Por vezes, a esquerda não percebe que se concentra apenas em políticas redistributivas ou em dizer que os banqueiros fazem demasiado dinheiro. Tem de o complementar com uma análise acerca daquilo que os banqueiros fazem e do que correu mal com o sector financeiro (...) O sistema financeiro pode ser reformado e colocado dentro do círculo da produção. Não é ser anticapitalista, é tentar abanar o capitalismo para que atinja o objectivo que queremos. Não vale a pena termos um sistema financeiro que apenas se financia a si próprio. No Reino Unido, 90% do financiamento vai de volta para o sector financeiro, seguros e imobiliário. Não vai para a "economia real". (...) O capitalismo que temos hoje é ultrafinanceirizado. (...)
Por exemplo, quando o imposto sobre as mais-valias foi reduzido, ele diminuiu porque os investidores pressionaram o Governo. (...) É óbvio que devíamos ter um imposto sobre transacções financeiras e que devíamos tributar menos o trabalho. Devíamos também adoptar uma postura mais activa para o valor, resgatando a ideia de ter um "propósito". (...) Se o Estado assume que está lá apenas para facilitar, autorizar, redistribuir e corrigir, em vez de ser um criador de valor, esse é um ponto de partida negocial mais complicado. (...) Tivemos um ataque explícito ao Estado, com a ideia de Thatcher e Reagan de que o Estado só teria de deixar de ser um obstáculo. Esse ataque neoliberal foi acompanhado de novas expressões e visões sobre para que serve o Estado. Esta ideia de que ele está lá apenas para administrar e regular é relativamente nova. Alguns dos gestores de topo queriam trabalhar em instituições públicas. Hoje, cada vez mais, quem vai trabalhar para o sector público, em vez de ir para a Goldman Sachs ou a Google, é visto como um falhado. Tivemos também uma desregulação do sector financeiro, que permitiu aos interesses financeiros ganharem força. Crise após crise, o Estado estava lá apenas para salvar os bancos e apanhar os cacos. Quase não consegue fazer o seu trabalho, que é pagar por escolas, saúde e infra-estruturas e garantir a sustentabilidade. O Estado é útil, produtivo e estratégico e conseguiu algumas das maiores proezas dos nossos tempos. Todas as coisas que tornam o iPhone inteligente foram financiadas pelo sector público. Internet, GPS, touchscreen...Isso aconteceu devido à organização específica do Estado e não porque tenha atirado dinheiro para cima dos problemas. (...)
Não transformámos o sistema. Os dados para os quais olho, como a recompra de acções, estão a piorar, não criámos um imposto sobre transacções financeiras, a fatia de capital continua a crescer mais do que o trabalho...Não há sinais de que haja uma mudança alargada. (...) Barcelona está a fazer algo interessante. Além de tentar tributar as empresas digitais, está a questionar por que razão elas têm sequer os dados. Mesmo no caso do Rendimento Básico Incondicional, não é surpreendente que as empresas tecnológicas o apoiem, porque isso não muda a história de que eles são os criadores de valor e, depois, dá-se uma borla aos cidadãos.
Mariana Mazzucato, entrevistada por Nuno Aguiar, para a Visão nº1380, de 15-08 a 21-08-2019, p.13-14.
