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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

NÃO TRANSFORMÁMOS O SISTEMA


Por vezes, a esquerda não percebe que se concentra apenas em políticas redistributivas ou em dizer que os banqueiros fazem demasiado dinheiro. Tem de o complementar com uma análise acerca daquilo que os banqueiros fazem e do que correu mal com o sector financeiro (...) O sistema financeiro pode ser reformado e colocado dentro do círculo da produção. Não é ser anticapitalista, é tentar abanar o capitalismo para que atinja o objectivo que queremos. Não vale a pena termos um sistema financeiro que apenas se financia a si próprio. No Reino Unido, 90% do financiamento vai de volta para o sector financeiro, seguros e imobiliário. Não vai para a "economia real". (...) O capitalismo que temos hoje é ultrafinanceirizado. (...)
Por exemplo, quando o imposto sobre as mais-valias foi reduzido, ele diminuiu porque os investidores pressionaram o Governo. (...) É óbvio que devíamos ter um imposto sobre transacções financeiras e que devíamos tributar menos o trabalho. Devíamos também adoptar uma postura mais activa para o valor, resgatando a ideia de ter um "propósito". (...) Se o Estado assume que está lá apenas para facilitar, autorizar, redistribuir e corrigir, em vez de ser um criador de valor, esse é um ponto de partida negocial mais complicado. (...) Tivemos um ataque explícito ao Estado, com a ideia de Thatcher e Reagan de que o Estado só teria de deixar de ser um obstáculo. Esse ataque neoliberal foi acompanhado de novas expressões e visões sobre para que serve o Estado. Esta ideia de que ele está lá apenas para administrar e regular é relativamente nova. Alguns dos gestores de topo queriam trabalhar em instituições públicas. Hoje, cada vez mais, quem vai trabalhar para o sector público, em vez de ir para a Goldman Sachs ou a Google, é visto como um falhado. Tivemos também uma desregulação do sector financeiro, que permitiu aos interesses financeiros ganharem força. Crise após crise, o Estado estava lá apenas para salvar os bancos e apanhar os cacos. Quase não consegue fazer o seu trabalho, que é pagar por escolas, saúde e infra-estruturas e garantir a sustentabilidade. O Estado é útil, produtivo e estratégico e conseguiu algumas das maiores proezas dos nossos tempos. Todas as coisas que tornam o iPhone inteligente foram financiadas pelo sector público. Internet, GPS, touchscreen...Isso aconteceu devido à organização específica do Estado e não porque tenha atirado dinheiro para cima dos problemas. (...)
Não transformámos o sistema. Os dados para os quais olho, como a recompra de acções, estão a piorar, não criámos um imposto sobre transacções financeiras, a fatia de capital continua a crescer mais do que o trabalho...Não há sinais de que haja uma mudança alargada.  (...) Barcelona está a fazer algo interessante. Além de tentar tributar as empresas digitais, está a questionar por que razão elas têm sequer os dados. Mesmo no caso do Rendimento Básico Incondicional, não é surpreendente que as empresas tecnológicas o apoiem, porque isso não muda  a história de que eles são os criadores de valor e, depois, dá-se uma borla aos cidadãos


Mariana Mazzucato, entrevistada por Nuno Aguiar, para a Visão nº1380, de 15-08 a 21-08-2019, p.13-14.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A Economia não é Física


Por exemplo, quais deviam ser os preços dos medicamentos? Eu acho que os preços actuais estão errados, porque não capturam o valor criado por outros actores. Mas também pode argumentar: mesmo quando o preço está certo, deve o preço ser a forma como avaliamos os medicamentos? Para medicamentos essenciais, o seu valor está em serem, basicamente, um direito humano. Pode dizer-se que eles até deviam ser grátis. Em vez de preços, o Estado pode optar por usar um mecanismo de prémios e dizer que vai dar mil milhões de dólares a uma empresa que produza um medicamento e depois distribui-lo de graça. Tudo depende da forma como tomamos decisões em sociedade. Nada é determinístico porque a Economia não é Física. Esse é o ponto central: a Economia é uma ciência social e nós temos fingido, utilizando Física newtoniana, que somos estes seres humanos racionais que maximizam as suas acções, e que, de alguma forma, os preços representam um equilíbrio ideal

Mariana Mazzucato, entrevistada por Nuno Aguiar, para a Visão nº1380, de 15-08 a 21-08-2019, p.13.

domingo, 4 de agosto de 2019

HORAS TRABALHADAS (países da OCDE)


Entre os países para os quais a OCDE tem dados, aqueles que trabalham mais horas são a África do Sul, México, Coreia do Sul, Rússia, Grécia, Chile, Israel, Turquia e Polónia. Todos acima das 1800 horas/ano por trabalhador
Mas se nos perguntassem quais são os países mais produtivos do mundo, provavelmente não referiríamos nenhum desses, e teríamos razão. É que, embora trabalhem muito tempo, a riqueza que geram nessas horas é pouco impressionante. Essas nações têm em comum o facto de terem níveis de PIB per capita abaixo da média da OCDE e, tirando Israel, estão todas perto do fundo da tabela. Muitas delas são também aquelas que têm menos férias e feriados. (...)
Entre os países que trabalham menos horas estão Alemanha, Dinamarca, Noruega, Holanda, Suécia, Islândia e França. Os que têm mais dias de férias pagas e feriados? Áustria, Reino Unido, Espanha, Finlândia, França, Islândia e Suécia
A diferença entre os países citados no parágrafo anterior e a outra lista é que uns podem desenhar um processador que vale milhões de euros, enquanto outros podem estar a coser sapatos vendidos a €20 o par. Na realidade, os países mais produtivos do mundo - maior PIB por hora trabalhada - são Irlanda, Noruega e Luxemburgo. (...)
Os EUA são o único país desenvolvido onde não existe um mínimo legal para as férias pagas. Em média, cada americano tira apenas 16 dias por ano. Um número que tem recuado desde meados dos anos 90. A iniciativa Project: Time Off avisa para o perigo de estar a desenvolver-se uma geração de "mártires do trabalho" - pessoas que querem mostrar a sua total dedicação à empresa, que acham que ninguém os consegue substituir quando estão fora. (...) Estes mártires são normalmente solteiros e relativamente jovens.


Clara Soares, Nuno Aguiar, Paulo C. Santos e Sónia Calheiros, Devagar, que temos pressa, Visão nº1378, 01-08-2019 a 07-08-2019, pp.41-43.


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

História do trabalho (síntese)


10000 a.C: O Homem vive como caçador-recolector até à Revolução Agrícola há cerca de 12 mil anos. O trabalho é visto como algo pouco digno, daí ser delegado, em grande parte, a escravos. 

315 a.C.: Aristóteles defende que quem tem de trabalhar para ganhar dinheiro é um escravo. Dinheiro e trabalho intelectual são opostos.

1518: Primeiro navio de escravos parte de África para a América, marcando uma nova era, em que milhares de africanos servem de principal fonte de mão de obra nas Américas.

1520: Lutero argumenta que o trabalho pode servir Deus. O protestantismo acabaria por ser decisivo para a valorização do trabalho quotidiano. 

1760: Arranque da Revolução Industrial e, com ela, inovações tecnológicas decisivas - como o motor a vapor - e o trabalho assalariado. Nasce o local de trabalho e o conceito de trabalhador fabril.

1790: Primeiras fábricas têxteis nascem em Rhode Island. A mão de obra era constituída por crianças entre os 7 e os 12 anos. 

1833: No Reino Unido, as crianças até aos 13 anos passam a "só" poder trabalhar 8 horas nas fábricas.

1850: Segunda Revolução Industrial, com rápida industrialização, novos processos aplicados à produção de aço e a forte expansão da comunicação e do transporte.

1886: Depois da explosão de uma bomba durante um protesto por uma jornada de 8 horas, em Chicago, o 1º de Maio é escolhido como o dia para celebrar os trabalhadores.

1911: Um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, em Nova Iorque, mata 146 trabalhadores, quase todos mulheres, com salários muito baixos. As portas estavam trancadas, para impedir pausas não autorizadas. Foi o contributo decisivo para o crescimento dos sindicatos e do movimento laboral. 

1960: Terceira Revolução Industrial. A ascensão da electrónica, o nascimento dos microprocessadores e maior automação nas fábricas.

1974: É instituído em Portugal o salário mínimo. No ano seguinte, surgiria o subsídio de desemprego.

1989: Tim Berners-Lee inventa a World Wide Web e revoluciona a forma como comunicamos e trabalhamos.

1996: É instituída em Portugal a Lei de 40 horas de trabalho semanal.

2009: É fundada a Uber, na altura com o nome UberCab. Os condutores são vistos como colaboradores da empresa, não como trabalhadores. 

2018: Abre em Seattle a primeira mercearia da Amazon sem trabalhadores na caixa. Basta entrar, colocar os produtos no cesto e sair. 


Breve história do trabalho (excertos), in Visão, nº1332, de 13 a 19/09/2018, pp.44-45. Um dossier, o dedicado pela revista ao trabalho, esta semana, da autoria de Nuno Aguiar.

domingo, 16 de setembro de 2018

Sociedades tradicionais e o mundo contemporâneo


Resultado de imagem para Papua Nova Guiné


P: Os nossos antepassados, que dependiam daquilo que a Natureza lhes dava para sobreviverem, eram mais felizes do que nós? 

R: Com a minha experiência com povos tradicionais, principalmente na Nova Guiné, diria que em alguns aspectos eles são mais felizes do que nós, noutros menos. Eles morrem mais cedo, aos 40 ou 50 anos, e metade das crianças só vive até aos 5 anos. Têm mais dificuldades com fome, perigo, guerra e doenças. Por outro lado, têm relações sociais muito mais ricas. Talvez não seja assim em Portugal, mas os norte-americanos têm relações sociais pouco ricas. Em média, mudamos de casa a cada cinco anos e as amizades são menos profundas. Interagimos uns com os outros por telefone, email ou mensagens. Na Nova Guiné tradicional, todas as interacções são cara a cara. Pode olhar a outra pessoa nos olhos, ver a sua linguagem corporal, cheirá-la, ouvi-la...Por isso é que acho que, em média, as populações tradicionais têm vidas mais ricas do que norte-americanos e europeus.


P: O ser humano viveu durante milhares e milhares de anos em comunidades mais pequenas. Sentimo-nos mais confortáveis nesse ambiente?

R: Significativamente. Só nos últimos dez mil anos é que os humanos têm vivido em sociedades mais complexas. Nesse sentido, os povos tradicionais vivem de forma mais natural. Natural não significa melhor. Eu vivo em Los Angeles por escolha. Não quero mudar-me para a Nova Guiné. Prefiro visitar.


P: O que o surpreendeu mais no tempo em que esteve na Papua Nova Guiné? 

R: Tantas coisas! Fiquei chocado favoravelmente com algumas e negativamente com outras. Fiquei surpreendido com o tempo que passam a conversar. Muito mais tempo do que nós. Durante quase todo o tempo em que estão acordados, estão a falar uns com os outros. Mesmo quando estão na cama, às duas da manhã, alguém pode acordar e começar a gritar para alguém no outro lado da aldeia. Conversam 45 minutos e depois voltam a dormir. Do lado negativo, há muita crueldade e as mulheres são tratadas como bestas de carga. São espancadas pelos homens e lutam com eles, às vezes com armas. Na minha primeira visita à Nova Guiné, ouvi gritos e perguntei o que se passava. Disseram para não me preocupar, que era uma luta entre marido e mulher. E eu disse: "Coitada da mulher! Estão a lutar com o quê?". E eles responderam: "Com machados, claro." "OMG! Temos de ir ajudá-la", disse eu. Explicaram-me que a mulher era tão forte como o homem e conseguia defender-se. "Talvez mate o homem". Fico feliz por viver num país onde a minha mulher não vem atrás de mim com um machado.


P: Que lições deveríamos aprender com essas sociedades tradicionais?

R: Imensas lições. Influenciaram a minha vida. Quando os meus filhos nasceram - tenho dois gémeos -, a forma como os criei dependeu mais daquilo que vi os papuanos fazerem do que os americanos. Lá, as crianças têm imensa liberdade. Nós acharíamos que é demasiado, mas um bebé papuano pode ser deixado ao lado de uma fogueira, com hipóteses de rolar para o fogo. Se ele se aproximar, aprende que não pode voltar a fazê-lo. Não permiti aos meus filhos que pudessem cair em fogueiras, mas dei-lhes liberdade para fazerem as suas escolhas, desde que isso não os matasse. Aos três anos, um deles viu uma cobra e ficou fascinado. Pediu-me uma como animal de estimação. Eu e a minha mulher não adoramos cobras, mas sou biólogo...Não lhe demos uma víbora nem uma cascavel mas oferecemos-lhe uma pequena cobra do milho. Ele acabou por ter cada vez mais cobras, sapos, tartarugas e répteis até a nossa casa ter 146. 


P: O conceito de trabalho nessas sociedades tradicionais é muito diferente?

R: É drasticamente diferente. Eu e você distinguimos trabalho e lazer. Quando estou à secretária a escrever, isso é trabalho. Quando saio de casa de manhã para observar os pássaros, como fiz hoje, isso é lazer. Na Nova Guiné não fariam essa distinção. Tudo serve alguma função. Quando se sentam para conversar é lazer, mas também são relações sociais. Olhando para a Nova Guiné, percebe-se que o conceito de trabalho evoluiu à medida que a sociedade se complexificou. Ali, todos têm de ser capazes de cultivar a sua própria comida, ninguém tem um trabalho.

(...) 

P: Podemos ser os próximos Maias ou o próximo Império Khmer?

R: É possível. Mas a civilização Khmer colapsou sozinha. O mesmo com os Maias. O resto do mundo não colapsou. Hoje, nenhuma sociedade cai sozinha. Isso está a ver-se na Europa. Problemas nas sociedades africanas e no Médio Oriente levam as pessoas a fugir. Quando há problemas na Somália ou na Síria, isso é um problema para Portugal, Espanha e outros países europeus.


P: Partilhamos alguns dos problemas que estiveram na base do colapso dessas civilizações? 

R: Claro que sim. Essas civilizações colapsaram por motivos ambientais, gestão de recursos como água e floresta. Hoje, as sociedades do primeiro mundo têm esses problemas. No passado, havia dificuldades em manter a paz e, no mundo moderno, também as temos. 


P: Quais são as probabilidades de conseguirmos resolver esses problemas nos próximos 30 anos? 

R: Há 51% de hipóteses dos meus filhos serem felizes durante as suas vidas. Há 49% de hipóteses de eles e toda a gente acabaram a viver num mundo terrível.



P: O nosso futuro é mais frágil do que achamos. As grandes civilizações partilham uma certa arrogância?

R: Há arrogância, mas também ignorância. Muitas pessoas não sabem por que razão as sociedades colapsaram. Os líderes políticos, alguns do meu país, são propositadamente ignorantes. Não querem aprender. Desvalorizam a Ciência. A ignorância faz parte, o egoísmo também.

(...)

Eu diria que, daqui a 20 anos, cada vez mais gente vai dizer que não só foi horrível impedir as mulheres de votar e fazer experiências científicas em chimpanzés, como também, foi horrível criar porcos e vacas para os matar.


Jared Diamond, biólogo e escritor, entrevistado por Nuno Aguiar, para a Visão nº1332, de 13 a 19/09/2018, Há 49% de hipóteses de os meus filhos acabarem a viver num mundo terrível, pp.59-60.