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sábado, 25 de março de 2017

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Vida prática


Peter Sloterdijk não percebe como em um livro destinado a procurar compreender a condição humana (H.Arendt), a vida prática não recolhe o assento merecido pela consideração que sempre obteve no ethos das civilizações: "práticas de treino (...) sob diversos nomes - formação contínua, treino, fitness, desporto, dietética, modelização corporal, terapia, meditação". O aspecto praticante da existência humana lembra que tudo o que o humano faz pode fazê-lo bem, ou menos bem, melhor ou pior. Os primeiros monges cristãos auto-designavam-se atletas de Cristo (Morte Aparente no pensamento, pp.17-18).

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Londres 2011, o Leviatã e o homem livre

Rosto do Leviatã


Maria Filomena Mónica escreveu, no Expresso, que os motins deste Verão, em Inglaterra, lhe fizeram lembrar o filme"Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick. A mim também, mas não exactamente pelos mesmos motivos desta autora. No mais fundo do terraço londrino, talvez tenhamos que escavar até ao Leviatã hobbesiano.É que o núcleo mais denso do olhar de Kubrick, nesta obra, centrou-se num pessimismo antropológico (tal) que implicaria reconhecer o "sem sentido" de qualquer educação -  "esta terapia [Ludovico, aplicada a Alex, em Laranja Mecânica] é um tratamento que tende (behaviouristicamente) a condicionar o comportamento do indivíduo suscitando-lhe reacções pavlovianas de auto-censura em todas as situações em que possa vir a ter atitudes de violência (ou de agressão sexual). Uma autêntica 'lobotomia dos instintos' por meio do controlo repressivo dos mecanismos psíquicos. O pessimismo racionalista kubrickiano é aqui levado ao máximo, como dúvida sobre o sentido de qualquer tipo de educação, uma vez que a indução de reacções de rejeição ou de aceitação face a situações ou manifestações reais é o princípio a que está ligada qualquer teoria da educação (de Platão a Aristóteles que falam de 'habituar o indivíduo a experimentar prazer nas coisas boas', até Rosseau e toda a pedagogia moderna). A terapia consiste em projectar ao indivíduo, até à náusea, películas sobre actos de violência sexual e outras, sobre os massacres nazis, e em suma sobre todo o tipo de atrocidade. Mas a náusea não resulta da acumulação das projecções, da repetição incessante da imagem da violência (...) Alex fica surpreendido ao perceber que, enquanto são projectadas as imagens 'cine-arrepio' que costumavam deliciá-lo, se sente mal fisicamente: e justamente admira-se porque o seu mal-estar não é provocado pelas imagens, mas por uma substância química (que lhe causa sensações de vómito, espasmos, dores de cabeça) que lhe é injectada antes de cada sessão cinematográfica. Não é a obsessão que gera rejeição 'moral' do mal-violência, mas é o corpo que é treinado, de modo completamente artificial, para ligar a visão do mal ao mal-estar físico, como acontecia com os cães de Pavlov ao acender-se a luzinha com a chegada da comida (1). E, ao voltarmos a esta cinematografia, não podemos deixar de evocar "Regras para o Parque Humano", de Peter Sloterdijk, onde as certezas sobre o humano, sua essência - uma "essência", qualquer que seja - são colocadas de parte, num tempo em que - o pós-1945 - o humanismo e o seu axioma - "ler amansa" - teriam sido destruídos, tanto mais que, e num tempo ainda mais próximo do nosso, os "desinibidores" - a (pior) televisão ou a (pior) internet, por exemplo - há muito haviam colocado sobre a mesa a necessidade de "antropotécnicas", criando - e não colocando mais a criação nas mãos de ninguém - um novo homem. Com todo o pragmatismo. A injecção a Alex parece situar-se no interior desse postulado. E, no entanto, sabemos da reflexão de Burgess que, assim, se pretende sobre o livre-arbítrio; logo, paradoxalmente, sobre a inevitabilidade da pergunta sobre o humano (e sua essência). Para os que acreditam, como o autor destas linhas, no homem livre, pelo menos tão livre quanto possível, a escolha dos "mass media" com que educar é, ainda, relevante. Porque como recorda Steiner, se a cultura não nos salva - nomeadamente, de fazer o mal - não há alternativa a ela, sob pena de ficarmos "comme brutti" (Dante). Mesmo sabendo que liberdade é, também, liberdade para o mal.

(1) Enrico Ghezzi, Kubrick, Cinemateca Portuguesa - museu do cinema, 2003.