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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Cruz, símbolo

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A fé dos outros não me diz respeito; aquilo em que acredito ou não acredito já é um trabalho a tempo inteiro. Mas admito que me faz alguma impressão a total indiferença religiosa. Não a indiferença à fé ou às igrejas, mas ao sagrado enquanto facto antropológico e alegoria do humano. Entendo, e às vezes acompanho, as críticas às intolerâncias e iniquidades das religiões organizadas, incluindo as cristãs, mas sempre achei bizarro que alguém declare, por exemplo, que nunca leu a Bíblia porque é ateu, como se a Bíblia fosse imprestável para incréus
Uma refutação veemente desse tipo de recusas encontrei-a num artigo que a escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991) publicou no jornal comunista "l'Unitá", a 22 de Março de 1988. Nascida numa família laica de origens judaicas, filiada no PCI, Ginzburg interveio inesperadamente na polémica sobre os crucifixos nas escolas. Não é a questão concreta que aqui me interessa, até porque defendo que num Estado não-confessional os edifícios públicos não devem ter símbolos religiosos; mas impressionou-me a valorização simbólica que a escritora faz da cruz de Cristo, que ela não interpreta exclusivamente como um artefacto religioso. Admitindo que, se fosse professora, preferia ter a cruz na sala de aula, Ginzburg assevera que "o crucifixo não gera nenhuma discriminação". E que é, bem pelo contrário, a imagem de uma revolução, a "revolução cristã que espalhou pelo mundo a ideia de igualdade entre homens". E, então, pergunta: vamos negar que essa ideia mudou o mundo? E vamos negar que é justo celebrá-la?
Pode contrapor-se que a cruz simboliza para muita gente alguns aspectos do cristianismo bem menos benévolos. Mas o argumento do artigo é que o crucifixo é igualmente um símbolo de todo o sofrimento humano. Os pregos e a coroa de espinhos e a cruz evocam a dor, a solidão, a morte, males aos quais ninguém está imune. Quem é aquele condenado na cruz? Filho de Deus para uns, judeu perseguido para outros, é para tantos a imagem viva de um homem martirizado pelo amor a Deus e ao próximo. E esta ideia do "próximo" não pode ser indiferente nem a um ateu, muito menos a um progressista. Jesus na cruz representa todos aqueles que sofreram e morreram pelos outros, escreve Ginzburg, e esclarece logo que não vê escândalo nenhum nessa afirmação: "Porque antes de Cristo ninguém tinha dito que todos os homens são iguais, e irmãos; todos, ricos e pobres, crentes e não crentes, judeus e não-judeus, negros e brancos; e ninguém tinha dito que no centro da nossa existência deve estar a solidariedade entre os homens. E ser vendido, traído, martirizado e morto por causa da fé é uma coisa que pode acontecer a todos. Acho que é bom que os rapazes, as crianças, aprendam isso nos bancos da escola".
A autora de "Léxico Familiar" diz que olhamos para o crucifixo como coisa muda que está numa parede ou faz parte da parede, mas que o crucifixo não é mudo nem inócuo: é um símbolo que traz consigo palavras. Palavras cristãs mas que há muito fazem parte da consciência colectiva, palavras como "bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados". Pergunta Ginzburg: "Como serão saciados? No Céu, dizem os crentes. Enquanto os outros não sabem nem quando nem onde, mas estas palavras fazem com que sintam, sabe-se lá porquê, a fome e a sede de justiça de forma mais severa, mais ardente e mais forte".

Pedro Mexia, Imagem viva, Expresso, Revista do Expresso, Edição 2415, 09-02-2019, p.106.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

"Não-reconciliado"


Houellebecq é um sismógrafo de alta precisão (...) Mas e se a maior provocação fosse mesmo a felicidade? Houellebecq diz, por interposta personagem, que já não há "condições históricas" para a felicidade, projecto antigo agora condenado à obsolescência (...) É assim que argumenta que entre o ocaso das sociedades tribais e a solidão generalizada das grandes cidades se inventou o modelo do casal, corpo intermédio, alternativa sã, esperança em aberto. Acontece que, à imagem da agricultura, o casal deixou de ser viável. A vida moderna, "líquida" como diria Bauman, conspira contra o casal. (...) Houellebecq tem sido muitas vezes classificado como o melhor romancista francês da actualidade. É uma asserção duvidosa, sobretudo para os fãs de Emmanuel Carrère. (...) "Serotonina" pode sugerir a ideia de um homem reconciliado, mas é preciso ter em conta que ele se reconcilia com hipóteses que considera extintas, da identidade nacional ao "amor incondicional". Por isso, é mais seguro dizer que Houellebecq continua, agora e sempre, "não-reconciliado" (...) Pós-apocalíptico, mesmo quando teológico, macambúzio, patético, o seu engenheiro agrónomo acredita no amor, mas no amor enquanto possibilidade que fracassou

Pedro Mexia, Uma questão de química, Expresso, Revista do Expresso, 26-01-2019, p.69.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Ontem à noite, na Capela do Rato (II)



«Interessam-me muito as palavras, é disso que vou sentir falta em relação ao P. Tolentino, porque as venho beber todos os domingos à capela do Rato; é sobretudo esse lado dele, de poeta, que faz toda a diferença, porque nos obriga também a levantar voo, a ganhar asas, ao meditar sobre o Evangelho. Desejo-lhe toda a sorte do mundo.» (Maria Rueff)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Bom senso







Pedro Mexia, entrevistado por Bruno Vieira Amaral para o Observador, 02-04-2018

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Um olhar equilibrado para um Pontificado



Para quem está saturado dos lugares-comuns sempre que se fala deste tema, das banalidades mil vezes repetidas, embora concisa, a intervenção de Pedro Mexia vai dizendo outras coisas. O que é sempre um bálsamo para o espírito. Na parte acerca da metafísica no cristianismo, repete o que lhe ouvira, em Braga, há um bom par de anos, e o que tenho a dizer sobre o tópico é que continuamos completamente de acordo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

As escarpas do transcendente



A divergência, neste livro de Frederico Lourenço, para com (alguma) exegese católica de hoje, será, essencialmente, esta: os livros bíblicos não foram escritos, na sua origem, para serem lidos metaforicamente…mas lê-los literalmente não permite bons resultados – “uma das grandes questões a confrontar os leitores pós-modernos da Bíblia que querem alisar os tremendos problemas que a leitura literal levanta é que nenhum autor de nenhum dos livros da Bíblia o escreveu com a intenção de NÃO ser levado à letra. Quando Lucas nos dá o seu relato (que ele não sabia ser historicamente inverosímil) do nascimento de Jesus, não o fez para nós lermos nele acima de tudo o seu encanto poético: fê-lo para ser tomado à letra como verdade que lhe foi transmitida com origem em testemunhos oculares, como se lê logo no início do seu evangelho. Este facto é tão incómodo tanto para crentes como para não-crentes, mas não vale a pena fintá-lo: nenhum livro da Bíblia foi escrito para ser relativizado e lido cum grano salis; foi escrito, isso sim, para ser lido à letra” (p.16). Portanto, as leituras alegóricas seriam construções posteriores, dadas as impossibilidades a que conduziria a literalidade. Mas, logo nas páginas iniciais em que o autor avança esta posição, como leitor perguntava-me como é possível supormos que os (diferentes/divergentes) autores do Génesis, por exemplo, pensassem estar a transmitir como as coisas se passaram realmente, pelo menos à nossa maneira “cientificista” de entender como as coisas se passaram realmente (embora, se uma hermenêutica sustenta que à época em que o Génesis é escrito as mentalidades não estavam contaminadas pelo positivismo e pela confusão entre História/facto e verdade, poderiam, efectivamente, pensar estar a transmitir (literalmente...?) uma verdade...que não a história factual...Deus criou o mundo em sete dias, etc. Mas confesso que aqui a aplicação do advérbio de modo “literalmente” me parece de difícil operatividade – ainda que fique registado o (possível) vício de raciocínio, o anacronismo, de uma leitura “cientificista” de um dos livros da Biblioteca que a Bíblia é).
Um dos textos mais interessantes/desafiantes desta obra de Frederico Lourenço, a meu ver, e no actual contexto histórico, prende-se com a (também/ainda) hodierna questão da circuncisão: pode um pai impô-la a um filho (sobretudo, ainda que não exclusivamente, no contexto cultural do judaísmo, mas em sociedades demo-liberais)? O caso foi, em 2011, levado aos Tribunais alemães, “tendo ocasionado legislação oriunda de um tribunal de Colónia que (…) procurava defender a integridade física dos bebés do sexo masculino nascidos de pais judeus” (p.53). Todavia, a “tentativa de proibir a circuncisão foi de tal forma contestada pela comunidade judaica que o legislador alemão teve de recuar, sob pena de incorrer na acusação de anti-semitismo”. Ora, parece-me que este tem tudo para se tornar num novo caso-escola, porventura substituindo, com vantagem – e aqui utilizo o termo vantagem para significar que perante a demonstração de que com a prática da circuncisão não há, para futuro, diminuição do prazer sexual (experimentado por quem se submeteu, ou foi submetido, a tal prática), p.ex., ou que a anestesia evitará dor e, em assim sendo, possivelmente a resposta poder-se-á afigurar menos clara, ao intérprete, do que a que imediatamente o impele a manifestar-se no caso da mutilação genital feminina -, a sempre apontada mutilação genital feminina, para colocar nas aulas de filosofia (do 10º ano) sobre os limites do relativismo cultural e ético, a relação multiculturalidade-multiculturalismo, os limites deste último. Evidenciando as dificuldades de um critério supra-culturas (dificuldade, reitere-se, ilustrada pelas decisões jurídica e política divergentes entre si, no mencionado caso alemão, de 2011)
As questões de tradução são, igualmente, um dos pontos fundamentais a repensar com o livro em apreço. É muito importante, diz-nos o autor, pensar-se num Deus humanado que nasceu numa manjedoura, abandonado aos animais, mais tarde cuspido e mal-tratado pelos seus semelhantes. Mesmo que um distinto núcleo da narrativa (bíblica) se ofereça sem plausibilidade histórica, no que concerne à configuração do nascimento de Jesus (apontamento, neste caso, sem surpresa), essa ideia deve permanecer bem presente na comunidade, advoga o ensaísta.
Mas esta lógica, aplicada a tudo na Bíblia – esta vista como contendo umas boas lições espirituais, de moral, acerca da condição humana, mas sem nenhuma outra dimensão que não a de pura poesia - torna este livro sagrado um manancial de ensinamentos (quase) com o mesmo estatuto com o qual, por exemplo, Luc Ferry pega nos mitos gregos, extrai lições/princípios/valores, e assim ensina os filhos - talvez, contudo, o modo como o cristianismo vem sendo, quando é, reapropriado a Ocidente e em especial na Europa; isto é, se a Ocidente se vivem tempos pós-seculares - fora as adesões ao Islamismo, nele presentes – eventualmente seja/esteja a ser desta forma (o cristianismo não já como realidade face à qual se seja indiferente/ignorante, mas fonte a explorar como poesia, digamos assim; ou como, melhor ou menos boa, antropologia, como história de mitos, ou história da nossa tradição/cultura; ou história de uma das tradições que impregnou a nossa cultura). Mas para um crente (em Deus), como dizia Pedro Mexia na Capela do Rato, há duas semanas, ou há uma dimensão transcendente, ou, então, a Igreja é, de facto, uma ONG. Bem intencionada, por certo, mas uma ONG.


domingo, 8 de novembro de 2015

O médico como humanista (II)


Nem de propósito, a recensão desta semana, de Pedro Mexia, no Expresso, é ao livro do Professor João Lobo Antunes. Reforçando o que aqui já havíamos escrito:



Pedro MEXIA, A condição humana, Expresso. A Revista do Expresso, n. 2245, 07. 11. 2015, 66.


Esteta fleumático, João Lobo Antunes entende a neurocirurgia como a escuta de um “vibrato emocional”


Para circunscrever o âmbito muito vasto das suas inquietações, João Lobo Antunes cita Renée Fox, socióloga e especialista em bioética: “Saúde, doença e cuidados médicos estão integralmente ligados a alguns dos aspectos mais básicos e transcendentes da condição humana. A concepção do ser humano, o nascimento, a sobrevivência e o crescimento; as capacidades físicas, emocionais e intelectuais (...); sexualidade; envelhecimento (...). A prática da medicina, bem como a experiência da doença convocam os problemas críticos do significado – questões fundamentais sobre os ‘porquês’ da dor, sofrimento, angústia; os limites da vida humana; a morte;  e as suas relações com o mal, o pecado e a injustiça”. Ou seja: nada do que é humano é estranho à medicina, à medicina vista como uma “epistemologia moral”, tão próxima do discurso da ciência como dos ensaios de Montaigne.
Esta sétima colectânea de Lobo Antunes reúne artigos, conferências, intervenções em colóquios, evocações de amigos desaparecidos, textos claros, cultos, elegantes. Certos ensaios são muito específicos ou especializados,  mas outros dirigem-se a todos os públicos. Numa época em que a medicina vive “empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia”, Lobo Antunes defende a figura do médico humanista, genuinamente atento à humanidade mas também solidamente formado nas Humanidades. Um médico que sabe e que se preocupa. Que escuta, compreende, consola, e às vezes salva.
Lobo Antunes não se furta a comentar as tentações demiúrgicas do médico, em especial do cirurgião, a vaidade, o quase-cabotinismo, a equívoca faceta de artista-cientista; mas estes ensaios são sobre os médicos e sobre os doentes, sobre a “humanidade ferida” de ambos. Uma vida humana é um “caos irreprimível, quântico, de ideias, emoções, vontades e memórias, sempre agitadas, sempre imprevisíveis”, e a doença, quando surge, “actua como um magneto implacável que agrega toda esta limalha numa massa sólida, imóvel, tenaz”. A doença é uma condição, a manifestação da inevitável vulnerabilidade, um teatro de medos e esperanças, um discurso de ficções e de metáforas.
É por isso que Lobo Antunes valoriza tanto a “medicina narrativa”: não como conjunto de case studies mas enquanto catarse, memorial, testemunho. E as narrativas individuais,  de cidadãos anónimos, não se distinguem, na sua autenticidade, dos grandes textos sobre a doença, aqui convocados: “A Morte de Ivan Ilitch” de Tolstoi, Tchekhov em Sacalina, o poema “Do not go gentle into that good night”, a peste alegórica em Camus, as confissões de Anatole Broyard e as imprecações de Susan Sontag, a viuvez de Joan Didion, o “Ravelstein” de Bellow e a “Némesis” de Roth. Ou os livros-sobre-a-doença aos quais Lobo Antunes está ligado de modo mais pessoal: o “De Profundis, Valsa Lenta” de Cardoso Pires, escrito por seu estímulo, e o “Sôbolos Rios que Vão”, do irmão António. Esteta fleumático, mas sensível à compaixão e à comoção, João Lobo Antunes entende a neurocirurgia, e toda a medicina, como a escuta de um “vibrato emocional”. Uma escuta que depende do conhecimento técnico e da capacidade de empatia, mas que se aperfeiçoa através dos livros que descreveram a doença como símbolo da nossa comum fragilidade.

João Lobo Antunes, OUVIR COM OUTROS OLHOS

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O tempo dos radicais e o fim do «superego cristão»: "os fracos merecem protecção e não desprezo"


O que acontece é que o liberalismo tem sido entendido, essencialmente, como uma categoria do pensamento económico que se entende às vezes apenas na sua visão libertária, identificando o Estado com o mal, insistindo em que tudo o que é sector público é mau até prova em contrário…Aí, a minha costela, não vou dizer democrata-cristã, mas a minha costela cristã, faz-me achar que o Estado é um factor importante de correcção de desigualdades e assistência. Tenho alguma dificuldade em pensar que há pessoas sem nenhuma rede de protecção numa sociedade em crise, como estamos agora. Bem sei que isto é tido como paternalismo por algumas pessoas, mas acho que o paternalismo não é o pior dos defeitos, apesar de tudo, comparado com a insensibilidade face ao sofrimento em particular, por exemplo. A mim preocupa-me muito esta ideia de que se um modelo económico funciona muito bem, as pessoas cujas vidas são destruídas por ele são consideradas um dano colateral. Tenho dificuldade em ir por aí.

(…)

Quanto ao conservadorismo, acho que é pré-político…(…) Isto é, a minha disposição seria conservadora mesmo que a política não me interessasse. Sou uma pessoa naturalmente céptica, prudente, cautelosa, acredito em pequenos passos, na evolução em vez da revolução, não espero demasiado da natureza humana, enfim, tudo isso que são os fundamentos filosóficos do conservadorismo desde Burke (…) Esse tipo de ilusão sobre a natureza humana é trágica porque, depois, a natureza humana não é assim e começam a rolar cabeças.

(…)

Ele [Roger Scruton] é, hoje em dia, talvez o filósofo conservador e pensador mais conhecido, pelo menos no mundo anglo-saxónico. Mas foi muito céptico em relação ao período do thatcherismo, por exemplo, dizendo que, para um verdadeiro conservador, a ideia de que o mercado é o alfa e o ómega é particularmente perniciosa (…) trata-se da ideia de que no fundo, o mercado tendencialmente devora e destrói muito daquilo que um conservador acredita, como a família, nomeadamente. A pura lógica capitalista é perigosa para os valores tradicionais. O Zygmunt Bauman tem um exemplo muito divertido, ou trágico, conforme a nossa disposição, quando diz que o problema do capitalismo é que, a certa altura, também vai permeando a lógica dos nossos comportamentos extraeconómicos. E ele diz assim: «Se nós nos habituamos», não me lembro em que altura é que estávamos, mas suponhamos que era agora, «se nos habituamos a mudar do iPhone 5 para o iPhone 6 quando ele aparece, e o 5 fica imediatamente obsoleto, como é que a certa altura não passamos a transportar isso para as nossas relações?» Como é que nos casamentos não largamos a nossa mulher quando aparece um «novo modelo»? Num certo sentido, o que ele quer dizer é que não se trata de um modelo económico, de pura liberdade económica, de competição, etc., mas de, depois, isso constituir uma espécie de modelo filosófico e ético que vai infiltrar todos os aspectos da sociedade. E isso, diz ele, que é pós-marxista – mas eu enquanto conservador também acho -, é perigoso. A ideia de que o critério ético é a rentabilidade, ou a utilidade, é-me particularmente antipático.

(…)

Eu tenho registado a quantidade de dirigentes políticos [portugueses] que dizem frases sobre o desemprego, a emigração, a quebra de rendimentos, de uma forma um bocadinho desapiedada demais. Havia uma espécie de superego cristão que impedia que as pessoas dissessem isso em público. Um certo pudor com o sofrimento dos outros e a miséria (…) Tem havido, agora não tanto, mas durante um tempo, um conjunto muito grande de declarações de responsáveis políticos e partidários que me parecia que não tinham sequer a consciência de que não se pode dizer tudo, e de que não se pode ofender as pessoas (…) As coisas têm de ser ditas de uma forma minimamente sensata e civilizada. E acho que essa elegância se perdeu um bocadinho.

(…)

Acho que aqueles a quem no cristianismo se chama «os homens de boa vontade» reconhecerão que o pensamento social da Igreja tem procurado que o capitalismo e o crescimento económico não atropelem, não esmaguem a pessoa humana, para usar, também, uma expressão muito cara ao pensamento social da Igreja (…) Trata-se, apesar de tudo, de uma ideia anti-nietzscheana, se quiser: a de que os fracos merecem protecção e não desprezo. Numa palavra, é isso: os fracos merecem protecção e não desprezo.

(…)

Acho que uma pessoa que não é sensível ao sofrimento humano não devia estar na política. Porque o exercício da política não é só assinar papéis e fazer contas – há vidas em jogo. Eu sou muito sensível a isso e tornei-me ainda mais sensível nos últimos anos (…) O regresso da ética à política…Acho que as nossas ideias têm consequências. Se as nossas acções, enquanto pessoas individuais, devem ser bem pensadas porque podem ferir terceiros, as nossas acções como dirigentes de países, por maioria de razão, têm um peso ético. Eu não posso assinar um papel que afecta a vida de milhares de pessoas, como se isso não tivesse consequências.


[De que maneira é que a herança cristã ou o catolicismo o marcam ainda hoje?]

Não pode deixar de marcar porque é uma visão do Homem e do seu destino. É difícil subvalorizar a dimensão que tem um pensamento tão forte como o pensamento cristão, como também outros pensamentos religiosos (e o pensamento marxista, e outros), porque de facto tem uma visão total do que é o ser humano, dos seus fins, das suas dualidades, da sua História…São dois mil anos em que o cristianismo teve, em alguns momentos, as pessoas mais inteligentes do seu tempo a escrever. Santo Agostinho, por exemplo, que é um dos meus autores de eleição. De Santo Agostinho a Kierkegaard e a outros. São autores que ainda dialogam comigo. Tudo aquilo que eles dizem ainda me diz respeito e, portanto, sim, o pensamento cristão e a sensibilidade cristã e o entendimento cristão do mundo são muito importantes.


Pedro Mexia, entrevistado por Francisco José Viegas, LER nº139, Outono 2015, pp.26-39.

sábado, 23 de maio de 2015

Um balanço




I: Que balanço fazes destes anos de governo de Passos Coelho? É possível falar de uma mudança de paradigma da direita?

Pedro Mexia: Julgo que é possível, sim. A mudança já começava a existir antes deste governo, na blogosfera já era visível uma reconfiguração da direita portuguesa que se afastava de alguns sectores. Gente mais jovem e académica que se afastava do padrão democrata-cristão (estou a ser genérico). Uma visão mais parecida com os economistas austríacos ou com a chamada escola de Chicago. A ideia individualista era mais forte que o sentimento colectivo, ou, dizendo de outro modo, era visível a dissolução de uma matriz cristã. Aconteceu, sim. Nalguns momentos senti isso como um retrocesso, em alguns momentos houve figuras ligadas a este governo que fizeram declarações públicas que revelaram uma insensibilidade social muito gritante. (...) Tudo o que não respeita o sofrimento alheio, incluindo o desemprego e a pobreza, não me interessa. É o meu fundo católico, se quiseres.

entrevista concedida por Pedro Mexia a Luís OsórioI, ano 6, número 1869, 25/04/2015, p.25.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Crítica




Lendo, hoje, a crítica que Gonçalo Mira faz, no Público, às últimas obras publicadas por Gonçalo M.Tavares, ou atentando no que escreveu, no ExpressoPedro Mexia sobre a tradução de Não sabemos mesmo O que interessa, de Paul Celan, parece estar a perder pertinência aquela crítica que Pacheco Pereira fazia a recensões de livros que, em Portugal, só diziam bem (dos recenseados; dos livros e seus autores); "em Portugal, não há livros maus" (atirava, com sarcasmo, JPP). Na medida em que atribuía tal postura a uma mentalidade tributária do medo do conflito, legado por décadas de ditadura, significarão estes exemplos, que contrariam a sua tese, uma corrente em que o respeitinho já não está, ou está menos, presente? Mudança de mentalidades?

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Dar o benefício da dúvida à espera


Pedro MEXIA, Benefício da Dúvida, Expresso. Atual, 28. 12. 2013, 3.

Ronald Stuart Thomas é um bom poeta para Dezembro, mês inclemente. E além disso estamos ainda em ano de centenário: Thomas nasceu em 1913 e morreu 87 anos depois. Descobri-o há duas décadas, numa livraria ao pé do British Council que mantinha uma minúscula secção de poesia. Releio-o num momento em que assistimos a uma estranha e talvez efémera voga de certos valores cristãos de cunho "franciscano". Confesso que sou, quase desde que me conheço, adepto de um cristianismo mais áspero e desagradável: o de Paulo, Agostinho, Pascal, Kierkegaard. Que é também o cristianismo vetero-testamentário de R. S. Thomas: "E no meu livro li que / Deus é amor. Mas levantei / a cabeça e não achei que / fosse. Devo voltar // ao livro e nos caracteres / impressos procurar uma atmosfera / densa com o perfume / dessa tão simples palavra? Ou não // confiar na linguagem, só nos golpes que / a vida me dá, e usá-los / como um daqueles selos vermelhos / com que se fecha um acordo?"
Thomas nasceu em Cardiff, filho único de um oficial da marinha mercante. Estudou Literatura Clássica e Teologia, e foi ordenado padre da Igreja Anglicana do Pais de Gales, tendo sido pároco, durante quatro décadas, em seis comunidades rurais, algumas particularmente isoladas ou inóspitas. Publicou umas trinta colectâneas, e vale a pena ir directamente aos "Collected Poems 1945-1990", volumoso bloco de poemas crus, austeros, sombrios, poemas de substantivos, cortados à faca. Thomas escreve sobre a geografia física e humana da Gales rural, a Gales, onde o Diabo perdeu as botas. Viveu em sítios de nomenclatura pedregosa como Eglwysfach, Gwynedd, Llanfaelrhys, numa natureza nada bucólica feita de rochas escalavradas, áridas colinas, resquícios arqueológicos. E aprendeu galês para tentar compreender os camponeses taciturnos e amargos daquela terra de missão. Não tardou que se indignasse com a dominação dos "saxões", e nos últimos anos chegou a aprovar a destruição à bomba de casas de férias que ingleses ricos mantinham num Pais de Gales esquálido. Thomas considerava os nacionalistas demasiado moderados, e os galeses em geral cúmplices do seu próprio genocídio cultural. Detestava Inglaterra porque detestava o dinheiro, o materialismo; mas não aceitava genericamente os confortos do mundo moderno, e a sua hostilidade à tecnologia, à "máquina", estendia-se até aos electrodomésticos, ao ponto de não suportar aspiradores e frigoríficos, facto que espantou e assustou muitos paroquianos, que nem isso possuíam.
Muitíssimos dos grandes poemas de Thomas são sobre os camponeses de Gales, e há uma personagem recorrente, Iago Prytherch, símbolo daqueles homens um pouco primitivos, muito trabalhadores, tão severos como as montes e as vales. Homens que ele chegou a abominar, gente ignorante, afásica, selvagem, gelada, com as suas ovelhas, porcos e cavalos, com as mulheres suadas e filhas coradas, com as mãos e as roupa encardidas da jorna. Aos poucos, Thomas foi descobrindo que aqueles rurais tinham vidas grandes e sonhos pequenos, vidas que pareciam castigos, com doenças, pobreza e trabalhos árduos, e sonhos de coisa nenhuma, só coragem que se torna desespero e desespero que agrava a sofrimento. Eram homens decentes, orgulhosos, estóicos, que viviam a sua noite escura com enorme dignidade. Talvez eles estivessem imunes às consolações hipotéticas da religião, e um poema imagina doze discípulos contemporâneos que são galeses de ânimo quebrada: "O primeiro levantou-se e deu testemunho Cristo: / Fui feito à imagem do homem; e ele desfez-me. // O segundo levantou-se: Ele apareceu-me / na igreja numa janela suja. / E eu vi através dele. // O terceiro: Doente de amor, fui ter/ com ele com a minha enfermidade, e não me curei. // O quarto levantou-se e tinha entre as coxas / uma Espada. 'Ele não veio trazer a paz', disse. (...)".
Herdeiro da metafísica sofisticada de Herbert, do naturalismo meditativo de Wordsworth, do pessimismo intransigente de Hardy, R. S. Thomas era um asceta quase calvinista. Levava uma vida minimal, tão descarnada como o seu corpo alto, magro e ossudo e a seu rosto agreste mas distinto. Pastor de comunidades sofridas, percebia que os camponeses fossem como que naturalmente agnósticos, próximos que estavam da fúria dos elementos e do escândalo da miséria. Por isso, uma e outra vez, os poemas aparecem depois de um serviço religioso, numa igreja vazia, com o sacerdote ajoelhado, interrogando um Deus ausente, furtivo, mudo.
Thomas escrevia a partir de uma interioridade negra, que é ainda crente porque ainda está à espera, ainda dá à espera o benefício da dúvida. Durante o mês de Dezembro que agora acaba reencontrei poemas terríveis como este: "Tento tantas vezes / analisar a natureza / dos seus silêncios. É aqui que Deus se esconde / de mim que o procuro? Parei para ouvir, / depois de umas escassas pessoas terem saído, / o ar que se recompunha / para a vigília. Esperou assim / desde que as pedras se agruparam à sua volta. / Estas são as costelas duras / de um corpo que as nossas orações não conseguiram / reanimar. As sombras avançam / dos recantos para se apoderarem / dos lugares que a luz conservou / durante uma hora. Os morcegos / voltam a andar par aqui. O desconforto nos bancos corridos / termina. Não há outro som / no escuro senão o som de um homem que / respira, que testa a sua fé / no vazio, pregando as suas perguntas uma por uma / numa cruz abandonada".