam o que foi e continua a ser a notável colaboração de tantos discípulos de Cristo para a história da humanidade que com todos compartilham: havemos de maravilhar-nos com a infinda capacidade do Evangelho para recriar «todas as coisas em Cristo», nas mais diversas culturas e civilizações, tanto nas circunstâncias mais extremas como na habitualidade mais comezinha”.
 
 
 
Um dos elementos no qual, em meu entender, mais importa atentar na economia global do documento  instrumentum laboris do Sínodo dos Bispos e nas suas reflexões finais, prende-se com a possibilidade de as nossas comunidades de fé, de cada um de nós, poder aprender com a experiência de perseguição, de forte hostilidade, de uma Igreja-minoria que os que connosco participam da mesma fé, mas vivem em ambientes culturais bem diversos dos nossos, propiciam. A experiência dos missionários, estrangeirados de volta aos locais de partida, pode ser exemplar:
 
A evangelização da Europa sempre ganhou com a experiência missionária que se fez além dela. Prelados e missionários, que o tinham sido nos mundos «descobertos» pelos europeus, a partir do século XV, despertaram depois o catolicismo das suas terras de origem; no período dificílimo do catolicismo francês, entre o «terror» revolucionário e a regularização napoleónica, serviu de estímulo e padrão a experiência das missões do Extremo Oriente; as missões populares modernas incluíram alguns aspectos da missão ultramarina; muitas paróquias das últimas décadas ganharam outro modo de estar localmente, graças à experiência periódica de alguns dos seus membros em acções de evangelização e voluntariado noutros continentes…[1]
 


[1] M. CLEMENTE, o.c., p.62-63.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sobre a "nova evangelização" (V)



R. FISICHELLA, o.c., p.38: vivemos “uma religiosidade fundada mais sobre o sentimento [e] incapaz de mostrar o mais vasto horizonte da fé”. Por seu turno, J.M.DUQUE, em Dizer Deus na pós-modernidade, Alcalá, Lisboa, 2003, p.133, sustenta que um dos actuais traços definidores do religioso é “a recuperação da emoção, contra a redução racionalista pretendida pelos sistemas teológicos devedores ou não da modernidade – mas trata-se de uma emoção que com facilidade cai no sentimentalismo neo-romântico ou na subjectivação de toda a experiência religiosa”.

Ora, como bem assinala C.TAYLOR, o.c., p.35: “A naivete [de naïve, ingenuidade] está agora fora do alcance de qualquer pessoa, crente ou descrente igualmente”. Ou, para sintetizar com R.FISICHELLA, o.c., p.73: “a nova evangelização, portanto, exige a capacidade de saber dar razão da própria fé”.



Sobre a "nova evangelização" (IV)



C.TAYLOR, o.c.,p.14. Acrescentará, aliás, o autor que “houve uma mudança titânica na nossa civilização ocidental. Passamos não apenas de uma condição na qual a maioria das pessoas vivia ‘ingenuamente’ em uma interpretação (em parte cristã, em parte relacionada a ‘espíritos’ de origem pagã) como realidade simples, para outra na qual quase ninguém é capaz disso, mas vê sua opção como uma entre muitas outras. Todos aprendemos a navegar entre dois pontos de vista: um ‘engajado’ no qual vivemos da melhor forma possível a realidade para a qual nosso ponto de vista nos abre; e outro ‘desengajado’ no qual conseguimos ver a nós mesmos como ocupando um ponto de vista entre uma gama de perspectivas possíveis, com o qual temos de coexistir de várias maneiras” (p.26). Ponto fulcral, aqui: “a mudança de background, ou melhor, a ruptura com o pano de fundo anterior, torna-se mais evidente quando focalizamos determinadas distinções que fazemos hoje; p.ex., aquela entre o imanente e o transcendente, o natural e o sobrenatural. Todos entendem isso, tanto aqueles que afirmam quanto aqueles que negam o segundo termo de cada par. Essa separação de um nível independente, autónomo, aquele de natureza, o qual pode ou não estar em interacção com algo adicional ou mais além, é um ponto crucial da teorização moderna que, por sua vez, corresponde a uma dimensão constitutiva da experiência moderna” (p.27).


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Sobre a "nova evangelização" (III)


1-   Na parte segunda, do capítulo II, do Instrumentum Laboris, da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos abandonou-se o registo do puro diagnóstico do estado do mundo e da situação da Igreja nele – como, mutatis mutandis, até então, em tal documento, se vinha operando - para, do mesmo passo, se propugnarem (algumas) soluções, ou perspectivar linhas de acção, a prosseguir.
2-      Desde logo, a exigência de uma “auto-crítica” que a Igreja impõe a si mesma, “evitando o imobilismo mediante uma visão atenta” (nº68)[1] é método purificador que, aliás, nas conclusões emanadas do Sínodo será enfatizado[2], com os Bispos a assumirem, na primeira pessoa, a(s) sua(s) responsabilidades/erros; quanto a (sua) partilha da condição humana, no que esta tem de imperfeição, contribuiu, de sobremaneira, para os aspectos detectados como actuais constrangimentos à acção da Igreja.
3-      As debilidades da Igreja, constatam os Bispos, traduziram-se, não raramente, em situações de “apostasia interior” por parte de inúmeros cristãos (católicos); levou ao enfraquecimento da fé, à falta de participação pessoal e de experiência de transmissão da fé, por banda de inúmeros membros da ecclesia.
Desta sorte, tais “debilidades” não são, meramente, enunciadas, mas, concretizadas, permitem-nos observar, mais de perto, o que correu mal e devemos corrigir: “insuficiente acompanhamento espiritual dos fiéis no seu itinerário formativo, intelectual e profissional; burocratização das estruturas eclesiásticas, que se mostram distantes do homem comum e das suas preocupações existenciais” (nº69).
Se na visita ad limina a Roma, por parte dos Bispos portugueses, durante o pontificado de Bento XVI[3], esta dimensão da “burocratização eclesiástica”, de uma Igreja demasiado voltada sobre si própria[4], havia já sido destacada, como vemos nós a evolução que, para nos atermos, por um momento, ao espaço nacional, tornando mais próxima a reflexão abstracta, a Igreja, neste contexto, tem tido, nos anos mais recentes? Por outro prisma, se em documentos da Conferência Episcopal Portuguesa[5] se plasma a urgência de um acompanhamento espiritual ao catequista, para considerarmos, exemplarmente, este transmissor da fé cristã, que caminho tem sido feito, neste âmbito?
Interroguemos, ainda: será, em um outro domínio, que não é justo reconhecer quanto a Igreja, neste tempo de inúmeras dificuldades aos níveis mais básicos da existência humana, no nosso país, tem dado o testemunho da caridade e da solidariedade, sendo decisiva para milhares de pessoas?

O Instrumentum laboris do Sínodo dos Bispos reporta, justamente, o actual momento como o de uma importante “oportunidade para a caridade”. Embora creiamos que a formulação da expressão em causa – ademais, reiterada nas conclusões do Sínodo – possa ter uma ambiguidade que permita interpretações de cariz negativo, sabemo-la bem (de)limitada pelos ensinamentos do Magistério, maxime Deus Caritas Est[6] que se debruça, com detalhe, sobre a virtude (teologal) da caridade.




[1] Cf. SÍNODO DOS BISPOS – XIII ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA, A nova evangelização. Para a transmissão da fé cristãinstrumentum laboris, in H.ALVES, Ano da Fé, Difusora Bíblica, Fátima, 2012.
[3] Cf. BENTO XVI, Discurso aos Bispos portugueses durante a visita Ad Limina, http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&id=52877, consultado a 15/11/12.
[4] E note-se como o ainda Cardeal BERGOGLIO, nas reuniões pré-conclave, sublinhou muito esta dimensão da necessidade de descentramento da Igreja face a si própria, como que um programa/roteiro para o Papa FRANCISCO: “Evangelizar supõe zelo apostólico. Evangelizar supõe para a Igreja a ousadia de sair de si mesma. A Igreja é chamada a sair de si mesma e ir para as periferias, não só geográficas, mas também existenciais: as periferias do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e desprezo relativamente à religião, do pensamento e de toda a miséria.2 - Se a Igreja não sair de si mesma para evangelizar torna-se auto-referencial e, em seguida, fica doente (cf. a mulher do evangelho, dobrada sobre si própria). Os males que, ao longo do tempo, se verificam nas instituições eclesiais têm raiz na auto-referencialidade, uma espécie de narcisismo teológico. No Apocalipse Jesus diz que ele está à porta e chama. Obviamente, o texto refere-se ao bater de fora da porta para entrar...Mas penso também nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro para que o deixemos sair para fora. A Igreja auto-referencial busca Jesus Cristo dentro de si e não o deixa sair.3 - Quando é auto-referencial, a Igreja, involuntariamente, acredita ter luz própria, deixa de ser mysterium lunae e dá lugar a esse mal tão grave que é o mundanismo espiritual (que, de acordo com de Lubac, é o pior mal que pode acontecer à Igreja). Esse é um viver em que uns glorificam os outros. Simplificando, há duas imagens da Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si - a Dei Verbum religiose audiens et 
fidenter proclamans; ou Igreja mundana que vive em si, de si e para si. Isto deve lançar luz sobre as possíveis mudanças e reformas que devem ser feitas para a salvação das almas.
4 - Pensando no próximo Papa: [que seja] um homem que, a partir da contemplação e adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si para as periferias existenciais, que a ajude a ser mãe fecunda que vive da "doce e reconfortante alegria de evangelizar ", in http://religionline.blogspot.pt/2013/03/documento-revelador-sobre-intencoes-do.html, consultado a 26/03/13.
[5] CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA, Para que acreditem e tenham vida. Orientações para a catequese actual da Conferência Episcopal Portuguesa, 2005, in http://www.portal.ecclesia.pt/ecclesiaout/vilacha/crbst_81.html, consultado a 20/06/12.
[6] Cf. BENTO XVI, Carta Encíclica Deus Caritas Est, http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html, consultada a 16/11/12. Especialmente relevante, aqui, a segunda parte do documento.


Sobre a "nova evangelização" (II)


No dizer de Charles Taylor,

Pela primeira vez na história um humanismo puramente autosuficiente tornou-se uma opção amplamente disponível. Quero dizer com isso um humanismo que não aceita quaisquer objectivos finais além do próprio florescimento humano, nem qualquer lealdade a nada além desse florescimento. Isto não ocorreu com nenhuma outra sociedade anterior [com excepção do tempo do “epicurismo antigo que era um humanismo autosuficiente, só que era uma andorinha que não faz o Verão. Na altura só foi abraçado por uma minoria de elite, que consistia ela própria uma minoria”][1].

De forma lapidar, uma era secular é aquela na qual o eclipse de todas as metas que vão além do florescimento humano se torna concebível[2].





[1] C.TAYLOR, Uma era secular, Unisinos, São Leopoldo, 2010, p.33.
[2] Ibidem, p.34.


domingo, 5 de maio de 2013

Sobre a "nova evangelização"


 
 
D. Manuel Clemente, coincidindo no tempo e na espiritualidade com o Papa Francisco da nova esperança, acaba de publicar uma obra intitulada O Tempo Pede Uma Nova Evangelização, que seguramente vai ficar entre os textos clássicos da pregação católica renovada.
 
Adriano Moreira, DN, 16/04/13.
 
 
1-      Em uma intuição profética[1], Bento XVI, em continuidade, é certo, com os seus predecessores – recorde-se a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, maxime nº20, de Paulo VI[2]; atente-se na ligação estabelecida com o Concílio Vaticano II e seu programa, plasmado na Gaudet Mater Ecclesiae, maxime 6.5, de João XXIII[3]; anote-se como foi João Paulo II a utilizar, pela primeira vez, de entre os Sumos Pontífices, a expressão “nova evangelização”, a 9 de Junho de 1979, em Nowa Huta, Mogila, no Santuário de Santa Cruz[4]; registe-se, ainda, que originariamente, tal expressão, “nova evangelização”, surge no Documento de Puebla (1979)[5] – criou, através da Carta Apostólica Ubicumque et Semper[6], um Pontifício Conselho para a promoção da Nova Evangelização.

2-      A Exortação Apostólica Ecclesia in Europa[7], de João Paulo II, enumerara, já em 2003, alguns inquietantes sinais dos tempos que os anos vindouros só confirmariam: i) “crise de memória e herança cristãs”; ii) “medo de enfrentar o futuro”; iii) “fragmentação da existência”; “enfraquecimento progressivo da solidariedade”; iv) “uma antropologia sem Deus e sem Cristo”.

3-      Ora, em consequência, “novo ardor, novos métodos e expressões” (João Paulo II, 1983)[8] hão-de (re)descobrir-se fulcrais nesse imperativo com que, em permanência, devemos confrontar-nos: “Cristianismo é conversão constante”[9]. Mais do que uma delimitação absolutamente apurada do ponto de vista conceptual relativamente à expressão “nova evangelização” – “se o soubéssemos [o significado da expressão “nova evangelização”] já não seria necessário fazer o Sínodo. Penso que é mesmo por não sabermos o que é e sobretudo como fazer a nova evangelização que o Papa convocou este Sínodo![10], dirá D. António Couto – e não deixando de se admitir como possível que esta, a referida expressão, possa, inclusivamente, induzir em erro um leitor/hermeneuta menos atento/informado/conhecedor – “se acentuarmos demasiadamente o novo, sim [a expressão “nova evangelização” pode induzir em erro]”[11], anui o Bispo de Lamego -, cremos que importará, sobretudo, e antes de mais, compreender em que consiste e se traduz (ou em que deverá consistir/traduzir-se a “nova evangelização”): “nova força, nova dinâmica, nova capacidade de nos colarmos mais a Jesus Cristo para sermos capazes de levar a Sua mensagem às pessoas de hoje, quer às crentes que precisam de ser confirmadas e formadas na sua fé, quer àquelas que não acreditam ou que nunca foram despertadas para isso e que nós também temos de abordar[12]. Por outro lado, primacial se torna, igualmente, traçar-lhe os pressupostos: para a (nova) evangelização “são indispensáveis dois itens: 1º) que a Palavra seja insistentemente proclamada em cada comunidade; e 2º) que cada comunidade se deixe constantemente converter por ela”[13] – um desígnio já anunciado, aliás, na Constituição Dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II.

Acresce que a qualificação (de) “nova” - para a pretendida evangelização - supõe que anteriores (evangelizações) ocorreram. Neste contexto, os subsídios do historiador afiguram-se-nos, a nós receptores de uma tradição na qual a “nova evangelização” se integrará, verdadeiramente preciosos. Tendo como pré-compreensão a noção de que “as grandes campanhas evangelizadoras não partem da massa eclesial, mas do fermento que as levede”, D. Manuel Clemente identificará quatro momentos/etapas de evangelização que precederam a que se pretende para o actual momento histórico: “Jesus com os seus mártires para a primeira evangelização” (nos primeiros séculos do cristianismo); “os monges da Alta Idade Média para a segunda” (após o desaparecimento da estrutura imperial, com a cidade a dar lugar ao campo, a organização episcopal a subdividir-se em pequenos núcleos paroquiais); “os mendicantes para a terceira” (a dos sécs.XII e seguintes, onde outra Europa emerge: crescimento demográfico, animação comercial, capitalização e reurbanização); “a quarta evangelização, também «nova», no seu tempo, foi especialmente protagonizada por missionários de além e aquém-mar que, no século XVI para cá reanimaram e projectaram em redor de comunidades cristãs”[14] (desequilíbrios cidade-campo, desenvolvimento mercantil, abertura dos espaços ultramarinos, circunspecção mental e religiosa, superstição, divisão entre cristãos, reforço dos Estados face ao Papa).

4-      Se, hoje, uma quinta evangelização se afirma, convém compreender que cenário, em rigor, visa recobrir e o programa a que não pode faltar/falhar:

 

a)       A sociedade está fragilizada nas famílias, incerta na juventude, perplexa na meia-idade e desacompanhada na velhice. Está geralmente deslocalizada, por razões de trabalho ou falta dele, muitas vezes peregrina da subsistência possível, com grande diluição dos ritmos e pontos de encontro tradicionais e intergeracionais.

b)       A cultura apresenta notas correspondentes de fragmentação, errância e retraimento subjectivo, desconfiando quase instintivamente de quanto apareça como pré-determinado, institucional ou coactivo. A grande massa de informação e distracção, não criticada nem assimilada, reduz facilmente a realidade ao virtual ou imediatamente compensatório, sobretudo sem compromisso.

c)       Estes aspectos «contracenam» com outros: grandes generosidades de pessoas e grupos, em relação a muitas necessidades alheias, com picos surpreendentes de adesão a iniciativas solidárias, da parte de jovens e menos jovens; acolhimento fácil de propostas culturais variadas, campanhas ecológicas e um ou outro movimento cívico; disponibilidade para partir, descobrir, conhecer…

d)       Neste quadro genérico, a «nova evangelização» terá de retomar criativamente o contributo das quatro anteriores – testemunho evangélico (mártires), experiência comunitária de adoração e serviço (monges), proximidade com todos, de pobres para pobres (frades), evangelização permanente do mundo em redor (missionários).

e)       Não enfrentado – em geral e na Europa – a oposição frontal dos primeiros séculos, o testemunho de hoje, tem de ser convicto, coerente e persistente, nos vários meios em que a vida decorre, qual «martírio da paciência» (expressão do cardeal Casaroli).

No mundo urbano que hoje prevalece, também as comunidades se devem tornar locais disponíveis e acolhedores de adoração e serviço, autênticos «mosteiros na cidade», alargando e revendo horários, num ritmo que já não é rural em tantos casos. Na aproximação a todas as pobrezas, antigas e novas, a caridade será necessariamente criativa, procurando os sós, refazendo vizinhanças, animando tudo o que promova a todos (…)

f)        Tudo isto irá por diante na rede alargada e complexa em que hoje se articulam as pessoas e os grupos, verdadeiramente translocal, ainda que indispensavelmente situada – em localizações múltiplas, aliás, tanto territoriais como mediáticas e informáticas[15].

 

Em resumo e recapitulando,

 

a)       a nova evangelização visa proporcionar aos nossos contemporâneos o encontro com Jesus Cristo; b) isto mesmo deve acontecer, tanto em terras que foram evangelizadas há muito, como naquelas que o foram mais recentemente, por esse mundo além; c) em todas elas urge reavivar uma fé contrariada por contextos culturais que lhe resistem, bem como à sua incidência social[16].

 

Se procurássemos, todavia, e ainda, uma suplementar síntese inspirada/inspiradora, em lídima expressão literária, com carácter descritivo, do objectivo precípuo de toda a evangelização diríamos que

 

A tarefa mais urgente e inadiável de toda a evangelização é transformar pelo espírito a mera religiosidade em autêntica “piedade” (= vivência filial), naquela «água viva» que murmurava no coração de Inácio e lhe sussurrava constantemente: «Vem para o Pai!» Era essa a alma de Cristo, é este o segredo dos cristãos. É esta também a liberdade final de toda a criação, operada por corações livres de toda a concupiscência e cobiça e assim vencedores de qualquer desigualdade ou corrupção. Onde Deus é tudo há lugar para tudo e há espaço para todos. Sabia-o perfeitamente São Paulo, ao escrever: «Pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus!» (Rm 8, 19)[17]

 



[1] R.FISICHELLA, Nova Evangelização – um desafio para sair da indiferença, Paulus, Lisboa, 2012, p.8.
[2] Cf. PAULO VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, in http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_exhortations/documents/hf_p-vi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi_po.html, consultado a 20/01/13.
[3] Cf. JOÃO XXIII, Discurso de Sua Santidade Papa João XXIII na abertura solene do ss. Concílio, in http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/speeches/1962/documents/hf_j-xxiii_spe_19621011_opening-council_po.html, consultado a 20/01/13.
[4] Cf. JOÃO PAULO II, Homilia do Santo Padre no Santuário de Santa Cruz, in http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/homilies/1979/documents/hf_jp-ii_hom_19790609_polonia-mogila-nowa-huta_po.html, consultado a 20/01/13. Vide, em especial, ponto 1, in fine, da homilia.
[5] Cf. III CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO – DOCUMENTO DE PUEBLA, in http://multimedios.org/docs/d000363/, consultado a 20/01/13.
[7] Cf. JOÃO PAULO II, Exortação apostólica Ecclesia in Europa, in http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_20030628_ecclesia-in-europa_po.html, consultado a 20/02/13.
[8] Cf. JOÃO PAULO II, Discurso do Santo Padre João Paulo II à Assembleia do Celam, in http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1983/march/documents/hf_jp-ii_spe_19830309_assemblea-celam_sp.html, consultado a 20/02/13.
[9] M. CLEMENTE, O tempo pede uma nova evangelização, Paulinas, Prior Velho, 2013, p.7.
[10] AGÊNCIA ECCLESIA, Adjectivo “nova” pode trair a evangelização, entrevista com A. COUTO, in http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=92669, consultado a 22/11/12.
[11] Ibidem.
[12] Ibidem.
[13] M. CLEMENTE, o.c., p.11.
[14] Ibidem, p.20-21. A consulta da antologia seleccionada por M. CLEMENTE, que busca, na economia desta sua obra, propor-se paradigmática de cada um dos períodos analisados, como correspondentes às diferentes ‘levas’ de evangelização revela-se particularmente interessante (e pode assumir mesmo índole pedagógica).
[15] Ibidem, p.23-25.
[16] Ibidem, p.66.
[17] Ibidem, p.14.