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domingo, 29 de outubro de 2017

Uma história do presente?

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A modernidade criou promessas (como se não houvesse constrangimentos à sua efectivação) de emancipação (individual) que não conseguiu concretizar. A civilização democrata e liberal, de indivíduos (emergentes, supostamente) cultos e endinheirados não teve a eficácia almejada. Em muitas sociedades, a combinação de uma apertadíssima competição, a rápida obsolescência dos indivíduos (ou das capacidades destes) e o seu carácter supérfluo (quando não ao encontro do que a sociedade comercial dos seus dias reclama), a ansiedade do status (e de poder) por concretizar (despida esta, ainda para mais, das amarras, ou, paradoxalmente também, do conforto de sistemas de castas, fossem estas propriamente ditas/formalizadas, fossem materialmente presentes nas sociedades), o aumento da riqueza mas a sua repartição excessivamente desigual; a perda das filiações (instituições que ancoravam a pessoa) e do sentido de pertença; as ambições, esperanças, expectativas, a ideia de progresso - tudo por cumprir e a desmoronar-se (passando-se para a ideia de retrocesso dos níveis de vida, muito presente nos nossos dias); a globalização e seus perdedores; as religiões ou a família, a comunidade depreciadas/menosprezadas fizeram com que estes abalos sísmicos de um mundo plano na vivência do espaço-tempo encontrasse um espaço desmedido para o ressentimento que, em se tendo sentido no Ocidente logo no pós-Revolução Industrial, gerando um conjunto de massas alienadas e prontas à glorificação da violência, encontram, hoje, num mundo completamente interligado, o seu semelhante mesmo no dito outro civilizacional: para os que não conseguem pensar fora das reduções binárias, torna-se difícil, porventura, compreender o porquê das semelhanças entre as práticas apocalípticas dos ditos fundamentalistas de hoje - com certeza, com as suas especificidades e idiossincrasias, a história não é pura repetição -, com contornos paralelos aos de há cem anos (a Ocidente) e mesmo no séc.XIX. O ponto (político), para Pankaj Mishra, é o do ressentimento e a manipulação e aproveitamento de líderes de pouca espessura intelectual, mas furibundos trauteadores dos bodes expiatórios que a massa produzida espera convocam o caos e o sem lugar para o qual se dirigem.
Notas: as promessas desmedidas com que o político - de todos os quadrantes ideológicos - semeou desmesuradas expectativas (naturalmente, por cumprir); uma tradição mandada borda-fora (e colocada, no entender de outros, também em causa, em um mundo interdependente e com migrações em grande escala), sem suficiente ponderação, em sociedades que descuram qualquer equilíbrio (ou balizas, qualquer noção forte de Bem para além de Justo, mesmo a nível societal que não seria, necessariamente, o do Estado); a glorificação de um individualismo sem individualidade, dos agentes egoístas e racionais (redutora descrição do humano); a redução da pessoa a indivíduo, numa sociedade puramente comercial e competitiva; uma globalização que, tendo diminuído a pobreza, aumentou a desigualdade no interior dos países e levada a uma expansão que coloca em causa a própria democracia (o trilema de Rodrick); a queda das instituições, da comunidade, da imaginação (quer dizer, de qualquer ideal, de qualquer ideia outra, o fim do sonho).





"Muitos leitores (...) recordar-se-ão do período de esperança que se seguiu à queda do Muro de Berlim em 1989. Com o desmoronamento do comunismo soviético, o triunfo universal do capitalismo liberal e da democracia parecia garantido. Os mercados livres e os direitos humanos foram considerados a fórmula certa para os milhares de milhões de pessoas que tentavam vencer a pobreza mais degradante e a opressão política; as palavras «globalização» e «Internet» inspiraram, nessa era de inocência, mais esperança do que ansiedade quando entraram no discurso comum (...) Ao longo das últimas duas décadas, as elites de muitos antigos países socialistas começaram a defender um ideal de liberalismo cosmopolita: a sociedade universal do comércio dos indivíduos racionais e egoístas, defendida no século XVIII por pensadores do Iluminismo como Montesquieu, Adam Smith, Voltaire e Kant. E, na realidade, vivemos hoje num mercado mundial, vasto e homogéneo, em que os seres humanos estão programados para maximizarem o seu egoísmo e o seu interesse pessoal e aspirar às mesmas coisas, independentemente da sua diferença em matéria de antecedentes culturais e temperamento individual (...) Mas a civilização universal - a que encontraria harmonia pela combinação do sufrágio universal, pelo alargamento das oportunidades educativas, pelo crescimento económico constante, pela iniciativa privada e pelo progresso pessoal - não se materializou.
A globalização - caracterizada pelo capitalismo apátrida, pela aceleração das comunicações e pela mobilização rápida - enfraqueceu por todo o lado as antigas formas de autoridade, tanto nos países social-democratas da Europa como nos regimes despóticos árabes, e fez emergir uma quantidade de novos e imprevisíveis protagonistas internacionais, dos nacionalistas ingleses e chineses aos piratas somalis, passando pelos traficantes de seres humanos, pelos hackers anónimos e pelo Boko Haram. (...) A disseminação do ódio contra os imigrantes, as minorias e os vários «outros» tornou-se banal e entrou no mainstream - mesmo na Alemanha, onde a política e a cultura pós-nazis foram fundadas no preceito «Nunca Mais». Pessoas a espumarem de aversão e de maldade (...) tornaram-se uma visão habitual nos meios de comunicação social (...) O racismo e a misoginia rotineiramente visíveis nas redes sociais e a demagogia no discurso político revelam agora aquilo que Nietzsche, ao referir-se aos «homens de ressentimento», designou por «um reino globalmente trémulo de vingança subterrânea, inesgotável e insaciável nas suas erupções» (...) Esta obra adopta uma perspectiva muito diferente de uma crise universal, transferindo a carga absurdamente pesada das explicações do islão e do extremismo religioso. Nela defendemos que a desordem sem precedentes nos domínios político, económico e social que acompanharam a ascensão da economia capitalista industrial no século XIX, e que conduziram a guerras mundiais, regimes totalitários e genocídio na primeira metade do século XX, está agora a infetar regiões e populações muito mais vastas; e que, expostas em primeiro lugar à modernidade pelo imperialismo europeu, grandes partes da Ásia e de África estão agora a mergulhar nas profundezas fatídicas dessa modernidade tal como o Ocidente a viveu.
O âmbito desta crise universal é muito mais vasto do que a questão do terrorismo ou da violência. Os que por rotina evocam um choque de civilizações à escala mundial, em que o islão se encontra em oposição ao Ocidente e a religião entra em choque com a razão, não são capazes de explicar muitas doenças políticas, sociais e ambientais. E mesmo os expoentes da tese do «choque» podem achar mais esclarecedor reconhecer, sob a camada da retórica quase religiosa, as profundas afinidades intelectuais e psicológicas que os alegres aficionados islâmicos do Califado do ISIS partilham com D'Annunzio e muitos outros radicais laicos, igualmente extravagantes, no século XIX e no início do século XX: os estetas que glorificavam a guerra, a misoginia e a piromania, os nacionalistas que acusavam os judeus e os liberais de um cosmopolitismo sem terra e festejavam a violência irracional e os niilistas, anarquistas e terroristas que florescem em quase todos os continentes num cenário de cómodas alianças político-financeiras, crises económicas devastadoras e desigualdades obscenas. Devemos regressar às convulsões desse período para compreendermos os nossos próprios tempos de raiva. Porque os franceses que punham bombas em espectáculos musicais, cafés e na bolsa de Paris no final do século XIX, e para o jornal anarquista francês que publicou um apelo para a «destruição» do «covil» (um teatro de espectáculos musicais em Lyon), onde «a fina-flor da burguesia e do comércio» se junta depois da meia-noite, têm mais em comum com os jovens da União Europeia inspirados pelo ISIS que massacraram quase 200 pessoas num espectáculo de música rock e em bares e restaurantes em Paris em Novembro de 2015
Grande parte da nossa experiência parece-se com a dos povos no século XIX. Os nacional-socialistas alemães, e depois os italianos, apelavam para uma «guerra santa» mais de um século antes de a palavra «jiade» entrar na linguagem comum (...) O messianismo revolucionário - a urgência de uma solução global e definitiva, a ideia do partido como seita de crentes fiéis e do chefe revolucionário como herói semidivino - prosperara entre os estudantes russos que rejeitavam a crueldade e a hipocrisia dos soberanos da família Romanov. Então como agora, o sentido de humilhação perante as elites arrogantes e enganadoras generalizou-se, atravessando fronteiras nacionais, religiosas e raciais. (...)
Numa mudança a uma escala maciça e que não tem sido devidamente apreciada, as pessoas começam a ver-se na vida pública em primeiro lugar como indivíduos com desejos e interesses (...) Na era da globalização que nasceu depois da queda do muro de Berlim, a vida política passou a ser preenchida como exigências ilimitadas de liberdade e satisfação individuais. Com início na década de 1990, uma revolução democrática de aspirações varreu o mundo, fazendo eclodir a procura ansiosa de riqueza, de estatuto e de poder, além dos desejos já comuns de estabilidade e de satisfação, nas circunstâncias menos favoráveis. As ambições igualitárias libertaram-se das velhas hierarquias sociais, como as castas na Índia e as classes em Inglaterra. A cultura do individualismo tornou-se universal, tomando formas que nem Tocqueville nem Adam Smith (...) conseguiram prever. (...) As crises de anos recentes puseram a nu o enorme fracasso que foi concretizar ideais de expansão económica sem limites e a criação da riqueza privada. Muitos dos recém-criados «indivíduos» trabalham no duro dentro de comunidades sociais e políticas criadas com pouca imaginação e/ou em países de soberania enfraquecida. Não sofrem apenas do facto de que, como escreveu Tocqueville noutro contexto, «os laços, os apoios e as restrições tradicionais foram deixadas para trás juntamente com a garantia do valor pessoal e da identidade do indivíduo». O seu isolamento também se intensificou com o declínio ou a perda das ideologias pós-coloniais associadas ao nation-building pós-colonial e do abandono da social-democracia pelas elites tecnocráticas globalizadas. Desse modo, indivíduos com passados muito diferentes dão por si pastoreados pelo capitalismo e pela tecnologia em direcção a um presente comum, em que a distribuição grosseiramente desigual da riqueza e do poder gerou novas hierarquias humilhantes. Esta proximidade, ou aquilo que Hannah Arendt chamou «solidariedade negativa», é tornada mais claustrofóbica pelas comunicações digitais, pelo aumento da capacidade de fazer comparações movidas pela inveja e pelo ressentimento (...) Ao mesmo tempo, as contradições arrasadoras de um sistema económico dinâmico, que se revelaram pela primeira vez na Europa do século XIX - assomos tecnológicos de inovação e crescimento contrabalançados pela exploração sistémica e pelo empobrecimento generalizado -, ganham uma dimensão universal. Muitos desses choques de modernidade foram, em tempos, absorvidos pelas estruturas sociais herdadas da família e da comunidade e pelas almofadas previdenciais do Estado. Hoje, os indivíduos estão-lhes diretamente expostos numa era de concorrência acelerada diretamente expostos numa era de concorrência acelerada em campos desiguais onde é fácil sentir que já não há sociedade nem Estado e que o que existe é só uma guerra de todos contra todos. (...) Na primeira metade do século XX, não foram só os nazis e os fascistas que abraçaram as teorias do darwinismo social, modernizando-as freneticamente. O apoio a esta perspectiva atravessou a Europa e a América e as classes cultas e ambiciosas da Turquia, da Índia e da China (...) E também se tornou claro como os esquemas da expansão e satisfação humanas, oferecidos pela esquerda, pela direita e pelos liberais e tecnocratas «centristas», raramente consideraram os factores de constrangimento que são um espaço geográfico finito, recursos naturais degradáveis e ecossistemas frágeis. Até há pouco tempo, os decisores políticos não levavam a sério esses constrangimentos, nem sequer os consideravam e muito menos previam que um desfecho do crescimento industrial e do consumismo mais intenso seria o aquecimento global. (...) Conforme os mercados globalizados e voláteis restringem a autonomia de acção dos Estados-nação e os refugiados e os imigrantes desafiam as ideias dominantes de cidadania, de cultura nacional e de tradição, o pântano de medo e insegurança expande-se. Capturados por uma febre competitiva, e incentivados pela possibilidade de que estão condenados a perder, mesmo os que só são relativamente abastados têm tendência a inventar inimigos - socialistas, liberais, um alienígena de rosto escuro na Casa Branca, os muçulmanos - e a responsabilizá-los pelos seus próprios tormentos interiores. (...)
Em 1914, explodiu na Europa uma grande euforia quando rebentou a guerra. A violência e o ódio foram, para muitos, uma promessa de libertação da venialidade, que destruía a alma, e do tédio da sociedade burguesa. Mas o culto de Napoleão e do chauvinismo beligerante já haviam projectado durante o século XIX um mal-estar nascido da perda da fé religiosa e uma crise severa da masculinidade. (...)
Dostoiévski já havia notado, com perspicácia, como os indivíduos formados para acreditarem numa noção elevada de liberdade e soberania pessoais, e depois confrontados com uma realidade que cruelmente as cancelava, podiam romper com a sua ambivalência paralisante, lançando-se no homicídio gratuito e na revolta paranóica - podvig, que era o conjunto das proezas espirituais espectaculares a que aspiravam as personagens de ficção de Dostoievski (...)
Retrospectivamente, a revolta de Gabriele D'Annunzio em Fiume cristalizou muitos temas do nosso próprio fermento global além dos da sua época, espiritualmente agitada: a emancipação ambígua da vontade humana, os desafios e os perigos da individualidade, o anseio de um novo encantamento, a fuga ao tédio, as utopias dementes, a política da acção direta, a rendição aos grandes movimentos de normas severas e chefes carismáticos e o culto da violência redentora. (...)  Vestindo a política com uma roupagem estética, este predecessor dos militantes do streaming em direto dos dias de hoje delineou um desfecho provável para um mundo em que, como escreveu Walter Benjamin, a auto-alienação da humanidade «alcançou um patamar tal, que pode viver a experiência da sua própria destruição como prazer estético de primeira grandeza (...)
Esta experiência específica da liberdade individual vivida no vácuo é agora endémica, tanto entre os habitantes do mundo «desenvolvido» como os dos mundos «em desenvolvimento» e «subdesenvolvidos». E é por isso que muitos países «em modernização», com a literacia a aumentar e as taxas de fertilidade a caírem, se encontram em conjunturas políticas e emocionais que já nos são familiares na história do mundo «modernizado». As taxas de suicídio e de depressão, para usarmos estatísticas reveladoras, subiram em flecha em países com economias de rápido crescimento. Tal como o número de jovens bombistas suicidas que se lançam nas suas próprias versões de podvig
O vácuo moral e espiritual está de novo repleto de expressões anárquicas de individualidade e de procuras loucas de religiões de substituição e de modos de transcendência (...)
As duas maneiras pelas quais a humanidade se pode aniquilar a si própria - uma guerra civil à escala mundial ou a destruição do ambiente natural - estão a convergir rapidamente. (...)
As análises materialistas que invocam as abstracções da nação e do capital, que seguem o movimento das mercadorias, as mudanças drásticas nos sistemas climatéricos e o crescimento da desigualdade por intermédio das técnicas da estatística, da sociologia quantitativa e do historicismo continuarão a ser indispensáveis. Mas a nossa unidade de análise também devia ser o simples humano, os seus medos, desejos e ressentimentos. É na relação instável entre o eu interior e o eu público que se pode começar a medir com maior precisão a guerra civil global dos nossos tempos."

Pankaj Mishra, Tempo de raiva. Uma história do presente, Temas e Debates, 2017, p.14-48

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Terceira guerra mundial aos pedaços

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Pankaj Mishra, em Tempo de raiva. Uma história do presente (Temas e Debates, 2017, p.15), como que corrobora a tese do Papa Francisco de uma (presente e em curso) terceira guerra mundial aos pedaços. Senão, vejamos:

"Têm irrompido em anos recentes actos de violência selvagem em vastas extensões de território: guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, atentados de bombistas suicidas na Bélgica, em Xinjiang, na Nigéria e na Turquia, revoltas que vão do Iémen à Tailândia, massacres em Paris, na Tunísia, na Florida, em Daca (Bangladesh) e em Nice. As guerras convencionais entre os Estados ficam diminuídas pelas guerras entre terroristas e contraterroristas, insurgentes e contrainsurgentes e há também guerras económicas, financeiras e cibernéticas, guerras em torno da informação e travadas no próprio terreno da informação, guerras pelos negócios da droga e das migrações e guerras entre milícias urbanas e grupos das máfias.
Os historiadores do futuro, provavelmente, poderão encarar este caos descoordenado como começo da terceira das guerras mundiais, que será a mais prolongada e a mais estranha e a que, na sua ubiquidade, se aproximará de uma guerra civil global.
É inquestionável que se movimentam aqui forças mais complexas do que aquelas que intervieram nas duas anteriores grandes guerras. A violência, que já não está confinada a campos de batalha delimitados ou às linhas da frente, surge como endémica e ingovernável. E, o que é ainda mais invulgar, mesmo os combatentes mais visíveis desta guerra - os terroristas - são difíceis de identificar".