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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O primeiro filho


Sim, porque no primeiro filho mistura-se tudo: os pais que tivemos, os pais que desejávamos ter tido, os pais que nos imaginamos a ser capazes de construir. Um primeiro filho é de tal forma um entreposto de histórias que não tem muito espaço para ele ser ele próprio. Num segundo filho já estamos tão livres disto que sintonizamos mais facilmente com ele, enquanto o primeiro filho tem coisas que às vezes não são tão ele mas pequenos espelhos de nós
(...)
Somos todos óptimos a enganarmo-nos com a verdade. Quando olhamos para a história, nunca houve tantos pais com tanto tempo para os filhos, o que é exactamente o contrário do que passamos a vida a dizer. Temos micro-ondas, máquinas de lavar e Segurança Social, que mal ou bem vai funcionando
(...)
Quando as crianças estão fechadas 90 minutos e têm recreios de cinco, a primeira coisa que fazem é querer correr. Precisam de espaço, de andar à bulha e não permitimos nada disso, que usem o corpo, que sejam vivas. Quando aprendemos a dimensão da agressividade não somos violentos. Passamos a vida a querer educar as crianças como se fossem de porcelana. Vivem debaixo de um stress permanente porque são mais inteligentes se tiverem 5 a tudo, mesmo que estejam a repetir sem pensar
(...)
Hoje somos os melhores pais que a humanidade já conheceu. E por isso, havendo problemas, as crianças são hoje menos deprimidas e agitadas do que eram.


Eduardo Sá, psicólogo clínico e Professor de Psicologia na Universidade de Coimbra, entrevistado por Marta F.Reis, I, 07-12-2018, pp.25-28.

domingo, 3 de novembro de 2013

Clássicos: Jovens turcos, o positivismo presumido, o cientismo arrogante


Delicioso.




- Ele vai dissecá-las – disse Pável Petróvitch. – Não acredita em princípios, mas nas rãs acredita.
(…)
- E em que é que hei-de acreditar? Dizem-me uma coisa, eu concordo, e nada mais.
(…)
- Um bom químico é vinte vezes mais útil do que qualquer poeta – interrompeu Bazárov.
- Ora vejam – proferiu Pável Petróvitch e, como se estivesse a adormecer, ergueu ligeiramente as sobrancelhas. – Portanto, não dá valor à arte?
- A arte de acumular dinheiro, ou de acabar com as hemorróidas!
(…)
- Portanto, o senhor rejeita tudo? Admitamos. Acredita portanto apenas na ciência?
- Já lhe afirmei que não acredito em nada; e o que é a ciência – a ciência em geral? Existem ciências, assim como existem ofícios, patentes; mas a ciência em geral é coisa que não existe.
(…)
- Sim – disse ele, sem olhar para ninguém -, é mau viver assim cinco anos no campo, afastado das grandes inteligências! Fica uma pessoa mais parva que os parvos. Esforçamo-nos por não esquecer aquilo que nos ensinaram, e de repente – zás! – descobrimos que tudo isso são tolices, e dizem-nos que as pessoas sensatas já se não ocupam dessas bagatelas, e que nós não passamos de uns simplórios atrasados. Que fazer? Pelos vistos são mesmo mais inteligentes do que nós.
(…)
- Tu trataste-o com demasiada rudeza – observou Arkádi. – Ofendeste-o.
- Sim, vou agora mimar estes aristocratas provincianos! Tudo isto é apenas amor-próprio, hábitos leoninos, fatuidade!
(…)
- A educação? – retrucou Bazárov. – Cada pessoa deve educar-se a si mesma, nem que seja como eu, por exemplo…E quanto ao tempo, porque hei-de eu depender do tempo? Antes dependa ele de mim. Não, meu caro, tudo isso é desleixo, futilidade! E que são essas relações enigmáticas entre o homem e a mulher? Nós, os fisiologistas, sabemos que relações são essas. Tu estuda a anatomia dos olhos: onde ir buscar aqui, como tu dizes, um olhar enigmático? Tudo isso é romantismo, disparate, literatura. É melhor irmos ver o escaravelho.


I.Turguéniev, Pais e Filhos, p.30-40.


Colmatar lacunas, ler clássicos


Estes considerandos foram motivo próximo para aproveitar o fim-de-semana e me dedicar a um dos vários clássicos em falta.


É no capítulo V, de Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev:

- O que é o Bazárov? – Arkádi riu-se. – o tio quer que eu lhe diga o que ele é precisamente?
- Faz-me o favor, sobrinho.
- É um niilista.
- Como? – perguntou Nikolai Petróvitch, enquanto Pável Petróvitch ergueu a faca no ar com um bocado de manteiga na lâmina e ficou imóvel.
- Ele é um niilista – repetiu Arkádi.
- Niilista – disse Nikolai Petróvitch. – Isso vem do latim nihil, nada, tanto quanto julgo saber; portanto, essa palavra significa um homem que…que não reconhece nada?
- Diz antes que não respeita nada – disse Pável Petróvitch, e voltou a barrar a manteiga.
- Que encara tudo de um ponto de vista crítico – observou Arkádi.
- E isso não é a mesma coisa? – perguntou Pável Pétrovitch.
- Não, não é a mesma coisa. Niilista é um homem que não se curva perante nenhuma autoridade, que não tem fé em nenhum princípio, seja qual for o respeito que rodeia esse princípio…
- E então, isso está certo? – interrompeu Pável Pétrovitch.
- Depende de cada um, tio. Há quem ache bem, e há quem ache muito mal.
- Ora essa. Bem, estou a ver que isso não é coisa para nós. Nós, pessoas da velha geração, achamos que sem princípios (Pável Pétrovitch pronunciou esta palavra suavemente, ao modo francês; Arkádi, pelo contrário, pronunciou «princípios» acentuando a primeira sílaba), sem princípios assumidos, como tu dizes, com fé, não se pode dar um passo, nem respirar. Vous avez changé tout cela, Deus vos dê saúde e o posto de general, enquanto nós ficaremos a admirar-vos, senhores…como é?
- Niilistas – pronunciou Arkádi claramente.
- Sim. Antes havia os hegelianistas e agora temos os niilistas. Veremos como conseguirão vocês viver no vazio, no espaço sem ar, e agora, por favor, toca a companhia, irmão Nikolai Petróvitch, são horas de beber o meu cacau.


I.Turguéniev, Pais e Filhos, Relógio D’Água, Lisboa, 2010, p.28-29.


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Alfabetos


Como muitos outros grandes livros, OTTSY E DETI [PAIS E FILHOS] (1862), obra-prima de Turguéniev e da literatura mundial, teve a sorte e o azar de ser identificado com um motivo preciso, quase uma fórmula (...) Pais e Filhos está ligado (...) ao niilismo; é o romance que tornou de domínio público o próprio termo «niilistas», com que são designados o protagonista Bazarov e o seu amigo Arkadi.

Claudio Magris, Alfabetos, Quetzal, Lisboa, 2013, p. 128.