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quinta-feira, 23 de março de 2017

A encíclica preferida


Peter Seewald: Tem uma encíclica preferida? [de entre as que publicou] De qual é que gosta mais?

Bento XVI: Sim, talvez da primeira, Deus Caritas Est.

in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, p.237


sábado, 18 de março de 2017

Uma renúncia explicada


Sobre a renúncia de Bento XVI, a explicação do próprio não eliminará as desconfianças de muitos, nem, evidentemente, poderia (poderá) esgotar a leitura (plural) do seu significado. No entanto, sobre este ponto, o Papa Emérito, no livro de entrevistas com Peter Seewald, Conversas Finais, é bem claro, ao afirmar que não foi empurrado, nem pressionado para sair - e, caso tal tivesse sucedido, então é que permaneceria, mesmo, no cargo. Nem, tão pouco, em algum momento, causaria um escândalo para provocar uma limpeza na Igreja (p.50). Pareceu-lhe que o que tinha a dar, estava dado (à Igreja), o cansaço das viagens ao México e Cuba tremendos, o horizonte das Jornadas Mundiais da Juventude, no Brasil, demasiado penoso - o médico proibira-lhe viagens para a América. Só porque tudo estava pacificado, aduz, pôde tomar a decisão, comunicada em latim (p.44), porque uma decisão tão relevante teria que ter tal solenidade. A ideia de que já não consegue cumprir as funções inerentes ao Pontificado pode cair em âmbito de uma interpretação excessivamente "funcionalista", da sua parte, do Papado, mas há limites que lhe pareceram, mesmo, inultrapassáveis. O exemplo de João Paulo II estava contextualizado num Pontificado longo, num século em que o seu antecessor tinha carregado "o mundo aos ombros" e aquele martírio se incluía em tal lógica; a um pontificado de 8 anos, não poderia juntar-se 8 anos no mesmo estádio de doença (que se vira a J.Paulo II). E, na verdade, "não podíamos repetir a experiência [de J.Paulo II] indefinidamente" (p.48). Em todo o caso, o entrevistador não deixa de questionar, comentando o significado de um gesto: "Não foi certamente por acaso que a sua última grande celebração litúrgica coincidiu com a Quarta-feira de Cinzas. Foi como se dissesse: «vejam, era até aqui que eu vos queria conduzir: purificação, jejum, arrependimento"(p.61). Ao que Bento XVI responde, não contraditando propriamente in limine, no fim da resposta: "Ter, por um lado, o Sábado Santo a prevalecer sobre o início da minha vida e, por outro, a Quarta-feira de Cinzas, com os seus múltiplos significados, a recair sobre o fim do meu serviço concreto foi algo pensado, mas também aconteceu assim" (p.61). Rejeitando a ideia de que com a sua decisão tenha secularizado ("um cargo como os outros") o Papado (até porque, exemplifica, também os Bispos não ficam no lugar até ao fim, o que não os dispensa de particulares responsabilidades e cuidado para com a ecclesia), Bento XVI reconhece, contudo, que com a sua renúncia "o carácter humano [do Papado] se tenha tornado mais evidente"(p.54). Talvez o choque tenha sido superior ao que o próprio pensava, houve quem gostando da sua mensagem se sentisse em luto pela perda de um mestre, mas não dormiu especialmente mal na noite anterior de revelar a sua decisão, tomada em Agosto de 2012, aos cardeais e ao mundo. Peter Seewald que fez um conjunto de livros-entrevista com Joseph Ratzinger, e ganhou a sua consideração, não tem dúvidas na nota que deixa na Introdução: "por fim, mas não menos importante, o acto histórico da sua renúncia transformou profundamente o ministério petrino. Devolveu-lhe a dimensão espiritual que lhe tinha sido originalmente confiada" (p.22)

O prazer da contestação


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Sim, ele está cá, o prazer da contestação, é verdade.

[Bento XVI, questionado por Peter Seewald, sobre a rebeldia como uma das características de personalidade - em episódios desde a escola, até ao treino militar - em si presentes, em Bento XVI.Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, p.79]