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domingo, 9 de setembro de 2018

O que se entende por Ocidente?


A palavra 'Ocidente' nem sempre teve o significado actual. Na Idade Média, foi utilizada para definir o mundo católico, por oposição ao mundo ortodoxo e muçulmano. No século XIX, tornou-se um conceito geopolítico, descrevendo, então, as potências europeias e americanas que se consideravam as herdeiras do mundo greco-romano, por oposição ao resto do mundo. Só depois de 1945 é que ganhou uma conotação ideológica ainda mais acentuada, representando o 'Ocidente' o 'mundo livre' face ao comunismo. Geograficamente, aquilo a que os anglo-saxões chamam 'hemisfério ocidental' engloba também países da Ásia e da Oceânia, como o Japão, a Coreia do Sul e a Austrália.

in Courrier Internacional, edição portuguesa, nº271, Setembro 2018, p.21.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Jesus e Sócrates


Com efeito, faz todo o sentido pensar em Sócrates, quando se tenta compreender a verdadeira identidade de Jesus. Já tivemos ocasião de nos interrogarmos sobre aquilo que o poderia aproximar de um sábio susceptível de ser considerado um verdadeiro mestre de sabedoria. Só isso bastaria, certamente, para nos remeter para a grande figura filosófica da qual Platão, Aristóteles e muitos outros receberam a herança, e nos transmitiram a reflexão e o ensinamento. Contudo, há uma razão ainda mais específica para aproximar uma da outra, essas duas grandes figuras, às quais a nossa história cultural tanto deve: foi diante da sua própria condenação à morte que Sócrates e Jesus foram chamados a mostrar a verdadeira medida do seu empenho no discurso de sabedoria que ambos tinham mantido, cada um à sua maneira
Tendo sido ambos acusados de lançar o descrédito sobre a concepção de Deus ou do divino predominante no seu ambiente, e de se terem tornado, por isso, causa da subversão social, tanto um como outro preferiram morrer a renegarem-se a si próprios, granjeando assim a consideração pelo menos de uma parte da sua posteridade.
Contudo, isso não impede que se devam registar grandes diferenças entre essas duas prestigiosas personalidades. Por um lado, aquilo que chegou até nós do ensinamento de Sócrates traduz uma importante preocupação pelo governo político da cidade, que não se encontra de modo algum em Jesus. Por outro lado e acima de tudo, não se vê no grande filósofo de Atenas qualquer menção que pudesse dizer respeito à existência de um Deus-Pai e à esperança de salvação para os homens.
Como compreender, por fim, a enorme diferença de comportamento entre um Sócrates que continua tranquilamente o seu discurso diante dos seus discípulos, bebendo, completamente impávido, a taça da cicuta que o mataria, e um Jesus entregue aos suplícios que, numa solidão quase total, não tem medo de manifestar a sua dor física nem a sua angústia moral?

Joseph Doré, Jesus explicado a todos, Paulinas, 2017, pp.89-90

quinta-feira, 23 de março de 2017

As "últimas conversas", de Bento XVI (II)

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[o Cristianismo na Europa]

Não podemos desistir de anunciar o Evangelho. No mundo greco-romano, a iniciativa de alguns judeus de partirem à conquista, para o cristianismo, do grande mundo greco-romano erudito e inteligente também pareceu uma ideia totalmente absurda. Haverá sempre grandes insucessos. Não sabemos como a Europa irá evoluir, em que medida é que ainda será Europa no caso das histórias de outros povos lhe darem uma nova estrutura. Independentemente de qualquer cálculo de percentagem de sucesso, é absolutamente necessário anunciar essa outra Palavra que tem em si a força para construir o futuro, dar um sentido à vida das pessoas e ensiná-las a viver. Os Apóstolos não podiam fazer nenhum estudo sociológico para saber se resultaria ou não. Tinham de confiar na força interior dessa Palavra. No início, as pessoas que aderiram eram muito poucas e insignificantes, mas depois foram crescendo. É evidente que a Palavra do Evangelho pode desaparecer de alguns continentes. Vemos bem que as primeiras regiões cristãs – a Ásia Menor e o Norte de África – já não são cristãs. Pode também desaparecer de espaços onde a sua presença era forte. Mas nunca pode deixar de ser dita e nunca pode deixar de ser importante.
pp.230/231

É notório que já não somos coincidentes com a cultura moderna. A configuração fundamental cristã já não é determinante. Hoje em dia vivemos numa cultura positivista e agnóstica, que se tem mostrado progressivamente mais intolerante em relação ao cristianismo, o que fará com que a sociedade ocidental – pelo menos na Europa – não seja, assim sem mais, uma sociedade cristã. Os crentes terão de esforçar ainda mais por continuarem a moldar e serem portadores da reflexão sobre os valores e a vida. Importante será uma religiosidade mais decidida por parte de cada uma das comunidades e das igrejas locais. A responsabilidade torna-se maior.
pp.261/262

Diria que sou um Papa do período entre essas duas eras [uma era passada e uma nova era]. Já não pertenço ao mundo antigo, mas o novo também ainda não chegou verdadeiramente.
p.262

[sobre a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, conhecida como «encíclica contra a pílula»]
A Humane Vitae foi para mim, nas circunstâncias de então e no quadro do pensamento teológico em que me situava um texto difícil (…) nós, eu incluído, não considerávamos o tipo de argumentação satisfatório. Eu procurava uma visão antropológica mais abrangente.
p.186

Peter Seewald: Qual considera ser o seu ponto fraco?
Bento XVI: Talvez a governação resoluta e clara, bem como as decisões que têm de ser tomadas não sejam o meu forte. Neste aspecto sou de facto mais professor, alguém que pondera e reflecte sobre os assuntos espirituais. A direcção prática não é bem a minha qualidade, o que é, diria eu, uma certa fraqueza.
p.266

Cada qual tem o seu carisma. Francisco é um homem da reforma prática. Foi durante muito tempo arcebispo, conhece o ofício, antes tinha sido superior dos Jesuítas e tem designadamente coragem para as questões de carácter organizacional. Eu sabia que não era o meu ponto forte, e também não era necessário porque tinha havido a reforma da Cúria levada a cabo por João Paulo II.
p.222

Talvez eu tenha pensado e escrito demais, é possível. Mas dizer que fiz apenas isso também não corresponderia à verdade.
p.223

Na posição de cardeal da Congregação para a Doutrina da Fé, fica-se a saber de tantas situações, já que ali vão parar todos os escândalos. É preciso ter uma alma forte para poder suportar tudo isso. É sabido que há sujidade na Igreja, mas aquilo que se tem de digerir como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé é imenso.
p.229

Contudo, no geral, [o Pontificado] foi um tempo em que muitas pessoas despertaram de novo para a fé e houve uma enorme movimentação positiva.
p.267


Bento XVI, in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D. Quixote, 2017.


sábado, 22 de outubro de 2016

Que comunidades?


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A partir desta entrevista de Gilles Lipovetsky podemos retirar o seguinte diagnóstico (de mutação) cultural (a Ocidente): a uma fase em que o predomínio das comunidades, das instituições (família, Igreja, Exército...) sobre o indivíduo, em que a segurança (sabia-se a orientação precisa, detalhada, a pauta quotidiana a seguir, e esta era indiscutida) era enorme, ainda que sacrificando-se a liberdade (a pessoa não se divorciava, ainda que o pretendesse, porque o divórcio não era recurso a que se pudesse, digamos culturalmente, deitar mão), sucedeu um estádio emancipado, de liberdade, ou libertário, em que é certo que as instituições, as comunidades não primam já sobre o indivíduo, mas este fica completamente entregue a si, sem qualquer segurança, portanto, como se de puro constructo se tratasse, carecendo de qualquer orientação ou mapa que seguir (no que se tem desaguado em níveis de angústia, stress, ansiedade, etc. inauditos). Pelo que, minha conclusão, sem que restauracionismos sejam possíveis, ou, sequer, desejáveis, a reponderação, individual e colectiva da importância dos sistemas de sentido, a aposta nestes (nos termos, ilustrados com certeza, do séc.XXI), a reconsideração do que dizemos com "razão" e a sua não subsunção a acepções extremamente redutoras, a aposta - que significa uma não errância à deriva contínua - na vida como dom e com sentido, tem hoje uma pertinência completa.
Na literatura que surge como pano de fundo norte-americano no qual as eleições presidenciais de Novembro terão lugar, a noção, partilhada à esquerda e à direita, de comunidades desestruturadas, fundidas, repletas de brechas é clara e com consequências - individualismo, desregulação, desprezo pela importância do Estado, ou desagregação familiar e perda de importância do religioso - que não agradam a nenhum dos lados do hemisfério político. 

sábado, 30 de julho de 2016

Fundamentos do Ocidente (a revolução cósmica cristã)


O meu objectivo principal foi o de chamar a atenção para a peculiar e radical natureza da nova fé naquele contexto: como foi enorme a transformação do pensamento, da sensibilidade, cultura, moralidade e imaginação espiritual introduzida pelo Cristianismo na era da Roma pagã; a libertação que ofereceu em relação ao fatalismo, ao desespero cósmico e ao terror em relação às potências ocultas; a imensa dignidade que conferiu à pessoa humana; a sua subversão dos aspectos mais cruéis da sociedade pagã; a sua (infelizmente apenas parcial) desmistificação do poder político; a sua capacidade de criar uma comunidade moral onde nunca antes tinha existido nenhuma; e a sua elevação da caridade prática sobre todas as outras virtudes (...) o meu argumento consiste, antes de mais, em afirmar que entre todas as muitas grandes transições que assinalaram a evolução da civilização ocidental, quer tenham sido convulsivas ou espirituais, houve apenas uma - o triunfo do Cristianismo - que pode ser apelidada no seu sentido mais pleno como uma «revolução»: uma revisão de amplitude verdadeiramente grande, e que se prolongou no tempo, da visão prevalecente que a humanidade tinha da realidade, de tal modo difusa na sua influência e vasta nas suas consequências a ponto de ter de facto dado origem a uma nova concepção do mundo, da história, da natureza humana, do tempo e do bem moral. No meu entender, devo acrescentar, tratou-se de um evento incomensuravelmente mais admirável quanto à sua criatividade cultural e mais exaltante na sua possibilidade moral do que qualquer outro movimento de espírito, vontade, imaginação, aspiração ou realização na história do Ocidente. E estou convencido de que, considerando a radical diferença entre o Cristianismo e a cultura que ele lenta e inexoravelmente substituiu, a vitória que acabou por obter foi um evento de uma tal improbabilidade ao ponto de colocar em causa os próprios limites da nossa compreensão da causalidade histórica [pp.9-10] (...) Para lá das suas observâncias rituais mais repugnantes [entre as quais a oferta de sacrifício de pessoas aos deuses], as religiões do Império [Romano] eram desprezíveis - a um grau muito elevado - principalmente pelo que não faziam, e de facto nunca consideraram que valia a pena ser feito (...) O culto pagão nunca foi mais tolerante do que na sua tolerância - sem quaisquer rebates de consciência - da pobreza, da doença, fome e falta de abrigo; dos espectáculos de gladiadores, crucificações, exposição de nascituros indesejados, ou da execução  pública de prisioneiros de guerra ou criminosos em ocasiões festivas; na realidade, de quase todas as formas imagináveis de tirania, injustiça, depravação ou crueldade. As seitas autóctones do mundo romano simplesmente não faziam qualquer ligação entre devoção religiosa e algo de vagamente semelhante a uma moral social desenvolvida. No máximo, a sua benignidade podia chegar ao ponto de oferecer hospedagem aos peregrinos ou partilhar refeições sacrificiais com os seus devotos; contudo, mesmo esses magros serviços eram raros e de natureza esporádica, e nunca corresponderam a nada como uma obrigação religiosa de cuidar dos que sofrem, alimentar os famintos ou visitar os prisioneiros. E nem sequer a autoridade do sagrado, na sociedade pagã, servia de alguma forma para mitigar a brutalidade da sociedade no seu todo - muito pelo contrário, na realidade - e seria difícil exagerar essa brutalidade (...) Tácito relata a história do assassínio de Pedânio Secundo em 61 d.C. por um dos seus próprios escravos, o que levou à aplicação do antigo costume de em tais casos dar a morte a todos os escravos da casa - um costume que implicou, nesta ocasião, a execução de aproximadamente quatrocentos homens, mulheres e crianças. É de louvar que tenha havido um considerável protesto público contra a morte de tantos inocentes, mas o Senado concluiu que os antigos hábitos deviam ser respeitados, até pelo exemplo que a matança iria constituir, e em nenhum momento do debate, ao que parece, foi invocado qualquer conceito de justiça divina ou de virtude espiritual (...) o que deve ser sublinhado é que a ordem social que era servida e sustentada pelos cultos imperiais tinha por base, não de modo acidental, mas essencial, uma crueldade difusa, implacável e polimorfa, e que rebelar-se contra tais cultos significava rebelar-se contra essa ordem (...) Foi somente porque aqueles espectáculos [luta de gladiadores] se opunham, por sua natureza, à fé cristã e eram contrários às normas da Igreja que eles foram finalmente suprimidos. Em si mesmo, isto marca uma enorme e irreconciliável diferença (e, necessariamente, um antagonismo) entre sensibilidades morais do Cristianismo e aquelas das religiões que este substituiu. Não nos deveria então surpreender nem perturbar demasiado a descoberta de que os cristãos de finais do séc.IV não estavam inclinados a concordar com Símaco que todos os caminhos religiosos conduzem à mesma verdade, dado que muitos desses caminhos podiam ser percorridos com bastante sucesso sem nunca se olhar para o lado para ligar as feridas de um estrangeiro em sofrimento, nem se interromper a marcha em sobressalto diante de bebés indesejados abandonados para serem devorados pelos animais selvagens, ou diante das atrocidades na arena ou das execuções em massa. Se, tal como os cristãos acreditavam, Deus Se tinha revelado como amor omnipotente, e se a autêntica obediência a Deus exigia uma vida de heroísmo moral, em serviço até a «um destes mais pequeninos», como é que os cristãos haveriam de olhar para a vida religiosa da maior parte dos pagãos, a não ser como uma coincidência bastante escandalosa de servilismo espiritual e insensibilidade moral? E como é que deveriam ter considerado os deuses de cujo poder Cristo os tinha libertado, a não ser como espíritos de conflito, ignorância, caos, destino e violência elementar, e cujos cultos e devoções estavam muito abaixo da dignidade de criaturas modelada à divina imagem?
No fim de contas, teremos entendido muito pouco acerca da cristianização do Império Romano se a considerarmos apenas como a história da substituição de um conjunto de devoções espirituais por outro conjunto de devoções espirituais, devido à «exclusividade» intransigente e cega destas últimas, ou se simplesmente imaginamos (tal como as pessoas modernas são particularmente propensas) que a religião é, por definição, uma questão de convicção «privada» e não uma ordem cultural, social, espiritual e política de valores, autoridades e ideais. O Cristianismo era, sem qualquer ambiguidade, uma revolta cósmica (...) [A emergência do Cristianismo resultou] na invenção de um universo inteiramente novo de possibilidades humanas, morais, sociais, intelectuais, culturais e religiosas. E quer estas novas potencialidades se tenham concretizado de imediato ou somente no decurso de séculos, elas nunca se teriam de todo apresentado à experiência humana se a antiga ordem não tivesse passado e se os deuses que a ela presidiam, lhe concediam uma espécie de brilho espiritual e lhe emprestavam uma forma e estrutura mítica, não tivessem sido reduzidos a um estatuto subordinado. A antiga e a nova religião representavam duas visões essencialmente incompatíveis da ordem sagrada e do bem humano. Elas não podiam coexistir indefinidamente e só um imbecil moral poderá lamentar sem reservas que das duas tenha sobrevivido a que sobreviveu. Os antigos deuses não inspiraram - e, por sua natureza, não o podiam fazer - a construção de hospitais e abrigos, nem fizeram do dar de comer aos famintos e dar de vestir aos nus um caminho de iluminação espiritual, nem promoveram um qualquer conceito coerente de dignidade intrínseca a cada ser humano; eles nunca poderiam ter ensinado os seus seguidores a pensar na caridade como a mais elevada das virtudes nem como uma forma de união com o divino (...) Deve também ser lembrado que os cristãos do Império não eram nenhuma tribo estrangeira que tivesse chegado ao mundo pagão a certo momento, carregada de espadas e de preconceitos colonialistas, e então se tivesse dedicado a erradicar sistematicamente as religiões autóctones de um povo alheio. Os deuses por eles rejeitados tinham também sido os seus deuses, os seus senhores de tempos passados. Se eles vieram a concluir que estes deuses não mereciam reverência e que os cultos destes deuses eram inerentemente irreconciliáveis com aquilo que a história de Cristo tinha neles despertado, seria demasiada presunção da nossa parte querer repreendê-los pela sua «exclusividade» ou «fanatismo» [177-181].

David Bentley Hart, Ilusões dos ateus. A Revolução Cristã e os seus adversários da moda, Frente e Verso, 2016, pp.9-10 e 177-181.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Os fundamentos do Ocidente (liberdade)


Para o padre Jacques Hamel, um homem que morreu, no séc.XXI, na Europa, por ser cristão (católico)


É preciso não esquecer que o conceito de liberdade, assumido como óbvio pela maior parte de nós e que é provavelmente a «ideia» central da modernidade, tem uma história. De acordo com a concepção mais clássica desta questão, fosse pagã ou cristã, entendia-se a verdadeira liberdade como algo inseparável da própria natureza: ser verdadeiramente livre equivalia a ter a possibilidade de realizar a própria «essência» e, assim, desenvolver-se como o tipo de ser que se é. Para Platão ou Aristóteles, ou para autores cristãos como Gregório de Nissa, Agostinho, Máximo, o Confessor, João Damasceno ou Tomás de Aquino, a verdadeira liberdade humana corresponde à emancipação em relação a tudo o que nos impede de levar uma vida segundo a virtude racional, ou de fruir por completo da nossa natureza; e, entre as coisas que nos constrangem, contam-se as nossas próprias paixões sem freio, o nosso abandono consentido aos impulsos momentâneos, as nossas escolhas insensatas ou perversas. Nesta ordem de ideias, somos livres quando alcançamos o fim para que se orienta a nossa natureza mais íntima desde o primeiro momento da existência, e tudo o que nos separa desse fim - mesmo que provenha da nossa vontade - é escravidão. Tornamo-nos livres, assim sendo, de um modo semelhante a como o escultor «liberta» a forma do mármore (na imagem de Miguel Ângelo). Isto significa que somos livres não apenas por podermos escolher, mas somente quando tivermos escolhido bem. Uma escolha errada, por insensatez ou maldade, que contrarie a nossa natureza e distorça a nossa forma, significa tornar-nos escravos do transitório, do irracional, sem objectivo ou, dito com precisão, do que é infra-humano. Para escolher bem, devemos ver de modo cada vez mais claro o «sol do Bem» (para usar a bela metáfora platónica), e para ver de modo mais claro temos de continuar a escolher bem; e quanto mais nos libertamos da ilusão e dos caprichos, tanto mais perfeita se torna a visão e, na realidade, menos há para escolher. Vemos e agimos num único movimento unificado da nossa natureza em direcção a Deus ou ao Bem; e, à medida que avançamos, descobrimos que o afastamento dessa luz é manifestamente cada vez mais um defeito da nossa mente e da vontade e algo cada vez mais difícil de fazer. Por isso, Agostinho definiu o estado mais elevado da liberdade humana não como «ser capaz de não pecar» (posse non peccare) mas como «ser incapaz de pecar» (non posse peccare): uma condição que reflecte a bondade infinita de Deus, O qual, uma vez que nada O pode impedir de realizar perfeitamente a sua própria natureza, é «incapaz» do mal e, assim, é infinitamente livre.

David Bentley Hart, Ilusões dos ateus. A revolução cristã e os seus adversários da moda, pp-46-47.


terça-feira, 14 de junho de 2016

Identidades

Wook.pt - A Morte de Colombo

Um outro texto, de há dez anos, que aqui partilho (e que publiquei originalmente no Lamego Hoje)


OCIDENTES  

Em contexto de globalização, o redesenhar de sociedades crescentemente heterogéneas, suscitando acessos debates em torno de temas como o multiculturalismo, imigração ou políticas demográficas, e, bem assim, a emergência de problemáticas como a do confronto civilizacional (sempre Huntington a modelar as discussões), em que o religioso (e, sobretudo, a relação de César com Deus) assumiu, no séc.XXI, insuspeito protagonismo, colocaram o cultural na agenda dos debates e das preocupações da cidade (como que substituindo o habitual é a economia, por um renovado é a cultura, stupid!). 
As perguntas quem somos(?) e o que somos(?) pareceram juntar areópagos universitários, forúns de filosofia, arrazoados intelectuais a conversas de leigos, cidadãos comuns a indagarem, também, o seu lugar no mundo e a procurarem os seus laços de pertença.
Com este pano de fundo, o mais recente livro de Eduardo Lourenço – A Morte de Colombo –Metamorfose e Fim do Ocidente como Mito – é um interessante contributo para essa redescoberta de nós. Através de um conjunto de textos maioritariamente escritos a quando dos 500 anos da Descoberta da América (mas que até agora não estavam acessíveis em português), Eduardo Lourenço traçará um paralelismo entre as Descobertas portuguesa e espanhola. Afinal, serão estas que darão novos mundos ao mundo e fundarão as relações (e o imaginário) da Europa com muitos outros povos.
Que diferenças, substantivas, e seu significado, entre as empresas portuguesa e a espanhola, afinal?
Segundo Eduardo Lourenço, o mito português, por excelência, é o do povo descobridor. Não temos outro. E mito enquanto logos que diz a realidade e dizendo-a, a funda. E porque se tornaram as Descobertas, para nós, num mito? Na verdade, não serão, ab initio, considerações de novidade, extensão do descoberto, ou dos efeitos económicos sem precedentes que, aqui, relevarão. Acontece que sendo mítica a descoberta de Colombo, ela dá-se quando o Renascimento é já um espaço cultural de nova espécie. Entre as componentes da viagem de Colombo contam-se já notícias, novidades, informações das nossas navegações, mas sobretudo uma componente mediática que Colombo aproveitará e que não existia no tempo de Gil Eanes. Mas talvez o decisivo seja o que se segue: a mitologia colombina é modernista, o seu suporte é um indivíduo. Por oposição à Descoberta de Colombo, as nossas Descobertas estão numa ordem impessoal, do Rei, do Reino, da sua finalidade transindividual. Ora, estando a Descoberta de Colombo no plano individual não tem um sentido que possa ser inscrito, posto na conta histórica de um Povo. Camões mitificou as Descobertas portuguesas ao tornar seu sujeito “o peito ilustre Lusitano”.
Lourenço dirá, depois, que o relato de Pêro Vaz de Caminha, sobre o Brasil, é mais espantoso e espantado que o de Colombo em relação às Antilhas. Se os portugueses, quando chegaram ao Brasil, tinham esgotado a sua reserva de sonhos, se estavam estes habituados já à ausência de espanto, porque é descoberta o seu olhar e não o é o de Colombo? Tal sucede, diz-nos o ensaísta português, porque Colombo quis o novo mundo, quis um tesouro e encontrou-o; os portugueses, aparentemente, não o procuravam e encontraram-no. O que Eduardo Lourenço nos lança, aqui, igualmente, é um repto, para sugerir uma questão ideológica que marcará, já (desde?) então um Portugal e uma Espanha bem distintos: a empresa marítima portuguesa não é privada, mas comanditada pelo Estado; Pedro Álvares Cabral não navega acicatado por qualquer sonho ou lucro pessoal, ao contrário de Colombo. Até que ponto, pois, o Estado, em múltiplas situações, quebra o sonho, mata a individualidade?
Onde parecem convergir os olhares de portugueses e espanhóis é para os índios. De uma primeira visão paradisíaca, até ao entendimento dos índios como seres inferiores, vai um pequeno passo. A perplexidade será mútua. Descobridores e índios estranham-se. Não era fácil para os Ocidentais integrar homens desprovidos do sentimento de hierarquia e nos quais estava ausente a religião. No final, porém, a primeira visão, a do índio-paraíso, vencerá a segunda, do índio-bárbaro (mesmo se pelo meio numa nação que se via essencialmente como cristã, sendo esse o seu máximo denominador comum, tivesse ficado célebre uma discussão entre Las Casas e Sepúlveda, acerca da natureza dos índios: homens livres, ou, trazendo-se Aristóteles à colação, escravos naturais?).
Não se confina, já se vê, a uma abordagem peninsular a obra de Eduardo Lourenço. É que a singularidade da Europa na História do mundo deveu-se ao seu papel de Descobridor, comerciante, colonizador. Nos séc.XV e XVI, Portugueses e Espanhóis constituirão a guarda avançada desta Europa, que terá na colonização irreversível um pecado original que jamais lhes será perdoado.
Em tempo de discussão de um verdadeiro projecto político para a Europa, de uma Constituição Europeia, não nos será permitido esquecer que contrariamente à antiga Roma, nunca a Europa foi protagonista da sua história, nem da história do mundo. Só o foi enquanto europas, com a alternância nesse papel a pertencer à Espanha, França, Holanda, Inglaterra, etc.
Não deixaremos, igualmente, de entender como fundamental (quando as relações Europa-Estados Unidos da América merecem uma interpelação renovada) uma observação inicial de A Morte de Colombo: o continente americano é um dos desenvolvimentos da Europa, da sua cultura, das suas virtudes e defeitos, quer europeus e americanos o aceitem de bom grado, quer psicanaliticamente, o rejeitem (naquilo a que da perspectiva americana, e remetendo para Steiner, poderíamos designar de amnésia criativa) recorrendo a subterfúgios diversos (JL, Edição de 15-28 de Fevereiro).
Claro que (e é altura do paradoxo), na invenção do novo mundo uma nova criação se dá, e a Europa não se prolonga pelo mundo descoberto, mas com ele transfigura-se e, de certo modo, nega-se, pelo encontro de uma natureza nova de mais demorada humanização que a europeia e também pelo encontro com outra humanidade, isenta de pecado original.
Era a busca do Paraíso. De que nunca desistimos, aliás. Nós Homens. E é aí que o paradoxo se humaniza para nos atingir com estrondo, numa lição histórica inelutável: A busca do paraíso, a utopia das utopias, o sonho do Absoluto, fonte de horror é, porém, paradoxalmente, o único que sem cessar extrai os homens da sua original inumanidade.                  
Nesta partida a caminho do “outro”, uma referência especial aos jesuítas em jeito de homenagem ao Pe. Manuel Antunes. Se não foram os únicos a esforçarem-se para compreender o outro, de modo a melhor o evangelizar, dos jesuítas poderá, todavia, dizer-se que ninguém como eles se extraiu da matriz europeia e se fez outro para que «Deus fosse tudo em todos». E como que exortando-nos, deram asas e grandiosidade ao ecumenismo que os portugueses, como outros europeus, podiam fazer germinar. E fizeram-no mesmo correndo os riscos de uma osmose cultural, onde a mensagem cristã parecia dissolver-se.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Um outro objecto



A cena inicial, plano sobre uma rua, a passadeira numa avenida de Teerão, mostra uma metrópole por onde há jovens de jeans e t-shirt como em qualquer lugar ocidental, mochila a tiracolo, mesclados com jovens cobertas com  véu. A realidade, feita desta mistura, reconhecer-se-à, mais adiante, em uma outra cena, em que um acidentado, em estado aparentemente muito grave, pede que lhe seja gravado o testamento, via telemóvel de última geração, enquanto o dita no caminho para o hospital. O testamento visa preservar os direitos da esposa, a quem nada restaria não fosse a bondade daquele marido. As tensões modernidade/conservadorismo são expostas, inúmeras vezes, de modo hilariante até, ao longo do filme.

Entrámos no taxi do intelectual Jafar Panahi e não mais dele saímos, num conjunto de histórias susceptíveis de nos darem a conhecer o actual Irão, num enredo que passa pela micro-narrativa naif, doce, surreal até desembocar, ou dar a ver desse forma, em modo de paradoxo maior, a gélida crueldade do regime.

No carro de Panahi entra um "trabalhador independente", que mais tarde se define como "assaltante" que defende a pena de morte para os assaltantes que dias antes roubaram os pneus de um carro, de um seu conhecido, e em seu lugar colocaram uns tijolos. Que exagero!, responde-lhe a professora que segue, também, na parte de trás da viatura. Aquele tu cá-tu lá, homem-mulher, poderá parecer, de algum modo, surpreendente, ao leitor ocidental, dado o estatuto da mulher a oriente. De qualquer forma, e conquanto o "trabalhador independente" queira centrar-se na punição, e a professora - com o cabelo coberta - ache que o "importante é ir às causas" (no que teríamos uma espécie de ensaio direita-esquerda), o espectador é informado de que o Irão é recordista em execuções (de penas de morte), só suplantado pela China.

Um novo cliente está agora a bordo do taxi, um espertalhão que reconhece o "taxista" e se aproveita da fama deste para se apresentar como "sócio" do realizador e assim impingir mais uns filmes, vendidos no mercado negro, a um estudante de cinema. Conhecer Woody Allen, entre muitos outros cineastas, em Teerão, só pela porta do cavalo - diz-nos o filme, por entre o jeito para o negócio do empresário anão que tem um video-clube com entrega ao domicílio.

Duas velhotas tomam o táxi, uma das quais munida de um aquário com um peixe lá dentro, para depositar, impreterivelmente, ao meio-dia, num lago qualquer, numa localidade ainda aparentemente distante. Um abanão repentino do carro, leva a que o aquário se parta, os peixes fujam, e o condutor tenha que retirar um saco de plástico e enchê-lo de água para devolver o peixe ao seu habitat. Antes, já as velhotas levavam as mãos à cabeça - "é demasiada emoção" -, entendendo que, por via da sua data de nascimento, sem que os peixes fossem devolvidos ao lago até ao meio-dia, estas morreriam. O momento surreal do filme.

Atrasado, com um sentimento de culpa, o taxista vai ao colégio buscar a sobrinha que, longe de uma obediência acrítica e uma mansidão sem fala - como o espectador ocidental poderia (pré) julgar -, fala em tom zangado com o tio, fazendo a sua birra e convocando o especialista em cinema para o auxílio no trabalho marcado pela professora de cinema. Trata-se de filmar uma história sobre o país, onde os bons devem ser identificados por não usarem gravata, não terem a barba feita, utilizarem nomes sagrados do Islão. O filme deverá ter realidade, "mas não realidade realidade", e, muito menos, "realismo sórdido". Mais, estejam à vontade as crianças, dirá a professora, para se autocensurarem quando virem que a história tem partes menos edificantes. Política nem pensar. 

Ainda que aparentemente protegida da realidade - um café gelado que ela gosta, uns mimos -, a pequena sobrinha de Panahi virá a perceber que a liberdade de expressão, ou melhor, a sua denegação por exemplo, integra o conceito de "realismo sórdido" que não é para mostra em nenhuma curta. Na escola, ou fora dela. Mas a combatividade de que a criança/adolescente dá mostras, revelar-se-à quando recebe, em nome do tio preso pelo regime, o Urso de Ouro, em Berlim.

Um filme, que o Teatro de Vila Real passou na terça-feira desta semana, que num tom (aparentemente) leve, glosando o documentário - o homem acidentado que tem muito "sangue cinematográfico" e só de um lado da cara -, questionando o modo de apreensão da verdade - o empresário anão: "pensas que eu não percebi que este casal acidentado era composto por dois actores" -, flirtando com o jogo verdade/mentira com o espectador, apostando no binómio modernidade - tecnológica, social nas respostas da adolescente - vs conservadorismo - maxime, a questão da herança da mulher, a impossibilidade de se aceder livremente aos filmes ocidentais - nos dá, num humor de quem não abdica de rir mesmo no interior de um regime tenebroso - nas voltas infantis, na realidade à parte, com a sobrinha, algo de A vida é bela recordei.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Para além da cacofonia


Às vezes, parece que esquecemos o essencial, deixando-nos perder em questões de táctica política ou de pura retórica: a crise (na Europa) dura já há 7 anos e, durante este período, cerca de 700 mil portugueses saíram do país.

sábado, 11 de outubro de 2014

A clareza de um mundo (II)





Hoje, muitos jovens conhecem melhor as marcas do que a História Universal. Se perguntarem a muitos adolescentes quem é o George Clooney, eles sabem, mas se a questão é nomear grandes escritores, por vezes nem sequer percebem a pergunta. No entanto, sabem dizer facilmente o nome de 10 automóveis topo de gama, ou marcas de roupa.

Gilles Lipovetsky, em entrevista concedida a Luis Silvestre, Sábado, 09/10/14, p.31.