António
Rodrigues, entrevista Onésimo
Teotónio de Almeida, O marxismo era
uma fé e não vejo como ressuscitá-la, Público.
Ípsilon, 23/11/2012, 16-17.
"Este livro nasceu
por acaso. Aliás, por acasos. Começou por um encontro quase fortuito,
prolongou-se em duas perguntas, alimentou-se com mais umas quantas questões que
formariam a base de uma entrevista a publicar numa revista e, dois anos depois,
resultou numa introdução ao pensamento e à
obra filosófica de Onésimo Teotónio de Almeida - português dos Açores,
radicado há anos nos EUA, onde é professor na Universidade de Brown -, guiados
pela mão de quem dele se tornou admirador: João Maurício Brás. O Ípsilon foi
ter com o filósofo a propósito de Utopia em Dói Menor - mas o livro foi só o
inicio de uma longa conversa...
Explica
neste Utopia em Dói Menor que quando
está no domínio do ensaio costuma ser sério, claro e conciso.
Não se pode estar a
fazer humor por tudo e por nada; depois, eu sou muito intenso quando estou a
trabalhar, a escrever ou conversar sobre ideias, não vejo mais nada se não
argumentos. Muitas vezes até esqueço com quem é que estou a falar, é como se
estivesse a falar sozinho, a pensar de forma clara e a dizer tudo com a
preocupação de ser factual e rigoroso no argumento.
O
interessante deste livro e que também se percebem os principais traços da sua
biografia.
Os cursos que fui
desenvolvendo tinham sempre a ver com questões que me interessavam e, numa
universidade muito aberta como é a de Brown, permite-se que os professores
acabem por investigar as áreas que lhes interessam; desde que vão alunos às
aulas, está tudo bem. Portanto, no fundo, tudo o que escrevo é autobiográfico -
são coisas que me aconteceram ou preocupações que tive.
Depois
de muitos anos a publicar essencialmente livros de crónicas, parece notar-se
agora a preocupação de publicar o seu pensamento filosófico, o seu lado
mais-sério.
Tenho muitos ensaios
publicados em revistas e em livros colectivos, dois livros sobre temática
acriana e um livro sobre Fernando Pessoa que publiquei em 1987 e cuja segunda
edição vai sair agora em Portugal na Primavera. Tenho seguramente 300 e tal
artigos publicados, alguns com 40/50 páginas. Mas para os compilar é preciso
tempo e eu faço uma média de 40 conferências por ano, estou sempre a responder
a solicitações. É mais fácil com as crónicas. Basta juntá-las; os ensaios
precisam de uma unidade.
O
curioso é isto ser feito com base numa longa troca de correspondência com
alguém que não conhecia a sua obra.
A mim conhecem-me,
sobretudo, pelos estudos de cultura portuguesa. O João Brás foi assim um bocado
de sorte que me aconteceu, começou a interessar-se e mandou pedir a lista do
meu curriculum e depois começou a pedir este e aquele ensaio. Sabe que o João
Brás já tem um livro de 300 páginas escrito sobre a minha obra?
Já
tem editora?
Ainda não, mas também é
uma coisa que vai interessar a muito pouca gente.
Diz
que gostava que este livro fosse uma espécie de introdução à sua obra e às
coisas e Ideias que o foram preocupando durante a sua vida.
Tive muitas reservas em
relação a este livro, com receio de estar a simplificar tudo. Poderá levar as
pessoas a interessar-se e chamar a atenção para os livros que vão começar a ser
publicados ao ritmo de, pelo menos, um por ano, mas há sempre o perigo de levar
as pessoas a pensar que está tudo dito, de ficar pela rama.
Também
refere que gostava de escrever dois ou três livros de memórias.
A minha biografia não
tem nada de especial, não sinto nenhuma necessidade de contar a minha vida. Mas
ouvi tanta história, vi tanto caso interessante, que é uma pena não os contar.
Agora estou a fazer um pouco isso, um diário onde conto as histórias com piada
que vou ouvindo ou me acontecem e que envio a um grupo de amigos muito restrito
- chamo-lhe Notas Bárbaras, parafraseando as prosas Bárbaras do Eça.
Este
livro que começa por acaso acaba por estabelecer uma relação mestre-discípulo
entre si e o João Brás.
É discípulo na medida
em que quis aprender e quis ler, mas não o sinto como discípulo, sinto-o como
um leitor ideal que entra sem problemas num universo e se põe a conversar.
Claro que as perguntas não são para ele, são para dar a conhecer o pequeno
universo que quer partilhar com o público. Mas sei que alterei um pouco a visão
dele nalgumas coisas, porque ele cultiva esse lado muito europeu do pessimismo
- escreveu muito sobre o Emil Cioran, cita muito o grande filósofo inglês John
Gray - e eu, influenciado pelo espírito americano, sou mais de “ok, isto é mau
mas vou fazer tudo para o deixar um pouco melhor".
Foi
estudar para os EUA depois de se licenciar na Universidade Católica e por lá
ficou, mas nunca deixou de manter uma relação profunda com Portugal.
Costumo dizer que nunca
emigrei, só alarguei fronteiras, sem nunca ter deixado de ser açoriano. Há uma
frase do George Santayana, que não sei se cito neste livro mas que já citei num
ensaio sobre identidade: os homens devem ser como as árvores, as raízes cada
vez mais profundas e a copa a subir e a alargar para abraçar o universo todo.
E
sempre manteve uma relação de amor/ódio com o país.
Sim, mas eu não queria
que fosse assim. Portugal tem imensas
coisas de que eu gosto, obviamente, mas falta essa questão até democrática do
respeito pelos outros. No debate público em Portugal, as pessoas defendem a sua
imagem e não defendem ideias. No
início, tentei fazer esse tipo de crítica e fui recebido com silêncio total.
Eu percebo isso - o meio é muito
pequeno, as pessoas sentem-se lesadas, sentem o seu pedestal ameaçado. Portugal faz-se à mesa do café, numa
cultura um bocadinho hipócrita, onde tudo passa logo para o lado emotivo e
rapidamente descamba em luta de egos.
Daí
acusarem-no de ser frio nas suas análises, de os seus ensaios não terem emoção,
de lhe faltar literatura.
É verdade. Num debate,
numa conversa sobre ideias, não estou preocupado em fazer um texto bonito. É uma grande influência nórdica, porque
os países do Norte são muitíssimo mais frios a discorrer sobre ideias. Em
Portugal, prefere-se uma pessoa emotiva, que não diga nada, a alguém que
friamente analise um assunto.
“Shakespeare entendeu como ninguém do mundo
das artes a complexidade da natureza humana. Marx era demasiado Ideólogo e
estava convencido de que o mal do mundo era o capitalismo e de que quando este
acabasse tudo ficaria bem, esquecendo-se de que os seres humanos, no dia-a-dia,
têm todas aquelas camadas negras"
Eduardo
Lourenço disse-lhe uma vez para se dedicar só aos ensaios e às conferências e
se deixar de crónicas e anedotas.
Houve alguém que disse
que eu só sabia contar anedotas, mas foi um académico que nunca leu nada do que
eu escrevi. Isso não me preocupa. Não me preocupa se não publiquei os livros
mais cedo, não vivo angustiado com o que os outros dizem, com o que disse o
crítico tal. Há em mim um desprendimento muito grande em relação às coisas que
faço, não estou aqui para salvar a terra.
Daí
ser um crítico das grandes utopias que querem mudar o mundo.
Lembro-me do Theodor
Roszak dizer, no Para Uma Contracultura,
nos anos 60: "Eu tenho planos
claríssimos para mudar o mundo, não sei é como vou mudar a mentalidade do
merceeiro da minha rua". O
grande erro do Marx foi não perceber a natureza humana, tão obcecado estava com
um conjunto de ideias e ideais. O
capitalismo é feito pelos homens e os seres humanos são muito mais complexos,
muito mais mesquinhos; não é possível criar o paraíso na terra. E o que se pode
fazer é criar regras de convivência, para que cada um tenha o seu espaço de
liberdade.
Mas
não precisamos da utopia, do sonho; não precisamos de pensar no impossível para
fazer o possível?
Claro,
ao contrário do John Gray, que diz que nem isso vale a pena, eu ainda sou dos
que acham que vale a pena ter sonhos; agora são sonhos muito concretos e não
sonhos irrealistas em que o indivíduo acaba por não fazer nada. A conversa é
muito bonita, mas eu acho melhor que o sonho seja mais baixinho, mais à nossa
medida - que seja uma utopia de pés no chão.
É
por isso que acha que Shakespeare superou Marx?
Shakespeare
entendeu como ninguém do mundo das artes a complexidade da natureza humana.
Marx era demasiado ideólogo e estava convencido de que o mal do mundo era o
capitalismo e de que quando este acabasse tudo ficaria bem, esquecendo-se de
que os seres humanos, no dia-a-dia, tem todas aquelas camadas negras que o
Shakespeare apontou e que nunca desaparecem.
Se
a China e a Índia estão hoje a fazer o mesmo que se fez no século XIX, como diz
neste livro, não terão os marxistas de hoje razões de sobra para declararem
guerra ao capitalismo?
Recorrer
ao marxismo hoje é tão quixotesco como querer levar as pessoas de volta à
igreja. O marxismo era uma fé e não vejo como ressuscitá-la. Quem de nós estará
disposto a abdicar da sua liberdade de expressão ? Não faltará certamente é
quem esteja pronto para retirar esse direito a outros.
Como
poderão manter-se vivos os ideais da modernidade que, para si, são "a
última esperança”, quando a justiça e a Igualdade para todos são condicionadas
por forças que funcionam à margem da lei?
Nunca
houve um mar de rosas em matéria de justiça e liberdade. Isso são ideias da
modernidade em que todos fomos embalados. Aliás, em Portugal a nossa geração
foi a primeira a beneficiar em pleno delas. Se há alguma coisa que seja preciso
acordar são as pessoas, não o capital, porque esse não dorme nunca. Se há que
urgir intervenção de alguém será a dos cidadãos. Organizando-se e intervindo.
Nunca
se tinha falado e escrito tanto sobre revolução como nos últimos tempos.
As
revoluções dão no que temos visto. Permitem uma explosão pelo tubo de escape,
mas depois tudo assenta de novo e volta-se em grande parte à [situação] antiga.
É
mais responsável resignarmo-nos com a imperfeição desta modernidade?
Não
se trata de fazer um apelo à resignação, mas sim de não embarcar em utopias que
só são servidas em sonhos. Explodir canhões e bombas contra quem? Os grandes
responsáveis estão longe e bem
protegidos. É frustrante, mas espernear e berrar simplesmente não resolve nada.
E juntar balas ao protesto também não.
José
Eduardo Franco, no posfácio, escreve que "urge ganhar consciência crítica
dos limites e das potencialidades, para que se possa enfrentar os desafios que
a crise de hoje que é, na verdade, uma crise de sempre, uma crise mais funda -
nos impõe".
Eu
gostava que se fizesse, mas não vejo aí muita gente empenhada nisso; vários que
deviam estar a estudar a sério não estão porque estão ocupados a queixar-se.
Vejo um excesso de pessimismo e de mãos caídas. Nós somos maníaco-depressivos.
Há um leque de possibilidades, mas não é muito grande e há que ter noção realista
delas e perceber onde é que se pode intervir e melhorar. Isso acaba sempre na
responsabilidade individual que muita gente não tem.
A
crise não nos terá deixado órfãos do mito da construção europeia como garante
do futuro e da prosperidade?
Já
escrevi sobre isso e volto a afirmá-lo: agarrem-se a ele porque o contrário é
bastante pior. Este é o maior espaço de tempo sem guerra na Europa, queixem-se
da Merkel, queixem-se de quem quiserem, mas enquanto conseguirem manter isto
juntos não há miséria. Não fazem a menor ideia do que foi nascer a seguir à guerra. Esquecem-se que mesmo em 1980 se
vivia incomparavelmente pior em Portugal e estávamos muitíssimo melhor do que a
seguir à guerra. Rezem a todos os santos, aos que existem e aos que não existem,
para a União Europeia continuar.