Mostrar mensagens com a etiqueta Onésimo Teotónio Almeida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Onésimo Teotónio Almeida. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Portugalidade"


Em A obsessão da Portugalidade, Onésimo Teotónio Almeida em se detendo em Portugal, o medo de existir, de José Gil, retoma a questão de saber se o medo (de existir) é, propriamente, um legado do salazarismo (como lê em Gil), ou se, ao invés, como sugere, é este que se enxerta (responde) a um medo prévio, muito incrustado no nosso devir, de acordo com olhares, de estrangeiros, vindos a Portugal, sobre o nosso modo de habitar o mundo, descrito há já alguns séculos. Para Onésimo, é clara a razão de Eduardo Lourenço quando este refere que o problema português não é de identidade (nacional), mas de hiper-identidade, o que se constata pela produção ensaística exacerbada com o título Portugal, dos mais variados autores, provenientes das mais variadas àreas do conhecimento - que durante anos não terão dialogado entre si, nem encontrado uma linguagem comum -, contendo sucessivos diagnósticos e soluções para o país. A identidade (de um país) pode ser um tópico difícil de situar ou delimitar, de circunscrever, mas existe; todavia, não deve ser lida em chave essencialista (fundamentalista), como um conjunto de características de natureza imutável, indiferente às circunstâncias, determinista (e quiçá de índole metafísica). 
Entre a prodigiosa imaginação, ou a especulação não suficientemente densificada, sem olhar aos conhecimentos das ciências sociais, ou o positivismo triunfalista de alguns dos cultores destas (últimas), in medio virtus. Entre a benigna tradição e costumes muito nossos (Camilo) e a crítica ácida (Eça), assim caminhamos ainda por finais do séc.XX.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Livre-arbítrio (XXXVI)





Sobre a unanimidade entre cientistas.


"Deixemos agora a Filosofia da Ciência e passemos às Ciências Cognitivas, sempre dentro da perspectiva da impossível unicidade do conhecimento. Aqui opto também por uma visita a um livro de balanço crítico e síntese. Trata-se de Conversations on Consciousness. What the best minds think about the brains, free will, and what it means to be human [Oxford University Press, 2007]. Contém entrevistas com reconhecidas autoridades como o casal Patricia e Paul Churchland, Ned Bloch, Francis Crick, David Chalmers, Daniel Dennett, Roger Penrose, John Searle, Francisco Varela e outros, conduzidas por Susan Blackmore.
Para não tornar fastidiosa em demasia esta minha excursão, citarei apenas o parágrafo conclusivo do prefácio, onde a entrevistadora resume o aprendido nas suas conversas com especialistas:

Eu aprendi imenso destas maravilhosas conversas [...] Mas será que compreendo agora a consciência (consciousness)? Entendo certamente bastante melhor do que antes as muitas teorias sobre ela, mas quanto à consciência em si - se é que isso existe - receio que não.

Depois da leitura deste conjunto de entrevistas eu próprio cheguei a uma conclusão idêntica e posso fazer minhas as palavras de Susan Blackmore (...)
Num caso ou noutro, vemos pronunciamentos algo atrevidos de sumidades com a veleidade de terem tocado os limites últimos.
Estou a lembrar-me de Daniel Dennett (...) que se atreveu a publicar um livro com um título como Consciousness Explained. Mas a explicação da consciência parece ter satisfeito apenas o próprio Dennett e mais ninguém".


Onésimo Teotónio Almeida, De Marx a Darwin. A desconfiança das ideologias, Gradiva, 2009, pp.89-106 (do capítulo 'Do (r)econhecimento da ignorância como saudável atitude fundacional').

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Livre-arbítrio (XXXV)




Na semana em que se realiza um importante conjunto de conferências na Faculdade de Direito de Lisboa, equacionando as questões do livre-arbítrio, responsabilidade (penal), aportes neuro-científicos, alguns tópicos para debate:


O debate originado pela sociobiologia, agora mais conhecida por psicologia evolutiva, em torno da natureza humana tem lançado bastante luz sobre as pretensões da biologia no sentido de reduzir a si as ciências sociais - criando uma concepção rígida e de certo modo fixa dos seres humanos. (...) A maioria dos argumentos contra o determinismo biológico e contra a chamada dissolução (preemption) das ciências sociais e da ética (uma vez que, segundo alguns sociobiólogos, as questões sociais e éticas são redutíveis a - ou simplesmente se dissolvem em - questões de ordem natural, e portanto pertencentes ao domínio das ciências da natureza), tropeça inconscientemente na «falácia naturalista», bem como no ilegítimo uso da analogia entre o mundo animal e as sociedades humanas. Tal reducionismo - o de associar e limitar todo o comportamento humano a forças biológicas - é acusado de carregar consigo uma estreita visão da natureza humana. (...) Lewontin e os seus colegas (...) acrescentam que na verdade há desacordo até mesmo entre os sociobiólogos sobre o que seria uma apropriada lista dos traços do que supostamente constituiria essa natureza humana (...) Stevenson identificou sete concepções principais de natureza humana, estendendo-se elas desde Platão e a doutrina cristã até Marx, B.F.Skinner e Konrad Lorenz (...) [num livro escrito em co-autoria com David L. Haberman, Stevenson] alargou o número de concepções clássicas para dez. (...) Assim, a rejeição da formulação sociobiológica desta questão baseia-se no facto de existirem variadas concepções de uma supostamente única natureza humana.(...)
[Em um número especial da revista The Philosophical Forum escreveu um dos autores]: A opção tomada por [Edward] Wilson e outros, de ignorar a evolução cultural como factor significativo para a compreensão de padrões contemporâneos do comportamento humano é uma escolha que requer uma visão particular da história humana. A literatura sociobiológica é extraordinária na sua ausência de preocupação com explicações culturais alternativas para os fenómenos examinados. Em parte alguma é sugerido como é possível usar dados para se distinguir entre explicações alternativas.
(...)
[E Kenneth Bock, em Human Nature and History:] A tese de fundo deste livro é que a experiência histórica dos seres humanos nas suas vidas sociais e culturais não é simplesmente uma expressão da sua natureza. A História é algo em si própria. Qualquer que seja a medida em que outros animais possam ter as suas histórias, sê-lo-á obviamente muito mais no caso do Homem. Esse é o elemento da existência humana que constitui o foco central das interrogações humanísticas. Qualquer que seja a luz que a biologia nos possa trazer sobre a humanidade, seria trágico se fosse deixada por estudar a dimensão histórica da vida.
(...)
[Mais adiante, Bock:] "compreender os humanos como produtos de experiências de tempo e lugar em ambientes sociais e culturais particulares é algo diferente de encará-los como produtos de selecção natural".
[Em uma obra coordenada por Leroy S.Rouner, com participação de Sissela Bock e Stanley Rosen, escreve-se no ensaio principal:] Primeiro, existe uma natureza humana no sentido em que os seres humanos partilham de facto certas capacidades básicas, desejos e disposições que colectivamente os individualizam como espécie e a distinguem das outras. Segundo, a natureza humana é só uma pequena parte do que individualiza e distingue os humanos. Terceiro, a natureza humana está tão sobrecarregada de cultura que não temos acesso directo a ela, sendo a descrição que dela fazemos necessariamente inferencial, um tanto especulativa, e nunca por completo despida da nossa concepção do que gostaríamos que fosse. Quarto, uma vez que auto-reflexão, autodeterminação e criatividade são todas parte da identidade humana, uma natureza como a que temos não nos determina inteiramente, constituindo em grande parte um recurso a que podemos aceder e mobilizar ao formularmos e realizarmos os nossos ideais de autodesenvolvimento. E, finalmente, os seres humanos são capazes de a si próprios darem, tendo-o na verdade feito e continuado a fazê-lo, naturezas novas com o poder de rivalizar com a força da natureza que herdaram.
Estranhamente, as assinaladas respostas à sociobiologia nunca fazem qualquer referência explícita a um ponto específico que poderia demolir todos os alicerces das teses da sociobiologia. Refiro-me ao que poderia ser enunciado nos seguintes termos: a história das civilizações é, de algum modo, a história das respectivas inovações (...) a ciência e a tecnologia são, ao fim e ao cabo, «violações da natureza» (...) ou transformações da natureza. A «civilização» em geral é, nessa medida, nada mais do que «violação», ou transformação da natureza, o que quer que seja que, em última análise, ela possa constituir e qualquer que seja a nossa concepção dela (...)
Deverei reconhecer que os anos duros das propostas mais deterministas surgidas do campo da sociobiologia parecem já ultrapassados. Ainda surgem, no entanto, posições semelhantes à de Alexander Rosenberg profetizando a dissolução das ciências sociais nas ciências meramente biológicas, como no caso de Laura Betzig (...) Apoiando-se na autoridade do biólogo Edward O.Wilson, afirma peremptoriamente no prefácio (...): Porque a biologia é um empreendimento canibalístico - porque, como Ed.Wilson profetizou em 1975 no seu Sociobiology, a história, filosofia, ciência política, sociologia, economia, antropologia, psicologia e todas as restantes «ciências» humanas se tornarão um ramo da biologia à medida que, inevitavelmente, se voltarem para a teoria darwinista.
Como eu dizia, porém, hoje começa a predominar uma atitude bem mais moderada. Por exemplo, na sequência de Leslie Stevenson e Robert Solomon, Paul R.Ehrlich publicou (...) Human Natures (...):
Nas últimas décadas alguns cientistas biológicos e sociais têm feito grandes progressos na elaboração de uma visão diferente do que somos e de onde viemos (...) Têm documentado a desmesurada diversidade de indivíduos e de sociedades em áreas tão diversas como as preferências sexuais e os sistemas políticos. É pois à luz desse progresso científico que pretendo salientar as naturezas humanas: o comportamento diversificado e evolutivo, as crenças e atitudes do Homo sapiens e as evoluídas estruturas físicas que governam, apoiam e participam no nosso funcionamento mental único. Embora os nossos corpos e comportamentos partilhem múltiplos atributos comuns, será muito mais proveitoso considerar-se não uma mas muitas naturezas humanas. Os universais que ligam as pessoas entre si, em qualquer ponto da nossa evolução, são cobertos pela palavra humanas. A palavra naturezas enfatiza as diferenças que nos dão individualidade, variedade cultural, bem como o potencial para um futuro genético e - especialmente - para a nossa evolução cultural.

Onésimo Teotónio Almeida, Natureza humana e determinismo biológico, in De Marx a Darwin. A desconfiança das ideologias, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.73-88.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Ideias claras e distintas





Em um recente número do Jornal de Letras, Miguel Real afirmava que só a partir de 2009 "a comunidade culta" portuguesa teve oportunidade de conhecer o ensaísta Onésimo Teotónio Almeida e que este Utopias em dói menor, um livro-entrevista em que a informação e o conhecimento evidenciados por João Maurício Brás, em perguntas bem conseguidas foi, também, determinante para o bom resultado final, é mais um importante contributo no sentido de conhecermos as ideias e o pensamento deste autor – sabendo-se, no entanto, que Miguel Real incluíra já Onésimo Teotónio Almeida na sua obra sobre O pensamento português contemporâneo.

Se lera, como tantos, as crónicas que Onésimo Almeida escrevera na nossa imprensa, ao longo de anos, foi, para mim, uma estreia o contacto com uma explanação, mais detida, acerca do que pensa do humano, do país, do mundo (embora, naturalmente, enquanto visão, ainda assim, panorâmica, na medida em que aquilo que agora expõe, já foi alvo, diz-nos, de diferentes ensaios, dispersos, em diferentes publicações).

Para lá dos excertos recolhidos neste blog, dir-se-ia que o desejo de clareza, rigor, objectividade, várias vezes expresso, ao longo deste extenso e interessante depoimento, Utopias em dói menor, foi, claramente, alcançado e, porventura, poder-se-ia balizar, ainda que correndo o risco da síntese simplificadora tão zurzida pelo filósofo, algumas das coordenadas do Professor de Filosofia na Brown, do seguinte modo:

 

- Os portugueses, seus intelectuais incluídos, são pouco dados ao puro debate de ideias, mais propensos que se encontram para uma dimensão acalorada de enfrentamentos pessoais, ou, então, com clara preferência para um monólogo, que se afasta do ponto em discussão, deambulando sem um claro foco no objecto em análise, não se permitindo, em rigor, o verdadeiro contraditório;

- Nós, portugueses, somos, sobretudo, muito dados à síntese, pouco à análise, ao detalhe, ao centrar, esmiuçando, cada vector do que pretendemos discutir ou discorrer. A poesia acaba por ser uma casa hospitaleira para quem gosta do ambíguo – e não do que prende precisar, detalhar, objectivar. Parecemos temer a empiria e tudo revestimos de uma linguagem grandiloquente, “manto diáfano da fantasia”, que encobre o que (não) dizemos (também marcados pela nossa história recente, onde a dissimulação se impunha como necessária quando pensávamos o indevido). Ultrapassando o puro caso português, Onésimo dirá, já na parte final do livro, que embora reconhecendo a importância de Habermas, a sua linguagem apresenta-se excessivamente hermética, sendo que, ainda assim, o debate com o público norte-americano obrigou o filósofo alemão a abrir um pouco o discurso, não sendo, em todo o caso, um favorito de Onésimo Teotónio Almeida;

- Tudo isto, toda esta atitude, principia na escola, na qual, ao contrário do que se verifica na escola norte-americana, não se atende, devidamente, à língua (materna). Aqui nos recordou o autor um outro Professor português que esteve nos EUA, António Câmara, que tinha também a experiência do sistema de ensino norte-americano, até com os filhos, em Boston, e como aí notou essa diferença face à língua (a exigência vocabular, a concentração na boa sintaxe, etc.) e de que como aí se marcavam as diferenças ao nível das elites dos dois países em causa (Portugal e EUA);

- A gesta dos Descobrimentos é, em realidade, inolvidável. Portugal deu um concreto contributo próprio ao mundo, no domínio do conhecimento. Factual. Contudo, nota o autor, ainda assim, assiste-se a uma sobrevalorização dos Descobrimentos, em Portugal, em exacto contraponto com a sua subvalorização no exterior. Se julgamos que no resto do globo se valoriza (devidamente) o feito português de quinhentos, lobrigamos, com efeito, em erro. E o nosso acrescento ao já conhecido deu-se no domínio da empiria, no domínio do conhecimento experimental e científico. Se queremos alargar a esfera do contacto internacional com o específico contributo português com os Descobrimentos impõe-se, ainda hoje, a tradução de alguns textos fundamentais deste período;

- Para além da Filosofia Analítica, Teotónio Almeida mostra um grande interesse pelo campo da Ética, sendo Rawls autor decisivo, no século XX, nesta área, ainda que para melhor compreendido necessário seja lançar mão de todo o debate ético, toda a tradição que o precede, bem como perceber, devidamente, o conceito de fairness, que em português encontra dificuldade de tradução;

- Tendo-se dedicado, longamente, ao estudo da ideologia, à qual, aliás, dedicou uma tese, entende, hoje, que o conceito de mundividência é bem mais abrangente e fecundo – mesmo filosoficamente – para explicar, também, o agir humano (na determinação da sua volição);

- Onésimo Teotónio Almeida procede ao distinguo entre o não-racional e o irracional. Trata-se, assegura, de conceitos diversos. E os humanos, sublinhe-se devidamente, são muito mais determinados pelo não-racional – que não é irracional – do que pelo racional. Todavia, sempre que em âmbito argumentativo, a lógica deve prevalecer, a razão deve impor-se. O ser humano, não sendo essencialmente diferente de há séculos, é, todavia, “perfectível”, nomeadamente ao nível das instituições que vai construindo/erguendo;

- Deve proceder-se a uma efectiva valorização da modernidade e seus valores - justiça, igualdade, liberdade, etc. -, sendo que a crítica desta – em sentido puramente corrosivo/destrutivo - não deve fazer-se sem um padrão alternativo (que não encontra na ácida lucidez de John Gray que tendo uma obra “muito bem informada”, e sendo forte crítico da modernidade, como se vê em A morte da utopia, não apresenta, depois, uma alternativa aos valores por ela reclamados/proclamados).