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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Virgindade



[O acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, acerca do E-toupeira acaba] "por ridicularizar as conclusões da juíza de instrução (de facto, inconcebíveis), para quem Paulo Gonçalves espiava processos do Benfica e dos adversários por interesse pessoal, como quem colecciona selos
Está escrito neste acórdão (embora eu tenha a impressão de que essa parte será poucas vezes citada) o evidente e obrigatório: "o crime é cometido em nome da Benfica SAD e no interesse da Benfica SAD" [página 102, 3º parágrafo]. E é, obviamente, em nome da Benfica SAD que Paulo Gonçalves será julgado por crimes que o acórdão não põe em causa, pelo contrário. São os crimes que contam. Uma eventual condenação de Gonçalves será sempre uma condenação do Benfica. A mais notável construção da máquina mediática benfiquista talvez seja mesmo ter convencido tanta gente de que a remoção cirúrgica de Paulo Gonçalves (ou golçalvessectomia) devolve o hímen e a virgindade a esta Administração do Benfica, como se as aparências bastassem. (...) A própria decisão de levar a julgamento o ex-observador de árbitros Júlio Loureiro é um golpe para o Benfica, porque permitirá ouvir-se, em tribunal, uma explicação para os conselhos jurídicos que Gonçalves dava a um árbitro da I Liga no activo (Jorge Ferreira) e dos quais Loureiro foi intermediário. A fumaça esconde, mas não apaga

José Manuel Ribeiro, Claro que o Benfica vai a julgamento, OJogo, 12-09-2019, p.32.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Notícias da Coreia


Lê-se e não se acredita. Mas depois, na ausência de desmentido, percebe-se que é mesmo verdade. Paulo Gonçalves continua vivo e activo na órbita benfiquista - os jornais noticiaram que negociou a transferência do futebolista Jhonder Cádiz -, apesar de ter sido formalmente acusado de corrupção no caso e-toupeira sendo ainda arguido no caso dos e-mails. Qualquer pessoa medianamente sensata e decorosa esperaria ver do Benfica uma demarcação do ex-assessor jurídico e braço direito de Luís F.Vieira, certamente um dos principais responsáveis pela degradação da imagem pública do Benfica. Nem preciso dizer porquê. Mas não. Certamente com o conhecimento e a autorização do amigo Vieira, Gonçalves continua a dar cartas e a mexer com a vida (e os negócios) do Benfica. Como se isto fosse saudável, aceitável, normal (...) Como se o Benfica vivesse acima de todas as regras jurídicas e convenções sociais e não tivesse de prestar contas a ninguém (...) Esta arrogância desafiante, esta arreigada convicção de impunidade e intocabilidade da actual cúpula dirigente encarnada (...) não é bom sinal

André Pipa, ABola, 08-05-2019, p.37.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Melhor era impossível


Toda a verdade (e também toda a mentira) sobre o processo e-Toupeira

Quando um advogado moribundo pede a Bíblia, dia a anedota que não é por se ter convertido, é para procurar brechas nas leis sagradas, em busca da salvação. E se um advogado arguto, digo eu, é capaz de encontrar umas tantas brechas numa acusação do Ministério Público, três advogados ainda mais argutos encontram muitas mais, ao ponto de serem capazes de sacudir nada menos do que 30 acusações. 
Já estão a ver onde o cronista quer chegar? Sim, quer chegar à estranha ilibação da Sad do Benfica no processo e-Toupeira, mais um daqueles casos em que ganharam os mais dotados tecnicamente, não os que estavam do lado da verdade. 
Também aqueles três craques do Direito (e até do menos direito, depende de quem lhes paga) que o Benfica contratou procuraram - e encontraram - a solução para este caso na leitura da Bíblia, mas exactamente naquela parte em que Arão, o sumo sacerdote, coloca as mãos sobre a cabeça do bode expiatório e confessa os pecados do povo, transferindo simbolicamente esses pecados para o animal, que, depois, é solto no deserto, levando para longe todas as iniquidades dos homens (Levítico 16: 21-22). 
Paulo Gonçalves, que até já tinha sido abandonado no deserto, estava mesmo a pedir o papel do bode que absorve e expurga os pecados dos outros. E a crente juíza validou a encenação ao concluir que "os crimes que lhe estão imputados nada têm a ver como o prosseguimento dos interesses do Benfica". Ficámos a saber que vasculhar o segredo de processos em que o clube é o principal acusado ou saber antecipadamente de uma busca da Judiciária, por exemplo, era apenas do seu interesse. O pessoal da SAD, na sua infinita inocência, desconhecia tudo. Ora, aí está uma verdade judicial tão credível como a de que Vale e Azevedo vivia de 400 euros mensais e do cultivo da sua horta. Acreditar nela é como acreditar na história da laranjinha. Dizia ao juíz o réu, acusado de homicídio violento, à navalhada: "Eu estava, muito sossegado, a descascar a minha laranjinha, com uma navalha, quando ele apareceu e...". 
O futebol é um mundo à parte, de gente enlouquecida pelas paixões, que não pode ser equiparada ao resto da vida; e o resto da vida, sobretudo a justiça, não sabe como lidar com ele.
Corrupção, coação, tráfico de influências são crimes severamente punidos no contexto social; no futebol, que não deixa de ser um jogo, perdem espessura e gravidade. E que mal faz ao mundo, à vida real, que seja o Benfica, e não o Porto ou o Sporting, a ganhar, mesmo indevidamente, um ou outro campeonato? Daí que não tenha sido difícil impor como verdade uma mentira daquele tamanho. É tão óbvio que Paulo Gonçalves agia com o conhecimento e a cumplicidade da SAD do clube, tal como, de resto, foi trinta vezes dito pelo Ministério Público que a única conclusão a retirar desta incompreensível decisão judicial é a de que o Benfica, ao contrário do que aconteceu com a equipa de futebol, acertou em cheio nos reforços para a equipa jurídica. 
Como disse, um dia, o poeta americano Robert Frost, um juíz é aquela pessoa que decide quem tem o melhor advogado.

Álvaro Magalhães, OJOGO,  30-12-2018, p.56.