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que caracteriza o ser humano, a pessoa? Isto é, o que lhe é específico,
próprio, particular, não partilhável com os demais seres e espécies? Há, hoje,
uma forte corrente científico-filosófica para a qual entre o Homem e os outros
animais a diferença é apenas de grau. De outra banda, estão os que pensam –
entre os quais me incluo – que não há apenas uma diferença de grau, mas existe,
mesmo, uma diferença qualitativa aqui. O filósofo Pedro Entralgo propõe que a
melhor forma de comparação é a conduta humana observável. Assim, verifica que
de entre todos os seres da Terra, só o Homem é livre, só ele tem a capacidade
de razão abstracta, de autoposse, só ele tem a noção de ser sujeito de
obrigações (deveres) para lá das instâncias meramente instintivas, só ele pode
rir e sorrir, só ele é animal simbólico, só ele é capaz de amor de doação; o
animal também sabe, mas só o Homem sabe que sabe, só ele é capaz de
autoconsciência, de linguagem duplamente articulada, de sentido do passado e do
futuro, de promessas, de criação e contemplação da beleza, de descida à sua
intimidade e subjectividade pessoal, só ele sabe que é mortal, só ele pergunta
e fá-lo ilimitadamente, só ele cria instituições jurídicas e compõe música, só
ele tem de confrontar-se com a questão da transcendência e do Infinito: “outra
característica sua essencial é a busca de sentido. Enquanto os outros animais
aparecem feitos, o Homem, por causa da neotenia – nascimento prematuro -,
aparece no mundo por fazer e tem de fazer-se. Daí a pergunta: fazer-se como e
para quê, com que meta e objectivo?”[1]