Em um recente número do
Jornal de Letras, Miguel Real afirmava que só a partir de
2009 "a comunidade culta" portuguesa teve oportunidade de conhecer o
ensaísta Onésimo Teotónio Almeida e que este Utopias em dói menor, um livro-entrevista em que a informação e o
conhecimento evidenciados por João Maurício Brás, em perguntas bem conseguidas
foi, também, determinante para o bom resultado final, é mais um importante
contributo no sentido de conhecermos as ideias e o pensamento deste autor –
sabendo-se, no entanto, que Miguel Real incluíra já Onésimo Teotónio Almeida na
sua obra sobre O pensamento português
contemporâneo.
Se lera, como tantos,
as crónicas que Onésimo Almeida escrevera na nossa imprensa, ao longo de anos, foi,
para mim, uma estreia o contacto com uma explanação, mais detida, acerca do que
pensa do humano, do país, do mundo (embora, naturalmente, enquanto visão, ainda
assim, panorâmica, na medida em que aquilo que agora expõe, já foi alvo, diz-nos,
de diferentes ensaios, dispersos, em diferentes publicações).
Para lá dos excertos
recolhidos neste blog, dir-se-ia que o desejo de clareza, rigor, objectividade,
várias vezes expresso, ao longo deste extenso e interessante depoimento, Utopias em dói menor, foi, claramente,
alcançado e, porventura, poder-se-ia balizar, ainda que correndo o risco da
síntese simplificadora tão zurzida pelo filósofo, algumas das coordenadas do
Professor de Filosofia na Brown, do seguinte modo:
- Os portugueses, seus
intelectuais incluídos, são pouco dados ao puro debate de ideias, mais
propensos que se encontram para uma dimensão acalorada de enfrentamentos pessoais,
ou, então, com clara preferência para um monólogo, que se afasta do ponto em
discussão, deambulando sem um claro foco no objecto em análise, não se
permitindo, em rigor, o verdadeiro contraditório;
- Nós, portugueses,
somos, sobretudo, muito dados à síntese, pouco à análise, ao detalhe, ao
centrar, esmiuçando, cada vector do que pretendemos discutir ou discorrer. A
poesia acaba por ser uma casa hospitaleira para quem gosta do ambíguo – e não
do que prende precisar, detalhar, objectivar. Parecemos temer a empiria e tudo
revestimos de uma linguagem grandiloquente, “manto diáfano da fantasia”, que
encobre o que (não) dizemos (também marcados pela nossa história recente, onde
a dissimulação se impunha como necessária quando pensávamos o indevido). Ultrapassando o puro caso
português, Onésimo dirá, já na parte final do livro, que embora reconhecendo a
importância de Habermas, a sua linguagem apresenta-se excessivamente hermética,
sendo que, ainda assim, o debate com o público norte-americano obrigou o filósofo
alemão a abrir um pouco o discurso, não sendo, em todo o caso, um favorito de
Onésimo Teotónio Almeida;
- Tudo isto, toda esta
atitude, principia na escola, na qual, ao contrário do que se verifica na
escola norte-americana, não se atende, devidamente, à língua (materna). Aqui
nos recordou o autor um outro Professor português que esteve nos EUA, António
Câmara, que tinha também a experiência do sistema de ensino norte-americano,
até com os filhos, em Boston, e como aí notou essa diferença face à língua (a
exigência vocabular, a concentração na boa sintaxe, etc.) e de que como aí se
marcavam as diferenças ao nível das elites dos dois países em causa (Portugal e
EUA);
- A gesta dos Descobrimentos é, em realidade,
inolvidável. Portugal deu um concreto contributo próprio ao mundo, no domínio
do conhecimento. Factual. Contudo, nota o autor, ainda assim, assiste-se a uma
sobrevalorização dos Descobrimentos,
em Portugal, em exacto contraponto com a sua subvalorização no exterior. Se
julgamos que no resto do globo se valoriza (devidamente) o feito português de quinhentos, lobrigamos, com efeito, em
erro. E o nosso acrescento ao já conhecido deu-se no domínio da empiria, no domínio do conhecimento
experimental e científico. Se queremos alargar a esfera do contacto
internacional com o específico contributo português com os Descobrimentos impõe-se, ainda hoje, a tradução de alguns textos
fundamentais deste período;
- Para além da
Filosofia Analítica, Teotónio Almeida mostra um grande interesse pelo campo da
Ética, sendo Rawls autor decisivo, no século XX, nesta área, ainda que para
melhor compreendido necessário seja lançar mão de todo o debate ético, toda a
tradição que o precede, bem como perceber, devidamente, o conceito de fairness, que em português encontra
dificuldade de tradução;
- Tendo-se dedicado, longamente,
ao estudo da ideologia, à qual,
aliás, dedicou uma tese, entende, hoje, que o conceito de mundividência é bem mais abrangente e fecundo – mesmo filosoficamente
– para explicar, também, o agir humano (na determinação da sua volição);
- Onésimo Teotónio
Almeida procede ao distinguo entre o
não-racional e o irracional. Trata-se, assegura, de conceitos diversos. E os
humanos, sublinhe-se devidamente, são muito mais determinados pelo não-racional
– que não é irracional – do que pelo racional. Todavia, sempre que em âmbito
argumentativo, a lógica deve prevalecer, a razão deve impor-se. O ser humano,
não sendo essencialmente diferente de há séculos, é, todavia, “perfectível”,
nomeadamente ao nível das instituições que vai construindo/erguendo;
- Deve proceder-se a
uma efectiva valorização da modernidade e seus valores - justiça, igualdade,
liberdade, etc. -, sendo que a crítica desta – em sentido puramente corrosivo/destrutivo
- não deve fazer-se sem um padrão alternativo (que não encontra na ácida
lucidez de John Gray que tendo uma obra “muito bem informada”, e sendo forte
crítico da modernidade, como se vê em A
morte da utopia, não apresenta, depois, uma alternativa aos valores por ela
reclamados/proclamados).