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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Rousseau e o problema do mal


Apesar de a «profissão» argumentar contra as formas tradicionais de autoridade religiosa, defendeu claramente a fé tradicional na Providência. O motivo de Rousseau para a afirmação dessa fé foi claro: deve haver recompensa e castigo noutro mundo, ou as desgraças neste haviam de ser demasiadas para poderem ser suportáveis.(...) É justo dizer que Rousseau foi o primeiro a tratar o mal como um problema filosófico - e a propor a primeira coisa que se aproximou de uma solução. 
Antes de Rousseau, os pensadores  eram obrigados a tomar uma de duas posições. Declarar que este mundo é o melhor é considerar todos os males como fundamentalmente aparentes: qualquer coisa que consideremos um mal é de facto uma parte necessária de uma obra maior. Leibniz pensou que um dia acabaríamos por percebê-lo, mas Pope achou que não. Concordaram, no entanto, em que há uma ordem na qual tudo o que se parece com o mal leva ao bem de forma mais generalizada. Daqui resulta que nenhum mal particular é genuíno. (...) Esta era a chamada «doutrina do optimismo», e muitos pensavam que deu uma má reputação aos optimistas. (...) Foi o que expressou Rousseau (...): Negar a existência do mal é a maneira mais conveniente de desculpar o autor desse mal; os estóicos, antigamente, expuseram-se ao ridículo por menos. (...) Rousseau também observou que estas doutrinas levavam ao quietismo. (...) Na realidade, qualquer acção podia ser considerada ímpia. (...) Aqueles que admitiram que os males são genuínos descobriram que eles desafiam literalmente qualquer explicação. Não só todos os recursos do raciocínio falham ao explicá-los, mas além disso a persistência do mal faz-nos duvidar das capacidades do próprio raciocínio. (...) Antes de Rousseau, em suma, havia apenas duas opções: ou o mal não é um problema, ou não há qualquer resposta a dar-lhe.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005, pp.57-58.

*Para Rousseau, são os humanos que causam o mal, mas um mal societário, um mal que pode ser resolvido. Se atentarmos historicamente, veremos como o mal foi surgindo e como é possível procurar resolvê-lo (colectivamente). Sim, há uma consequência (um mal natural no reino político e social) de um mal moral (humano).  

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Certezas


Lamentar a perda absoluta de referências para julgar o certo e o errado devia ser supérfluo um século depois de Nietzsche, mas parece haver sempre alguém a fazê-lo, todos os dias. Quase toda a gente que alguma vez tenha ensinado cursos de humanidades terá conhecido estudantes que descobriram que palavras como «bom» e «mau» estão desactualizadas, pois são usadas por diversas culturas de maneira diferente. O que pode ter ficado por dizer é que, embora hoje poucos proclamem certezas sobre princípios éticos gerais, a maioria está quase certa sobre paradigmas éticos particulares. A perda de certezas absolutas sobre os alicerces gerais dos valores não afectou as certezas sobre os exemplos particulares; talvez tenha acontecido o contrário. Há três séculos, quando esses alicerces eram tidos como mais sólidos, a tortura e a morte públicas eram largamente aceites. Hoje são universalmente condenadas, apesar das diferenças de princípios. (...) Pode não haver um princípio geral que prove que a tortura e o genocídio são condenáveis, mas isso não nos impede de os considerarmos casos paradigmáticos de mal. (...) Assim, agrupei os pensadores segundo as perspectivas que defendem sobre a natureza das aparências: haverá outra ordem melhor, mais verdadeira, que aquela que experimentamos, ou tudo o que existe são os factos com que os nossos sentidos se confrontam? Está a realidade esgotada naquilo que existe, ou sobra algum espaço para tudo o que poderia ser? Dividir os filósofos de acordo com as suas posições sobre uma grande questão é fazer uma divisão grosseira, e produz estranhas alianças. Entre os filósofos que insistiram em encontrar uma ordem para além da ordem miserável fornecida pela experiência incluo Leibniz, Pope, Rousseau, Kant, Hegel e Marx. Entre aqueles que negaram a realidade de tudo o que fosse além das cruas aparências, identifico Bayle, Voltaire, Hume, Sade e Schopenhauer. Nietzsche e Freud não podem encaixar-se em nenhuma destas divisões.

Susan Neiman, O mal no pensamento moderno..., Gradiva, 2005, pp.23-26.