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terça-feira, 16 de maio de 2017

Deletério


Riram, à gargalhada. Houve os que explicitamente vibraram com a vitória de Trump, nas televisões, nos jornais, nas redes sociais (mesmo após o que fora a enormidade de uma campanha). Entre estes, o grupo de radicais que nunca falham (cá, lá e pelo caminho). Mas houve muitos mais que preferiram a insinuação, que desde o primeiro minuto procuraram branquear o que aí vinha, maquilhar, normalizar o que não era normalizável - não há dúvida que a vinculação ideológica, para muita gente, supera tudo o mais, incluindo o bom senso. Isto, por cá, Portugal. Porque quem sofre não são as ideias - como se vê, bem resistentes e imunes à mais chã das realidades -, nem o cinismo ou o engraçadismo. Nem, tão pouco, numa leitura simplista, esses valentes. Quem sofre são as pessoas concretas e os grupos sociais esperados, nos EUA, perante uma Administração e um Presidente que são notícia diária pelos piores motivos.



Mas alguma vez houve algo como o Trumpcare, a legislação sobre cuidados de saúde que os Republicanos apresentaram na Câmara dos Representantes na semana passada? É uma lei feita sem o mínimo cuidado, cheia de consequências imprevistas. É um desastre moral, que rouba a assistência médica a dezenas de milhões de pessoas, principalmente para dar aos muito ricos um corte de impostos de quase um bilião de dólares.
O que é notável, contudo, é o nível orwelliano de desonestidade em todo o processo. Cada palavra que os Republicanos proferiram, de Trump para baixo, acerca da sua lei - sobre por que querem substituir o Obamacare, sobre o que fará a sua substituição e sobre como funcionará - é mentira, incluindo os monossílabos "um" e "uma", "a" e "o" e "e". E o que nos diz do estado da política americana o facto de uma maioria dos representantes de um dos nossos principais partidos ter avançado com este processo de pesadelo? 
Antes de recuperarem a Casa Branca, os Republicanos atacaram o Obamacare por muitas razões. Para começar, diziam que a lei foi apresentada sem debate prévio suficiente. Também alegavam que os americanos estavam a fazer um mau negócio. As deduções eram demasiado altas, declaravam, bem como os prémios. Prometiam reduzir estes custos para dar, como Trump insistia que faria, uma cobertura que seria "muito mais barata e melhor". E entretanto, prometiam manter as coisas que as pessoas gostavam no Obamacare. Ninguém seria excluído do Medicaid; a ninguém seria negada uma cobertura de saúde financeiramente acessível por causa de doenças preexistentes.
Depois temos a realidade da legislação Republicana. O Trumpcare foi apresentado tão depressa que é difícil acreditar que um número significativo dos que o votaram tenha tido sequer tempo para ler o pacote legislativo. E foi, claro, empurrado para o parlamento sem dar à Comissão Orçamental do Congresso hipótese de calcular os seus custos, os seus efeitos nas coberturas, ou qualquer outro aspecto. Mesmo sem uma análise cuidada, no entanto, é evidente que o Trumpcare rompe com todas as promessas que os Republicanos fizeram relativamente à Saúde. As deduções vão aumentar, não diminuir, porquanto as seguradoras têm mão livre para oferecer coberturas de qualidade inferior. Os prémios podem diminuir para um punhado de pessoas jovens saudáveis e com dinheiro, mas aumentarão e em muitos casos dispararão para os mais velhos (porque os spreads de idade aumentam), mais doentes (porque a protecção contra a discriminação baseada na história clínica é retirada) e mais pobres (porque os subsídios vão cair).
Muitas pessoas com doenças preexistentes ficarão com os seguros completamente indisponíveis ou totalmente indisponíveis ou totalmente fora de mão do seu poder de compra. E o Medicaid será reduzido, com os estragos a acumularem-se com o tempo.
O mais importante, porém, é não só perceber que os Republicanos estão a romper as suas promessas, mas compreender que estão a fazê-lo de propósito.
Não é um daqueles casos em que as pessoas tentam fazer aquilo a que se comprometeram, mas não conseguem lá chegar na execução. Este é um ato de traição deliberada: tudo no Trumpcare está desenhado especialmente para produzir resultados diametralmente contrários aos anunciados por Trump, Paul Ryan e outros Republicanos.
O que levanta duas questões: porque estão eles a fazer isto e porque acham que se vão safar? Parte da resposta à primeira pergunta é, presumivelmente, ganância. Dezenas de milhões perderão o acesso à cobertura de saúde, mas - de acordo com estimativas independentes de uma versão anterior do Trumpcare - as pessoas com rendimentos superiores a um milhão de dólares pouparão em média mais de 50 mil dólares por ano. E há uma poderosa facção do partido Republicano para quem cortar os impostos dos ricos é a única coisa que interessa. E numa nota mais subjectiva, não têm a impressão de que Trump tem algum prazer em brincar com as pessoas que caem na asneira de confiar nele?
Quanto a eles pensarem que podem safar-se: bom, a história recente não está do seu lado? O que aconteceu com a saúde não deveria ser tratado como mais um caso de política cínica. Era Liberdade e agora é Escravidão, a Ignorância faz a força. E pode ser assim que tudo vai passar a ser.

Paul Krugman, O "1984" do Partido Republicano, Visão nº1262, 11/05 a 17/05 de 2017, pp.30 (texto publicado originalmente no The New York Times)

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Media, fim-de-semana




*Neste fim-de-semana, o I publicou texto de Paul Krugman e Thomas Picketty sobre a desigualdade. No Expresso, Clara Ferreira Alves escreveu, também, sobre “o capital no séc.XXI”. Depois de Manuel Maria Carrilho (julgo que posteriormente à edição portuguesa de O preço da desigualdade, onde Stiglitz o havia referenciado e tomado como muito importantes os seus estudos) o ter citado, há meses, no DN (e esta semana, de novo), está, definitivamente, na moda, também entre nós.

*Assisto a mais uma edição do Panorama BBC (na SicNotícias). Esta semana dedicado à “revolução do Papa Francisco”. Muitos lugares comuns, os testemunhos, quase todos, esperados, pouca novidade. Skorka garante, de modo peremptório, que Francisco sabe perfeitamente os riscos que corre; há um vaticanista ouvido na reportagem que nos dá conta de um Bergoglio que também tem uma (menos conhecida) dimensão autoritária e que pode ferver em pouca água; há um líder da comunidade homossexual, em Buenos Aires, que sublinhou, no Cardeal Bergoglio, uma compreensão e um reconhecimento dos direitos dos homossexuais, que contrastava um pouco com a sua imagem pública na Argentina (quando tais direitos se discutiram); há uma testemunha dos anos de ditadura militar na Argentina que agradece ao Cardeal estar ainda viva; e há, finalmente, uma experiência negativa de uma vítima de abusos sexuais, num seminário de Buenos Aires, com o modo como a hierarquia da Igreja e seu máximo responsável, na altura, lidou com o assunto. Em suma, os pontos que mais se destacaram no documentário.

*Fico com grande curiosidade de ver o filme “O Novo Testamento de Jesu Christo segundo João”, de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, após ler, no Expresso, os considerandos de José Tolentino de Mendonça sobre este: “um dos objectos mais insólitos do cinema contemporâneo”, apresentado no IndieLisboa, que, assim, será lembrado por muitos anos: “a curiosidade pelo enigma de Jesus, por mais que se diga, é inultrapassável”. Este filme, em concreto, é “diverso de tudo o que antes vimos”. O jogo de presença/ausência de imagens, ao longo do filme, “soará como blasfémia ao consumismo sonâmbulo e sem atropelos que o mercado impõe”. Finalmente, “Luis Miguel Cintra tem aqui um dos momentos mais inesquecíveis da sua monumental carreira”. Em suma, os realizadores deste filme, recordam-nos, com ele, que “o cinema dá a ver o milagre”.


*Depois da Visão, a atenção/foco e Daniel Goleman, esta semana a Sábado (mais robusta reportagem no seu tema, do que a Visão havia trazido sobre diversa problemática; se bem que a edição da Sábado era especial, pelos seus 10 anos) com as novidades sobre aquilo de que os bebés são capazes Alison Gopnik. Para continuar a acompanhar neste blog.

*Passou um pouco despercebida a edição do Conselho de Directores, há algumas semanas, na RR, com Marcelo Rebelo de Sousa, mas com interesse quanto ao seu futuro político. Acertada, desta vez, a provocação de Henrique Monteiro quanto ao adversário que Marcelo mais teme para as presidenciais: António Guterres.