Um outro texto, de há dez anos, que aqui partilho (e que publiquei originalmente no Lamego Hoje)
OCIDENTES
Em contexto de
globalização, o redesenhar de sociedades crescentemente heterogéneas,
suscitando acessos debates em torno de temas como o multiculturalismo,
imigração ou políticas demográficas, e, bem assim, a emergência de problemáticas
como a do confronto civilizacional (sempre Huntington a modelar as discussões),
em que o religioso (e, sobretudo, a relação de César com Deus) assumiu, no
séc.XXI, insuspeito protagonismo, colocaram o cultural na agenda dos
debates e das preocupações da cidade (como que substituindo o habitual é a
economia, por um renovado é a cultura, stupid!).
As perguntas quem
somos(?) e o que somos(?) pareceram juntar areópagos universitários,
forúns de filosofia, arrazoados intelectuais a conversas de leigos, cidadãos
comuns a indagarem, também, o seu lugar no mundo e a procurarem os seus laços
de pertença.
Com este pano de fundo, o
mais recente livro de Eduardo Lourenço – A Morte de Colombo –Metamorfose e
Fim do Ocidente como Mito – é um interessante contributo para essa
redescoberta de nós. Através de um conjunto de textos maioritariamente escritos
a quando dos 500 anos da Descoberta da América (mas que até agora não estavam
acessíveis em português), Eduardo Lourenço traçará um paralelismo entre as Descobertas portuguesa e espanhola. Afinal,
serão estas que darão novos mundos ao mundo e fundarão as relações (e o imaginário) da Europa com muitos outros povos.
Que diferenças, substantivas, e seu significado, entre
as empresas portuguesa e a espanhola, afinal?
Segundo Eduardo Lourenço, o mito português, por excelência, é o do
povo descobridor. Não temos outro. E mito enquanto logos que diz a
realidade e dizendo-a, a funda. E porque se tornaram as Descobertas, para
nós, num mito? Na verdade, não serão, ab
initio, considerações de novidade, extensão do descoberto, ou dos efeitos
económicos sem precedentes que, aqui, relevarão. Acontece que sendo mítica a
descoberta de Colombo, ela dá-se quando o Renascimento é já um espaço
cultural de nova espécie. Entre as componentes da viagem de Colombo contam-se
já notícias, novidades, informações das nossas navegações, mas sobretudo uma
componente mediática que Colombo aproveitará e que não existia no tempo de Gil
Eanes. Mas talvez o decisivo seja o
que se segue: a mitologia colombina é modernista, o seu suporte é um
indivíduo. Por oposição à Descoberta de Colombo, as nossas Descobertas
estão numa ordem impessoal, do Rei, do Reino, da sua finalidade transindividual.
Ora, estando a Descoberta de Colombo no
plano individual não tem um sentido que possa ser inscrito, posto na conta
histórica de um Povo. Camões
mitificou as Descobertas portuguesas ao tornar seu sujeito “o peito ilustre
Lusitano”.
Lourenço dirá, depois, que o relato de Pêro Vaz de
Caminha, sobre o Brasil, é mais espantoso e espantado que o de Colombo em
relação às Antilhas. Se os portugueses, quando chegaram ao Brasil, tinham
esgotado a sua reserva de sonhos, se estavam estes habituados já à ausência
de espanto, porque é descoberta o seu olhar e não o é o de Colombo? Tal sucede,
diz-nos o ensaísta português, porque Colombo quis o novo mundo, quis um
tesouro e encontrou-o; os portugueses, aparentemente, não o procuravam e
encontraram-no. O que Eduardo
Lourenço nos lança, aqui, igualmente, é um repto, para sugerir uma questão
ideológica que marcará, já (desde?) então um Portugal e uma Espanha bem
distintos: a empresa marítima portuguesa
não é privada, mas comanditada pelo Estado; Pedro Álvares Cabral não
navega acicatado por qualquer sonho ou lucro pessoal, ao contrário de Colombo.
Até que ponto, pois, o Estado, em múltiplas situações, quebra o sonho, mata a
individualidade?
Onde parecem convergir os olhares de portugueses e
espanhóis é para os índios. De uma primeira visão paradisíaca, até ao
entendimento dos índios como seres inferiores, vai um pequeno passo. A
perplexidade será mútua. Descobridores e índios estranham-se. Não era fácil
para os Ocidentais integrar homens desprovidos do sentimento de hierarquia
e nos quais estava ausente a religião. No
final, porém, a primeira visão, a do índio-paraíso, vencerá a segunda, do
índio-bárbaro (mesmo se pelo meio numa nação que se via essencialmente como
cristã, sendo esse o seu máximo denominador comum, tivesse ficado célebre uma
discussão entre Las Casas e Sepúlveda, acerca da natureza dos índios: homens
livres, ou, trazendo-se Aristóteles à colação, escravos naturais?).
Não se confina, já se vê, a
uma abordagem peninsular a obra de Eduardo Lourenço. É que a singularidade da Europa na História do mundo deveu-se ao seu papel
de Descobridor, comerciante, colonizador. Nos séc.XV e XVI, Portugueses e
Espanhóis constituirão a guarda avançada desta Europa, que terá na colonização
irreversível um pecado original que jamais lhes será perdoado.
Em tempo de discussão de um verdadeiro projecto
político para a Europa, de uma Constituição Europeia, não nos será permitido
esquecer que contrariamente à antiga Roma, nunca a Europa foi protagonista
da sua história, nem da história do mundo. Só o foi enquanto europas, com a
alternância nesse papel a pertencer à Espanha, França, Holanda, Inglaterra, etc.
Não deixaremos, igualmente,
de entender como fundamental (quando as relações Europa-Estados Unidos da
América merecem uma interpelação renovada) uma observação inicial de A Morte
de Colombo: o continente americano é
um dos desenvolvimentos da Europa, da sua cultura, das suas virtudes e
defeitos, quer europeus e americanos o aceitem de bom grado, quer
psicanaliticamente, o rejeitem (naquilo a que da perspectiva americana, e
remetendo para Steiner, poderíamos designar de amnésia criativa)
recorrendo a subterfúgios diversos (JL, Edição de 15-28 de Fevereiro).
Claro que (e é altura do paradoxo), na invenção do
novo mundo uma nova criação se dá, e a Europa não se prolonga pelo mundo
descoberto, mas com ele transfigura-se e, de certo modo, nega-se, pelo encontro
de uma natureza nova de mais demorada humanização que a europeia e também pelo
encontro com outra humanidade, isenta de pecado original.
Era a busca do Paraíso. De
que nunca desistimos, aliás. Nós Homens. E é aí que o paradoxo se humaniza para
nos atingir com estrondo, numa lição histórica inelutável: A busca do paraíso, a utopia das utopias, o sonho do Absoluto, fonte
de horror é, porém, paradoxalmente, o único que sem cessar extrai os homens da
sua original inumanidade.
Nesta partida a caminho do “outro”, uma referência
especial aos jesuítas em jeito de homenagem ao Pe. Manuel Antunes. Se não foram
os únicos a esforçarem-se para compreender o outro, de modo a melhor o evangelizar,
dos jesuítas poderá, todavia, dizer-se que ninguém como eles se extraiu da
matriz europeia e se fez outro para que «Deus fosse tudo em todos». E como
que exortando-nos, deram asas e grandiosidade ao ecumenismo que os portugueses,
como outros europeus, podiam fazer germinar. E fizeram-no mesmo correndo os
riscos de uma osmose cultural, onde a mensagem cristã parecia dissolver-se.